Theresa
Catharina Brasília DF
Jornalistas nas lutas
políticas brasileiras
Theresa Catharina de Góes Campos, articulista, jornalista,
escritora e professora universitária
Introduzida entre nós, oficialmente, no ano de 1808,
a imprensa logo se notabilizou pela sua adesão às campanhas políticas.
Na primeira vintena do século, em Londres, para onde fugira às perseguições da
Inquisição, Hipólito da Costa, através de o "Correio Braziliense", que
entrava clandestinamente no Brasil, pregava a monarquia constitucional e a libertação
dos escravos.
Durante todo o ano de 1821, quer dizer, depois da Revolução do Porto e da saída do Rei
para Portugal, a tendência geral da imprensa no Rio de Janeiro foi a da conciliação com
a metrópole, e não de separação do Brasil. Entre os jornais publicados, notamos essa
idéia de conciliação de modo especial nos periódicos do Visconde de Cairu, como
"O Conciliador do Reino Unido". Naturalmente, aqueles que se opunham a Portugal
não podiam divulgar seu pensamento.
Os jornais brasileiros, de 1808 a 1880, não precisavam procurar matéria - os assuntos
estavam bem à mão. Sucessivos acontecimentos despertavam a consciência nacional,
reclamando uma atuação das organizações políticas e mesmo do povo: a reação ao
absolutismo, o constitucionalismo, a revolução de 1817, a regência de Dom Pedro; a
independência, a abdicação de nosso primeiro imperador, as guerras civis e as
agitações que ensangüentavam o país, a guerra do Paraguai.
Alcançada a independência política, mas agindo D. Pedro I a favor de seus compatriotas,
desencadeou-se por todo o país uma violenta campanha, notando-se o descontentamento
popular através dos jornais: "O Nazareno" e o "Republico", de
Paraíba e na Corte; nas críticas do "Tifis Pernambucano", de Frei Joaquim do
Amor Divino Caneca; nos ataques de "A Sentinela do Serro", dirigida por Teófilo
Otoni.
Durante as lutas da Regência e por todo o Segundo Reinado, diversos nomes da imprensa
brasileira continuaram a divulgar as aspirações do povo. Vicente Ferreira Lavor
Papagaio, maranhense, defendeu com o periódico "A Sentinela", editado no Pará,
a insurreição dos cabanos - movimento nativista, republicano, contrário ao partido
restaurador e à Regência, deflagrado em 1833.
Corajosos foram também os irmãos Abreu e Lima: Luís Inácio, o "general das
massas", e José Inácio, responsáveis pelo "Diário Novo"dos insurretos
pernambucanos da Revolução Praieira. Joaquim Nunes Machado, um dos líderes do referido
movimento, enviava artigos para o "Diário Novo".
As campanhas da Abolição e da República notabilizaram, entre
outros, Joaquim Serra, Quintino Bocaiúva, Saldanha Marinho e Salvador de Mendonça.
Joaquim Serra fundou "A Reforma"e "A Folha Nova". Joaquim Nabuco diria
sobre ele: "Joaquim Serra é, na Reforma, a vida do Jornalismo liberal. Foi ele o
criador da moderna imprensa política, figura resplendente na história da Abolição,
pela seriedade, constância, sacrifício e heroísmo do seu incomparável combate de dez
anos, dia a dia, até a vitória final de 13 de maio".
Quintino Bocaiúva, Saldanha Marinho e Salvador de Mendonça fundaram "A
República", em 1870, logo após o término da guerra entre a Tríplice Aliança e o
Paraguai. Bocaiúva, Marinho e Mendonça eram incansáveis na pregação contra o trono e
o regime monárquico.
A imprensa no Brasil recebeu um patrimônio de glória, com a atuação de Luís Gama,
Alcindo Guanabara e Rui Barbosa.
Conquistada a libertação dos escravos, o jornalismo brasileiro empenhou-se na luta pela
República, sob a liderança do "Jornal do Brasil" e de "A
República", fundado por Souza Dantas em 1891, do qual faziam parte: Joaquim Nabuco,
Barros Pimentel, José Veríssimo e Rui Barbosa. Na campanha republicana, destacou-se
também "A Imprensa", de Rui Barbosa.
