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Caxambu - Minas Gerais

Artigo: Caxambu

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Caxambu

Lucia d’Abreu Gomes Leite

Deixo para trás a cidade grande. Entramos pela estrada, que dá voltas, muitas voltas. Árvores, verdes, flores casas do campo. O tempo vai mudando, transformando. Dou voltas, muitas voltas! Fico pensando! O passado vai retornando. Criança vou ficando, feliz alegre, contente.

Chego a Caxambu. Rodoviária com ares de estação de trem. Carruagem me esperando. Vou contente no trole do cavalo que me leva para o Bragança. Que surpresa! Hotel antigo 95 anos. Linhas curvas, muitas curvas. Salão de refeição amplo, cristaleira, lustre, relógio antigo na parede, garçons atenciosos.

Sr. Olímpio sempre querendo que eu comesse mais um filezinho. Passado uns dias, diz que estou de bem com a vida. Que bom ser servida por um filósofo. Coisas das Minas Gerais. Comida farta e gostosa. Como com gula e prazer. Pratos mineiros, lá vem o tutu, o lombinho, a couve, o feijão tropeiro, o frango a molho pardo, tudo feito no fogão de lenha. Doces, doces, muitos doces. O doce perguntou ao doce qual é o doce mais doce e o doce respondeu ao doce que o doce mais doce é o doce de batata doce, doce de leite, de abóbora, laranja da terra, figo, pêssego, tortas deliciosas. A de coco fez sucesso e fomos dar os parabéns ao cozinheiro.

O café é forte, quente e saboroso. Tem o chazinho digestivo e que emagrece. Tomo depois de um lauto almoço, do jantar e antes de dormir. Ponto de conversas e alegrias. Risos, risos, gargalhadas. Depois de uns três dias viro criança. Estou feliz, encantada com tudo.

O meu apartamento dá para o parque. Gosto de escutar debaixo da janela, o trote das charretes. Penteadeira antiga, cama com lençóis alvos e limpíssimos. Janela que volta ao passado longícuo e procuro ver através dela toda a beleza da minha infância em Minas.

Após o café farto e gostoso, saio para o parque e qual a surpresa quando descubro a beleza deslumbrante. Verdes, muito verde, flores, bancos, águas minerais nas inúmeras fontes. Dá a volta ao lago faço amizade com os gansos e patos que comem pedacinhos dos pães que levo na cesta.

Caminhando lentamente procuro guardar na retina tudo que eu vejo. O ar é puro e bom de sentir. Vou conversando com todos, um dedo de prosa aqui outro ali. Tomo sol. Sinto a brisa do ar leve e confortante. Entro no bosque atrás da piscina. Lugar preferido para meditar e orar a Deus e aos espíritos amigos, agradecendo por tudo que recebo. Árvores frondosas que se encontram no céu, verdes de vários matizes. Flores chamados beijinhos formam dois tapetes e por entre esse maravilhoso bosque vou caminhando, pisando lentamente na terra úmida. Borboletas de várias cores passam por mim. Estou em êxtase. Feliz não posso ser mais. É a suprema felicidade. O encontro com Deus na natureza é exuberante. A presença dele está em todos os lugares. Como é bom ser feliz e te-lo comigo!

A hora do almoço vai chegando. Caminho para um banco que elegi, embaixo dos plátanos. Converso com a natureza. Abraço a árvore antiga e frondosa. Na minha frente o coreto, plantas coloridas. O apito da fábrica toca!

Vou a missa que ofereço para Papai e Mamãe. Choro de emoção! Papai viveu os dois últimos anos na terra em Caxambu. Fui covarde e levei muitos anos para voltar porque estava brigada com essa cidade que achava ter levado meu pai embora. Mas qual, por espanto, encontrei Papai, encantado em Caxambu. Lá estavam ele e Mamãe comigo. Passeamos juntos por toda a cidade limpa e bem cuidada. Subimos ladeiras, ruas antigas. Admiramos as casas, a calma do povo simpático com sua hospitalidade mineira. Entramos nas padarias para ver os doces, os biscoitos e as brevidades.

