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31/07/02 às 03h28:
Boa Noite e
Boa Sorte
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária
Usando estilo narrativo e formato documental, o filme atualíssimo,
embora não-comercial,"Boa noite e boa sorte" registra, com elevado
senso de responsabilidade, um momento histórico que merece ser
estudado, em todas as suas implicações, no contexto de sua época e
nos dias de hoje, por abordar as ameaças aos princípios de liberdade
pessoal, quanto ao direito de pensar e ter idéias próprias (mesmo
divergentes da maioria ou de grupos agressivos), fundamentos
filosóficos, democráticos e universais, que devem nortear uma
civilização.
"Um filme espantoso, do começo ao fim." (New York Observer)
No cartaz de divulgação, lê-se uma frase audaciosa:
"Existe uma maneira de mudar o mundo...Televisão."
www.goodnightandgoodluck.com
No Festival de Veneza 2005, George Clooney e Grant Heslov (co-
roteiristas) foram agraciados com o prêmio de Melhor Roteiro.
No mesmo Festival, "Boa noite e boa sorte" conquistou o Fipresci
Prize - Prêmio Internacional de Crítica.
"Melhor filme do ano." (Daily News - San Francisco - The Examiner -
US Today)
" Uma composição apaixonada." Com verdade e
responsabilidade...assista..." (The New York Times)
"Excelente" (Chicago Sun Times)
Quero também registrar aqui, com entusiasmo, a minha recomendação e
opinião sobre "Boa noite e boa sorte"-(Good night,and good luck-EUA,
2005 -p/b-de George Clooney-90 min.), filme de abertura do 43º
Festival de Cinema de Nova York, baseado em fatos reais.
Diretor cinematográfico pela segunda vez, Clooney volta igualmente
aos bastidores da televisão. Filho do jornalista Nick Clooney -que
escreve para o The Cincinnati Post -conseguiu realizar, com
"Boa noite e boa sorte" , um admirável registro histórico do
jornalismo. Com preocupações éticas, num clima de tensão e suspense
desde as primeiras cenas até os momentos finais.
Contudo, seu olhar é profundo, abrangente, muito além dos arquivos e
das aparências, examinando sem medo , nem pudor, a década de 50 nos
EUA, marcada pelos confrontos onipresentes do senador Joseph
McCarthy, ameaçando e desafiando a liberdade de expressão e o papel
informativo e formador da mídia.
Seu filme, esclarecedor, pronuncia-se como um libelo dramático em
favor das instituições democráticas.
Como prever o que poderia acontecer com a própria vida dos
personagens , depois de noticiarem o drama de outros cidadãos? Essa
incerteza, todos os envolvidos sentiam.
A sensação de insegurança reflete-se na conversa do casal de
jornalistas, na cama, sobre os acontecimentos surpreendentes e as
possíveis conseqüências; o pressentimento quanto a perder o emprego,
como um fantasma a lhes rondar a privacidade, as horas eventuais de
descanso.
Edward R. Murrow, jornalista famoso por seu caráter e sua atuação
íntegra no rádio e na tevê, é o protagonista da história,
brilhantemente interpretado por David Strathairn. Nas décadas de 30
e 40, Murrow também se notabilizou por combater o fascismo e o
nazismo.
No elenco, também se destacam: Patricia Clarkson, George Clooney,
Jeff Daniels, Robert Downey Jr., Frank Langella.
Fiquei impressionada com as qualidades de realização de "Boa noite e
boa sorte" (produção, pesquisa, direção, elenco, interpretação,
roteiro, diálogos, edição, figurinos, maquiagem, reconstituição de
época, cenografia e trilha sonora).
E, sobretudo, absolutamente impressionada com a seriedade da obra e
a sua importância como cinema de "revelação", protesto e denúncia,
aos que desconhecem os fatos ou negligentemente se permitiram
esquecer esses acontecimentos dignos de contínua reflexão.
As situações e os temas não-ficionais de "Boa noite e boa sorte"
constituem um cenário de conflitos historicamente mascarados, com
alguns aspectos importantes quase invisíveis, inaudíveis, fora do
ambiente em que se movimentam os personagens reais. Um clima sombrio
no contexto do período pós-guerra, assinalado pelas suspeitas da
chamada "guerra fria".