Em várias províncias, o governo republicano de Deodoro e, depois, o de Floriano Peixoto,
ordenaram o fechamento de inúmeros jornais. "A Tribuna Liberal", publicada de
1888 a 1889, no Rio de Janeiro, foi o primeiro deles. O "Jornal do Brasil"
sofreu violências por parte de Floriano Peixoto e teve sua publicação suspensa, de 1893
a 1894.
Depois de Floriano Peixoto, com a Revolta da Armada, algumas crises político-sociais que
não chegaram a abalar o regime republicano serviriam de material aos periódicos. Muitos
já começavam a praticar o sensacionalismo conscientemente, explorando os eventos no
sentido de vender exemplares e buscando atingir objetivos particulares.
Durante a I Guerra Mundial, nossos jornais, como os do mundo inteiro, passaram a estampar
na primeira página o noticiário internacional, em substituição ao noticiário
nacional, que foi relegado às colunas internas. Para atender à curiosidade natural dos
leitores, portanto, o "espelho" foi alterado. Isso exemplifica bem o
amadurecimento da imprensa brasileira.
As campanhas do Abolicionismo e da República utilizaram as palavras como autênticas
armas, e a imprensa brasileira cresceu, adquirindo expressão nacional. Encarada como
indústria, porém, continuava sendo uma aventura. Os problemas econômicos golpeavam
mortalmente muitos periódicos, de breve existência. Os recursos técnicos também
deixavam muito a desejar. Velhos prelos, máquinas compradas de segunda mão em países
mais adiantados (Alemanha e Inglaterra), impressoras pesadas e modestas, de ferro fundido,
bem como as caixas de tipo e outras, de ferro fundido, bem como as caixas de tipo e outras
peças rústicas, constituíam o material com que se compunha, paginava e imprimia o
jornal.
Apesar desses aspectos negativos, o padrão de responsabilidade era elevado, se o
compararmos com certos periódicos do jornalismo atual. (...) "O balcão de
anúncios, o poder econômico, a opinião do comerciante influíam menos na redação e na
orientação da gazeta. Atrasados, feios, violentos, tipicamente provincianos, batiam-se
mais ligeiros, por um ideal que por um anúncio".
Durante os primeiros anos de século XIV, durante os quais o Brasil atravessou diversos
estágios políticos - Colônia, Reino , Império - vivendo instantes decisivos de sua
História - atuaram algumas das maiores figuras do jornalismo pátrio, entre as quais:
Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, redator do "Tifis Pernambucano"; Cipriano
Barata; Líbero Badaró, redator do "Observador Constitucional"; Vicente
Ferreira Lavor Papagaio, responsável pela "Sentinela" dos insurretos cabanos;
Antônio Borges da Fonseca, redator do "Republico", periódico editado no Rio de
Janeiro, na Paraíba e em Pernambuco, onde quer que se fizesse necessária a divulgação
de informes patrióticos Luís Inácio de Abreu e Lima, fundador do "Diário
Novo"; Teófilo Otoni, redator principal de "A Sentinela do Serro".
A coragem de João Soares Lisboa
"O Correio do Rio de Janeiro", de João Soares Lisboa, chefiava a corrente
separatista. Seu redator, embora português de nascimento, veio muito cedo para o Brasil,
e defendeu sempre os interesses da terra adotiva, sendo uma das figuras da independência
do Brasil. Sem nunca se comprometer com o governo, João Soares Lisboa criticava com
desenvoltura os atos do príncipe D. Pedro e de seus ministros. Essa atitude do periodista
mais popular, e talvez o mais significativo da época da independência, resultou para ele
em ser o primeiro processado no Rio de Janeiro, por crime de imprensa. Os jurados,
nomeados, não eleitos, não conseguiram encontrar crime no réu, que divulgava os
princípio republicanos e democráticos.
