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 theca.jpg (6762 bytes)   Theresa Catharina      Brasília DF

 

Cinema como lição de vida

Theresa Catharina de Góes Campos <theca@abn.com.br>, articulista da ABN, é jornalista, escritora e professora universitária

O filme "Se todos os Homens do Mundo" constitui um exemplo de película de mentalidade humanista, com um tema que representa, por si mesmo, uma unidade didática, estimulante e inspiradora para a juventude. Adoecem os tripulantes de um pequeno barco pesqueiro. Somente um soro obtido no Instituto Pasteur poderia salvá-los. Através de um circuito de radioamadores, mobilizam-se algumas pessoas que, aos poucos, vão ampliando o âmbito de ação. Apenas um dos tripulantes, o único que não provara o alimento envenenado, continua de pé. Era justamente o elemento desprezado pelos demais e que, afinal, se atira nas águas geladas do Mar do Norte para
recolher a vacina...

A simplicidade, o realismo e o suspense imprimem intensidade dramática ao filme, ao mesmo tempo que por ele perpassa um grande sopro de solidariedade humana.Indivíduos de diferentes nacionalidades, importantes companhias de aviação, um jovem radioamador de Paris, um cego de guerra em Berlim, civis e militares, homens e mulheres, todos se movimentam a fim de salvar um punhado de vidas humanas - e o conseguem, após denodados esforços. Efeitos especiais dão-lhe um tom de documentário elaborado, repleto de indícios sugestivos, realçados por uma simbologia eficaz. Quantas lições para os adolescentes, que despertam para os problemas mundiais! "Se Todos os Homens do Mundo" focaliza o heroísmo anônimo, apagado, demonstrando o que poderia ser o panorama mundial, se houvesse um pouco mais de boa vontade entre os homens.

Na fita "A Bela Americana", comédia de situação, o tom incide sobre a solidariedade dos personagens, expressa no espaço limitado onde todos vivem, no recanto de um bairro. Trata-se de uma comédia de mensagem filosófica... Dentro da metrópole desumana, um grupo convive e compartilha das vicissitudes diárias, assumindo alegremente os problemas próprios e alheios, em ritmo inalterado até que...

O "forasteiro", que vem alterar a paisagem, mobiliza atenções e suscita conflitos, é um espetacular carro de luxo - "a bela americana", que o herói compra por um preço irrisório. Toda a vida do modesto operário se convulsiona. Tudo à sua volta se modifica. Onde alojar o luxuoso carro?
O que fazer daquele veículo que chama a atenção de todos, por onde passa e leva seu dono à recepção oferecida por uma embaixada, enquanto o guarda de trânsito solícito, pensando tratar-se de algum embaixador, apita e lhe abre caminho?

O filme constitui um retalho do cotidiano, convulsionado pela presença do elemento estranho, afinal dominado pelo bom senso - o belo, luxuoso e inútil "cadilac" foi transformado em carroça de sorvete e faz grande sucesso no Hipódromo. De instrumento de luxo e de ociosidade, o belo conversível transforma-se em instrumento de trabalho. É a prosperidade firmada na realidade e no esforço cotidiano. A lição parece ser esta: o que beneficia o homem não é o que lhe chega às mãos sem esforço, mas o que ele faz com suas próprias mãos, valendo-se de sua imaginação e inteligência.

A mensagem de "A Ponte do Rio Kwai" está centralizada na palavra "loucura", dita no final, pelo médico... Todas as guerras são cruéis, desumanas e absurdas - hipnotizam os homens, suscitam baixos instintos e grandes represálias... Demonstram quão atrasada se acha ainda a humanidade, quão primitivo é o homem, quão longe está dos princípios cristãos e humanitários, por mais que alguns se esforcem por implantá-los e amenizar as condições imposas pela guerra. E o médico do filme murmura, inutilmente, sobre o verdadeiro sentido da guerra: "Loucura, loucura!"

Outro filme que se presta bastante a debates com adolescentes - "O Melhor dos Inimigos" - temos nesta sátira um pelotão italiano durante a guerra da Abissínia, defrontando-se com alguns soldados ingleses, seus inimigos. A sorte dos prisioneiros e dos vencedores alterna-se por diversas vezes neste curioso filme sobre a antibravura... O circunspecto comandante inglês, sempre digno apesar de maltrapilho, conferencia com o desgostoso capitão italiano sobre as suas mútuas vicissitudes. No fundo se estimam e não se consideram inimigos...

No episódio do lago e da floresta incendiada, refugiando-se os dois pelotões na pequena ilha do centro do lago, confraternizam. Mais adiante, organizam um acampamento e jogam futebol.. Após muitas peripécias, alcançam a estrada e um comboio militar os recolhe. Há diálogos. Ninguém se odeia, todos precisam viver e regressar a seus lares, às suas famílias! Antes de se separarem, trocam cortesias militares. Afinal, por que lutamos uns contra os outros?!

Esta hilariante sátira sobre a guerra e sua estupidez perde muito em ser descrita. Seu humanismo subjacente, a sóbria comicidade das situações e dos diálogos deixam no espírito do espectador a lembrança do que poderiam ser as relações humanas, se houvesse no mundo um pouco menos de vaidade e ambição; e um pouco mais de bom senso e compreensão.

 

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