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A
Paixão de Cristo
“ Ele foi ferido por nossas transgressões.
Por seus suplícios, nossos pecados foram perdoados.
Por suas feridas, fomos curados “. (Isaías, 53)
Apenas esses versos do Profeta, na tela,
começam o filme, num prólogo comovente. Logo em seguida, nos
defrontamos com a noite no Jardim das Oliveiras.
“ Não fostes capazes nem de vigiar uma
hora comigo? “
Para os cristãos, a Paixão de Cristo é um
acontecimento extraordinário, uma experiência real a nos
acompanhar diariamente.
“ Pai, Tu podes tudo. Se for possível,
afasta de mim este Cálice. Mas se for da Tua vontade, seja feita
a Tua vontade, e não a minha.”
Assistir a um filme que nos guia com fé e
sensibilidade para acompanharmos, numa sala de cinema, durante
duas horas e seis minutos, as últimas 12 horas de Jesus de
Nazaré (Jim Caviezel), nos mínimos detalhes, desde o momento
doloroso da traição de Judas Iscariotes (Luca Lionello) até a
sua crucificação no Gólgota, representa vivenciarmos, com o
nosso Salvador, seu percurso de sofrimento voluntário, em todas
as estações dessa Via Crucis.
“ Judas, entregas o Filho do Homem com um
beijo? “
Tenho orgulho por divulgar a obra de Mel
Gibson muito antes do término do filme, isto é, quando a obra
ainda estava sendo realizada, por acreditar em sua proposta
inédita e nos sentimentos de respeito e convicção do diretor e
produtor. Admirável a sua coragem, transpondo com audácia uma
história narrada tantas vezes.
Acreditei na força mística do projeto, na
certeza íntima de que a perturbação de muitos também levaria
à conversão. E somente isso bastaria para justificar a
exposição da violência de que Cristo foi vítima – logo Ele,
com a sua mensagem de amor e perdão.
Os maus-tratos, a agonia de Jesus lembram
como fomos resgatados para a vida eterna. Levam à reflexão sobre
a Cruz, onde a morte se transformou em vida.Para sempre.
Padre Jonas declarou: “ Entrei num cinema
para assistir ao filme. Saí de uma igreja.”
O Pastor Clodomir testemunhou na TV Record,
em 20/3/04: “ Aquele sangue é vida!”
Padre Quevedo, também numa emissora de TV,
afirmou que, apesar do realismo da obra cinematográfica de Mel
Gibson, “ na realidade, Jesus Cristo sofreu muito mais do que
vemos na tela.”
Herodes pergunta ao Nazareno:
“ É verdade que devolves a visão aos
cegos? Que ressuscitas os mortos? “
Dirigido e co-produzido por Mel Gibson
(também co-autor do roteiro), o filme " A Paixão de
Cristo" (The Passion of the Christ -EUA – 2004 – cor,
scope, 126 min. – dolby digital) é uma obra de arte, realizada
com sensibilidade, eficiência e sentimentos de fé.
“ Se não queres ouvir a verdade, ninguém
pode te dizer a verdade” (diz Cláudia, ao marido Pilatos, após
interceder por Jesus)
Marido e mulher conversam. Ele explica a
Cláudia a situação política e o seu problema, como procurador
romano.
Mais tarde, pergunta Pilatos aos judeus:
“ - E o que vocês querem que eu faça com
Jesus, o Nazareno? “
A multidão devolveu a liberdade ao
criminoso Barrabás, mas exigiu a crucifixão de Cristo. E
Satanás aparece na multidão, se movimentando maleficamente.
Em cena rápida, assistimos à entrada
festiva de Jesus em Jerusalém (como relembramos no Domingo de
Ramos).
O caminho da Cruz revela-se também o
calvário de sua Mãe (a atriz judia, romena, Maria Morgenstern),
de Maria Madalena ( Monica Bellucci ) e de seu discípulo João.
Que interpretação admirável!
“ Meu coração está pronto, Pai “ –
e começa a flagelação.
Com excelência demonstrada na produção,
direção, interpretação, fotografia, trilha sonora original e
belíssima ( coro, orquestração) _ de John Debney _, (premiada
com Disco de Ouro, nos EUA ), edição, direção de arte,
maquiagem e cenografia; no roteiro, nas locações externas; nos
figurinos,efeitos especiais, penteados, adereços e objetos de
cena. Merece destaque, ainda, o trabalho dos 20 (vinte) dublês
– e dos figurantes também.
E tudo de acordo com os Evangelhos e a
tradição oral cristã.
“ Porque um dia fomos escravos e agora
não somos mais.” (na cena em que aparecem, pela primeira vez no
filme, expressivas e belíssimas, a Mãe de Jesus e Maria
Madalena)
“ Este é o meu Corpo, entregue por vós.
Este é o meu Sangue, símbolo da Nova Aliança e derramado por
vós para remissão dos pecados. Fazei isso em memória de mim.”
Filmado na Itália (em Matera e Roma),
inicia-se no Horto das Oliveiras, com cenas admiravelmente
realizadas, quando o Mestre aceita os padecimentos do Calvário,
numa antevisão das traições. A iluminação de sombras, luzes e
cores acentua a figura de Jesus, ao mesmo tempo abandonado e firme
na entrega de Sua vida.
“ Confio em Ti. Em Ti busco refúgio.”
Satanás é representado de forma andrógina
e sua presença maligna demonstra a origem dos males praticados
pelos homens que rejeitam o bem.
À multidão, diz Pilatos:
“ Sou inocente do sangue deste homem.”
Na cena do Horto das Oliveiras, Pedro corta
a orelha de um dos soldados. Cristo a recoloca e admoesta o seu
discípulo ( que mais tarde iria nega-Lo três vezes ):
“ Pedro, guarda a espada. Quem vive pela
espada, pela espada morrerá.”
Católico praticante, Mel Gibson há doze
anos tentava realizar o filme, falado em aramaico e latim, mas
não conseguia apoio. Até que decidiu produzir a obra com os seus
próprios recursos (trinta milhões de dólares). Terminada a
filmagem, procurou sacerdotes, pastores evangélicos e rabinos,
buscando divulgar “ A Paixão de Cristo “ e vender ingressos
com antecipação. Com a aprovação de padres católicos e dos
evangélicos, obteve a distribuição da Fox. Para a estréia nos
EUA, havia cinco mil cópias disponíveis.
“ Mãe, eu renovo todas as coisas.”
Em dezembro de 2003, uma cópia do filme foi
levada ao Papa João Paulo II, por membros do Opus Dei,
organização católica de leigos, que promove a evangelização
nas respectivas áreas de atuação profissional. O Sumo
Pontífice afirmou, ao término da sessão: “Assim foi.” Para
o Chefe da Igreja Católica, a obra de Mel Gibson reproduziu
fielmente o que as Escrituras Sagradas já nos ensinavam. Entre os
agradecimentos, nos créditos finais, está citada a colaboração
dos Jesuítas e dos Legionários de Cristo.
“ Tumulto no templo. Caifás mandou
prender um profeta. Os fariseus o odeiam.”
As qualidades do filme são inegáveis, para
os que se dispuserem a fazer um julgamento imparcial quanto à
forma e ao conteúdo. Movimentação de câmera, com emocionantes
travellings e belas panorâmicas verticais/horizontais; ótima
reconstituição de época; som, efeitos sonoros e visuais,
efeitos de maquiagem; edição de som, iluminação, ressaltam a
mensagem por sua moldura estética, sua plasticidade revelada a
cada cena.
“ – Ele se proclama rei dos Judeus!
- Não, ele diz que é o Filho de Deus.”
E até as crianças se mostram cruéis, na
perseguição a Judas.
“ O que fez este homem para merecer esta
pena? (...) Alguém pode me explicar esta loucura?”
“ Ele seduziu o povo.(...) Ele afirma que
é o Messias !”
O olhar de Jesus não deixa dúvidas sobre a
interpretação magnífica de Jim Caviezel, que teve um “
personal trainer “. Está perfeito no papel!
“O ator que interpreta o papel de Jesus
Cristo, Jim Caviezel, é aquele mesmo dirigido por Terrence Malick,
como protagonista do seu extraordinário "Além da Linha
Vermelha", um dos mais belos filmes dos últimos anos.”