As perseguições que João Soares Lisboa sofreu não representaram um privilégio
pessoal. Toda a imprensa enfrentava grandes dificuldades, no tempo de José Bonifácio,
inimigo de críticas e observações. O Patriarca da Independência chegou mesmo a não
permitir a circulação de periódicos que lhe fossem contrários, ou escritos por pessoas
que lhe eram desafetas. No final de 1822, deixaram de circular no Rio: o "Correio do
Rio de Janeiro", o "Revérbero Constitucional" e outras folhas. Até a
abertura da Assembléia Constituinte, a 3 de maio de 1823, não apareceu mais nenhum
periódico.
Januário da Cunha Barbosa e Joaquim Gonçalves Ledo abandonaram o seu jornal - o
"Revérbero Constitucional Fluminense"- e buscaram refúgio no estrangeiro.
João Soares Lisboa recebeu ordens para se retirar do Brasil num prazo de 24 horas.
A causa da Independência e a imprensa baiana
Um periódico que em todos os momentos defendeu corajosamente os interesses brasileiros,
agindo de modo bem diverso do "Diário do Rio de Janeiro", começou a circular
na Bahia, a 4 de agosto de 1821, com o nome de "Diário Constitucional". Trazia
como epígrafe os versos de Camões: "A verdade que eu conto nua e pura, vence toda a
grandíloqua escritura". Batendo-se para que o governo local tivesse uma Junta com
maioria de brasileiros, o "Diário Constitucional" participou da primeira
campanha eleitoral travada pela imprensa de nosso país, granjeando a oposição do
"Semanário Cívico" e da "Idade d'Ouro do Brasil". No ano seguinte,
deixando de ser diário, reduziu o seu título para "O Constitucional".
A causa da independência foi divulgada pelo "Diário Constitucional", em 1822.
Empastelada sua oficina pelos portugueses, sucedeu-lhe, com entusiasmo redobrado, na vila
de Cachoeira, terra natal da heroína Maria Quitéria, o "Independente
Constitucional".
O "Diário de Pernambuco" e o "Jornal do Commercio"
Entre tantas publicações de vida efêmera, duas conseguiram se firmar e circulam até
hoje: O "Diário de Pernambuco", de 1823, participou das lutas políticas de seu
Estado, durante o Império e o período republicano, vencendo suas campanhas
institucionais e cobrindo os principais acontecimentos. Noticiava os conflitos cívicos,
as ocorrências locais, os fatos de repercussão nacional e as disputas internacionais.
O "Jornal do Commercio", que surgiu em 1827, no Rio de Janeiro, substituiu o
"Diário Mercantil" e, com os seus editoriais, obteve destacada influência
sobre a administração, chegando mesmo a derrubar ministros do Império.
Na Regência e no Primeiro Reinado
Na Regência de D. Pedro e no Primeiro Reinado, o jornalismo brasileiro adquiriu
perspectivas mais amplas, detendo-se nos temas políticos e sociais. São numerosos os
folhetos e pasquins registrados no período que vai de 1822 a 1831. Um ano antes da
proclamação de nossa independência, havia sido abolida a censura prévia. Sempre com
uma epígrafe, fazendo humor ou se empenhando pela resolução dos problemas mais
urgentes, aqueles periódicos foram veículos de plataformas de governo, de opiniões de
grupos, de críticas à administração, bem como divulgadores de programas e sugestões
de reformas sociais.
Dois jornais, fundados em 1821 e 1827, respectivamente, ocuparam lugar destacado, por suas
campanhas cívicas de grande repercussão: "A Malagueta", de Luís Augusto May e
a "Aurora Fluminense", de Evaristo da Veiga.
O idealismo de Evaristo da Veiga
"No meio dos homens notáveis do Primeiro Reinado e da Regência, (escreveu Sílvio
Romero) - entre os que figuravam distintamente e notavelmente influíram, teve Evaristo da
Veiga certas qualidades que foram só dele; era o mais novo, o que não tinha tradições,
o que não possuía títulos acadêmicos, o que apareceu mais inesperada e rapidamente, o
que morreu mais moço, mas a tempo e mais a jeito; foi o que nunca saiu do Brasil".
