Theresa
Catharina Brasília DF
Cinema como lição de vida
Theresa Catharina
de Góes Campos <theca@abn.com.br>, articulista da ABN, é jornalista, escritora e professora
universitária
O filme "Se todos os Homens do
Mundo" constitui um exemplo de película de mentalidade humanista, com um tema que
representa, por si mesmo, uma unidade didática, estimulante e inspiradora para a
juventude. Adoecem os tripulantes de um pequeno barco pesqueiro. Somente um soro obtido no
Instituto Pasteur poderia salvá-los. Através de um circuito de radioamadores,
mobilizam-se algumas pessoas que, aos poucos, vão ampliando o âmbito de ação. Apenas
um dos tripulantes, o único que não provara o alimento envenenado, continua de pé. Era
justamente o elemento desprezado pelos demais e que, afinal, se atira nas águas geladas
do Mar do Norte para
recolher a vacina...
A simplicidade, o realismo e o suspense imprimem intensidade dramática ao filme, ao mesmo
tempo que por ele perpassa um grande sopro de solidariedade humana.Indivíduos de
diferentes nacionalidades, importantes companhias de aviação, um jovem radioamador de
Paris, um cego de guerra em Berlim, civis e militares, homens e mulheres, todos se
movimentam a fim de salvar um punhado de vidas humanas - e o conseguem, após denodados
esforços. Efeitos especiais dão-lhe um tom de documentário elaborado, repleto de
indícios sugestivos, realçados por uma simbologia eficaz. Quantas lições para os
adolescentes, que despertam para os problemas mundiais! "Se Todos os Homens do
Mundo" focaliza o heroísmo anônimo, apagado, demonstrando o que poderia ser o
panorama mundial, se houvesse um pouco mais de boa vontade entre os homens.
Na fita "A Bela Americana", comédia de situação, o tom incide sobre a
solidariedade dos personagens, expressa no espaço limitado onde todos vivem, no recanto
de um bairro. Trata-se de uma comédia de mensagem filosófica... Dentro da metrópole
desumana, um grupo convive e compartilha das vicissitudes diárias, assumindo alegremente
os problemas próprios e alheios, em ritmo inalterado até que...
O "forasteiro", que vem alterar a paisagem, mobiliza atenções e suscita
conflitos, é um espetacular carro de luxo - "a bela americana", que o herói
compra por um preço irrisório. Toda a vida do modesto operário se convulsiona. Tudo à
sua volta se modifica. Onde alojar o luxuoso carro?
O que fazer daquele veículo que chama a atenção de todos, por onde passa e leva seu
dono à recepção oferecida por uma embaixada, enquanto o guarda de trânsito solícito,
pensando tratar-se de algum embaixador, apita e lhe abre caminho?
O filme constitui um retalho do cotidiano, convulsionado pela presença do elemento
estranho, afinal dominado pelo bom senso - o belo, luxuoso e inútil "cadilac"
foi transformado em carroça de sorvete e faz grande sucesso no Hipódromo. De instrumento
de luxo e de ociosidade, o belo conversível transforma-se em instrumento de trabalho. É
a prosperidade firmada na realidade e no esforço cotidiano. A lição parece ser esta: o
que beneficia o homem não é o que lhe chega às mãos sem esforço, mas o que ele faz
com suas próprias mãos, valendo-se de sua imaginação e inteligência.
A mensagem de "A Ponte do Rio Kwai" está centralizada na palavra
"loucura", dita no final, pelo médico... Todas as guerras são cruéis,
desumanas e absurdas - hipnotizam os homens, suscitam baixos instintos e grandes
represálias... Demonstram quão atrasada se acha ainda a humanidade, quão primitivo é o
homem, quão longe está dos princípios cristãos e humanitários, por mais que alguns se
esforcem por implantá-los e amenizar as condições imposas pela guerra. E o médico do
filme murmura, inutilmente, sobre o verdadeiro sentido da guerra: "Loucura,
loucura!"
Outro filme que se presta bastante a debates com adolescentes - "O Melhor dos
Inimigos" - temos nesta sátira um pelotão italiano durante a guerra da Abissínia,
defrontando-se com alguns soldados ingleses, seus inimigos. A sorte dos prisioneiros e dos
vencedores alterna-se por diversas vezes neste curioso filme sobre a antibravura... O
circunspecto comandante inglês, sempre digno apesar de maltrapilho, conferencia com o
desgostoso capitão italiano sobre as suas mútuas vicissitudes. No fundo se estimam e
não se consideram inimigos...
No episódio do lago e da floresta incendiada, refugiando-se os dois pelotões na pequena
ilha do centro do lago, confraternizam. Mais adiante, organizam um acampamento e jogam
futebol.. Após muitas peripécias, alcançam a estrada e um comboio militar os recolhe.
Há diálogos. Ninguém se odeia, todos precisam viver e regressar a seus lares, às suas
famílias! Antes de se separarem, trocam cortesias militares. Afinal, por que lutamos uns
contra os outros?!
Esta hilariante sátira sobre a guerra e sua estupidez perde muito em ser descrita. Seu
humanismo subjacente, a sóbria comicidade das situações e dos diálogos deixam no
espírito do espectador a lembrança do que poderiam ser as relações humanas, se
houvesse no mundo um pouco menos de vaidade e ambição; e um pouco mais de bom senso e
compreensão.




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