Cinema que cumpre a sua missão como instrumento de informação e
denúncia insistente, para que todos aprendamos com a verdade
escondida ou disfarçada, nos círculos governamentais, nas chefias
dos meios de comunicação, entre as autoridades nacionais. História
omitida, abafada e arquivada por motivos indefensáveis, apesar de
seu potencial para repetição. Vulcão onde apenas se colocou uma
pedra, na vã tentativa de impedir futuras erupções.
Já fui à pré-estréia de "Boa-noite e boa sorte" preparada para
apreciar e aplaudir, entretanto, o filme de George Clooney superou
as minhas elevadas expectativas.
É de uma coragem surpreendente, que nos comove até visceralmente, no
mais íntimo de nós mesmos, com sinceridade e sobriedade, com ousadia
incomparável, em sua forma despojada e seu conteúdo manifesto. Sim,
uma ousadia surpreendente, se considerarmos que o diretor,
co-roteirista e intérprete - George Clooney, cidadão estadunidense,
atua no cinema e na tv de seu país.
Expõe com objetividade e clareza os pontos fracos da política de
segurança de uma nação aparentemente forte. E de sua sociedade,
fundamentada em anti-valores que nela seriam inexistentes, mas de
fato existem! São forças de pressão, atuantes em todas as esferas da
realidade nacional.
Demonstra facilmente como a tv pode ser um instrumento de embuste e
ciladas para a opinião pública. Conseguir e agradar aos
patrocinadores, aumentar os lucros... orientam as decisões. O
público é apenas o mercado consumidor. Não se trata de formar
cidadãos, e sim, de aumentar os lucros, de vender produtos, a
qualquer preço. Eis o caminho, também , para a covardia diante dos
poderosos, estejam esses donos do poder onde estiverem.
E abre as portas dos estúdios, gabinetes e redações, para que todos
os cidadãos vejam e ouçam como o desrespeito à verdade e aos
direitos inalienáveis da pessoa humana ocorre, inclusive, na prática
do jornalismo, que deveria ser o seu baluarte.
No entanto, mesmo nesse deserto moral, encontramos pessoas
corajosas, íntegras e conscientes.
São profissionais que não enganam, nem se deixam enganar. Cidadãos
cuja proposta ética de vida é conscientizar, informar , educar o
público, e não, satisfazer o mercado simplesmente, e não, divertir
sem compromissos, para que esse público se torne cego à verdade que
passa, perseguida como criminosa...
Mais, não consigo falar, neste momento, sobre "Boa noite e boa
sorte"...que, como cinema, assumiu esse dever de informar sem
hesitação.
Como também não consegui falar, nem me levantar de imediato, para
sair da sala de exibição, por me sentir tão positivamente
perturbada, ao término da sessão.
Theresa Catharina de Góes Campos (Colaboradora da ABN)

31/07/02 às 03h28
Cinema: fotografia e ilusão de movimento
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária
Antecedentes do cinema
A História do Cinema, um dos mais notáveis instrumentos de comunicação, iniciou-se há
sete mil anos. A análise do movimento foi tentada nas pinturas das grutas
pré-históricas de Altamira, na Espanha. E a projeção de sombras numa parede já era
praticada pelos chineses há cinco mil anos antes de Cristo. Por isso dizemos que a
História do
Cinema começou há sete mil anos.
O cinematógrafo e os irmãos Lumière
Os irmãos Lumière iniciaram a comunicação por meio do cinema. Para que chegassem ao
primeiro aparelho, o cinematógrafo, foi preciso que resolvessem três dificuldades: a
análise do movimento, a fixação desse movimento num recipiente qualquer e a sua
projeção fora do
aparelho. Louis Lumière mostrou a sua invenção ao público na histórica sessão de 28
de dezembro de 1895, em Paris, realizando os primeiros espetáculos regulares de Cinema.
Os irmãos Lumière, apresentando o seu cinematógrafo, tinham mais uma preocupação
científica do que interesse artístico ou comercial.As cenas filmadas eram as da vida
diária, sem nenhum artifício,espécie de "álbum de família" animado.Pelos
títulos dos filmes podemos ter uma idéia: "A Saída das Usinas", "A
Chegada do Trem" - filmes de 16 milímetros, com duração de 2 minutos. Aos poucos,
entretanto, as perspectivas vão se ampliando. Lumière passa a filmar acontecimentos fora
de casa: um congresso, um jubileu, uma exposição - atualidades cinematográficas de
hoje! Envia seus auxiliares, os "caçadores de imagens", para o exterior, a fim
de filmar acontecimentos históricos. Eis que os filmes vão aumentando de duração e
passaram a contar histórias e a transmitir idéias. Lumière realizou ainda o primeiro
filme de enredo, com os seguintes elementos: exposição do ambiente, motivos,
personagens,intriga, clímax e desenlace.