Mais adiante, acrescentou Sílvio Romero: "a arma de que Evaristo da Veiga se serviu
e o rumo que deu à sua doutrinação foram os mais acertados e poderosos para o tempo: a
arma foi o jornal; e o rumo, o liberalismo da constituição".
Filho de livreiro, ainda criança se interessou pelo jornalismo, ao visitar as oficinas da
Impressão Régia, nos porões do palácio do Conde da Barca. A sagacidade que demonstrou
como repórter, os editoriais que escrevia, tornaram-no um dos maiores homens do
jornalismo de seu tempo. Além disso, sobre ele se afirmou: "nunca fez parte do
Governo e morreu pobre".
O exemplo de Líbero Badaró
O italiano Líbero Badaró colocou sua pena a serviço do Brasil, sendo assassinado em
1830, na cidade de São Paulo. Sua trincheira - "O Observador Constitucional",
ganhou celebridade. Também ficaram famosas as palavras que pronunciou pouco antes de
morrer: "Morre um liberal, mas não morre a liberdade!"
A ousadia de Cipriano Barata
Na história da imprensa de nossa pátria destacou-se, ainda, a figura de Cipriano Barata,
cujas "Sentinelas da Liberdade" apareceram em Pernambuco, na Bahia, na Corte, no
Rio, no Rio Grande do Norte, em toda parte, enfim, onde se fazia necessária uma voz de
alerta.
Data de 1831 a estréia de Cipriano Barata no Jornalismo. Antes disso, porém, já se
destacava como uma espécie de agitador popular, líder de massas, autor das
"Sentinelas da Liberdade", chamado por alguns de anarquista, por outros de
liberal. Considerado traidor pelos defensores do trono, teve o seu batismo de fogo na
Inconfidência Baiana de 1798, quando foi preso. Revolucionário, parlamentar, jornalista,
panfletário e autor de inúmeros pasquins, toda vez que a situação reclamasse, fazia
distribuir as "Sentinelas da Liberdade", datadas de qualquer ponto do país.
Diplomou-se em Coimbra, em Cirugia, Filosofia e Matemática. Adquiriu experiência com o
trabalho escravo, como lavrador de cana nos engenhos de açúcar de Abrantes. Exerceu
importante cargo na Revolução Pernambucana de 1817. Para assegurar condições mais
humanas aos presos políticos, fundou comitês de solidariedade, encarregados do sustento
material dos encarcerados. Fez parte das sociedades secretas que lutavam pela nossa
independência e pelo constitucionalismo; presidiu reuniões de conspiradores favoráveis
ao sistema monárquico-representativo.
Cipriano Barata começou sua atividade jornalística na "Gazeta Pernambucana".
Logo depois, fundou seu próprio veículo de comunicação, surgindo a primeira
"Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco", com publicação regular às
quartas e aos sábados. Redigida em linguagem violenta, o periódico obteve êxito,
provocando uma oposição muito forte à instalação, em Pernambuco, do Apostolado,
sociedade maçônica internacional, de José Bonifácio. As críticas de Cipriano Barata
à referida organização levaram-no à prisão.
Recolhido ao cárcere, ou em liberdade, estava permanentemente em luta, oposicionista e
anti-lusitano. Sua pena criou as condições para a Confederação do Equador. Muitos
exemplares de suas "Sentinelas" foram rasgados em praça pública. Reeleito como
representante baiano para a Assembléia Constituinte, não quis ir e só tomou posse
porque o prenderam, afirmou Hélio Viana em "Contribuição à História da Imprensa
Brasileira - "o que foi um processo original de fazer Deputado ocupar sua cadeira -,
justificando sua atitude: primeiro, porque tinha opiniões livres - quase todas indo de
encontro ao projeto de Constituição; segundo, porque tinha inimigos na Assembléia;
terceiro, porque tinha sido ameaçado de morte; quinto, porque mesmo de Pernambuco podia
analisar o projeto constitucional."
Embora preso, o que ocorria freqüentemente, Cipriano Barata fazia circular as
"Sentinelas". Da Fortaleza do Brum, saiu a "Sentinela da Liberdade na
Guarita de Pernambuco, atacada e presa na Fortaleza do Brum por ordem da força armada
reunida."
