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27/01/2010 14:15

Como se constrói um maestro no 32° Curso Internacional de Verão de Brasília

O britânico é professor do 32° Curso Internacional de Verão. Já regeu trilhas sonoras para filmes de Hollywood e jogos de computador e, até o dia 31 deste mês, ensina jovens adultos da Escola de Música de Brasília a conduzir uma orquestra sinfônica

BRASÍLIA [ ABN NEWS ] - O britânico Kirk Trevor é considerado um dos mais proeminentes pedagogos na área de regência de orquestras da atualidade. Já participou de trilhas sonoras para filmes de Hollywood, como “Lições para toda Vida” (Secondhand Lions/2003) com Michael Cane e Robert Duvall, e “Agatha Christie: Poirot” (1989). Esteve à frente da regência musical de uma variedade de jogos para computador, com destaque para “Diablo I, II e III” e “Warlords”.

Parte dessa experiência, conquistada ao longo dos 50 anos de carreira, é transmitida aos 18 alunos matriculados no curso de Regência Orquestral na 32ª edição do Curso Internacional de Verão, da Escola de Música de Brasília, evento realizado com recursos exclusivos da Secretaria de Estado de Educação do Governo do Distrito Federal.

Graduado pela Guildhall School of Music de Londres, Kirk Trevor entusiasma qualquer pessoa que troca algumas palavras com ele. Principalmente, porque é a completa tradução da essência da regência musical, uma verdadeira autoridade na formação e no aprimoramento profissional de jovens maestros no Brasil e no Exterior.

Kirk Trevor conquista o público com sua simpatia. ”O maestro que não sorri para o público, não é bom, pois não trata a sua platéia como deveria”, revela. Ele aponta como exemplo o jovem maestro venezuelano Gustavo Dudamel, atualmente na regência da Youth Orchestra Los Angeles (YOLA), como um dos mais carismáticos do cenário musical.

Para Kirk, um bom maestro tem que reunir qualidades primordiais, como falar pouco e expressar sua técnica e sensibilidade musical por meio da expressão facial e de suas mãos. “Estas são os nossos instrumentos de trabalho. Uma pessoa cega, por exemplo, pode conduzir uma orquestra, aprendendo as técnicas em braile, mas uma pessoa sem as suas mãos, infelizmente, não. Além disso, é preciso saber conduzir com a cabeça e o coração”, ilustra.

Outra característica que o maestro destaca como essencial para a construção de um regente é a perspicácia em saber conduzir. “Uma orquestra não é democrática, na qual qualquer pessoa toma decisões por si só. Ela precisa de alguém, no caso o maestro, para conduzir o seu trabalho. Apesar de uma Orquestra de Câmara atuar sem a presença de um regente, sempre haverá um músico ou alguém que tomará a frente e decidirá pelo grupo”, reforça.

Kirk destaca ainda que é preciso ser multifuncional, ou seja, saber desenvolver técnicas de controle de respiração (como os atores fazem), ter conhecimentos sobre relações públicas, publicidade e marketing pessoal; ser político e, acima de tudo, ter diplomacia para lidar com o seu público e os músicos. “Nos ensaios, ele tem que usar roupas com cores brilhantes, que combinem com o seu tom de pele, para atrair a atenção dos instrumentistas. Em 1950, nos Estados Unidos, isso não ocorria; era obrigatório que os maestros utilizassem casaca preta mesmo nos ensaios. Com o passar dos anos, isso mudou e, hoje, a vestimenta só é utilizada nos concertos”, ensina.

Nas palavras de Kirk, o maestro é acima de tudo um atleta. A condução de uma orquestra exige um esforço físico extraordinário, pois trabalha com os músculos dos ombros e dos braços. Segundo ele, “se pegássemos a quantidade de movimentos que você realiza apenas com a mão direita ao conduzir um concerto inteiro e formássemos uma linha reta, esta equivaleria à distância de oito quilômetros. Não é a toa que os maestros têm ombros largos, devido ao uso dos músculos dessa região do corpo”.

A analogia com o esporte é utilizada também para explicar os dois principais processos utilizados na condução de uma orquestra: ação e reação. “É como ocorre no golfe. O seu objetivo é jogar a bola no buraco que está a certa distância de você. Por algum motivo ou um movimento errado, ela segue para outro lado ou pára em um obstáculo natural, como embaixo de uma árvore. Ou seja, a bola reage de uma maneira diferente da que você gostaria. Sua meta, agora, será consertar o que foi feito de errado para que se atinja o alvo principal: o buraco. Com o movimento correto, você conseguirá cumpri-lo”, exemplifica Kirk.

