O incapaz
Drama familiar, psicológico e
sócio-econômico sobre a rotina de dificuldades vivida por um homem, sua esposa e seu
filho, "O incapaz" (Japão, 1991 - 107'- de Naoto Takenata), enfatiza com
pungência a solidão dos três personagens principais, em sua individualidade.
Com Naoto Takenata, Jun Fubuki e Kotaro Santo, inspira-se nas
histórias em quadrinhos de Yoshiharo Tsuge.
Destaques: direção, interpretação e roteiro.
Como parábola, mostra os riscos e a pressão experimentados pelas
pessoas que resistem à sociedade competitiva.
Quando tudo parece indicar uma próxima desagregação do núcleo
familiar, a solução para a vida em comum vem da aceitação do potencial de cada um,
como ser humano.
E eles se dão as mãos para caminhar harmoniosamente, juntando suas
forças, lado a lado enfrentando os infortúnios...sem desistir de sua luta, sobrevivendo.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária
(Matéria Editada em 16/08/03)

Inteligência
Artificial
" - Ele é só um brinquedo", diz o marido
à esposa, que responde:
" - Não, ele é um presente. Um presente de você."
Filosófica, existencialista e muito perturbadora, a ficção científica
"Inteligência Artificial" (A.I. Artificial Intelligence - EUA, 2001 - 146
min.), de Steven Spielberg (diretor, roteirista e co-produtor), tem o dom de nos levar à
reflexão sobre o "desenvolvimento" da ciência e as questões fundamentais de
nossa condição de seres humanos.
Há cenas de violência (inclusive, agressividade e crueldade como formas de diversão)
e sexo que podem ser consideradas chocantes, sobretudo para crianças.Em atmosfera
sinistra, encontramos uma profecia bem pessimista sobre o destino da humanidade.
No elenco, se destacam: Haley Joel Osment (de "O sexto sentido" e "A
corrente do bem"), Jude Law ( o robô-gigolô), Frances O´Connor, Sam Robarts e
William Hurt.
"Se um robô for capaz de amar, os humanos poderão amar esse robô? É uma
questão moral." (...)
Afinal, na disposição para amar, insere-se, também, a exigência natural do amor. E
o sofrimento vivido nos tempos de crise, por causa dos desencontros sentimentais. As
dificuldades da convivência familiar, social e interpessoal.
"Um robô que não adoecerá, nem mudará." (...)
O sucesso do personagem gigolô expõe as relações sexuais em suas exigências e
diferenças de comportamento, o realismo versus o romantismo.
"Não me referi a sensualidade, e sim, a amar."
Destaques: temas e personagens; produção; trilha sonora de John Williams; fotografia
(inclusive, fotografia submarina);efeitos especiais; e o prólogo, terrivelmente
instigador...A humanidade dispõe de recursos escassos. O controle de natalidade faz-se
com severidade, de forma ditatorial. As calotas polares derreteram e as metrópoles foram
destruídas.
"Proponho construirmos robôs capazes de amar." (...)
Entre as reações negativas ao filme estão: seria longo demais, sentimentalóide,
repetitivo e melodramático.
Minha posição é outra: como não se trata de um tema superficial, a maior duração
facilita a análise crítica interior, íntima. Ir ao cinema para assistir a uma obra
desse tipo requer uma programação sem pressão de horário. A repetição mostra-se
didática, enfática quanto aos pontos essenciais ou que devem ser destacados no roteiro.
Drama lírico desenrola-se poeticamente, pleno de metáforas e mistérios. Os sentimentos
são a meta dos processos de sensibilização da humanidade. Não podem ser demais.
Precisam, somente, abrir espaço, também, para a racionalidade. Uma convivência de
maturidade! Filmes têm objetivos diferentes, criando uma proposta diversificada.
"Parece muito real por fora.Mas, por dentro, não é real."
David, o robô-menino, ouviu da mãe adotiva a história de Pinóquio, encantando-se a
tal ponto com o protagonista da fábula, que escolhe, com determinação, o seu maior
sonho: "Tenho de me tornar real." Inicia, então, uma busca desesperada para
encontrar a Fada Azul, que transformou o brinquedo de Gepeto em garoto de verdade e
poderá, igualmente, lhe dar a tão sonhada humanidade.