Sua atividade panfletária foi continuada por Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, no
pasquim "Tifis Pernambucano". No ano de 1838, Cipriano Barata faleceu, legando
à posteridade suas inúmeras "Sentinelas", publicadas na Bahia, no Rio de
Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Norte, bem como seus artigos para jornais diversos, que
o consideravam, segundo registrou Hélio Vianna em "Contribuição à História da
Imprensa Brasileira": "o firme, o honrado, o patriota, o imortal, o mártir
Cipriano Barata."
As sementes lançadas por ele frutificaram. De 1823 a 1889, circularam nas Províncias da
Bahia, do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, do Maranhão, do Ceará e
de São Paulo, mais de duas dezenas de "Sentinelas de Cipriano Barata: movimentou a
opinião pública, propagando o liberalismo, lutando pela implantação do regime
republicano, combatendo a escravidão. Adotou a mesma orientação uma revista ilustrada,
editada em Porto Alegre com o nome de "Sentinela do Sul", de 1867 a 1868.
Frei Caneca: padre, jornalista e mártir
Em dia e mês ignorados, no ano de 1779, nasceu Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, na
cidade do Recife. Ordenou-se aos vinte anos de idade, no convento de Nossa Senhora do
Carmo, ocupando-se sempre de atividades docentes. Iniciada a Revolução de 1817,
filiou-se ao movimento que, ao ser debelado, levou Frei Caneca a ser preso na Bahia, onde
passou quatro anos de sofrimento. Ocupou esse tempo no cárcere escrevendo uma gramática
da língua portuguesa.
A dissolução da Assembléia Constituinte, com a prisão e deportação de deputados,
ocorreu a 12 de novembro de 1823. A 25 de dezembro do mesmo ano apareceu o primeiro
número do "Tifis Pernambucano", que iria assumir a responsabilidade de propagar
os ideais autonomistas e republicanos e orientar a causa dos insurretos da Confederação
do Equador. Comentava o jornal: "o lutuoso dia 12 de novembro, dia nefasto para a
liberdade do Brasil e sua independência; dia em que o partido dos chumbeiros do Rio de
Janeiro conseguiu dissolver a suprema Assembléia Constituinte Legislativa do Império do
Brasil."
Em seu periódico, Frei Caneca tratou dos acontecimentos de Pernambuco e das outras
províncias em que explodiam manifestações contrárias ao Império ou adesões aos
movimentos patriotas. Usando de linguagem enérgica, o sacerdote recifense destacava os
erros cometidos pelo monarca e atacava a prepotência dos portugueses. A firmeza de suas
idéias pessoais, entretanto, em nada diminuía a fidelidade com que expunha os
acontecimentos. Divulgando os documentos oficiais dos adversários, sabia criticá-los em
detalhes e com brilhantismo.
No quinto número do jornal de Frei Caneca, em janeiro de 1824, os portugueses eram
acusados de querer "a recolonização do Brasil, sua escravidão inteira, ou o
estabelecimento nele do sistema absoluto."
No sétimo número do "Tifis Pernambucano", lemos o seguinte, com referência à
Dissolução da Assembléia Constituinte: "O projeto já foi feito para não ser
discutido, e passar como Constituição eterna do Império do Brasil."
Frei Caneca não temia criticar o Senado do Rio de Janeiro que, no começo de 1824,
afixara editais comunicando aos cidadãos que examinara o projeto de Constituição, nele
não encontrando nada que merecesse sofrer uma correção, pelo que o mesmo era julgado
"conveniente." O padre-jornalista comentou, então: "O Senado não fez mais
do que assinar em cruz." Manifestou-se contra a escolha de Pais Barreto para o cargo
de presidente da província de Pernambuco, fazendo-lhe várias acusações sérias.
"Pode Sua Majestade dar padrões de tensas, títulos de barões, viscondes, condes,
marqueses e duques; porém dar ciência a um tolo, valor a um covarde, virtude a um
vicioso, honra a um patife, amor da pátria a um traidor, não pode Sua Majestade."