Na música, ocorre o mesmo. Da ação do primeiro gesto do maestro em baixar a mão direita com a vareta, produz-se uma reação dos músicos, que começam a tocar os seus instrumentos. O maestro, por sua vez, reage ao som emitido, dando continuidade à condução e/ou consertando os erros que possa ter cometido no último movimento feito com as mãos. “Neste caso, o maestro tem que ser muito rápido, para reagir em 1 milionésimo de segundo e ajustar a orquestra. Essa percepção você não consegue aprender em dois anos de curso de regência, mas com anos de experiência”, garante Trevor.

Ao longo de sua carreira, o maestro chegou à conclusão de que não existe uma orquestra igual a outra. Todas possuem diferenças entre si, por conta das tradições culturais e da disciplina que adotam, principalmente durante os ensaios. No Brasil, é costume que os músicos deixem “tudo para amanhã”, conforme observou. No Japão, os músicos permanecem calados durante todo o ensaio, em sinal de respeito.

Já em Israel, “os ensaios são anárquicos; todos os músicos falam ao mesmo tempo e defendem a sua opinião até o último segundo. É preciso pedir em alto e bom som para que façam silêncio e, assim, percebam a sua presença à frente do palco”. O mesmo ocorre nas orquestras da Romênia, onde “acontecem brigas durante os ensaios, já que os músicos discordam o tempo todo uns dos outros”.

Por fim, na Itália, “você sente que os músicos estão incomodados; que não queriam estar ali, naquela hora, fazendo o que deveriam estar fazendo, que é tocar. Eles preferem estar em um café ou num bar, tomando um bom vinho e conversando. E o mais interessante é que, no inverno, eles tentam tocar com luvas para se proteger do frio, e isso nem sempre dá certo”, ri Trevor.

A atenção e o respeito de orquestras tão singulares devem ser conquistados com sabedoria e jogo de cintura. “Eu sou um dos maestros mais flexíveis, pacientes e gentis do mundo. Mas, meus estudantes sabem que eu espero o melhor deles, assim como eles também exigem o melhor de mim. Acredito que não seja necessário gritar com os seus colegas ou ser tirânico para se impor”, revela a receita do sucesso.

Ele destaca que é preciso ser bastante maleável e dar tratamentos distintos para estudantes de faixas etárias diferentes. Acostumado a dar aulas para crianças a partir dos oito anos de idade, Trevor garante ser mais compreensivo e paciente com o público infantil, mas sua principal missão é inspirá-los. “O medo é o grande inimigo de um músico, porque o leva a tocar mal e a cometer cada vez mais erros. Não que errar seja ruim, pelo contrário. Não existe uma orquestra ou um músico perfeito. A fórmula certa é tentar tocar bem dia após dia, sem medos”, aposta.

Essa é a proposta de ensino que tem utilizado no curso de Regência Orquestral do 32° Curso Internacional de Verão da Escola de Música de Brasília. O professor busca aperfeiçoar os conhecimentos práticos e teóricos dos alunos, aguçando sua curiosidade e a criatividade.

Para tanto, o primeiro passo é desenvolver o conhecimento, permitindo que os alunos absorvam uma gama de informações que serão úteis ao longo de sua carreira. Em seguida, identificar os talentos no grupo e oferecer condições e subsídios para que possam aprimorar tal conhecimento. É o caso de incentivá-los a tocar algum instrumento musical, apesar de não ser pré-requisito, assim como fez Kirk Trevor, que é pianista e violoncelista.

O regente paulista, Eduardo Strausser, 24 anos, é um dos fiéis seguidores do maestro e simpatizante dessa metodologia. Ele veio à Brasília especialmente para participar do Curso Internacional de Verão. Atualmente, mora em Zurique, na Suíça, onde estuda na Academia de Música Musihochshule. “Diferente dos músicos que podem ensaiar com seus instrumentos quando querem, o maestro não tem uma orquestra disponível a qualquer momento para praticar. E essas aulas me dão a oportunidade de fazer isso, sob a orientação de um dos melhores maestros que existem atualmente”, resume Eduardo.

 
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