(...) “ A paixão de Cristo “ é realmente um filme
emocionante.”
Reynaldo D. Ferreira
Ao Bom Ladrão, arrependido, Jesus
crucificado promete:
“Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso.”
Durante a narrativa da Paixão, há alguns
flashbacks ( Jesus menino, Jesus carpinteiro,várias cenas da
Última Ceia ) que eu destaco por sua beleza e sensibilidade. No
Sermão da Montanha, Cristo ensina que devemos amar aos inimigos (
em oposição aos ensinamentos do Antigo Testamento – olho por
olho, dente por dente).
“ Tenho sede.” ( e lhe dão vinagre para
beber!)
A ele que fez milagres, curou os doentes,
ensinou amor e perdão.
“ Eu sou o Bom Pastor. Eu dou a vida por
minhas ovelhas.” (...)
“ Ninguém toma a minha vida. Eu tenho o
poder de entregá-la livremente.”
(...) (e na Última Ceia: )
“ Vós sois meus amigos. Não há maior
amor do que dar a vida por seus amigos.” (...)
“ O meu mandamento é este: amai-vos uns
aos outros, como eu vos amei.”
A crucificação de Jesus é mostrada com
essas cenas da Última Ceia intercaladas.
“ Eu sou o Caminho, a Verdade, a Vida.”
(...)
“ Pai, perdoai-lhes! Eles não sabem o que
fazem. “
Ao pé da Cruz, a Mãe de coração
dilacerado:
“ Carne de minha carne, coração de meu
coração, deixa-me morrer contigo.”
Mas Jesus responde:
“ Mulher, eis aí teu filho. João, eis
aí tua mãe.”
Pouco antes de morrer, as palavras que
parecem encerrar todo o mistério da Paixão de Cristo:
“ Meu Deus, meu Deus, por que me
abandonaste? Tudo está consumado. Pai, em Tuas mãos entrego o
meu espírito.”
A ventania, a tempestade no Gólgota,
envolvendo a terra em trevas.
O corpo de Jesus é retirado da Cruz .
Na última cena , depois que se vê o
túmulo vazio, aparece, de perfil, o rosto sereno do Nazareno. “
Eu renovo todas as coisas.”
Durante os créditos finais, a música
maravilhosa nos envolve de forma quase mística.
Em algumas entrevistas, o diretor revelou
algo muito significativo, sobretudo para encerrar toda essa
polêmica sobre quem crucificou Jesus Cristo ( os judeus? os
romanos ?): a mão que coloca os cravos nas mãos e pernas do
Salvador é a dele, Mel Gibson. Decidiu com muita convicção que
seria ele, Mel Gibson – e nenhuma outra pessoa do elenco ou da
equipe do filme – a fazer esse papel. Porque se confessou
pecador...e por quem Cristo morreu. Sim, fomos todos nós,
pecadores, que O crucificamos.
Que filme extraordinário! Uma obra-prima.
Parabéns, Mel Gibson!
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Pão e tulipas
Sucesso de público e crítica, a comédia dramática "Pão e Tulipas" (Pane
e Tulipani - Itália, 1999 - 115min.), dirigida por Silvio Soldini e protagonizada por
Licia Maglietta e Bruno Ganz, agrada especialmente às mulheres, devido ao estilo da
narrativa, aos temas e personagens, inseridos em circunstâncias familiares e sociais que
destacam problemas enfrentados na rotina feminina. Elas vão cuidando de seus entes
queridos, muitas vezes esquecendo-se de si mesmas. Mas os homens também podem
apreciá-la, porque, como diz o título, é atual, realista e lírica, mostrando como a
vida deve ser valorizada pelo convívio, sem que a individualidade desapareça.
Homenageia a mulher, por sua sensibilidade, e o homem capaz de tomar decisões que
mudam sua existência. Sobretudo quando o comentário de uma criança, ouvido com
atenção, revela o que se torna essencial, em meio a todas as superficialidades. Amizade,
alegria, amor, respeito ao próximo, bom humor são componentes que fazem desabrochar em
poesia as vidas aparentemente sem sabor. E os sonhos transformam-se em realidade. Afinal,
há sonhos bem simples, que apenas dependem de nossa vontade.
Destaques: direção, interpretação,fotografia, trilha sonora, roteiro (ABN).
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Para sempre Cinderela
Um belíssimo filme (forma e conteúdo) para todas as idades, "Para Sempre
Cinderela" (Ever After, EUA, 1998 - 121'- de Andy Tennant) é uma versão que
apresenta uma interpretação realista, mais moderna, do famoso conto de fadas romântico.
Com Drew Barrymore, Anjelica Huston e Dougray Scott, tem ação, humor, drama,
aventura e romance, numa competente reconstituição de época (França,século XVI).
Jeanne Moreau introduz e narra a história, começando por uma conversa com os Irmãos
Grimm. Eles reconhecem a existência de diversas versões, como a de Charles Perrault, com
abóbora transformada em carruagem e outros elementos fantásticos. Falam sobre os
sapatinhos do baile, que seriam de pele, vidro ou cristal.
Roteiro criativo, original, narra o conto da Gata Borralheira como sendo real;
somente com o tempo teria se metamorfoseado em conto de fadas. Enfatiza a leitura como
instrumento de conscientização, mostra as dificuldades na busca da alma gêmea.
Encantadoras tomadas aéreas registrando com abrangência os cenários naturais;
travellings (câmera em movimento), panorâmicas verticais e horizontais; cores variadas
que lembram, às vezes, quadros impressionistas.
A fotografia, os cenários externos ( propriedades rurais e castelos da França
e seus arredores), a trilha sonora de George Fenton, o Coro de Magdalen College, Oxford;
as ruínas de Amboise; os diálogos e os momentos românticos, a apresentação dos
créditos iniciais e o final são os destaques; assim como o personagem Leonardo Da Vinci
e a obra "Utopia", de Thomas More, como um dos livros preferidos de Cinderela e
metáfora do filme; e a cena em que se vê , no Mosteiro dos Franciscanos, os monges
copistas, humildes e anônimos preservadores da cultura de sua época, absortos em seu
trabalho.
E ainda: a maquiagem, a iluminação, as cores; o uso apropriado de cavalos e
carruagens; a sonoplastia; os vestuários e adereços; o trabalho dos responsáveis pelos
animais.
As músicas citadas nos créditos finais são:"Veni Creator
Espiritus", "Canarios" e "Put your arms around me" (Ponha seus
braços a meu redor).
A linguagem correta, mesmo entre os criados e os ciganos, não é realista, mas
está de acordo com os princípios pedagógicos que promovem a correção gramatical
inclusive entre os mais jovens.
A personagem principal mostra-se inteligente, amorosa, decidida, amante dos
livros; amiga e defensora de seus criados; de natureza trabalhadora, ao invés de realizar
suas tarefas somente por imposição da madrasta; consciente das injustiças sociais,
procura combatê-las dentro de suas possibilidades, mostrando entusiasmo e convicção.
Uma obra para ser vista mais de uma vez, com prazer estético e sentimental
renovados.
(...) "Senhor, dai-me forças."(...) "Como encontrar a alma
gêmea?"(...) "O destino é muito ocupado. Precisamos ajudá-lo." (...)
"Você tem mais convicções em sua memória (em suas
recordações/lembranças) do que eu tenho em todo o meu ser". (...)
" - A vida sem amor não vale a pena ser vivida.
- E sem confiança mútua?(...) Não cederei.
- Então, você não a merece."(...)
" - Você é para ser encantador.
- E nós devemos ser felizes para sempre.
- Quem disse?
- Eu não sei. Você é quem sabe."(...)
"Se Cinderela e seu Príncipe viveram felizes para sempre, não sei, mas o
importante é que viveram."
Comparar com "O Feitiço de Áquila" (Ladyhawke- EUA, 1988 -de Richard
Donner, com Rutger Hauer, Mathew Broderick e Michelle Pfeiffer - outra belíssima aventura
romântica).
Assisti ao filme no cinema, mas pode ser encontrado em vídeo Abril Vídeo/Fox
(ABN).