O público lia no jornal de Frei Caneca coisas deste teor: "Baixezas, vilanias,
servilismos, indignidades, nem se devem exigir de ninguém, nem são coisas imitáveis,
nem se acham no caráter pernambucano." Ou ainda:
"Nós queremos um império constitucional; o ministério, um absoluto. Nós queremos
uma Constituição feita pela nação soberana; o ministério, um projeto feito por ele,
que não tem soberania. Nós, como racionais, queremos jurar uma constituição, com
conhecimento do que juramos, livremente, sem coação, para o juramento poder ligar-nos; o
ministério quer que abjuremos a razão, e que juremos o projeto, porque o Senado do Rio
de Janeiro o qualificou de obra-prima em política, e que o juremos com um bloqueio na
barra, fazendo-nos todas as hostilidades. Nós queremos uma constituição que afiance e
sustente a nossa independência, a união das províncias, a integridade do império, a
liberdade política, a igualdade civil, e todos os direitos inalienáveis do homem em
sociedade; o ministério quer que, à força de armas, aceitemos um fantasma ilusório e
irrisório da nossa segurança e felicidade, e mesmo indecoroso ao Brasil..."
O número 24 do "Tifis Pernambucano" trouxe um Comunicado, contendo as bases
para a formação do pacto social, redigidas por uma sociedade de homens de letras.
Encontravam-se entre os seus itens:
"A liberdade de imprensa, ou outro qualquer meio de publicar estes sentimentos, não
pode ser proibida, suspensa, nem limitada."
"Todos os cidadãos são admissíveis a todos os lugares, empregos e funções
públicas. Os povos livres não conhecem outros motivos de preferência, senão os
talentos e as virtudes."
"Todo homem pode entrar no serviço de outro pelo tempo que desejar, porém não pode
se vender, nem ser vendido."
Frei Caneca passou em revista diversos jornais do Exterior que se ocupavam da situação
de Pernambuco e de outras províncias. O "Constitucional", da França, dizia que
"Pernambuco tem apresentado uma oposição máscula e vigorosa aos planos do
despotismo." Ao que o sacerdote acrescentava: "Quando a Pátria está em perigo,
todo cidadão é soldado; todos se devem adestrar nas armas para rebater o inimigo
agressor."
Frei Caneca permaneceu no Recife, animando a insurreição com os seus artigos, até
quando lhe foi possível. Sua prisão ocorreu quando ele se encontrava no campo de
batalha, no exercício das funções de secretário das tropas sublevadas, das quais era,
também, o orientador espiritual. Às vésperas de ser executado, compôs, na prisão, os
versos:
"Tem fim a vida daquele/Que à Pátria não soube amar;/A vida do patriota/Não pode
o tempo acabar."
Na manhã do dia 15 de janeiro de 1825, na Fortaleza das Cinco Pontas, Frei Caneca morreu
fuzilado, "Pelo crime de sedição e rebelião contra as imperiais ordens de Sua
Majestade Imperial."
A sentença condenatória estabelecia que ele deveria ser enforcado, mas três carrascos
se recusaram a isso, pois o jornalista era estimado entre a população recifense. Frei
Caneca, então, foi amarrado à forca e finalmente fuzilado.
O abolicionista Joaquim Serra
Joaquim Serra nasceu em São Luís do Maranhão, em 1830; em 1888, morria no Rio de
Janeiro. Estreou no jornalismo quando contava 21 anos de idade, em 1851, no
"Publicador Maranhense." Órgão oficial, circulava 3 vezes por semana, sendo
transformado posteriormente em diário. Com referência ao valor dos jornais e jornalistas
daquela província, no período de que falamos, assim depôs José Veríssimo:
"Nenhuma imprensa, a não ser talvez a do Rio de Janeiro, que reconhece todas as
capacidades do país, conta, em tão crescido número, nomes tão legitimamente notáveis,
publicistas de raro vigor, cultura, excelência de linguagem e de estilo, dotes de
jornalistas doutrinários e polemistas, como a do Maranhão desde a sua fundação em 1821
até os anos de 1860."