Na origem do cinema, já encontramos duas tendências: documentarista (informação) e
composição de espetáculos (diversão). Nesse período, aliás, a maior tendência é
para o teatro filmado.
George Méliès, o mágico da tela
George Méliès foi chamado "o mágico da tela". Diretor de uma casa de
espetáculos, prestidigitador e ilusionista, viu logo as enormes possibilidades da
câmera. Seguiu no princípio o exemplo de Lumière, mas começou a filmar todo o
repertório do grande ilusionista Houdini, e se voltou definitivamente para o teatro,
principalmente o gênero
fantástico, o que hoje chamamos "ficção científica".Descobriu muitos truques
cinematográficos.Seus filmes: "Viagem Através do Impossível", "Vinte Mil
Léguas Submarinas", "Viagem à Lua", "A Conquista do Pólo",
destacaram-se entre mais de 4 mil que realizou.Em 1908, porém, estava superado.
O cinema deve muito a George Méliès.Foi ele quem introduziu o sonho, o feérico, partes
integrantes da arte.Deu um impulso decisivo à arte cinematográfica,como criador de
filmes de enredo; construiu o primeiro estúdio cinematográfico; foi o primeiro
distribuidor de filmes.
James Williamson
Poucas pessoas sabem que o precursor dos filmes norte-americanos no gênero
"western" ou "cow-boy" foi o cineasta inglês James Williamson, autor
do primeiro filme com montagem alternada.Até aquela data, a câmera filmava uma ação
contínua representada num palco ou uma ação qualquer no exterior. Os ingleses gostavam
de filmar ao ar livre, o que os obrigou a interromper a ação.
A montagem alternada apareceu pela primeira vez em "Ataque a uma Missão",
quando vemos a ação em dois lugares diferentes, montadas alternadamente, para aumentar o
"suspense" da história; a película inclui igualmente perseguições, correrias
e galopadas, ações dotadas de conteúdo rítmico.
Alfred Collins
Alfred Collins, no seu filme "Casamento num Automóvel", usou pela primeira vez
a "elipse", quer dizer, substituiu uma ação por um símbolo, ou o efeito de
uma ação não filmada.Suprimiu toda uma cena de casamento na igreja, focalizando,
apenas, a aliança no dedo dos nubentes. Esse fato nos mostra o quanto a imagem economiza
cenas e palavras. Devemos valorizar, portanto, o próprio cinema mudo, que não consistia
simplesmente de filmes desprovidos de som, como aconteceria se assistíssemos a um filme
atual com o alto falante desligado.Os filmes mudos estariam mais perto da verdadeira arte
cinematográfica do que algumas produções de hoje, que não sabem mais contar em
imagens,baseando-se por demais na ajuda das palavras.
A primeira arte cinematográfica
Foi na Dinamarca que surgiu a primeira atriz cinematográfica do mundo, estrela
autêntica, e não uma atriz teatral fazendo cinema.Em 1911 fundou-se naquele país a
"Nordisk", cujo diretor, Urban Gad,compreendeu que a interpretação de um ator
teatral apresentava características bem diversas da interpretação exigida de um ator
cinematográfico.Sua esposa, Asta Nielsen, apoiava-se nos efeitos visuais da
interpretação; com uma expressão mímica extraordinária, sabia alcançar um grau de
expressividade única, nessa época do cinema mudo.
O cinema atual e sua importância
Agora que vivemos na era do cinema falado, os países exportam sua cultura também
através de seus filmes e de seus diretores principais, cada um deles desejando transmitir
a sua maneira de encarar o mundo ou uma determinada situação, enfim, todos trazendo uma
mensagem.
A máquina de filmar, portanto, age como instrumento de humanismo em nossos dias.
