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Babe
- o porquinho atrapalhado na cidade
Em clima de fábula surrealista, "Babe: o
porquinho atrapalhado na cidade" (Babe- Pig in the city - EUA, 1998 - 96'- de George
Miller) mostra que, ao precisar enfrentar os muitos perigos urbanos, o animal doméstico
que tem "vocação" para ser cão pastor vê-se à volta com cenários
desconhecidos, onde tudo dá errado...
Com Magda Szubanski e James Cromwell (intérpretes do primeiro filme, o premiado
"Babe, o porquinho atrapalhado"), é diversão para todas as idades,
proporcionando momentos de ação, suspense, humor e, lamentavelmente, violência.
Destaques para: trilha sonora, efeitos especiais.
Assisti ao filme no cinema, mas pode ser encontrado em vídeo CIC.
Theresa Catharina de Góes Campos, colaboradora da ABN, é
articulista, escritora e professora universitária

Baile Perfumado (Brasil, 1996)
De Paulo Caldas e Lírio Ferreira, "Baile
Perfumado"(Brasil, 1996)mostra, em 93 min., a realidade sangrenta do cangaço,
registrada em clima de violência onipresente,ação, suspense.
A novidade do roteiro, se comparado às outras obras de tema semelhante, está no
resgate histórico do trabalho cinematográfico do mascate libanês Benjamim Abraão, o
único que conseguiu filmar Lampião e o seu bando, em momentos de luta e, também, nas
suas ocasiões de lazer.
Com: Duda Mamberti, Luís Carlos Vasconcelos, Chico Diaz, Cláudio
Mamberti.Participação especial de Jofre Soares.
Os cenários naturais são fotografados de forma emocionante, incluindo travellings
belíssimos.
Destaque para a produção, o tema, a fotografia e a mensagem da persistência
profissional do personagem Benjamim Abraão.
Nas cenas finais, um ótimo (apesar de breve) diálogo sobre a importância e
possibilidade de contribuirmos, com as nossas ações e nossa determinação, para
"mudar o mundo".
Assisti ao filme no cinema, mas pode ser encontrado em vídeo Sagres/Rio Filme (ABN).
Theresa Catharina de Góes Campos,
colaboradora da ABN, é articulista, escritora e professora
universitária

O Balão Branco
Prêmio Câmera de Ouro no Festival de Cannes de 1995, "O Balão Branco"
(Badkonake Sefid - Irã -1995 - 90 min. - de Jafar Panahi) traz a nosso coração a imagem
de uma criança que não desiste de seu propósito, apesar de todas as dificuldades que
encontra em seu longo caminho. Sem aceitar os "nãos" dos adultos; persistente,
mesmo quando ignorada e rejeitada - e até ludibriada - ela supera as lágrimas...fazendo
de sua fragilidade, a sua força incansável. Para a menina, desistir é inaceitável!
Protagonistas deste filme, premiado internacionalmente: Aida Mohammad Khani e Mohsen
Khalifi.
"Na véspera do Ano Nova iraniano, a menina Razieh deposita suas esperanças na
compra de um peixinho dourado. Convence a mãe a lhe dar suas últimas economias, mas
perde o dinheiro no mercado, iniciando uma busca singela, com muita fé, pelas ruas de
Teerã."
No lago artificial de sua casa, há peixinhos dourados, insiste a mãe da criança.
Entretanto, Razieh quer outro peixinho dourado: o que vai comprar na cidade.
Acompanhando a garota, vemos uma sociedade insensível... neste drama urbano
contemporâneo, onde conhecemos os preconceitos da comunidade tradicional iraniana, que
não poupa nem as crianças do sexo feminino, muito menos as mulheres. Só têm deveres e
nenhum direito, ainda que sejam esposas e mães devotadas.
Destaques: direção, roteiro e interpretação da protagonista; fotografia: temas e
personagens; e o silêncio que fala, grita, expressa o sofrimento profundo e solitário.
Assisti ao filme no cinema, mas pode ser encontrado em vídeo United Films.
