Theresa
Catharina Brasília DF
As mais antigas manifestações da
comunicação humana
Theresa Catharina de Góes Campos, articulista, jornalista,
escritora e professora universitária
À medida que os anos passam, aumentam os meios de
comunicação de que dispomos. Constitui um grande desafio para a nossa civilização
utilizar esse desenvolvimento dos meios de comunicação para diminuir a solidão humana,
para aproximar os seres humanos, cada vez mais, uns dos outros.
Todo homem necessita comunicar-se com alguém. Quando não consegue compreender, nem ser
compreendido, sente-se infeliz. Cada um de nós traz dentro de si uma mensagem que precisa
ser transmitida, independentemente de períodos históricos ou de níveis
sócio-econômicos.
Desde a época em que os seres humanos viviam em cavernas, desejaram estabelecer um elo
entre eles e o mundo a seu redor, entre eles e as gerações futuras. Os arqueologistas
encontraram numerosas pinturas nas paredes das primitivas cavernas: reproduções de cenas
comuns da
existência, desenhos de caçadores e dos animais conhecidos, atividades diversas. Os
estudiosos declararam que as figuras parecem "vivas", tal a força dos traços e
a fidelidade aos modelos reais.
Nenhuma sociedade ou grupo humano prescindiu da informação. O homem primitivo, o homem
das cavernas ou o selvagem, que não conhecia a escrita, que apenas iniciava a vida em
comum, fazia jornalismo. Transmitia aos seus semelhantes, à sua tribo, com regularidade e
freqüência, interpretando-os, os fatos de interesse: o resultado da caça ou da pesca, a
aproximação de
inimigos. Com esses informes, feitos oralmente ou por sinais e sons convencionais, a tribo
tomava essas ou aquelas providências. Diversos instrumentos foram meios de comunicação
sonora: a trombeta, o tambor, a inúbia.
Nos primórdios da comunicação entre os homens, encontramos a sinalização, utilizando
fanais e fogueiras. Os gregos empregavam a conjugação de sinais luminosos para se
informarem de fatos ocorridos a uma distância de três ou quatro dias. Através da
narrativa sobre a Primeira Guerra Macedônica, sabemos que as tropas de Felipe se
orientavam por fanais, colocados no Monte Tisé. Os archotes, dissipando a escuridão,
anunciaram ordens às legiões romanas.
As cordas de nós coloridas dos peruanos, as cintas de conchas variadas dos iroqueses, os
hieróglifos, os sinais assírios, persas e astecas, são exemplos de instrumentos de
comunicação. Os diversos símbolos conservaram a informação rudimentar de
acontecimentos contemporâneos - em pedra, pau, barro, metal, conchas, fibra, pele - antes
do aparecimento do papel.
Informações registradas em monumentos
Não se constituindo matéria histórica, seriam divulgadas em qualquer jornal as vinte
curas milagrosas gravadas nas estelas do oráculo de Esculápio, em Epidauro; entre elas,
a de um coitado que engolira sanguessugas por artes da sogra e a de um tajul a quem o deus
fizera nascer cabelos, esfregando-lhe a calva com certo ungüento.
Os pombos
Os pombos transportaram sob as asas mensagens urgentes; voavam silenciosamente para
comunicar alguma coisa a alguém ou a determinado grupo.
Os atletas de maratona
Se os soldados de Roma dispunham de seus próprios meios de comunicação, os atletas da
Antigüidade transformaram a famosa Corrida de Maratona numa oportunidade de encontro com
desportistas de diferentes origens.
As narrativas dos profetas hebreus
Notícias e informações nos foram divulgadas pelos profetas hebreus e upanichades
hindus. As narrativas dos profetas hebreus: Isaías, Ezequiel, Elias, Jonas, Daniel, são
bem variadas. Tomemos um trecho de Daniel, capítulo 3, versículos 1 a 24. Suas palavras
não têm apenas um valor religioso. O profeta registra comunicações valiosas sobre:
organização governamental, totalitarismo, preconceito racial dos caldeus com relação
aos judeus, a firmeza e fé destes últimos, instrumentos musicais, etc.