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Patch Adams - o amor é contagioso
História real sobre um homem apaixonado por
sua missão de ajudar pessoas, tratando-as com muito carinho e risos, "Patch Adams -
o amor é contagioso" (Patch Adams - EUA, 1998 - 115'- de Tom Shadyac) é
protagonizado por Robin Williams, que nos faz rir e chorar ao conhecermos as críticas e
os preconceitos que precisou superar para conseguir realizar os seus sonhos.
Comovente, pode ser visto e apreciado por público de todas as
idades, pois a todos interessa o tema de viver com qualidade, estejamos sãos ou doentes.
De modo específico, trata-se de um filme de interesse especial para os profissionais da
área de saúde.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Paulinho da Viola - Meu
tempo é hoje
Premiado com o Margarida de
Prata 2003, outorgado pela CNBB Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o
documentário " Paulinho da Viola Meu tempo é hoje" (Brasil, 2002
cor 35 mm Dolby - 83 min.), de Izabel Jaguaribe, tem argumento e entrevistas
de Zuenir Ventura, escritor e jornalista ( de 1963 a 1965, ele foi meu professor de
Jornalismo Técnicas de Redação, na Universidade do Brasil, hoje, Universidade
Federal do RJ).
"O filme mostra a trajetória do cantor, suas
influências, seus mestre e amigos. Em paralelo revela sua rotina discreta e muito
peculiar. Há encontros musicais, com Marina Lima, Elton Medeiros, Zeca Pagodinho, Marisa
Monte, a Velha Guarda da Portela e outros."
Paulinho da Viola, na intimidade, revela as suas
atividades de marceneiro amador, que lhe proporciona relaxamento, numa espécie de terapia
" para as tensões do próprio ofício de músico. Se eu não fosse músico, seria
marceneiro."
Sem hesitação, cita as "duas músicas
emblemáticas: Carinhoso ( de 1917), de Pixinguinha e Asa Branca, de Luiz Gonzaga."
São destaques no documentário: direção, roteiro,
fotografia, montagem, trilha sonora e as locações diversas. Um painel da música
brasileira.
"O instrumento (de) que eu mais gosto é o
violão tem mais recursos, mas eu também gosto do cavaquinho."
A família de Paulinho da Viola presente no
filme, dando vários depoimentos, como na rotina de sua vida, sente-se à vontade para
recordar momentos especiais. Seus pais, a esposa e os filhos conhecem o músico nos
detalhes de sua personalidade, na regularidade de suas atitudes e atividades.
Confirmando a dificuldade dos pais em
"vigiar" com eficiência os filhos menores, Paulinho diz:
"A gente olha a criança...olha e a criança
desaparece, não está mais lá!"
Quando está hospedado em hotéis, ele quer fazer a
manutenção do apartamento revelam a esposa e os filhos de Paulinho da Viola. Ele
liga para a recepção, fala que tudo está perfeito, mas precisa de um alicate... Não
quer que mandem ninguém ...ele mesmo quer resolver o problema.
"o que importa é o que foi perdido, é ter
guardado o seu sorriso."
Filme simpático, agradável de se ver, aliás, tão
simpático como Paulinho da Viola. Ele toca e canta com tanto sentimento, com o coração
e muita personalidade. Um encanto simples, um charme discreto, autêntico. Seja tocando
sozinho ou em grupo, transmite um gosto genuíno pela música. Valoriza a amizade, o
convívio familiar, social e profissional. A alegria está presente nas refeições, nas
partidas de sinuca, no seu lento trabalho de "restauração" de carros antigos.
"Ah, que conflito: roubaram o cabrito de seu
Benedito " (numa festa em Xerém, Rio de Janeiro).
"...provei do famoso feijão da Vicentina/ só
quem é do pagode é que sabe que a coisa é divina..." (" No Pagode do Vavá
" Paulinho da Viola)
A cena dos três tocando juntos: o pai de Paulinho,
ele e o filho...os três fazendo música de forma tão harmoniosa, unindo as três
gerações, como eles mesmos afirmam.
"Foi um rio que passou na minha vida e meu
coração se deixou levar!" ( de Paulinho da Viola, em homenagem à Portela)
Na celebração de seu aniversário, em família,
Paulinho dança com a esposa, Lila Rabello, mostrando intensa alegria. As filhas do
músico também dançam com ele. Ali, não faltam risos nem melodias nem ritmos.
"...muito além do mero registro biográfico,
capturando um pouco da essência da tradição musical popular enraizada no Rio de
Janeiro.
Duas faces de Paulinho da Viola orientam o filme. A
primeira, bem mais conhecida, é a figura pública, o compositor e intérprete nascido no
bairro do Botafogo, em 1942.
Filho do músico César Faria ( violonista do
conjunto Época de Ouro), ele conviveu desde muito cedo com músicos como Pixinguinha e
Jacob do Bandolim. Decidiu se profissionalizar nos anos 60 e popularizou-se nos anos 70.
Integrantes da Velha Guarda da Portela ( que exerceu
sobre ele influência marcante) participam do filme, bem como artistas de outras
gerações e quadrantes............" (Sérgio Rizzo)
E como é lindo se ouvir Marina Lima e Paulinho da
Viola interpretando " Carinhoso".
Que beleza, a composição " Rua que
sonhei", de Paulinho da Viola, na voz de Amélia Rabello!
"E muita gente, se vestindo de alegria, faz de
conta que a tristeza já passou..."
Na tela, o roteiro inclui personagens de todas as
faixas etárias, embora se possa dizer que há um predomínio da Terceira Idade. Na
platéia, vê-se a admiração de todas as idades, com o predomínio dos jovens. E o
silêncio...bebendo a música, afagando nosso coração. Emocionados, sensibilizados,
esperamos que o filme não termine tão cedo.
Meu tempo é hoje? Na verdade, Paulinho da Viola
insere seu passado no presente...e o presente é o futuro! Ele está cercado das três
dimensões do tempo muito mais que hoje! O ontem e o amanhã entrelaçados ao hoje.
"Noel Rosa tinha razão o samba não é
da favela, nem da cidade vem do coração."
Para nossa tristeza, o filme vai terminar...com
Paulinho da Viola em poses diversas, sempre sorridente. Pouco antes, afirmou:
"Meu tempo é hoje. Eu não vivo no passado. O
passado vive em mim."
(Segundo o crítico Sérgio Rizzo, uma postura
pessoal, também princípio básico da obra de Paulinho da Viola.)
Com aquelas palavras, confirmando o título do
filme, encerra-se o documentário sobre o músico talentoso, uma pessoa realizada como ser
humano, fazendo da vida uma oportunidade única para compor e cantar com sensibilidade
criativa.
A platéia aplaude! Que entusiasmo! Mas como poderia ser diferente?
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária (Matéria editada em
01/09/03)

Pearl Harbor
BRASÍLIA (ABN) - "Pearl Harbor" (EUA,
2001, de Michael Bay).
Conta a história do ataque japonês, em 7/12/1941, à base
norte-americana de Pearl Harbor no Havaí... por meio de
narrativa sobre a vida de dois amigos de infância, interpretados
por Ben Affleck e Josh Hartnett.No elenco, estão ainda: Kate Beckinsale e Cuba Gooding
Jr.
São 183 minutos de ação, romance, violência, efeitos especiais,
com trilha sonora comovente.
Uma frase se destaca, pronunciada pelo estrategista do ataque
aéreo, respondendo a um elogio por seu plano militar: "Um homem realmente brilhante
teria evitado esta guerra."
Acredito que o grande valor de filmes como esse é revelar,
enfatizar todo o sofrimento causado por conflitos armados: mortes e ferimentos (físicos e
psicológicos).
A importância da amizade, as bênçãos do altruísmo e do amor
são temas marcantes em " Pearl Harbor " (ABN).
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

A
pequena Sereia
A pequena Sereia (The little mermaid - EUA,
1989 - 83 min.)
Volta ao cinema, em versão restaurada pela tecnologia digital e com
direção de John Musker e Ron Clements.