Theresa Catharina de Góes Campos,
colaboradora da ABN, é articulista, escritora e professora
universitáriaprofessora universitária

Blade
Runner - o caçador de andróides
(Atenção: meus comentários se referem à primeira
versão conhecida pelo público- e preferida por mim-, adaptada/enriquecida com a
narrativa de Harrison Ford, e o belíssimo travelling final, além de menos pessimista;
portanto, não trato, aqui, da versão original do diretor.)
Gênero: ficção científica (história policial, com suspense e ação; reflexão
sobre engenharia genética; filosofia e romance!). Filme especialíssimo, sucesso no
cinema, nas locadoras de vídeo, entre os críticos, nas pesquisas de opinião e nas lojas
de discos (trilha sonora), "Blade Runner - o caçador de andróides (Blade Runner -
EUA, 1982 - 125'- de Ridley Scott, com música original de Vangelis) é uma obra-prima de
imagens, sons e palavras. Cinema em toda a sua beleza plástica. Uma aula de
cinematografia e de reflexão crítica sobre a vida: ontem, hoje e amanhã.
Com ação e suspense característicos de histórias policiais, este filme seminal é,
não só uma linda narrativa romântica, mas um debate filosófico íntimo sobre a
importância dos sentimentos e das emoções.
Em Los Angeles, em pleno século XXI, um ex-policial (afirmando "não querer mais
matar...") vê-se obrigado a perseguir e aniquilar cinco andróides ou replicantes
que, de tão perfeitos, são quase impossíveis de se distinguir dos seres humanos.
"Surpreendente pelo seu toque trágico e existencial", foi indicado para o
Oscar de 1983, na categoria de efeitos especiais.
Trata-se de um filme de alta qualidade, pois exige do público uma atitude positiva de
questionamento em nível superior e até de pós-graduação. A magia de suas imagens, o
mistério de suas perguntas fundamentais sobre a existência humana e, sobretudo, a
excelente combinação forma-conteúdo (cenas criativas, sonoplastia atraente,
interpretação comovente, diálogos marcantes, a beleza dos momentos de amor), tudo,
enfim, nesta obra, justifica o cinema admirado como arte e instrumento permanente de
conscientização.
Apesar das cenas de violência, é um filme pró-vida, pró-sentimentos; a favor da
solidariedade e do amor. Inspirado no romance homônimo (Blade Runner) de Phillip K. Dick
(a quem foi dedicado, in memoriam).
"Não sei por que ele me salvou. Talvez porque, nos últimos momentos, ele amasse
a vida mais do que nunca. Não somente a sua vida. A de todos. A minha vida".
Do diretor inglês Ridley Scott ( o mesmo de "Alien", "A Lenda",
"Os Duelistas", "Perigo na Noite", "Chuva Negra" e
"Thelma e Louise"), eis uma obra cinematográfica para ser vista e apreciada
(partilhada e amada) muitas e muitas vezes. Uma advertência sobre o "progresso"
científico. Uma discussão sobre valores morais, sociais e individuais, a ser debatida no
íntimo de cada um. Um grito de alerta sobre um "futuro" bem próximo de nós,
em que a "ciência", ignorando os sentimentos e a consciência individual, se
mostra desumana, desenfreada e lucrativa. Aliás, a mensagem maior está, principalmente,
na salvação pelo amor, que vence todos os obstáculos, as dúvidas e a violência. Que
filme espetacular! E achamos mais espetacular - e intrigante- a cada vez que o repetimos!
Se eu só pudesse escolher um único filme para exibir e debater, eu escolheria
"Blade Runner"... apesar de conhecer dezenas de outros filmes mais bonitos, mais
interessantes e agradáveis de se assistir. Escolheria o "Caçador de
Andróides" porque "mexe" com a nossa cabeça e desencadeia o pensamento
filosófico, fazendo-nos refletir sobre temas essenciais e sempre atualíssimos. Na minha
opinião, a cada dia que passa, a mensagem de "Blade Runner" será cada vez mais
significativa e urgente.