O cineasta Federico Fellini
O cineasta Federico Fellini nasceu no ano de 1920, em Rimini,Itália.Foi para Roma aos 16
anos de idade, tendo sido caricaturista e desenhista de ficção científica. Em 1943,
casou-se com a atriz Giulietta Masina e, pouco depois, escreveu ou adaptou a história de
vários filmes, destacando-se, ao lado de Rosselini, na película-chave do movimento
neo-realista: "Roma, Cidade Aberta". Em 1950, de parceria com Rosselini, dirigiu
"Mulheres e Luzes", o primeiro de uma série ininterrupta de grandes triunfos:
"Abismo de um Sonho", "Na Estrada da Vida", "A Trapaça",
"As Noites de Cabíria". "A Doce Vida", "Oito e Meio".
A estréia de Fellini na direção ocorreu com o filme "Mulheres e Luzes", que
retrata o pequeno drama de uma companhia teatral ambulante.Em 1954, "A Estrada da
Vida" ganhou o segundo prêmio do Festival de Veneza, tendo no papel principal, de
Gelsomina, sua esposa Giulietta Masina. O neo-realismo, condicionado pela guerra, que é
um fato
coletivo, inclinara-se sempre para os assuntos sociais.
Fellini, sem recusar propriamente tal orientação, verifica que, terminada a guerra, a
pessoa humana também existe e, tanto quanto o coletivo, o individual pode assumir
relevância e verdade. Gelsomina, Zampano e "o louco" sofrem com a
impossibilidade de se comunicar. Entretanto, todos trabalham, o que os socializa, porque
lhes fornece uma natureza social; o trabalho os aproxima uns dos outros, unindo-os.
Zampano era um homem animalizado,cuja força física triunfava sobre a pureza de Gelsomina
e a inteligência de "o louco". Somente depois que fica só e decadente, começa
sentir.A sentir e talvez a amar - nesse caminho, ele vai encontrar sua redenção como
pessoa humana.Regressa à praia onde conhecera Gelsomina; ali, pela primeira vez, diante
do mar e sob o céu, sofre e chora - não é mais um animal.O filme "La Strada"
pode ser classificado como neo-realista porque a pessoa humana é uma realidade.Busca uma
solução ética para o destino dos personagens;não compromete a realidade, antes
completa e aprofunda os acontecimentos reais.
Giulietta Masina foi também a grande intérprete de outro filme de seu marido - o não
menos famoso "Noites de Cabíria". A prostituta que desejava ter uma família,
que gostaria de dar amor e ternura, é terrivelmente iludida por aquele que parecia ser o
instrumento de sua salvação.Os momentos finais de "Noites de Cabíria",
todavia, mostra um caminho de esperança. Aquele sorriso de Cabíria, com o contínuo
movimento da câmera em volta dos jovens que se divertem não foi só uma das mais belas
cenas finais da história do cinema, porém um dos instantes decisivos da ideologia do
nosso tempo, mostrado com a imediatidade objetiva da câmera cinematográfica: o desespero
e o abandono podem ser superados pela capacidade humana de reviver e esperar dias
melhores.
Gelsomina e Cabíria destacaram-se como tipos cinematográficos - aparentemente marcados
pela miséria e degradação, se nós nos detivermos para examiná-los em profundidade,
aparecerão como portadores de poesia e riqueza interiores.A interpretação de Giulietta
Masina, esposa de Federico Fellini, conseguiu transmitir aos espectadores a mensagem de
cada personagem.
Escreveu Irene Tavares de Sá, no livro "Eva e Seus Autores": "...
encontramos em Cabíria os mais contraditórios sentimentos em estado puro: agressividade
e espontaneidade, ao mesmo tempo que é generosa, digna e sincera. A esperança não a
abandona por mais que o infortúnio a persiga. E embora tudo lhe tenha faltado na vida
como proteção, não se degrada interiormente, continuando a esperar a felicidade no
amor.Domina-a poderoso instinto de evasão e purificação em demanda de regiões
inacessíveis. Apesar de todas as condições contrárias, Cabíria é um ser
"moral" sempre buscando uma saída para a situação em que vive, dividida entre
as contingências de uma dura realidade e as grandes aspirações espirituais:fé e amor.
É um ser em luta, que não se entrega ao desespero nem à degradação. Nesse sentido há
nesse admirável filme uma mensagem cristã que deixa perceber a oculta grandeza do ser
humano.