Inspirado no conto clássico de Hans Christian Andersen, é uma das
preciosidades dos estúdios Disney ( o seu 28º longa de animação). Premiado com Oscar
de melhor canção e melhor trilha sonora de Alan Meken e Howard Ashman, o filme conta uma
história romântica: uma das filhas de Netuno, a princesa Ariel, apaixona-se por Eric, um
ser humano; e troca a sua bela voz de sereia por pernas de mulher ... tudo em nome do
amor! Um desenho animado encantador... como o fundo do mar e o canto das sereias.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Os
pequeninos
Com efeitos especiais e personagens
encantadores de aproximadamente 10 (dez) centímetros de altura, "Os Pequeninos
" (The Borrowers -Inglaterra/EUA, 1997 - de Peter Hewitt-97 min.) convivem com os
humanos de dimensões normais, conscientes dos perigos que isso significa. Obedecem a dois
princípios: nunca serem vistos e somente
pegarem "emprestado " o que precisam. Os dois grupos têm
no advogado Ocious Potter ( interpretado por John Goodman) o seu inimigo desleal,
ambicioso, violento e mentiroso, capaz das artimanhas as mais desonestas.
No elenco, também está Jim Broadbent.
Há muita ação, aventura, bastante humor e suspense;clima familiar
onde os pais amam e se preocupam com os filhos;amizade corajosa.
Filme para crianças, jovens e adultos apreciadores do gênero.
Assisti ao filme no cinema. Em vídeo: Warner (ABN)
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Pequeno
Milagre
História comovente, sensível, "Pequeno
Milagre" (Simon Birch - EUA, 1998 - de March Steven Johnson) tem uma bela fotografia
e trilha sonora de qualidade. Outros destaques: direção, interpretação e roteiro.
Comédia dramática sobre o dom da amizade, é narrada com emoção
por Jim Carrey (de "O Máscara"), que aparece apenas no início e nos momentos
finais do filme.
"Simon Birch me fez acreditar em Deus." (...)
"Não preciso de provas. Eu tenho fé." (...)
"Sede fortes e valorosos, Vós que esperais no Senhor."
(...)
"O problema com você é que você não tem fé."
Joe procura identificar, encontrar seu pai, ajudado pelo amigo
Simon.
Há cenas de heroísmo e suspense.
"É morrendo que se vive para a vida eterna."(...)
"Deus tem um plano para todos nós." (...)
"Quando morre uma pessoa que amamos, nunca a perdemos de uma
vez, mas aos poucos, com o
passar do tempo".
"Ao paraíso...que os Anjos o levem". (...)
"O tempo é um monstro com o qual não se discute."
Com Ian Michael Smith e Ashley Judd, o filme tem momentos
especialmente tocantes.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

O
Pequeno Stuart Little
Comédia dramática, com suspense, ação e
gatos bem treinados, produzida pelos Estúdios Disney. Com uma encantadora trilha sonora,
além de muitos efeitos computadorizados e um protagonista realmente charmoso, "O
Pequeno Stuart Little "(Stuart Little - EUA, 1999 - de Rob Minkoff), com voz de
Michael Fox, é um filme para ser apreciado por toda a família. De modo especial porque o
tema do roteiro enfatiza os valores familiares, a tolerância na convivência, a
importância da amizade e da solidariedade.
A mensagem principal ressalta não haver "obrigação" de
amar o outro, que achamos diferente e difícil de compreender, mas precisamos respeitá-lo
como membro da família, com direito a seu respectivo lugar, no espaço que pertence a
todos os integrantes.
São intérpretes principais: Geena Davis, Hugh Laurie e Jonathan
Lipnicki.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Perdão, Cupido
Produção belga de 1992, "Perdão, Cupido" (Pardon Cupidon - de Marie Mandy-
88') foi inteiramente rodado em Bruxelas. Drama para adultos, com cenas explícitas de
sexo e diálogos pouco criativos.
Com Pietro Pizutti e Sabrina Leurquin, trata de relacionamentos sexuais liberais entre
dois jovens casais. E das conseqüências do adultério: os dias seguintes...
O roteiro leva à reflexão crítica sobre os valores e as reações humanas.
Temática principal: a traição nas relações romântico-afetivas; a maternidade como
nova perspectiva de vida.
Destaques: a fotografia; a trilha sonora; a "inclusão" da cena final de
"Os guarda-chuvas do amor" (ABN).
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária (Matéria editada em 31/07/02)

Perdido
no Espaço
Perdidao no Espaço (Lost in space - EUA, 1998
- de Stephen Hopkins - 131 min.)
Atração para todas as idades, no gênero ficção científica,
revive os temas e personagens do seriado homônimo, sucesso na TV norte-americana durante
a década de sessenta. Aventura familiar narrada com mais de 750 efeitos especiais
primorosos, tem ação, suspense, drama, humor e romance em clima contemporâneo. Nos
diálogos entre: marido e mulher (William Hurt e Mimi Rogers nos papéis do Professor e
Sra. Robinson), e pais e filhos, refletem-se problemas bem atuais de relacionamento. Tanto
os jovens quanto a esposa reclamam bastante da falta de atenção do pai; mostram-se
magoados, exigem mudanças de atitude.
Destaque para o tema das relações afetivas.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

O pianista
Com sensibilidade e realismo, o drama de
guerra " O Pianista " ( The Pianist França/ Inglaterra/
Alemanha/Polônia/Holanda - 2002 cor, scope, dolby digital - 148 min. - ), Palma de
Ouro no Festival de Cannes, demonstra as qualidades indubitáveis do diretor Roman
Polanski e lhe deu, merecidamente, os prêmios: da Academia Britânica de Artes, o César
e o Oscar 2003. Cercado por colaboradores de Andrzej Wajda, um dos mentores de sua
carreira, ele alcançou, portanto, aos quase 70 anos de idade, o reconhecimento de sua
maturidade profissional. Sua dedicação ao intérprete principal fez com que filmasse
isoladamente, durante um mês, as cenas de Adrien Brody.
Aos sete anos, Polanski experimentou as agruras do confinamento no
gueto de Varsóvia. Em campo de concentração nazista, morreram sua mãe e sua irmã.
" Quando eu conseguia deixar o gueto, acabava voltando recapturado ou por
opção minha. Não queria viver afastado ( da família)." Lutou, sem êxito, pela
permanência de todos os familiares unidos nos tempos do Holocausto. " Se alguém
salvou minha vida fisicamente, se posso dizer que alguém salvou minha vida, foi um jovem
policial. Pedi para ir em casa buscar pão, já que eu não comia há dois dias, e ele,
sabendo da minha necessidade de fuga, disse: - Vá, mas não corra."
Vencedor, também, do César e do prêmio da Academia Britânica de
Artes na categoria de Melhor Filme, " O Pianista" foi considerado o melhor
roteiro adaptado ( Oscar para Ronald Harwood, de " O fiel camareiro"). O
norte-americano Adrien Brody ( de " Além da Linha Vermelha " e " Pão e
Rosas ") recebeu o Oscar de melhor ator, precedido da premiação do César. Para o
Globo de Ouro, recebeu duas indicações (filme/ator). Fotografia ( a primeira indicação
do diretor de fotografia Pawel Edelman , de " Pan Tadeusz"), montagem e figurino
foram as outras categorias indicadas para o Oscar (um total de sete indicações para o
Oscar 2003).
O compositor Wojciech Kilar, bastante conhecido na Polônia,
valoriza, com peças de Chopin, a trilha sonora.
"Ninguém toca Chopin como você." (elogia a estudante de
violoncelo)
A história começa em Varsóvia, onde Wladek toca o " Noturno
Póstumo " de Chopin na rádio local, quando a cidade onde mora com a sua família é
invadida pelas tropas de Hitler, em 1939. O estresse provoca brigas e discussões até na
hora das refeições. A emissora é bombardeada. O irmão, vendedor e amante dos livros,
não esconde sua revolta diante das humilhações impostas aos judeus. Mas a rebeldia
mostra-se bastante perigosa, quase suicida. A BBC de Londres informa sobre a declaração
de guerra da Grã-Bretanha à Alemanha nazista. Os jornais, que só trazem notícias
ruins, são lidos com ansiedade. A invasão da privacidade prenuncia os horrores nunca
antes imaginados. A indignidade, o desrespeito como algumas das muitas provas da
insanidade humana. A fome e o que se faz para aplacar o estômago faminto. A todo momento,
luta desesperada para se manter um mínimo de dignidade. Busca-se trabalho como se fosse o
pão e a água necessários à conservação da vida.
"Fomos bombardeados. Precisamos ficar juntos."