Vejamos o texto:
"Naqueles dias, o rei Nabucodonosor mandou fazer uma estátua de ouro de sessenta
côvados de altura e seis de largura, e colou-a na planície de Dura, na província de
Babilônia. O rei Nabucodonosor mandou depois convocar os sátrapas, magistrados e
juízes, capitães e governadores, os prefeitos e todos os príncipes das províncias,
para assistirem à dedicação
da estátua que o rei Nabucodonosor erigira.....
Estavam pois, de pé, diante da estátua que o rei Nabucodonosor havia erguido e um
pregoeiro anunciava em voz alta: Manda-se a vós todos, povos, tribos e nações de todas
al línguas, que, na hora em que ouvirdes o som da trombeta, da flauta e da cítara, da
sambuca, do saltério, da sanfonia e de todo gênero de instrumentos musicais, vos
prostreis e adoreis a estátua de
ouro mandada erigir pelo rei Nabucodonosor. E todo aquele que se não ajoelhar e não
adorar a estátua, será imediatamente lançado numa fornalha ardente (...) ... Chegando
ao mesmo tempo alguns caldeus, acusaram os judeus."
O profeta Daniel prossegue, narrando os fatos como aconteceram. Descreve como os judeus
acusados foram lançados a uma fornalha ardente, com suas vestes, sem aceitarem negar a
sua fé num único Deus, e como "andavam no meio das chamas, louvando a Deus e
bendizendo ao Senhor."
Os documentos mais antigos
Os mais antigos documentos, conservados e decifrados, dos tempos heróicos, são: a
inscrição gravada por Yu, o Grande, sobre o monte Heng-Chan, na China, cerca de 2.200
antes de Cristo, registra o Dilúvio. O chamado Mármore de Paros, encontrado no século
XVI e levado à Inglaterra pelo conde de Arundel, nos proporciona acompanharmos a
fundação de Atenas, dia a dia.
Os historiógrafos babilônios
Flavius Josephus afirmou que os babilônios contavam com historiógrafos, encarregados de
escrever o resumo dos acontecimentos públicos, e que teria sido utilizando esse material
que Bérose compôs, no século III antes de Cristo, a sua História da Caldéia.
Fragmentos arqueológicos não totalmente decifrados
Entre os fragmentos arqueológicos ainda não decifrados inteiramente, e que se julga
conterem informações jornalísticas, figuram os sinais gravados: nas ruínas Maias e nas
pedras da Ilha de Páscoa; e as misteriosas inscrições: das covas de Altamira; de Lagoa
Santa, em Minas Gerais; e da Pedra das Vertentes do Rio das Mortes, nos bravios sertões
matogrossenses.
A comunicação através do desenho
Depois da palavra falada, o desenho foi a mais antiga expressão jornalística do mundo.
Encontramo-lo desde quinze mil anos antes de Cristo, talhado ou pintado nas cavernas da
Pré-História. Documentos arqueológicos revelaram desenhos humorísticos, caricaturas e
representações humanas, da flora e da fauna.
As pinturas de Altamira
Na região de Altamira, na Espanha, pinturas notáveis foram reveladas ao mundo, nos
transmitindo "notícias" sobre o período a que pertencem, com inúmeras
informações. Nas pesquisas antropológicas, exercem um importante papel, sendo
consideradas como um meio efetivo de comunicação.
Desenhos como instrumento de crítica
No Egito, a maioria dos desenhos tinha um objeto político, embora retratassem, também,
cenas alegres dos costumes da época ou assumissem uma atitude de crítica. Um dos
desenhos mais conhecidos representa uma gazela, que se entretém com o leão num jogo
parecido com o xadrez; o leão, antes que a partida termine, arrebata a aposta. Supõe-se
que a gazela simboliza os indefesos cidadãos que se arriscam a jogar com os poderosos, no
caso, o Faraó Ramsés III. Num outro desenho, o dirigente egípcio está caricaturado num
gato astuto que conduz um bando de patos inocentes.
Sobre um monumento tebano, critica-se o vício de mulheres da alta sociedade, numa
composição talhada: depois que beberam em excesso, algumas senhoras pedem às suas
escravas que as auxiliem a ficar de pé, enquanto são atendidas em sua agonia.
Os mártires da caricatura
Como outros jornalistas, em todos os tempos, também os desenhistas e caricaturistas têm
os seus mártires. Aristófanes se refere ao grego Pausón - "tudo o que fazia era
degradar e desfigurar, tornando mais feia a pessoa do que era, pelo que não devia ser
mostrada a sua obra aos jovens."