Para Cabíria, o amor é um valor idealizado, pelo qual ela dará todos os seus bens, como
"o mercador que vendeu tudo que possuía" para comprar a mais bela das
pérolas.Em sua contextura dramática, beirando muitas vezes o grotesco e o primitivo, há
uma recôndita beleza e grandeza nos esforços de Cabíria por superar a adversidade e a
miséria,como se o amor fosse nela uma força propulsora. E se o realismo de Fellini a
conduz aos limites do desespero, nova esperança termina por surgir, à qual ela se agarra
e adere como ao seu elemento natural".
"Cabíria é um ser puro que vence a "fatalidade", descobrindo em si mesma
novas energias.Secreta e misteriosa intuição parece conduzi-la e revelar-lhe o segredo
dos valores supremos, embora revestidos da mais triste condição.E justamente porque o
tom é poético e não dogmático, aceitamos seus contrastes como possíveis e
conciliáveis, acabando por descobrir no fundo desse contraste a essência de um ser puro,
não corrompido".
Dirigindo e escrevendo o roteiro de seus filmes,Fellini tem se destacado no panorama do
cinema contemporâneo."A doce Vida",por seu estilo próximo dos grandes
afrescos, requisitou uma concentração visual e lógica; reflete a intenção crítica
"felliniana" sobre a sociedade atual.Existe uma necessidade moral subjacente
nesse longo "documentário" da perdição de nosso tempo.Exatamente porque
nenhum personagem se apresenta positivo, permanece no espectador o sentimento básico de
se opor à doce vida amargamente retratada.No Festival de Cannes de 1960, quando "A
Doce Vida" conquistou a Palma de Ouro, Fellini declarou numa entrevista à imprensa:
"Eu quis fazer um filme que transmitisse coragem, na medida em que ele faz olhar a
realidade com uma visão nova, sem se deixar envolver pelos mitos, as superstições, a
baixa cultura, os sentimentalismos.Eu desejaria que não se considerasse o filme como
pessimista, desesperado e satírico, porém que meus amigos dissessem: "É um filme
leal".
Lembremos que o desfecho de "A Doce Vida" é o primeiro plano de uma cândida
adolescente, num simbolismo marcante de pureza.Esse ideal de Fellini está presente em
"Oito e Meio", bem como em "Noites de Cabíria" e "A Estrada da
Vida", embora em vestes diversas.Nas lentes do cinema, Fellini e sua esposa Giulietta
Masina transmitem ao mundo as mensagens de que são portadores (ABN).

13/07/02 às 05h00:
O cinema e o desafio de sua dicotomia
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária Divertimento e conscientização, prazer e
denúncia, fantasia e registro histórico... são metas dos cineastas, acompanhados de
suas equipes e procurando se comunicar com a platéia universal. Quanto aos espectadores,
buscam ficção e realidade, perturbação e fuga da rotina, o conhecido e o insólito, o
riso e as lágrimas, os sentimentos, as emoções e até a fria objetividade.
Alguns, fixam-se em uma posição, outros, aceitam a diversidade que a arte
cinematográfica oferece. Algumas pessoas reagem às mensagens, outras, defendem até o
fim a sua individualidade, fazem questão de se colocarem à margem ou, mais
especificamente, na margem oposta.
Nas contradições que, filosoficamente, não são contradições, mas riqueza de temas e
caleidoscópio de perspectivas, encontramos a importância do cinema.
Como aceitar, portanto, que instituições educacionais - desde escolas de primeiro grau a
universidades- negligenciem a presença dessas imagens e sons em seu dia-a-dia? Como
entender um currículo sem a inclusão de atividades de formação de platéia
cinematográfica? Como esquecer a reflexão crítica, íntima e profunda, provocada pelo
chamado cinema-verdade? Como deixar, na formação de alunos e no crescimento intelectual
(deles e seus professores), esse vazio (invisível?) que resulta da ausência de filmes em
seus auditórios? Como entender os espaços para entretenimento sem a fantasia, a
criatividade do cinema?
Visão universitária e universal
Fundamentada no estudo, na pesquisa e na extensão, a comunidade universitária (docente e
discente) compreende sua vocação universal porque conhece as exigências do tempo e da
realidade local, regional e nacional. Já compreende que a educação é contínua,
abrangente e permanente, sem desviar-se de seus objetivos específicos de
especialização. Para aqueles que não estudam e/ou fazem cinema, este assume o papel de
instrumento complementar em seu processo educacional (ABN).