No elenco, estão: Harrison Ford (da trilogia "Guerra nas Estrelas",
"Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida", "A Testemunha",
"Uma Segunda Chance", "A Costa do Mosquito", "Busca
Frenética", "Jogos Patrióticos", "Secretária do Futuro",
"O Fugitivo", "Seis Dias, Sete Noites" e outros); Sean Young
("Duna", "Sem Saída", etc.); Ruthger Hauer ("O Feitiço de
Áquila", "A Conquista Sangrenta", "A morte pede carona",
"Os Falcões da noite", etc.); Daryl Hannah ("Roxanne", "Wall
Street", "Brincando nos campos do Senhor", etc. ).
Mas, afinal, o que nos diz este filme perturbador, inquietante e envolvente, a nos
sacudir da cabeça aos pés, de dentro para fora e do exterior ao mais profundo de nossa
alma?
Nenhum engenho, por mais aperfeiçoado que seja, pode substituir o ser humano. Se a
"substituição" ocorre, o que aconteceu com o ser humano?! Os sentimentos, as
emoções constituem a característica mais humana, o sinal identificador que nos
diferencia das máquinas e de outros seres diversos.
Vivendo, quotidianamente, com a angústia e o medo, as circunstâncias de nossa
mortalidade, descobrimos que a vida se nos apresenta como um recinto sombrio, tenebroso,
artificial e violento; e perdemos o entusiasmo pelo cotidiano e até mesmo a vontade de
agir profissionalmente; e nos isolamos; e recorremos à bebida, aos diálogos insinceros,
desistindo de entabular uma conversação que valha a pena ser começada.
Nesse contexto tão aterrador, de repente, a amizade e o amor se revelam como eventos
absolutamente extraordinários e, sobretudo, redentores,
porque a sua força, suave, afetuosa tem o potencial de nos resgatar da inércia e da
solidão, transformando a nossa existência, por mais deprimente que a situação nos
pareça, libertando-nos das restrições que nos amarguram.
E a amizade e o amor, assim como a verdade, nos libertam e nos conduzem mais alto, a
paisagens onde reina a esperança das árvores. Amando e confiando, somos capazes de
enfrentar as perguntas que antes não ousávamos formular, mas que devem ser colocadas
diante de nós, seres humanos e, portanto, capazes de perguntar, escolher e AMAR.
Que pode existir de mais precioso e criativo do que a vida? No entanto, como viver sem
a presença do ser amado? E como é difícil se aceitar a morte! Principalmente, a morte
de quem amamos acima de tudo e de todos...
E a pergunta volta a nos incomodar, a nos inquietar: que existe de mais precioso ou
superior à vida? A amizade; o amor... pois há momentos decisivos, transfiguradores de
nossa existência, em que tais sentimentos se revelam com tal poder e sinceridade que a
morte não mais assusta... e a vida, tão preciosa, é oferecida,consciente e
voluntariamente, com amor e convicção, em troca da vida de outrem.
Antes de se iniciar uma "caçada a andróides", é preciso ter coragem de
empreendermos uma caçada ao íntimo de nós mesmos e, conhecendo a nós mesmos, em toda a
dimensão do ser humano, chegamos, afinal, a compreender, à luz da reflexão, a
diferença fundamental entre andróide e pessoa humana: o amor é, antes de tudo, um ato
de fé e coragem.
Assisti ao filme, várias vezes, no cinema, mas a obra também pode ser encontrada em
VHS e DVD, na versão integral de 171min. - Warner (ABN).
Theresa Catharina de Góes Campos,
colaboradora da ABN, é articulista, escritora e professora
universitária

Boa
noite e boa sorte
Usando estilo narrativo e formato documental, o filme atualíssimo, embora não-comercial,
"Boa noite e boa sorte" registra, com elevado senso de responsabilidade, um momento histórico que merece ser estudado, em todas as suas implicações, no contexto de sua época e nos dias de hoje, por abordar as ameaças aos princípios de liberdade pessoal, quanto ao direito de pensar e ter idéias próprias (mesmo divergentes da maioria ou de grupos agressivos), fundamentos filosóficos, democráticos e universais, que devem nortear uma civilização.
