Sair de Paris para reencontrar a natureza tem o seu
charme, seja qual for a estação: primavera, verão, outono e,
mesmo, no inverno. Mas bem antes de nós, no século 19, os
pintores faziam essa viagem com o objetivo de sair do espaço
de seus ateliers e registrar a beleza em mutação dessa
paisagem. Eles paravam em Barbizon, mais precisamente no
albergue Ganne, e revolucionaram a pintura tendo como motivo
a própria natureza (ABN).
Descobrir o campo
Cansados do academicismo que vigorava em Paris, nas
escolas e nos salões (embora um prêmio de Roma tenha sido
criado em 1817 na categoria "paisagem", a natureza servia
apenas como ambientação para um personagem histórico ou
mitológico!), os jovens pintores queriam buscar "a Natureza
no local", segundo a expressão de Théophile Gautier.
Audaciosos e anticonformistas, eles partem para a descoberta
desse universo desconhecido.
..."Todos esses grandes homens da pintura
Vestidos de forma desleixada
Adentram a floresta
Para tornarem-se chiques ao natural"...
(segundo o poema "La Complainte de Barbizon", que em 25
estrofes bem humoradas descreve toda a vida boêmia dos
pintores de Barbizon "com barba de bisão")
Fugindo da cidade, onde tudo custa caro: modelos, ateliê,
quarto e refeições, eles se alegram ao descobrir que, no
interior, vive-se com muito pouco. A natureza oferece
graciosamente todos seus tesouros, e os modelos não são
obrigados a fazer pose: são eles os agricultores, pastores,
açougueiros... vacas, carneiros ou animais domésticos. Os
artistas também fazem uso de uma invenção genial que lhes
permite sair do ateliê: os tubos de tinta. Eles surgem em
1834! Com cavaletes mais leves, grandes guarda-sóis e duas
telas (uma para a manhã e outra para a tarde), aqui estão os
nossos pintores equipados para renovar a arte da paisagem
francesa... Maravilhados com os pintores ingleses e
holandeses, e pelo romantismo de Chateaubriand, eles
procuram pelos bosques e se postam diante de lagoas,
árvores, rochedos ... sob um céu em permanente mutação para
descobrir os mistérios da luz e da sombra.
Localizado junto à floresta de Fointenebleau, o charmoso
vilarejo de Barbizon atrai os pintores. Sobretudo porque, a
partir de 1849, o trem facilita a viagem. Ali se chega ao
fim da jornada, ali se almoça em uma hospedaria simpática...
(ABN).
A hospedaria Ganne: a arte da hospitalidade
Uma acolhida cordial -- quase familiar -- acaba por fixar
os pintores em Barbizon. Ela é proporcionada por
Marie-François Ganne (vindo de uma família de vinhateiros) e
sua mulher, Edmée-Françoise Kleine (de origem
luxemburguesa). No início, "o pai Ganne" é alfaiate e sua
mulher tem uma merciaria. Logo Edmée passa a cozinhar para
agradar os artistas. A partir de 1824, o casal recebe
Jean-Baptiste Corot, Théodore Rousseau, Narcisse Diaz de la
Pena... Sob a pressão dos pintores, o marido também fornece
hospedagem a um preço módico, às vezes em troca de uma tela
ou painel pintados. Um ambiente de alegre boemia reina entre
os paisagistas quando eles retornam de suas jornadas ao ar
livre. Verdadeiro lugar de encontro de artistas -- como
aconteceria mais tarde em Pont-Aven, na Bretanha, na pensão
Gloannec --, a hospedaria Ganne criou a "Escola de Barbizon".
A partir de 1936, a hospedaria Ganne tornou-se um museu.
Em baixo, a mercearia (ao mesmo tempo cozinha e quarto do
casal Ganne), a sala dos trabalhadores e a dos artistas, bem
separadas, pois os primeiros não desejam se misturar aos
barulhentos pintores. Nos dias de chuva, os pintores cobrem
com suas obras as paredes, portas, lareiras e armários,
criando assim um maravilhoso cenário na modesta casa (ABN).
Da Escola de Belas Artes à Escola de "Belas Árvores" de
Barbizon
Esses artistas, de universos tão diferentes, estão
simplesmente reunidos por um gosto comum pela natureza, num
ambiente estimulante e de críticas gentis e de
encorajamento. Na verdade, não existe uma Escola de Barbizon
propriamente dita. Evidentemente, os pintores mais
influentes (Théodore Rousseau, Jean François Millet) não se
furtavam a dar conselhos a quem lhos pedisse, mas eles não
ensinavam.
Théodore Rousseau, que chegou a Chailly em 1833, se
instala em Barbizon na hospedaria Ganne, e depois em uma
casa própria, no número 55 da Grande-Rue. Padrinho de jovens
talentos, ele os leva a pintar ao ar livre. Na véspera de
sua morte, em 1867, ele conta a um de seus amigos: "Você vê
todas essas belas árvores, eu as desenhei todas, há 30 anos
eu já tinha todos seus retratos..."