13/07/02
às 05h00:
Filmes iranianos
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária "O CINEMA é uma expressão artística
profunda. Uma arte que precisa conservar sua ética, consciência e moral; sem perder a
capacidade de olhar. Comprometido com a verdade.
Cada filme deve ter uma mensagem para a humanidade capaz de elevar o ser humano a um
estado engrandecedor. As imagens cinematográficas devem refletir com respeitável
sensibilidade o relacionamento humano, buscando a aproximação entre as pessoas e
derrotando a imobilidade e o silêncio.
Em busca da verdade dos sentimentos, os cineastas iranianos procuram fazer filmes que
mostrem o que os olhos não vêem e que digam o indizível. Repleto de alma inquieta o
Cinema Iraniano trata de valores universais, rompendo assim com suas fronteiras demarcadas
e dignificando a verdadeira essência da vida."
(Texto de autoria de Alexandre Santos, no folheto de apresentação
do II Festival de Filmes Iranianos, promovido em 1998 pela Embaixada da República
Islâmica do Irã: em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre e
Recife).
Destaque para a mostra, bem diversificada quanto a gêneros, temas, estilos.
"Onde é a casa do amigo?" (Irã, 1987 - 90' ) - de Abbas Kiarostami;
"Os inquilinos" (Irã, 1987 - 130' ) - de Dariush Mehrjui;
"Um ingresso, dois filmes" (Irã, 1991 - 90' ) de Dariush Farhang;
"O ciclista " (Irã , 1989- 75' ) - de Mohsen Makhmalbaf
"Capitão Khorshid" ( Irã, 1987 - 117') de Nasser Taghvai
"Fim da Infância" (Irã, 1994 - 90') de Kamal Tabrizi; e
"Pequeno Pássaro de Felicidade" (Irã, 1988 - 90')de Pooran Derakhandeh.
Recomendo com louvor outras obras cinematográficas de cineastas iranianos: de Mohsen
Makhmalbaf - "Salve o Cinema" (Salam Cinema - Irã, 1995), "Um instante de
Inocência" e "Gabbeh"; de Abbas Kiarostami - "Através das
Oliveiras" (1994); de Jafar Panahi - "O Balão Branco" - (Prêmio Câmera
de Ouro no Festival de Cannes de 1995); de Ebrahim Forouzesh - "O Jarro".
"A quinta estação" e "Gosto de Cereja"; "Filhos do
Paraíso"; "A maçã", "O círculo"; "O voto é
secreto" - são também minhas recomendações (ABN).

05/04/02 às 00h01:
Cinema: ver ... para sentir,
pensar e ser
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária Nem sempre é fácil indicarmos um filme ao
público, justificando nossa opinião sobre a sua qualidade técnica, formal e/ou de
conteúdo. Precisamos seguir um caminho profissional que reconheça nossas
características pessoais e circunstâncias externas, além de exercermos a aptidão
necessária da empatia, colocando-nos insistente e sucessivamente no lugar dos leitores e
ouvintes.
Nessa busca persistente, orientada pela consciência de nossa reponsabilidade,
iluminada pelo amor que devotamos ao cinema como "síntese de todas as artes",
visamos, não à chegada de um porto seguro de "verdades"passivas, mas
vislumbramos o empreendimento de uma viagem cultural, humanística e dinâmica, a cada dia
reiniciada com maior entusiasmo (mesmo disfarçado,face à preocupação de objetividade).
De nós, jornalistas, formadores de opinião, numa atividade constante de procurar as
informações, e num contexto de reflexão crítica, interpretá-las para que sejam
encaminhadas aos que muito esperam de nosso trabalho, a sociedade aguarda nossa
contribuição. Ao transmitirmos os informes - objetiva e subjetivamente (sim, o público
quer a avaliação pessoal do crítico!), estaremos nos colocando em uma situação
dinâmica, pois as nossas palavras provocarão efeitos individuais e no mercado.
Compreender isso significa entender que somos responsáveis, também, no processo da
comunicação cinematográfica.
Escrevo essas observações não somente para os meus colegas; dirijo esses
comentários, também, ao público, para que se conscientize igualmente do que precisa
exigir de todos os profissionais que assumiram a proposta de freqüentar com assiduidade
as salas de exibição. Para confiar nos textos informativos/opinativos, a sociedade
supõe a dedicação a uma atividade regular (jamais esporádica, eventual...) de
comparecimento, estudo comparativo, pesquisa de bibliografia e filmografia.