"Um filme espantoso, do começo ao fim." (New York Observer)
No cartaz de divulgação, lê-se uma frase audaciosa:
"Existe uma maneira de mudar o mundo...Televisão."
www.goodnightandgoodluck.com
No Festival de Veneza 2005, George Clooney e Grant Heslov (co- roteiristas) foram agraciados com o prêmio de Melhor Roteiro.
No mesmo Festival, "Boa noite e boa sorte" conquistou o Fipresci Prize - Prêmio Internacional de Crítica.
"Melhor filme do ano." (Daily News - San Francisco - The Examiner - US Today)
" Uma composição apaixonada." Com verdade e responsabilidade...assista..." (The New York Times)
"Excelente" (Chicago Sun Times)
Quero também registrar aqui, com entusiasmo, a minha recomendação e opinião sobre "Boa noite e boa sorte"-(Good night,and good luck-EUA, 2005 -p/b-de George Clooney-90 min.), filme de abertura do 43º Festival de Cinema de Nova York, baseado em fatos reais.
Diretor cinematográfico pela segunda vez, Clooney volta igualmente aos bastidores da televisão. Filho do jornalista Nick Clooney -que escreve para o The Cincinnati Post -conseguiu realizar, com
"Boa noite e boa sorte" , um admirável registro histórico do jornalismo. Com preocupações éticas, num clima de tensão e suspense desde as primeiras cenas até os momentos finais.
Contudo, seu olhar é profundo, abrangente, muito além dos arquivos e das aparências, examinando sem medo , nem pudor, a década de 50 nos EUA, marcada pelos confrontos onipresentes do senador Joseph McCarthy, ameaçando e desafiando a liberdade de expressão e o papel informativo e formador da mídia.
Seu filme, esclarecedor, pronuncia-se como um libelo dramático em favor das instituições democráticas.
Como prever o que poderia acontecer com a própria vida dos personagens , depois de noticiarem o drama de outros cidadãos? Essa incerteza, todos os envolvidos sentiam.
A sensação de insegurança reflete-se na conversa do casal de jornalistas, na cama, sobre os acontecimentos surpreendentes e as possíveis conseqüências; o pressentimento quanto a perder o emprego, como um fantasma a lhes rondar a privacidade, as horas eventuais de descanso.
Edward R. Murrow, jornalista famoso por seu caráter e sua atuação íntegra no rádio e na tevê, é o protagonista da história, brilhantemente interpretado por David Strathairn. Nas décadas de 30 e 40, Murrow também se notabilizou por combater o fascismo e o nazismo.
No elenco, também se destacam: Patricia Clarkson, George Clooney, Jeff Daniels, Robert Downey Jr., Frank Langella.
Fiquei impressionada com as qualidades de realização de "Boa noite e boa sorte" (produção, pesquisa, direção, elenco, interpretação, roteiro, diálogos, edição, figurinos, maquiagem, reconstituição de época, cenografia e trilha sonora).
E, sobretudo, absolutamente impressionada com a seriedade da obra e a sua importância como cinema de "revelação", protesto e denúncia, aos que desconhecem os fatos ou negligentemente se permitiram esquecer esses acontecimentos dignos de contínua reflexão.
As situações e os temas não-ficionais de "Boa noite e boa sorte" constituem um cenário de conflitos historicamente mascarados, com alguns aspectos importantes quase invisíveis, inaudíveis, fora do ambiente em que se movimentam os personagens reais. Um clima sombrio no contexto do período pós-guerra, assinalado pelas suspeitas da chamada "guerra fria".