O pesadelo se revela nos atos de violência, nas ações covardes
que atingem os judeus de todas as idades, obrigados a portar a estrela de Davi bem
visível em suas roupas. Assustados, angustiados, vivem inúmeras formas de restrições,
além de espancamentos: estão proibidos de sentar nos bancos da cidade, não podem entrar
nos cafés ou parques, nem mesmo andar pela calçada! Em caso de desobediência,
punições severas. E vem a ordem para 360 mil judeus morarem no gueto de Varsóvia,
enfrentando as mais severas condições, como a fome e a falta de dinheiro. Logo surgem os
conspiradores judeus, se agrupando, procurando aliciar combatentes.
"É uma vergonha! (...) Um absurdo!"
Em 31 de outubro de 1940, famílias inteiras são forçadas a sair
de seus lares, na capital polonesa. A realidade tem clima de incerteza e corrupção; o
sofrimento torna pesados os corações daqueles cuja existência passa a ser uma
perspectiva de morte. A dor de ignorarem o paradeiro de seus entes queridos, sobre os
quais nada mais sabem, depois que foram separados à força. À volta, crueldades de todos
os tipos, perversidades sem fim, tragédia contemporânea. As datas assinalam situações
piores, como se isso fosse possível: 15 de março, 16 de agosto de 1942, 16 de maio de
1943. As execuções diárias. As terríveis notícias sobre os trens de Varsóvia para
Treblinka. A corajosa resistência dos judeus.
"Eles estão nos exterminando. Éramos 1 milhão, agora somos
60 mil!."(...)
"Matam principalmente os mais jovens." (...)
"Enforcam quem ajudar ou tentar ajudar os judeus."
Famílias obrigadas a caminhar, famintas, conduzidas como se fossem
gado no pasto. No caos, no inferno, a importância dos entes queridos. O choro dos
órfãos; as surras impiedosas; a lama... O embarque nos trens apinhados. As
preocupações que não abandonam a mente. A penúria, a carência de tudo. Ameaças
constantes, atrocidades, agressões físicas e verbais. O medo que não pára de
aterrorizar os que nada mais têm. As tentativas de fuga levam aos "buracos para
dormir". A corajosa resistência dos judeus. A sobrevivência de Szpilman numa cidade
sob ocupação inimiga. A descoberta de um piano! Todavia, não pode ser tocado...ou
denunciará a presença de Wladek.
" A música foi sua paixão. Sobreviver foi sua
obra-prima."
O pai deWladek compra um único caramelo...tira um canivete e corta
a bala em pedaços, para oferecer a todos os membros de sua família. Que cena linda e, ao
mesmo tempo, aterradora!
"- Tem um pouco dágua? Meu filho está morrendo de
sede!"
Thomas Kretchmann ( de " U-571 A Batalha do Atlântico
") e Frank Finlay também integram o elenco dessa história real ( indicada para o
público adolescente e para adultos), adaptada da autobiografia ( " Death of the
City" ) do brilhante pianista judeu-polonês Wladyslaw Szpilman, que vivenciou, com
os seus familiares e amigos, todas as dimensões da tragédia em Varsóvia, durante a
Segunda Guerra Mundial.
"Você é um artista. Alegra as pessoas.
(...) Salvei sua vida! Vamos! Não corra!"
Merecem ser destacados, além da produção, direção,
interpretação e roteiro: temática e personagens; a fotografia, cenografia
(dolorosamente realista, autêntica: interiores e cenários externos), direção de arte,
reconstituição de época, montagem; a trilha sonora, o figurino, a maquiagem e os
créditos finais, valorizados pelo concerto emocionante, apreciado com emoção pela
grande maioria do público, como demonstra a sala esvaziada somente quando os acordes
terminam.
(Presenciei a saída de algumas pessoas que, de tão comovidas,
precisaram de ajuda para deixar a sala, esquecendo objetos como óculos; algumas,
trêmulas, em conversa com outras, no saguão, não resistiram ao choro. Encontrei um
casal de jornalistas, sendo que o marido passou vinte minutos relembrando a guerra
suas experiências e memórias - e soluçando. )
"Os Aliados desembarcaram na França."
Em troca de comida, Wladek entrega o seu precioso relógio:
"Comida é mais importante que tempo."
Quando os seus salvadores precisaram fugir para locais mais seguros,
ele ficou sem água. Como um rato encurralado, em meio à destruição, não sabe como nem
para onde fugir daquele inferno. Continuar respirando exige todos os sacrifícios,
enquanto lhe restarem forças.
O cinema não nos deixa esquecer as histórias não mais recordadas
nos jornais, nas revistas e nos outros meios de comunicação. Felizmente! É preciso
lembrar! Prometer a nós mesmos que não mais permitiremos que essas atrocidades voltem a
acontecer.
Pungente e chocante por cenas violentas que relembram a crueldade do
nazismo, "O Pianista" emociona, inclusive, nos momentos em que vemos o
reconhecimento da importância dos artistas para a sociedade. E quando lembramos os
sacrifícios de muitos, para salvar seus amigos e, sobretudo, pessoas desconhecidas, que
se viram fragilizadas e abandonadas, a depender totalmente da bondade e coragem de
estranhos.
O suspense do início ao fim faz com que os espectadores possam, de
um certo modo, compreender um pouco a tragédia da separação de familiares, o
genocídio, os aspectos sócio-econômicos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o medo,
a covardia, a omissão que permite/reforça o poder dos ditadores e sua força civil e
militar. Como sobreviver em tal cenário real de desolação, ouvindo os gritos
lancinantes e testemunhando esse quadro dantesco? Compreendendo que a sua vida está à
mercê de outrem, a todo momento?
"Sair é fácil. O difícil é sobreviver lá fora."
A solidão, o estresse dos esconderijos. A descrença, a
desesperança, a ferir o coração fragilizado.
(...) "Temos que continuar transferindo você de esconderijo a
todo momento. Os alemães agora estão matando sem discriminação, judeus e
não-judeus."
A vida muda de forma tão drástica...o desrespeito à dignidade
humana se instala e tudo se resume, para os mais fracos, a tentativas de sobrevivência.
Comer, saciar a sede, dormir transformam-se em objetivos fundamentais, diários. Passam a
ser metas difíceis, uma interrogação a cada minuto, perguntas sem respostas, problemas
sem solução. Os absurdos tornam-se rotina. As circunstâncias não têm sentido.
" Toque! Toque alguma coisa! " (O oficial alemão
lhe ordena/pede.)
Quem estaria mais emocionado? O pianista ou o militar? Este,
senta-se para ouvir a arte de um homem faminto e sedento, esfarrapado e sujo, mas ainda
assim, um pianista! A música soberana e forte, sobrevivendo às explosões e aos tiros de
canhão! E a comunicação entre seres humanos se estabelece. Ambos têm necessidades
profundas que, naquele instante, são bem diferentes. A compaixão do mais forte seria
anterior ou posterior à dádiva da música, em meio à devastação espiritual e física?
O que importa é que, naquele momento sublime, eram irmãos da mesma humanidade.
" Como posso lhe agradecer?
_ Agradeça a Deus. Ele quis que nós sobrevivêssemos."
Esse oficial alemão morreu num campo soviético, em 1952. Wladek
viveu em Varsóvia, tocando com orquestras, até 6 de julho de 2000, quando morreu, aos 88
anos.
Não se pode classificar " O Pianista ", inteiramente
rodado na Polônia, como divertimento, e sim, como obra de conscientização do que não
devemos esquecer. Para impedir que a história se repita, para vergonha de todos nós! E
lembrar, mais uma vez, que a solidariedade na dor é dever de todo ser humano.
" - Vocês me tiraram tudo que eu tinha. Levaram meu violino.
Levaram minha alma."
Como descrever o sentimento de ser salvo por alguém? Que emoção
profunda e perene (indelével!) , experimentada por quem salvou outra pessoa, arriscando a
sua própria vida!
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Os
picaretas
Comédia inteligente sobre artistas, produtores, diretores e a indústria
cinematográfica, "Os
Picaretas"(Bowfinger - EUA, 1999 - de Frank Oz - 97 min.) é divertimento garantido,
com linguagem comercial e abordando, com humor escrachado, as dificuldades para a
realização de um filme de baixo orçamento e com pessoas fora do círculo de artistas
famosos.