Assim, os conceitos emitidos (sejam de elogio ou repúdio) estarão fundamentados: na
presença às sessões de cinema (em vídeo, dizem os entendidos, "não é o mesmo
filme"); observação das platéias; verificação das condições da sala e da
projeção; bem como leituras e conversas que representem um autêntico intercâmbio de
pensamento.
Afinal, opiniões próprias não devem resultar de isolamento, e sim, de coleta de
informações, análise desses dados e convicção no exercício do mister jornalístico.
Embora se possa afirmar que a obra de arte vale por si mesma, o contexto em que a vemos
influi, sem dúvida alguma, na apreciação que fazemos.
Ritual de cultura
A sociedade necessita do cinema como ritual de cultura. Uma prática salutar,
intelectual, afetiva. Uma forma de lazer, muitas vezes;contudo, não podemos esquecer seu
papel documental, sua ação denunciadora, perturbadora,seus convites à reflexão
crítica.
Instrumento de educação da sensibilidade a idéias, sons, imagens, diálogos,
expressões faciais; oportunidade para crescermos como seres humanos, saindo de nosso
espaço individual limitado e penetrando nas mentes e nos corações revelados na tela,
unindo as nossas preocupações às de outros povos, outras cidades, regiões, nações.
Ouvindo vozes longínquas... Abraçando - sem sairmos da poltrona - companheiros de
humanidade. Há ocasiões em que resistimos, porém a nossa comoção mostra-se mais
forte, mais avassaladora, nesses momentos especiais, que o constrangimento social: e as
lágrimas vêm, poderosas, inevitáveis porque o filme as provocou de imediato, sem nos
dar tempo de erguer barreiras ou correr para a nossa solidão.
As nações se transformam em bairros conhecidos; os forasteiros, em vizinhos sobre os
quais conversaremos depois da sessão com os amigos ou desconhecidos; familiarizados com o
seu comportamento nas cenas a que assistimos, conhecedores de seus sentimentos e suas
atitudes...até de seu vocabulário. E como ocorre na vida real, não é todo dia que lhes
concedemos a nossa concordância; diretores e personagens ocasionalmente suscitam
discussões acaloradas, sobretudo quando procuramos compreender os objetivos de seu
trabalho. Estilos e linguagens tão diversificados proporcionam múltiplas escolhas,
opções para estados de espírito do freqüentador, necessidades culturais as mais
variadas.
Escrever sobre cinema demanda, além do mais, uma postura de incentivo a esse ritual de
cultura. Damos o exemplo de comparecermos às salas de cinema, de conversarmos com
entusiasmo sobre o assunto, de nos debruçarmos, diligentemente, sobre as leituras
referenciais e outros materiais. Da empolgação com os travellings, as panorâmicas e os
closes, retiramos o fôlego para vermos os filmes repetidas vezes, memorizando os
diálogos
preferidos, absorvendo as suas cores, luzes e sombras. A interpretação nos convence e
surpreende; a sonoplastia parece ter vida própria, a fotografia de qualidade transforma
em quadros originais os lugares mais comuns.
Um bom filme: enriquece a nossa rotina! Faz, do ritual do cinema, em sua repetição
convicta, uma festa,uma celebração da vida, mesmo quando se mostrou a morte em traços
impressionistas ou na crueza do realismo-naturalismo. E a velocidade da projeção dos
fotogramas, criando a ilusão do movimento, vivifica o que parecia fugaz, eterniza o
temporário.
A jornada do olhar
Numa peregrinação que pode até ser inconsciente, o trio coração- mente-visão (a
ordem dos fatores é variável...) segue a jornada de filme a filme, num processo de
capacitação emocional e de observações intelectuais aberto a qualquer ser humano que
se disponha a conhecer o cinema cada vez mais intimamente.
Acredito nos efeitos benéficos dessa jornada que nos aproxima de outros seres humanos,
envolvidos na criação, realização e divulgação das obras cinematográficas. A
sétima arte - em todos os seus estágios, entre os quais há desdobramentos como produtos
comerciais disseminados no mundo inteiro (fotos,livros, camisetas,etc.) - emprega
crescentemente um maior número de pessoas.