Cinema que cumpre a sua missão como instrumento de informação e denúncia insistente, para que todos aprendamos com a verdade escondida ou disfarçada, nos círculos governamentais, nas chefias dos meios de comunicação, entre as autoridades nacionais. História omitida, abafada e arquivada por motivos indefensáveis, apesar de seu potencial para repetição. Vulcão onde apenas se colocou uma pedra, na vã tentativa de impedir futuras erupções.
Já fui à pré-estréia de "Boa-noite e boa sorte" preparada para apreciar e aplaudir, entretanto, o filme de George Clooney superou as minhas elevadas expectativas.
É de uma coragem surpreendente, que nos comove até visceralmente, no mais íntimo de nós mesmos, com sinceridade e sobriedade, com ousadia incomparável, em sua forma despojada e seu conteúdo manifesto. Sim, uma ousadia surpreendente, se considerarmos que o diretor, co-roteirista e intérprete - George Clooney, cidadão estadunidense, atua no cinema e na tv de seu país.
Expõe com objetividade e clareza os pontos fracos da política de segurança de uma nação aparentemente forte. E de sua sociedade, fundamentada em anti-valores que nela seriam inexistentes, mas de fato existem! São forças de pressão, atuantes em todas as esferas da realidade nacional.
Demonstra facilmente como a tv pode ser um instrumento de embuste e ciladas para a opinião pública. Conseguir e agradar aos patrocinadores, aumentar os lucros... orientam as decisões. O público é apenas o mercado consumidor. Não se trata de formar cidadãos, e sim, de aumentar os lucros, de vender produtos, a qualquer preço. Eis o caminho, também , para a covardia diante dos poderosos, estejam esses donos do poder onde estiverem.
E abre as portas dos estúdios, gabinetes e redações, para que todos os cidadãos vejam e ouçam como o desrespeito à verdade e aos direitos inalienáveis da pessoa humana ocorre, inclusive, na prática do jornalismo, que deveria ser o seu baluarte.
No entanto, mesmo nesse deserto moral, encontramos pessoas corajosas, íntegras e conscientes.
São profissionais que não enganam, nem se deixam enganar. Cidadãos cuja proposta ética de vida é conscientizar, informar , educar o público, e não, satisfazer o mercado simplesmente, e não, divertir sem compromissos, para que esse público se torne cego à verdade que passa, perseguida como criminosa...
Mais, não consigo falar, neste momento, sobre "Boa noite e boa sorte"...que, como cinema, assumiu esse dever de informar sem hesitação.
Como também não consegui falar, nem me levantar de imediato, para sair da sala de exibição, por me sentir tão positivamente perturbada, ao término da sessão.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Bossa
Nova
Comédia romântica,
contemporânea, dirigida com nostalgia por Bruno Barreto, " Bossa
Nova" (Brasil, 2000 - 97 min.) é protagonizada pela atriz
norte-americana Amy Irving e por Antonio Fagundes, um ator de
destaque na TV, no teatro e cinema brasileiros.
Filme dedicado a Tom Jobim e François Truffaut, encanta por sua
trilha sonora envolvente e bela fotografia de cartão postal,
revelando entusiasmo, paixão e nostalgia pela beleza do Rio de
Janeiro, cidade cujas atrações turísticas têm renome internacional.
Inspirado na história de Sérgio Sant'Anna - "Senhorita Simpson" -, o
roteiro foi desenvolvido como crônica urbana de costumes tipicamente
brasileira (para não dizer carioca...).
Aos dois personagens principais - a professora de inglês (Amy) e o
advogado (Fagundes), recém-separado da mulher (papel de Debora
Bloch) - outros foram acrescentados: a estagiária universitária no
escritório de advocacia; o irmão alfaiate (Pedro Cardoso) do
advogado apaixonado ; o jogador de futebol Acácio (Alexandre Borges,
também muito atuante nos palcos, na televisão e diante das câmeras
cinematográficas) e seu agente.
Um momento especial é quando Juan, o pai alfaiate, conversa com o
filho mais velho sobre o som que os tecidos têm, quando manuseados
com eficiência e atenção. Um diálogo encantador.