Steve Martin escreveu o roteiro e, com Eddie Murphy, protagoniza a história, ambos, com
muita eficiência, o que significa, fazem rir bastante.
Interpretanto um ator negro de sucesso e, ao mesmo tempo, o seu irmão simplório, Eddie
Murphy tem a oportunidade de, com os seus personagens, mostrar as fobias provocadas pelo
sucesso, assim como as suas desconfianças quanto ao tratamento diferenciado, racista, que
ele e seus irmãos de cor recebem, nos EUA, inclusive nas premiações artísticas. Sua
mania de perseguição está recebendo tratamento em uma clínica de "controle
mental".
No elenco, também estão: Heather Graham, Robert Downey Jr. e Terence Stamp.
"Bobby Bowfinger é um produtor que há anos tenta emplacar um sucesso de
bilheteria". Seu próximo filme tem tudo de que precisa para atrair multidões e
conseguir muito dinheiro nas bilheterias: ação, alienígenas, uma bela mocinha e Kit
Ramsey, " o maior astro de Hollywood. Só há um pequeno problema: o próprio Kit
não sabe que protagoniza a história."
Quando falta dinheiro, recorre-se à criatividade, a trabalhadores sem treinamento mas
dispostos a trabalhar, sonhando com o sucesso. Buscando a fama a qualquer custo, uma jovem
se faz de ingênua e vai enganando a todos aqueles que podem lhe ajudar a conquistar a
celebridade no cinema. Até o esperto diretor se deixa iludir...
O grande consolo pode ser definido com as palavras da atriz encantada pela oportunidade de
trabalhar em um filme: "Foi uma linda mentira."
Assisti no cinema, mas o filme pode ser encontrado em vídeo CIC.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Um
plano simples
História comum de ambição financeira, "Um plano simples" (A simple plan -
EUA, 1998 - de Sam Raimi - 121 min.) vai revelando como a ganância pode transformar
situações familiares e sociais, destruir vidas e relacionamentos humanos. Ou será que o
dinheiro encontrado tem o poder de solucionar problemas? E uma vida humana - tem preço?
Suspense, ação, violência. No elenco: Billy Bob Thornton, Bridget Fonda e Bill Paxton.
Destaques: tema (sempre atual), roteiro (para adultos) e fotografia; direção e
interpretação.
Assisti ao filme no cinema, mas pode ser encontrado em vídeo PlayArte.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária (Matéria editada em em
25/07/02)

Poder
Drama político, "Poder" (Power - EUA, 1986- de Sidney
Lumet - 111min.), faz uma reflexão crítica sobre o processo eleitoral, a propaganda e a
publicidade político-partidárias, e os princípios éticos.
O elenco é respeitável: Gene Hackman (de "Mississipi em
Chamas"), Julie Christie e Richard Gere como intérpretes principais.
Este filme não se destaca por qualidades técnicas ou estéticas, e
sim, pela atualidade de seu tema, ao mostrar alguns candidatos e aqueles profissionais
encarregados de "construir" a "sua" imagem pública: nos palanques,
nos meios de comunicação de massa e até no âmbito pessoal, familiar e social.
Portanto, pode ser um instrumento de conscientização do público,
de modo que provoque perguntas e a formação de uma opinião mais esclarecida porque mais
consciente da realidade política nem sempre tão transparente através das imagens e das
palavras.
Não se trata de cinema-divertimento ou cinema de experimentação
artística; todavia, recomendo essa obra para ser vista por todos, especialmente
universitários, que devem prestar muita atenção às cenas e acompanhar os diálogos com
interesse; também recomendo que seja vista mais de uma vez, para que possam apreciá-la
devidamente, aproveitando suas lições. O final é positivo e, por conseguinte, moralista
e didático, o que atende às necessidades éticas de nossa época.
"Poder" merece elogios pela seriedade de sua proposta,
como filme que contribui para uma sociedade mais democrática.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Poder absoluto
Dirigido, produzido e protagonizado por Clint Eastwood ( que também compôs temas da
trilha sonora), "PODER ABSOLUTO" (Absolute Power - EUA, 1997 - 120 min.) é mais
que um simples roteiro policial. História dramática adaptada do best-seller de David
Badalacci, une ação e suspense num contexto político e afetivo.
O elenco se destaca, igualmente, por ter, contracenando com Clint Eastwood, atores
conhecidos por sua competência, liderados pelo vencedor do Oscar de coadjuvante (em
"Os Imperdoáveis") Gene Hackman: Ed Harris, Judy Davis, Laura Lynney , E G
Marshall, Scott
Glenn e Melora Hardin.
Não se trata "apenas" de um roteiro de corrupção, mentiras ao povo,
violência contra inocentes; há traições pessoais, negligência, omissão familiar;
além dos temas da solidão e da amizade. Lado a lado de personagens inconscientes, a
trama também mostra ao público
aqueles profissionais preocupados em cumprir os seus deveres profissionais. E o prelúdio
de uma ligação romântica entre pessoas que não parecem ter se preocupado antes com
essa possibilidade, em suas vidas tão ocupadas.
Destacamos, ainda: a apresentação dos créditos iniciais, bem como a cena final; os
pequenos toques artísticos que enriquecem esse filme de formato e conteúdo bastante
comerciais; a reflexão crítica sobre a imagem dos políticos que convencem o seu
eleitorado e tudo exigem dos que com eles trabalham; as questões éticas do dia-a-dia,
inclusive os
princípios fundamentais na amizade e nas relações familiares.
Assisti ao filme no cinema, mas pode ser encontrado em vídeo Columbia Tristar.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária (Matéria
editada em 19/09/02)

Poderoso
Joe
Aventura na selva e na cidade, "Poderoso
Joe" (Mighty Joe Young - EUA, 1998 - de Ron Underwood- 114 min.) narra a história
dramática de uma jovem que viu sua mãe morrer defendendo gorilas,enfrentando com coragem
a ambição de caçadores; e cresceu fiel a seus ideais.
Com ação, suspense, humor e romance, tem como artistas principais:
Bill Paxton, Charlize Theron, Regina King e David Paymer.
O filme é apreciado pelos fãs do gênero, de todas as idades.
Destaques: a denúncia contra os caçadores e a defesa de reservas
naturais para os animais selvagens; a trilha sonora de James Horner.
Assisti ao filme no cinema, mas pode ser encontrado em vídeo (Abril
Vídeo/Walt Disney).
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Por Amor
Drama romântico e realista,
"Por amor" (For the love of the game - EUA, 1999 - Sam Raimi - 137 min.) é
protagonizado por Kevin Costner e Kelly Preston.
O roteiro tem dois temas principais: a carreira em declínio de um
famoso jogador de beisebol; e o seu relacionamento amoroso com uma profissional insegura
no plano afetivo.
Como são pessoas que vivem rotinas bem diferentes, há muitos
conflitos (não apenas de horários e compromissos).
Os objetivos existenciais não coincidem, a menos que ambos procurem
valorizar a convivência, a importância da atração recíproca e do entrelaçamento de
suas vidas.
Destaque: o processo de reflexão e conscientização sobre a
necessidade da dedicação e do empenho constante, num relacionamento afetivo-sexual.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Por uma
noite apenas
Wesley Snipes conquistou o prêmio de melhor ator no Festival de
Cannes 98, trabalhando ao lado de Nastassja Kinski e Robert Downey Jr., em "Por uma
noite apenas" (One night stand - EUA, 1997 - de Mike Figgis - 104 min.).
Drama urbano contemporâneo, aborda temas como: casamento, atração
sexual, amizade, AIDS, adultério.
Destaque para direção e interpretação.
Os acontecimentos vão demonstrar que, em muitas circunstâncias,
"por uma noite apenas" pode se transformar em algo mais presente e permanente do
que alguém imaginaria, provocando mudanças nos relacionamentos antes considerados
sólidos.
Assisti ao filme no cinema, mas pode ser encontrado em vídeo
(Warner).