Sobre a morte do artista, falou: "O infame Pausón já não vai nos desfigurar
mais."
De acordo com informações de Plínio, dois outros desenhistas satíricos tiveram morte
violenta: Supalus e Athênis. A caricatura, exagerando os traços, destacava-os à
atenção do próximo, tornava-os mais visíveis, mais conhecidos, comunicava-os.
Manifestações sistemáticas
Esforcemo-nos, porém, para distinguir, no estudo da evolução das comunicações, os
exemplos esparsos, isolados, das manifestações sistemáticas: diárias, atas, jornais.
Diário Oficial no Egito
No Egito, em 1750 antes de Cristo, teria circulado um diário oficial, no reinado de
Tutmés II, impresso em papiro, além de haver uma circulação constante de
"jornais" satíricos, um dos quais combateu acirradamente o faraó Amarsis.
Os Anais dos pontífices romanos
Roma conheceu antes de Júlio César os Anais dos Pontífices, que faziam o balanço
político de fim de ano. Havia os Anais secretos e os Anais públicos. Os primeiros
formavam os "Comentarii Pontificum"; os segundos, os "Annales Maximi".
Somente os "Annale Maximi" eram inscritos sobre uma tábua branca, chamada
álbum, que o Grande Pontífice, seu redator, mandava afixar defronte de sua própria
casa. Depois, com a expansão do Império Romano, surgiram as "Acta Publica",
espécie de diário oficial, que levava as notícias de cada dia até as províncias.
Portanto, os romanos, ao construírem o seu império, não puderam dispensar a
informação, que lhes proporcionava: a vitória sobre os seus opositores; a manutenção
do domínio; o estabelecimento de um espírito público convencido da "missão
civilizadora" das águias imperiais.
As "Acta Diurna"
Por fim, instituíram-se as "Acta Diurna", que inseriam desde os assuntos
políticos até as notícias de matrimônios, enterros, divórcio de gente importante,
fenômenos atmosféricos, incêndios, etc. A recusa da coroa de rei, por parte de Júlio
César, foi também noticiada nas "Acta Diurna".
As "Acta Diurna" constituíram a primeira manifestação jornalística do mundo,
por se tratarem de publicação com periodicidade, tiragem, atualidade e variedade de
assuntos. O primeiro número saiu no ano de 69 antes de Cristo. Redigidas pelos
repórteres chamados "diurnari", continham páginas esportivas, dedicadas a
lutas e competições; colunismo social - a mãe de Nero, Agripina, mandava que fossem
registradas todas as audiências que concedia, enquanto a esposa de Cláudio exigia o
mesmo, apreciando a citação constante de seu nome. Durante quinze anos, sem
interrupção, apesar de não serem propriamente um jornal, como temos nos dias atuais, as
"Acta Diurna" faziam jornalismo.
Das Atas do Senado e das ocorrências de interesse público, César ordenou que fossem
tiradas cópias particulares, que circulavam dentro e fora de Roma, o que contribuiu para
ampliar o campo da informação. As "Acta Diurna" registravam, quando começaram
a ser copiadas e movimentadas,
acontecimentos diversos: execuções, banquetes, longevidades e fecundidades
extraordinárias, crônica social etc. Com a queda do Império Romano, esses jornais
primitivos desapareceram.
Matéria editada em 27/11/02
às 02h45




Livre Uso: Ao
contrário das demais matérias produzidas pela ABN News,
está autorizadas, sem ônus financeiros, a publicação dos Artigos
desta editoria pelos veículos de comunicação, desde que
mantenham a íntegra do texto da matéria, conservando o cabeçalho
ou rodapé com as informações completas sobre o autor e da fonte
(ABN News - Agência Brasileira de Notícias) com a menção
obrigatória do portal (www.abn.com.br) nas edições impressas e
com links nas publicações em sites.
|
|

Ampla Cobertura 24 Horas em Tempo Real
|
Em Tempo Real:
Todas as demais editorias são atualizadas
em tempo real para os veículos de comunicação
cadastrados como usuários dos serviços da Agência
Brasileira de Notícias.
Clique aqui para
solicitar mais informações para ser cliente da Agência
Brasileira de Notícias e contratar os Serviços Noticiosos
24 Horas em Tempo Real
|
|



|