Nas palavras do diretor: "Boas maneiras tornam a vida mais fácil,
mais cheia de graça. Juan é a saudade de um outro jeito, não só de
vestir como de ser." (Ícaro - abril / 2000)
Algumas cenas usam de humor vulgar e de linguagem chula, talvez para
fazerem o filme mais ao gosto popular, acostumado aos programas
cômicos na TV.
"Bossa Nova" é uma produção agradável, charmosa (como seus
intérpretes principais) e divertida. Os espectadores saem alegres,
ainda embalados pelas músicas.
Com qualidades técnicas e comerciais inegáveis, "Bossa Nova" teve
estréia nos EUA em 50 (cinqüenta) salas, distribuídas por 30
(trinta) cidades, simultaneamente, em 14 (quatorze) Estados
norte-americanos.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
professora universitária

Botín de
guerra
" A busca terminou. Ele está
morto."
Documentário comovente sobre a luta das " Avós da Praça de
Maio", que procuravam seus netos, afastados dos pais seqüestrados ou presos durante
a ditadura militar na Argentina (1976 1983). Nascidos quando suas mães estavam
presas e, após o nascimento, separados de suas verdadeiras famílias. " Botín de
guerra " (idem - Argentina/Espanha, 1999 - cor - 35 mm - dolby - 118 min.), de David
Blaustein, narra a tragédia contemporânea dos chamados " desaparecidos " :
filhos, netos, genros e noras, amigos, vizinhos, conhecidos...
" Passado o tempo do parto, vi que eu deveria procurar não
somente a minha filha, mas o meu neto também."
O filme registra o sofrimento de muitos, vítimas do poder
ditatorial e testemunhas do desrespeito aos direitos humanos. Até crianças de quinze
meses e de três anos afirmam se lembrar de como chegaram aqueles que levaram seus pais...
A importância das fotos da infância para o reencontro com os avós. Principalmente
aquelas preciosas fotografias com os pais.
"Queres mesmo encontrar meus pais? Encontraste a mim e não
encontraste meus pais? Como se explica isso?"
Algumas perguntas perturbavam as avós, que não tinham como dar uma
resposta verdadeira a seus netos.
"Como explicar o termo "desaparecidos" a uma criança
de 9 anos, se nós não podíamos explicar a nós mesmos? " (...)
"Há mais de 8 anos eu pensava que ainda ia rever meus
filhos... Acreditei que estavam nos campos de concentração, como alguns nos diziam... E
já tinham sido mortos desde o início...e nos mentiram todo esse tempo!"
Comoção, violência e suspense é o clima de " Botín
de guerra", do começo ao fim do documentário.
" Compreendi que ele estava em casa, dentro de mim."
Avós, pais e filhos são entrevistados, contando a história oculta
de " barbárie ". Todos ainda continuam muito comovidos. Chocados,
traumatizados, falam com o coração. Um pai descreve a dor de não conhecer o seu filho,
que a esposa teve quando estava encarcerada. O filho que o casal planejou e esperava com
tanto amor!
"Eu morri naquele dia...nascendo uma outra pessoa dentro de
mim."
Destaques de " Botín de guerra ": o prólogo do filme; a
apresentação dos créditos iniciais; a produção, direção, o roteiro, a fotografia,
trilha sonora; a montagem; os arquivos de noticiários e os álbuns familiares; e a
canção dos créditos finais - " Sin Cadenas".
O prólogo é um texto publicado em jornal do século XIX, sobre o
que se fazia com os índios: os bebês eram arrancados de suas mães, para serem mortos.
"Não fui mais ao cemitério, porque ali estava apenas uma
parte dela. Ela estava conosco, em casa, todo o tempo. "
As avós confessam que precisaram reunir suas forças, quando
pensavam não ter mais força alguma...
"A primeira vez que fui à Plaza de Mayo eu tremia como vara,
porque havia tantos militares à nossa volta! "
O grupo de 12 avós que iniciou o movimento viu a sua primeira
Presidenta "desaparecer", após entregar uma carta de denúncia a Cyrus Vance,
quando ele visitou a Argentina.