A necessidade da empatia é fundamental, pois não se trata de uma estrada de mão
única...Ninguém realiza um filme para que ninguém o veja. Busca-se um público,
limitado ou não. Encontramos, portanto, na peregrinação dos olhos que desejam VER, uma
atitude, ao mesmo tempo passiva e dinâmica, de comunicação humana. A visão interior
pode - e deve - crescer com o passar do tempo, exigindo um nível de qualidade. Há
numerosos exemplos na literatura e nos textos bíblicos que se referem aos olhos que não
vêem, aos ouvidos que
não ouvem... Nossa proposta de caminhada com o cinema representa a esperança de que a
platéia se aperfeiçoe, concomitantemente, obtendo/alcançando os efeitos de um
aprendizado humanístico.
A educação da sensibilidade conduziria a um respeito maior pelo próximo, à
valorização da vida, à solidariedade e à criatividade. Isso não se restringe ao campo
emocional. Sentir significaria uma abertura para a filosofia aplicada a nós mesmos e aos
outros; uma oportunidade contínua e permanente de pensar em termos míticos e místicos;
um repúdio a todas as formas de violência.
Pensar com sensibilidade inclui o próximo, em nossas opções. Bem sabemos que há
filmes capazes de revolver profundamente nosso íntimo. Ao nos sensibilizar, o cinema nos
transforma como pessoas. Comédia, drama, documentário, ficção científica, suspense,
aventura, fábula...o gênero é uma questão da multiplicidade de escolhas a nosso
dispor. O que importa: a qualidade dos filmes. E a nossa disposição de, em busca do
lazer e da cultura, nesse ritual encontrarmos mais um caminho para SER (ABN).

25/12/01 às 00h01:
O cinema em nossa vida
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária BRASÍLIA (ABN) - Ao idealizar e fundar o Cineclube dos Educadores aqui em Brasília,
considerei uma das prioridades a troca de informações pessoa a pessoa, por via
telefônica e fax, além de pequenos informativos; buscando aproximar os seres humanos,
numa presença física prazerosa de comentários sobre filmes, sua produção, direção,
fotografia, trilha sonora, seu elenco, marketing e abordando aspectos vivenciais.
Como professora universitária e jornalista responsável pela área de comunicação do
grupo, com entusiasmo e regularidade faço os contatos necessários com os gerentes e
divulgadores, obtendo o material necessário ao estudo e à divulgação.
O fundamental -e agradável também- é assistir às obras cinematográficas que
enriquecem a nossa vida, nos sensibilizam, nos levam à reflexão crítica.
A importância do lazer como direito de todo ser humano tem sido negligenciada,
sobretudo nos países em desenvolvimento, onde as massas lutam diariamente pela
sobrevivência. Cabe às elites, portanto, assumirem a responsabilidade de, ao mesmo tempo
em que se engajarem no processo de democratização autêntico (o que não ignora os
famintos, os desabrigados, os sem-terra, os analfabetos, os injustiçados em qualquer
aspecto...), se empenharem, concomitantemente, em prol do lazer que educa a sensibilidade,
informa, socializa, promove intercâmbio cultural, conscientiza.
Caminham lado a lado o cinema e a vida, pois a arte se confunde com a própria
existência, que reflete e/ou modifica, numa transformação de criatividade. Erram os que
temem "perder tempo" ao se dedicarem a momentos de lazer. Os bons filmes têm um
enorme potencial: exercitam o cérebro e o coração; abrem possibilidades intelectuais;
podem ser instrumentos de cidadania universal. Alienação resulta do isolamento sem
justificativa, e não, do olhar e pensamento ativos, à procura de emoções,
informações e questionamentos.
As obras cinematográficas nos indicam opções em alguns gêneros; em outros, nos
fazem rir, muitas vezes de nós mesmos, revelando sobre nós o que nos recusávamos a ver;
há ocasiões em que nos perturbam com tal profundidade que suas imagens e palavras nos
acompanham durante um longo tempo; a comoção que se apodera de nós até nos surpreende,
porque já nos tínhamos esquecido de chorar. Mesmo quando não se trata de um
documentário, um filme-verdade, uma dramatização da realidade, pode nos sacudir com
intensidade inesquecível.
Vida e cinema: embora adornados por imaginação, fantasia, criatividade
ficcionais...são realidades que podemos tornar inseparáveis! (ABN).
Assisti ao filme no cinema, mas pode ser encontrado em vídeo Warner
Home Vídeo e DVD - USA.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
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