Ele deseja tornar-se um menino de verdade porque ama sua mãe adotiva, Mônica. Também
para ele, a palavra "mamãe" tem significado especial, um som mágico, de
acalanto. Não aceita sua condição de máquina. Almeja ser gente.
"Se eu me tornar real, poderei voltar. E minha mãe voltará a me amar."
O robô-criança, misturando fantasia e realidade, imagina que sua mãe adotiva,
incapaz de ver defeitos no filho verdadeiro, o acolherá como se ele fosse mais um filho,
igual ao que ela ama por ser de carne e osso, fruto de seu ventre. David sempre pede
"me proteja, me proteja" e busca o afago de outra mão, a segurança
proporcionada pela proximidade do ser amado ou, simplesmente, de outra pessoa (um robô
também lhe serve...).
"Este é especial. Muito amor foi colocado nele. Você é unico, sabe,
David?"
Mas o pequeno robô já estava bastante chocado, com a surpresa de encontrar tantos
meninos iguais a ele.
Steven Spielberg revelou que, na década de 80, "Stanley Kubrick contou-me
confidencialmente uma linda história impossível de esquecer. Acho que foi a cuidadosa
mistura de ciência e humanidade que me deixou ansioso para ver quando Stanley a contaria
e, depois que ele se foi, de me fazer querer contá-la para ele."
"Deus criou Adão para amá-LO."
Kubrick já havia prometido a direção para Steven Spielberg desde 1994. Para garantir
a fidelidade ao projeto, Spielberg escreveu o roteiro, como fez em "Contatos
Imediatos do Terceiro Grau" (1977).
Inspirado em conto de Brian Aldiss publicado na Harper´s Bazaar, em 1969, recentemente
editado no Brasil, na coletânea "Superbrinquedos duram o verão inteiro", o
clima sombrio e assustador do filme relembra, em diversos momentos, o seminal "Blade
Runner - Caçador de Andróides" (1982), de Ridley Scott, assim como "Gattaca- a
experiência genética" (1997), de
Andrew Niccol, com Ethan Hawke e Uma Thurman nos papéis principais (e uma fotografia
deslumbrante).
"Só os humanos acreditam no que não vêem."
Essa referência à fé religiosa soma-se à questão da incredulidade.
" - Vejo a lua.
- Ela é real?
- Não sei."
Algumas perguntas de David são bem características da mente infantil. Quando não
compreende uma ordem, ou as circunstâncias parecem confusas, ele indaga:
"É brincadeira?" (...)
"Você vai morrer? Quando?" (...)
"Cinqüenta anos é muito tempo?"
Os homens invejam o robô, têm ciúme de sua humanidade artificial.Escondem-se atrás
de armadilhas, têm atitudes não-éticas.
"Só os iguais a você lhe dão segurança. Não vá por ali, ou vão
destruí-lo."
(...) "Eliminem os robôs." (...)
"Tem certeza de que não é humano? Não quero outro incidente como o de
Trenton."
Em muitas situações, somos cruéis e, contemplando a realidade de uma perspectiva
superficial, nem percebemos a crueldade das crianças ciumentas ao extremo. Chegam a fazer
e a ensinar atitudes erradas; criam situações com potencial de conflitos geradores de
julgamentos injustos.Somos capazes de usar os outros como objetos. Muitas vezes, quando
atingimos nossos objetivos, sem hesitar, livramo-nos de nossas "coisas", jogamos
fora os instrumentos, consideramos tudo descartável e adotamos outros "meios"
aparentemente mais eficazes.
"Se foi criado para amar, é razoável supormos que o robô pode odiar."
David e o gigolô Joe são personagens que colocam na tela a oportunidade de um debate
ético sobre assuntos atuais: biotecnologia, cibernética, a interação familiar e
social, as relações sexuais.
"Depois que você fizer amor comigo, nunca mais desejará estar com um homem
(real)."
E lhe diz frases maravilhosas, elogiosas e poéticas.
Ao término do filme, o questionamento permanece para nós:
"É brincadeira?"
Ouso responder, com o coração na mão: É real.