"Assassinos! Assassinos!"
As prisioneiras grávidas, após terem seus filhos, eram levadas nos
"vôos da morte".
"A gravidez fazia parte de um projeto de vida. (...) Mamãe,
não queremos morrer, mas viver."
Como num autêntico milagre, "aquelas mães, enfrentando as
piores situações, mantendo sua gravidez em condições desumanas, violadas, torturadas,
tiveram filhos normais, inteligentes e bonitos."
Essas crianças, porém, viveram a sua tragédia pessoal, nas
famílias que não eram as suas.
Uma jovem, afastada prematuramente dos pais que a amavam, confirma
essa situação, em "Botín de guerra" :
"Como alguém poderia amar, dar amor a uma criança que ele
arrancou dos braços de sua mãe? A mãe que ele prendeu, torturou, violentou e matou?
Não, essa pessoa não pode amar nem dar amor! "
Vinte e dois anos depois, a determinação dessas senhoras resolveu
64 casos, o que significa terem devolvido a dezenas de jovens a sua verdadeira identidade!
Percorrendo o mundo, " As Avós da Praça de Maio " conseguiram apoio,
inclusive, para as suas lutas jurídicas. Uma das vitórias foi incluir, entre os direitos
humanos, o direito à identidade. E a criação do Banco Genético, com exames de sangue
para o DNA, visando ao estabelecimento do índice "dos avós", assim chamado em
honra às " Avós da Praça de Maio" e porque, na ausência dos pais, identifica
os netos com segurança.
No filme, testemunhamos a grande alegria de um reencontro com duas
avós, materna e paterna, possibilitado pelo exame de DNA. Assim como o encontro
emocionado de dois irmãos:
"Ele era feio, mas muito lindo! "
(...) Ter irmão, sobrinho, ser tio... Ter uma família. Foi um
reencontro muito lindo! Muita alegria! Foi tudo muito positivo! "
Todavia, as " Avós da Praça de Maio " não conseguiram
impedir os indultos, concedidos por uma legislação "da obediência devida",
que libertaram centenas de criminosos, torturadores e assassinos. Segundo elas, uma das
manifestações mais comoventes foi a "Marcha do Não " ( Não ao indulto para
os seqüestradores de crianças). Como resultado dessa vitória, que lhes vem permitindo
incluir o seqüestro de crianças como parte do plano total da ditadura, " estamos
conseguindo colocar os culpados nas prisões". Com a exceção dos que completaram 70
anos, que ficam em " prisão domiciliar ", " com o que não
concordamos".
" Por maior que seja a minha dor, não quero me vingar. Não
quero me igualar a eles. Não posso ter essa mancha do ódio em meu coração. Não seria
bom."
A luta das avós continua. E a dos filhos também. A moça lê, para
a câmera, com emoção e orgulho, a carta que seu pai lhe escreveu, antes de seu
nascimento, dirigindo-se "A Juliana ou Ezequiel" , falando de seus ideais de
viver para os outros, e não, egoisticamente.
" Sei que meus pais me amavam muito.(...) E a meu irmão. Por
isso vou continuar procurando por ele. Não posso permitir que meu irmão fique com os
assassinos de nossos pais. Seria inconcebível! "
Os jovens órfãos mostram admiração e compreensão por seus pais:
" Eram pessoas que lutavam por um mundo melhor. Fisicamente,
hoje, não estão vivos, mas, com o que fizeram, sinto que, para mim, estão eternamente
vivos."
Há 20 anos os pais de Rodolfo procuram pelo filho que era "o
projeto de vida do casal ".
Essas tragédias que atingiram tantas famílias são denunciadas por
"Botín de guerra" , um registro cinematográfico que pode contribuir para que a
história da ditadura argentina não venha a se repetir, nem na Argentina ou em qualquer
outro país.
Theresa Catharina de
Góes Campos, colaboradora da ABN, é articulista, escritora e
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