Encontrei muitas pessoas que lembravam com carinho do meu querido Pai Ary Gomes Leite. A D. Lurdes Silva, carinhosa amiga. O Sr. Donato do hotel, sempre com uma boa palavra, foi seu amigo. O Sr. Toninho, dono do Bragança, lembrou dele. Conversamos bastante bem como a D. Diva que me disse que hóspede alegre assim é que é bom para o Hotel. A Lívia com sua alegria e simpatia me encantou. Tinha o Rubinho com seu pai, sua dedicada Mãe que me deram grande lição de vida. O Dr. Durval, com seus 94 anos, sempre lúcido e lépido com sua simpática filha Regina. D. Tamine tomou ares de Mãe e me deu bons conselhos e abraços maternos. Conhecí pessoas doces e simpáticas. Tudo tão confortante ao meu coração.

Gostei muito dos passeios de charrete que fiz de carona graças ao charreteiro Sr. Darci que dizia lá vem ela que é muito alegre e lá ia eu ao seu lado. Cumprimentava as pessoas, dava sorrisos e recebia sorrisos. É bom dar e receber alegrias. Fomos a fazenda Santa Helena. Conversei com um cavalo que estava preso na estrebaria. Tive pena e rezei por ele. Caminhei um bom pedaço atrás da charrete pois não queria perder nada. Não é sempre que posso ir a uma fazenda e ver as vaquinhas, os bois, os cavalos e toda aquela atmosfera de fazenda. Gostaria muito de passar uns dias numa fazenda antiga mineira.

A procissão quase me mata de emoção! Lá estava, no domingo, para acompanhar dedicada ao São José. Fiquei atrás da banda. O sino da matriz badalou e a banda começou a tocar forte. As lágrimas foram correndo, coração disparou. Parecia que ia junto aos acordes dos músicos. Fui chorando atrás dos óculos escuros. Logo avistei a igreja de Santa Isabel onde Papai foi velado, teve missa de corpo presente e de 7º dia.

O povo contrito, cantava, rezava, a música quase fúnebre. Fomos subindo pelas ladeiras. O chão coberto de flores e folhas. Nas janelas das casas toalhas imagens, velas e flores em homenagem ao Santo São José, carregado por vários homens no andar cheio de flores. Fomos subindo, subindo, deixando para trás a cidade. Vou apreciando tudo, as flores do caminho, as casas, o respeito do povo e principalmente a fé que remove montanhas, tudo toca profundamente o meu coração. Chegamos na igreja de São José debaixo de um foguetório, depois de caminharmos uma hora e meia. Entro na igreja e acompanho a ladainha.

Que bom estar com o meu querido povo. Rezar com eles. Depois vem o forró, a música, a canjica, o quentão. Volto tarde da noite para o hotel. Vou descendo, lentamente pela estrada escura, e avisto Caxambu iluminada. Quanta paz, quanta beleza, quanta alegria, quanta emoção. Os dias passam rápido. Chega o momento da volta. Conheço uma parenta da família de Papai a Nair Pereira em sua companhia. Papai nasceu em Lambari e partiu para o mundo espiritual em Caxambu. Meu avô era de Itajubá e vovó de Brasópolis. Minha infância foi em Belo Horizonte. Tudo muito bom e confortante.

Sr. Toninho, o simpático e prestativo dono do Hotel Bragança, me acompanha até a carruagem que me esperava para a rodoviária. Até breve! O sonho não acabou! Eu volto assim que chegar primavera!

Estas palavras foram escritas em homenagem ao meu muito querido Pai Ary Gomes Leite e ao lado mineiro que possuo e que vive dentro do coração.

Lucia d’Abreu Gomes Leite

Rio, março, 1993

 

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