Ecologista precoce, Théodore Rousseau intercedeu junto ao
imperador Napoleão III para resguardar uma "série
artística"(área de proteção ambiental de 1.500 hectares) na
floresta de Fointenebleau. Na margem do bosque, uma placa
comemorativa relembra a ação do pintor, e um baixo-relevo do
escultor Henri Chapu, instalado num rochedo, imortalizam os
perfis de Théodore Rousseau e de seu amigo, Jean-Philippe
Millet.
Fugindo da cólera que atinge Paris, em 1849,
Jean-François Millet chega com sua família a Barbizon. Ele
aluga uma casa (as hospedarias são utilizadas mais pelos
solteiros). Ali, depois de desenhar os esboços da planície
de Chailly, Jean-François Millet dá vida à gente da terra,
trabalhadores modestos com sua nobreza natural. E essa
emoção captada pelo pintor impressiona o homem de Tóquio
como o de Boston, que se encontre frente a obras como As
Respigadoras, O Semeador, As Debulhadoras de Trigo,
ou o Ângelus.
Hoje, a casa-ateliê, com seu charme preservado, pode ser
visitada à vontade. Felizmente, um cicerone, zelador da casa
há 50 anos, pede para servir de guia...
Camille Corot, pintor famoso e independente, fica
realmente à parte do movimento, mas ele adora a floresta de
Fointenebleau e seus amigos de Barbizon Ele "impressiona"
por sua maneira de captar a natureza, como ele mesmo
explica: "Depois de meus passeios, convido a natureza a
passar alguns dias na minha casa; é então que começa minha
loucura: eu ouço o cantar dos pássaros, as árvores
balançando-se ao vento..."
Enquanto Charles Jacque se apaixona pelos carneiros e
animais domésticos, Antoine-Louis Barye, escultor de
animais, não deixa de colocar animais ferozes nos bosques, e
Diaz de la Pena experimenta técnicas de pintura audaciosas:
procura na natureza as formas e cores existentes em sua
paleta de artista. Charles -François Daubigny reproduz a luz
da paisagem... com o que sonham todos os pintores de
Barbizon.
Entre 1825 e 1870, os registros destacam a presença de
centenas de pintores, em sua maioria paisagistas, que chegam
para pintar à volta da floresta de Fointenebleau. Durante
aproximadamente meio século, Barbizon, esse simples lugar de
lenhadores, será um centro artístico de fama internacional.
Anteriormente recusados pelos Salões de Pintura, Théodore
Rousseau, Jean-François Millet Diaz de la Pena ... serão
reconhecidos e aceitos graças à fama de Camille Corot que
abre a porta a seus amigos. Na Exposição Universal de 1867,
a Escola de Barbizon conhece enfim o sucesso com as obras de
Camille Corot, Théodore Rousseau, Jean-François Millet,
Constant Troyon, Paul Huet, Diaz de la Pena,
Charles-François Daubigny, Jules Dupré, Charles Jacque... Em
1889, a cidade de Nova York organiza uma exposição
consagrada aos pintores de Barbizon, o que lhes traz a fama!
Entre os artistas que passaram temporadas na hospedaria
Ganne ou em outros locais das redondezas (Chailly-en-Biére,
Marlotte), nota-se a presença de pintores vindos da Bélgica:
o barão de Papeleu, as irmãs de Cock, Alfred Stevens, Knyff
O Cavaleiro...; da Alemanha: Ludwig Kanuss, Albert Brendel,
Georges Saal; dos
Estados Unidos: Willliam Morris, Hunt, George Inness,
Homer Tryon... e de outros países como Espanha, Itália,
Suíça, Irlanda, Hungria, Romênia, Rússia... Não é preciso
insistir sobre sua contribuição ao reconhecimento
internacional dessa pintura inovadora, que abriu o caminho
para o Impressionismo.
Hoje, como ontem, Barbizon continua atraente com suas
casas floridas de rosas, seus ateliês, seus hotéis, suas
galerias de pintura (cerca de vinte). A tal ponto que, às
vezes, é preferível de visitá-la durante a semana para
encontrar seu charme rural...A dois passos, a floresta de
Fointenebleau não deixa de atrair os amantes da natureza
prontos a mergulhar na paisagem que tanto seduziu os
pintores de Barbizon (ABN).
Escritório de Turismo de Barbizon: 55, Grande Rue, 77630
Barbizon , Tel.: (33) 1 60 66 41 87, Fax: (33) 1 60 66 22 27
Hospedaria Ganne / Museu da escola de Barbizon: 92,
Grande Rue, 77630 Barbizon, Tel.: (33) 1 60 66 21 55
Casa/Ateliê de Jean-François Millet: 27, Grande Rue, 7630
Barbizon, Tel.: (33) 1 60 66 21 55