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Prenda-me
se for capaz
Dirigido e co-produzido por Steven
Spielberg, " Prenda-me se for capaz " (Catch me if you can EUA, 2002
cor, scope, dolby - 141 min.) conta a história de Frank Abagnale Jr., consultor do
filme, com roteiro inspirado em seu livro autobiográfico. Ótima diversão para
adolescentes e adultos, tem como protagonista um jovem nova-iorquino que, durante três
anos (de 1964 a 1967), antes de completar 19 anos de idade, já era procurado pelo FBI,
por falsificar cheques, dando golpes de milhões de dólares, assumindo identidades
falsas...e conseguindo escapar da polícia. Descontou quatro milhões de dólares em
cheques falsificados! Atravessou os EUA, aplicando roubos e fraudes milionários, falando
mentiras, com atitudes desonestas, mas despistando os policiais. Mestre na arte do
disfarce, com apenas 17 anos se tornou um dos maiores falsários na história dos EUA.
"As pessoas só sabem o que dizemos a elas." (Frank
Abagnale Jr.)
Esclareço aos pais e professores, psicólogos, orientadores
vocacionais e pedagogos, que não se trata de mais um filme sobre a ambição e o crime
premiados com a impunidade. Muito pelo contrário. É admirável como essa produção
mantém o interesse do público, em clima de suspense, ação, romance, humor e drama até
o fim, mesmo revelando, logo no início, que a lei alcançou o delinqüente, colocando-o
atrás das grades. Foi detido pela primeira vez na aldeia francesa de sua mãe,
MontRichard, no Natal de 1967, quando foi convencido pelo investigador do FBI, Carl
Hanratty, a se render voluntariamente.
Nas primeiras cenas, ele está numa prisão em Marselha, França, no
Natal de 1969. No dia seguinte, o policial conseguia trazer o jovem prisioneiro para os
EUA, onde foi condenado a 12 anos em prisão de segurança máxima e isolamento.
" Não posso parar ( de lhe perseguir). É o meu
trabalho." (diz-lhe o policial)
Destaques: temas (bem atuais!) e personagens; produção, direção,
interpretação ( Leonardo DiCaprio, Tom Hanks, Christopher Walken e Martin Sheen);
roteiro (Jeff Nathanson), fotografia (Janusz Kaminski) , trilha sonora; figurino (Mary
Zophres); cenários que recriam o final da década de 60; montagem( Michael Kahn);
apresentação criativa, divertida, dinâmica e original, dos créditos iniciais,
valorizados de forma espetacular por imagens e sons ; início e desfecho do filme.
Sobre a beleza dos créditos iniciais:
"(...) animação que transporta os espectadores ao passado de
comédias despretensiosas e é pontuada pelo jazz progressivo composto por Williams,
inspirado nas orquestrações de Henry Mancini que dominaram o cinema americano nos anos
60 (sic)." (Marcelo Rossi, Correio Braziliense)
Indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante (Christopher Walken,
intérprete de Frank Abagnale Sr., investigado por fraude contábil) e trilha sonora (John
Williams, que reuniu suas partituras originais e sucessos de Frank Sinatra ), "
Prenda-me se for capaz " em nenhum momento se mostra apelativo, nem violento,
inclusive abordando com discrição as temáticas do adultério conjugal, alcoolismo e
divórcio.
"- Você mentiu! (Frank Jr.)
- Às vezes, uma mentira ajuda a viver. Você entende bem
disso." ( Carl )
Entre os aspectos da vida pessoal de Frank Abagnale Jr. e do
investigador do FBI, Carl Hanratty (Tom Hanks), o mais pungente é a questão da
importância da família, cuja ausência pode se transformar em condição traumática na
vida de qualquer ser humano. O drama emocional de ambos está exposto na narrativa de
forma inequívoca.
Seja como advogado (assistente de promotor público!), luterano (em
família luterana), co-piloto de empresa área ou médico-residente (pediatra!), o
personagem principal é muito bem interpretado e com charme, aliás, exigido pelo
papel por Leonardo DiCaprio. Como professor de francês substituto, o jovem se vê
enfrentando a descortesia de alunos indisciplinados... Entre os jovens de Atlanta,
Georgia, ganha popularidade. E como sabia elogiar as mulheres!
Assistindo a programas e seriados de TV, Frank aprendia o
vocabulário específico para seu desempenho em profissões diversas que, na realidade,
não exercia.
Na década de sessenta, Frank Abagnale Jr., um adolescente normal,
morava com seus pais em New Rochelle, Nova York. Até que a vida muda completamente, numa
reviravolta provocada pelas dificuldades pessoais e financeiras dos adultos que lhe eram
mais próximos e aos quais dedicava seu amor de filho. O pai, agraciado com a Medalha de
Mérito do Rotary Club, perde os bens familiares, entre os quais a casa e o carro, por
causa de seus problemas com a Receita Federal.
"Vou casar. Vou reaver tudo que tiraram de nós." (Frank
Abagnale Jr.)
Pai e filho se tratavam com muito carinho. Mais tarde, o jovem Frank
oferece ao pai, graças ao êxito de suas fraudes, um carro novo, insistindo, ainda, para
que ele tente recuperar a esposa (interpretada pela atriz francesa Nathalie Baye). Quando
o advogado lhe dissera, na ocasião do divórcio, que deveria escolher com quem viver
seu pai ou sua mãe Frank Jr. se mostrara transtornado. Suas cartas ao pai
eram freqüentes, esperançosas e bastante afetuosas.
"Jamais denunciarei o meu filho. Se você tivesse filho, você
o denunciaria?"
O promotor de justiça (Martin Sheen) a quem o charmoso delinqüente
pediu a mão da filha, percebe a situação.
" - Não sou nada, não sou ninguém. Sou apenas um rapaz
apaixonado por sua filha.
- Não, você é um romântico como eu."
Observando a vida familiar de Brenda, o jovem trapaceiro se
lembrava, de forma carinhosa, mas melancolicamente, de seus próprios pais. O advogado e a
esposa lavavam os pratos juntos, após o jantar; conversavam, cantavam hinos luteranos.
Em sua festa de casamento, diz à noiva:
"- Não quero segredos entre nós. Nem mentir para você. Não
sou médico, não sou advogado, não sou luterano. Não tenho 28 anos." E combina
encontrar-se com ela no aeroporto, dali a dois dias. Cumpriria sua palavra a Brenda, se
não encontrasse mais de cem policiais esperando por ele.
O jovem falsário decide viajar pela Europa. O investigador do FBI,
alvo das brincadeiras de seus colegas, por conta do insucesso de sua perseguição
implacável, ouve observações como:
" _ Se você, Carl, não o pegou aqui, não pegá-lo na
Espanha."
O policial vai demonstrar uma capacidade enorme de compreensão,
reconhecendo as circunstâncias do falsário adolescente e, apesar de ter sido enganado e
humilhado por ele, dispõe-se a enfrentar todas as dificuldades para lhe estender a mão,
confiando em Frank Jr., quando ninguém mais se importava com a sua vida. Agiu assim
olhando para o ser humano, sem esquecer a habilidade demonstrada pelo jovem impostor, o
que o qualificava para identificar fraudes de todos os tipos.
" Como você fez para ser aprovado nos exames de
Advocacia? O que fez para colar? Outra pessoa fez as provas em seu lugar? (Carl insistia
em saber...)
- Eu não colei. Estudei e passei!." (Frank Jr.)
O final do filme, a leitura dos créditos finais, registrando as
vitórias da amizade, do amor e da capacidade humana de realizar o seu
potencial...deixaram-me profundamente comovida: que história maravilhosa!
Nas palavras de Steven Spielberg: " Mostra que podemos
transformar nossas vidas e sermos uma pessoa melhor."
Embora eu estivesse lacrimosa, meu coração saiu cantando da sala
de cinema, entoando silenciosos hinos de aleluia.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

À
primeira vista
Uma bela e realista história de amor,
inspirada em fatos verídicos narrados por um médico, "À primeira vista" (At
first sight - EUA, 1998 - de Irwin Winkler- 126') é protagonizada com muita sensibilidade
por Mira Sorvino e Val Kilmer.
No papel da irmã protetora, está Kelly McGillis.
"Se eu não sentir, se eu não tocar uma coisa, ela não existe
para mim."
O drama de um rapaz cego desde os três anos de idade e seu encontro
com uma arquiteta nova-iorquina, que provoca alegrias e conflitos, além de situações
difíceis, requerendo coragem para assumir atitudes e sentimentos.