Eis alguns nomes do jornalismo local: Manoel Odorico Mendes - erudito tradutor de Homero e
de Virgílio; Sotero dos Reis - gramático, historiador, jurista; João Francisco Lisboa -
escritor humorista e historiador; Gonçalves Dias; Cândido de Morais e Silva; Almeida
Oliveira - precursor das idéias republicanas no Maranhão.
Entre esses, notabilizou-se Joaquim Serra que, aos 24 anos de idade, redigiu o
hebdomadário "Ordem e Progresso" e fundou, em 1867, o "Semanário
Maranhense", revista literária que, no ano seguinte, parou de circular.
Transferindo-se para a Corte, em 1868, aí Joaquim Serra prosseguiu em suas atividades,
enviando colaborações aos órgãos já existentes e fundando novos periódicos. Durante
vinte anos, levando uma existência simples, bateu-se pelo ideal da Abolição. Chegou a
dirigir o "Diário Oficial" e foi deputado pela sua província. Procurava dar o
máximo de sua pessoa, sem pensar em qualquer tipo de retribuição. Quando morreu,
Joaquim Nabuco assim definiu o seu caráter: "O amor que tinha à obscuridade foi
talvez a sombra que entreteve a frescura perene do seu espírito."
Praticamente sozinho, Joaquim Serra redigiu durante anos, no Rio de Janeiro, um dos
jornais que mais se distinguiram na campanha abolicionista - "A Reforma." Dotado
de extrema versatilidade, fazia de tudo em seu periódico: desde o artigo político à
seção teatral e à crônica literária, comentando as últimas novidades das editoras,
em prosa ou verso. A seu lado, colaborando em "A Reforma", estavam: Francisco
Otaviano, Tavares Bastos, Afonso Celso, Rodrigo Otávio, José Cesário de Faria Alvim,
mais tarde nomes de relevo na política e na administração pública. Sobre eles,
entretanto, ressalta, dominante, Joaquim Serra, pelo sacrifício e devotação
demonstrados, dia a dia, durante 10 anos, até a vitória final de 13 de maio de 1888.
Comentando os acontecimentos de maior importância, de modo especial informes sobre a
penetração da campanha abolicionista no Parlamento e na opinião pública, Joaquim Serra
assinou, durante anos, os "Tópicos do Dia", colaboração sua em "O
País". Explicando sua posição de jornalista abolicionista, dizia: "desejo
estar nas avançadas e aí combater." Incansável na comunicação de suas idéias,
assumiu a responsabilidade do periódico "O Abolicionista", publicação de
grande valor, embora só tenha saído 4 vezes, entre os anos de 1880 e 1881. Órgão da
Sociedade Brasileira contra a Escravidão, de formato pequeno, não declarava os nomes de
seu
corpo redatorial, nem trazia anúncios. Com a ausência de nomes, evitava-se
perseguições aos brasileiros que pregavam a libertação dos escravos. Por outro lado, a
ausência de anúncios mostrava que os comerciantes e industriais, empenhados na
manutenção do regime, negavam muito naturalmente a sua ajuda financeira a quem os
ameaçava com uma nova ordem sócio-econômica.
O valor da imprensa
Encerremos essas recordações históricas sobre jornalistas brasileiros com o pensamento
de Cóston sobre a importância da imprensa:
"O jornal facilita as relações dos homens entre si, suprime as barreiras antigas do
tempo e do espaço, tende a estabelecer um nível mais elevado de justiça. Se a imprensa
tem seus vícios, ela tem também suas virtudes. Ela é a guardiã, se não a mais
responsável, meio o mais eficaz do direito, da justiça, da liberdade, da honra, da
probidade do Estado; a guardiã avisada de todos aqueles que detêm uma parte do poder
público, a denunciadora implacável dos abusos e dos vícios de sua administração e de
seu governo. Ela é a testemunha vigilante que narra, todas as manhãs, aos cidadãos, os
atos e os usos dos homens em seu posto, desde o guarda campestre até o ministro."
Matéria editada em 27/11/02
às 02h45


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