"Ver não depende dos olhos, mas do coração. É conhecer o
real que existe em você, o real nos outros e na vida".
Destaques: temas; roteiro com diálogos interessantes, inteligentes
e sensíveis; fotografia, trilha sonora; as lições de convivência e realização
pessoal, para cegos e não-cegos.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

O
principal suspeito
Refilmagem realizada pelo diretor dinamarquês
da primeira versão cinematográfica, "O Principal Suspeito" (Nightwatch, EUA,
1998 - 106' - de Ole Bornedal) agrada aos fãs de suspense/drama policial, oferecendo os
atrativos do gênero desde a primeira cena (muito angustiante, violenta!).
O elenco se destaca: Ewan MacGregor, Patrícia Arquette e Nick
Nolte. Os momentos de maior susto, na verdade, não são os de violência explícita, e
sim, aquelas cenas inteligentes, criativas.
Assassino serial desafia a polícia da cidade. Um estudante é
apontado como suspeito depois que passou a trabalhar como vigia noturno em um necrotério.
A trama enfatiza a imaturidade de jovens adultos, inconseqüentes em
suas atitudes; ressalta, igualmente, a coragem da amizade e do amor; e o grande desafio -
amadurecer, viver a vida entre os entes queridos.
Assisti ao filme no cinema, mas pode ser encontrado em vídeo
(Paris/Lumière).
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

O Príncipe do Egito
Durante quatro anos, mais de 350 artistas,
animadores e técnicos de 35 países trabalharam para realizar o desenho animado "O
Príncipe do Egito" (The Prince of Egypt - EUA, 1998 - 99') de Brenda Chapman e Steve
Hickner).
Ação, suspense, humor, romance.
Diversão para todas as idades, a narrativa bíblica tem Moisés
como protagonista, mostrando a sua história desde a infância, e com algumas seqüências
realmente emocionantes, cenas belíssimas e muitas canções.
A qualidade visual agrada bastante aos adultos, que acompanham a
saga do líder hebreu apreciando, também, a dublagem de atores famosos, como:
Val Kilmer (Moisés), Ralph Fiennes (Ramsés), Michelle Pfeiffer (
Zípora, a esposa de Moisés), Danny Glover (Jetro), Sandra Bullock (Miriam), Jeff
Goldblum (Aarão) e Steve Martin (Hotep).
O afeto que une os dois irmãos - o líder que conduziu os hebreus
à Terra Prometida e recebeu, de Deus, os Dez Mandamentos; e o poderoso faraó Ramsés -
enfrenta os conflitos de suas origens e missões diferentes.
* O design dos personagens segue uma linha mais realista que na
maioria dos desenhos animados, apresentando uma distinção visível entre os traços
fisionômicos simétricos e angulosos dos egípcios e os mais característicos dos
hebreus. O cenário de "O Príncipe do Egito" foi dividido em dois mundos
principais: o "majestoso império, talhado em pedra com ângulos afiados e bem
definidos, e o pequeno ambiente dos hebreus, feito com tijolos de barro."
(...)Você não pode ver como o homem vê...(...) Olhe com o olhar
do céu".
(...)
"... o poder da oração".
Ralph Fiennes e Michelle Pfeiffer cantam com a sua própria voz.
Há no filme milhares de "extras" animados por meio de
inovações digitais admiráveis que, por computador, foram criados para seqüências
impressionantes como a do Êxodo e a passagem pelo Mar Vermelho. Apenas o Epílogo mostra
mais de 146.000 pessoas.
Stephen Schwartz (de "Pocahontas" e "O Corcunda de
Nôtre-Dame") escreveu as seis canções originais e Hans Zimmer (de "O Rei
Leão", "Rain Man" e "Melhor é Impossível") compôs a trilha e
fez os arranjos para as canções. A música é utilizada como instrumento narrativo.
Destaques: pesquisa histórica, arquivológica e arqueológica; a
participação da Orquestra de Londres (London Orchestra); a montagem; o roteiro; as
cores; os efeitos especiais; a citação, encerrando os créditos finais, de versículos
da Bíblia e do Alcorão.
Ação, suspense, humor, romance.
(...)"Milagres são reais. Milagres acontecem quando você
crê.
(...) Milagres acontecem se você quiser."
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Príncipes
e princesas
Desenho animado realmente criativo, prazeroso para crianças, adolescentes e adultos
(sejam estes, leigos ou profissionais da área de educação), " Príncipes e
Princesas" - Princes et Princesses - França, 1999 - 80 min.) tem roteiro e direção
de Michel Ocelot, autor dos 6 (seis) contos narrados (em linguagem lírica encantadora)
por este belo filme.
Original, engraçado e romântico, traz silhuetas dinâmicas, em jogos de sombras e luz,
que se despejam nos fotogramas de belas cores e sons atraentes. Como na linda cena das
formigas-vagalumes, transformando o cenário numa deslumbrante experiência visual.
" - Mas não há personagem para mim!
-Ora, seja criativa! Escolha um papel e faça dele um personagem feminino."
Os diálogos - muito interessantes - revelam a aplicação da técnica de RPG
("role-playing games" ), onde os participantes exercem a sua decisão pessoal ao
colocarem, nas histórias, uma perspectiva individual, fruto de sua própria inspiração,
que vai guiar o processo de desenvolvimento da trama e do comportamento dos personagens.
" - Príncipe, você me ama?
- Sim!
- Por quanto tempo?
- Para sempre!"
Destaques de " Príncipes e Princesas": produção, roteiro, direção,
fotografia, montagem, trilha sonora (Dolby); direção de arte, cenografia, figurinos e
adereços nos desenhos; movimentação das figuras; a pontuação musical das histórias;
as passagens de um conto para outro; a transmissão de emoções.
"- E sonhe com os figos!
-Prefiro sonhar com rainhas..."
O fio condutor da narrativa é o trio de protagonistas: uma garota, um menino e um velho
técnico desempregado, que incentiva os jovens a encenarem peças de teatro, exercendo
suas fantasias de forma fantástica, inclusive procurando textos encontrados em
bibliotecas.
Entusiasmados, eles se transformam em herói e heroína dessas histórias, que interpretam
com bastante criatividade. Como personagens das dramatizações, viajam no espaço e no
tempo, para diversos países, em diferentes épocas históricas . Os contos têm humor e
poesia, além da sagacidade dos protagonistas.
A narração da época medieval envolve estratégias, uso de instrumentos e armamentos; e
a manipulação de situações. O rei promete dar a mão da princesa em casamento para o
homem que for suficientemente corajoso para entrar na fortaleza onde vive a bruxa...e
conseguir matá-la.
Enquanto os candidatos à recompensa logo se lançam ao ataque, o herói aguarda,
afirmando:
"Ainda não estou preparado: estou pensando. (...)
Continuo observando...ainda não estou preparado para entrar e enfrentar a bruxa.(...)
Deveríamos conquistar o castelo, e não, destruí-lo."
Quando ele resolve deixar seu posto de observação, a estratégia vitoriosa é perguntar:
" - Posso entrar?
- É o primeiro que pede permissão para conhecer este meu castelo. Quer entrar?
- Sim!
- Seja bem-vindo."
A bruxa lhe mostra, gentilmente, com muito prazer, a biblioteca, a oficina, os seus
jardins. E, para surpresa de todos, o herói comunica ao rei a sua decisão...
Logo após o desfecho dessa história, o público é brindado com uma pausa, recebendo o
convite para conversar um pouco durante um minuto.
" O filme apresenta um universo de elegantes e encantadoras figuras que deslumbram
espectadores de todas as idades, mostrando a beleza do Antigo Egito, a poesia da arte
japonesa, o romance na Idade Média e os prodígios do ano 3000."
Nos vários países, cenários das narrativas, os personagens se movimentam de acordo com
as suas culturas, reveladas, também, por suas músicas.
No Japão do século XIX, a senhora idosa faz uma pergunta bem perturbadora ao assaltante
que pretendia lhe roubar o precioso casaco:
"- E você usa a sua força para fazer o bem?" (...)
A velhinha se recusa a descer das costas do homem ameaçador. Esperta, mostra que pode
estrangulá-
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