Alexander Bell, que teria inventado o
telefone e se interessou pela tecnologia do som, casou-se com uma
jovem totalmente surda. Durante quase 50 anos, Mabel Hubbard
amparou e inspirou seu brilhante mas excêntrico marido.
Mabel aprendeu a ler os movimentos dos
lábios, conseguiu instruir-se e atingir um nível de cultura
bastante elevado. Quando o Estado de Massachusetts preparava-se
para elaborar as leis necessárias à criação de escolas para
surdos, o pai de Mabel empenhava-se nessa luta. E levou a filha,
com nove anos de idade, para ser interrogada pelos legisladores.
Perguntaram-lhe o que estudava, se tinha
irmãos ou irmãs... Mabel ia respondendo com naturalidade. Sua
voz não era normal, além de apresentar uma tendência a ser
aguda e apagada – mas era inteligível, e de nenhum modo
desagradável.
Passado o primeiro momento de surpresa, os
membros da comissão crivaram-na de perguntas sobre História e
Geografia, propondo-lhe também a solução de problemas simples
de Aritmética. As respostas de Mabel vinham prontas e seguras.
Quando um dos legisladores indagou se a menina sabia ler, sua
professora Mary True entregou-lhe um livro, e Mabel leu uma ou
duas páginas com tanta facilidade e clareza, que algo assim como
um assombro pareceu descer sobre todo o recinto.
A presença da garota surda encerrou os
debates, e a comissão especial recomendou que, em todas as
escolas para surdos que viessem a ser fundadas em Massachusetts,
as crianças deveriam aprender a falar e a ler os movimentos dos
lábios. Isso foi uma grande vitória, se considerarmos que,
naquele tempo, o Estado não tinha lei alguma referente às
crianças mudas, que eram simplesmente despachadas para o vizinho
Estado de Connecticut, ao completarem dez anos.
Mabel, ao doze anos de idade, foi levada por
seus pais à Alemanha, para que se matriculasse numa das mais
adiantadas escolas de surdos. Entretanto, os diversos diretores
procurados mostravam-se incrédulos, ao se entrevistarem com a
menina. Chegaram a dizer: - É impossível! Nenhum surdo poderia
ter o conhecimento que ela tem, nem poderia conversar com o
desembaraço com que ela conversa!
Por isso, Mabel não chegou jamais a
freqüentar qualquer escola para surdos na Alemanha. Sua mãe
matriculou-a num excelente colégio para crianças normais. Ali,
ninguém falava inglês, nem mesmo os professores; mas em poucos
meses Mabel lia, escrevia e falava alemão com facilidade. Como
seus próprios pais também desconheciam o idioma, ela lhes servia
de intérprete, quando empreendiam passeios ou precisavam fazer
compras.
Permanecendo na Europa até os 15 anos,
Mabel regressou a Boston atraída pelas notícias de um jovem e
extraordinário professor, que pronunciara conferência naquela
cidade, expondo um novo método para ensinar os surdos a falar e
melhorar a voz. Chamava o processo de “Fala Visível” e, a
julgar pelo que se dizia, os resultados constituíam autênticos
milagres.
O professor era Alexander Graham Bell, cujo
pai adquirira fama como “corretor de pronúncia defeituosa.”
Desde cedo, Alexander Bell aprendeu o sistema da “Fala Visível”,
concebido por seu genitor, o qual consistia no desenho de uma
série de símbolos cuneiformes, destinados a mostrar aos alunos
gagos a posição do céu da boca, da língua e dos dentes,
necessária à produção de determinado som. A pura mecânica da
produção dos sons exercia um grande fascínio sobre o futuro
inventor do telefone.
Com a idade de 16 anos, arranjou emprego na
Academia Weston House, de Elgin, na Escócia, para ensinar não
só Elocução como Música. Dentro em pouco, alargou o seu campo
de atividade, ministrando lições numa escola para surdos em
Londres, embora estudasse na Universidade de Edimburgo e na
Universidade de Londres. Em 1871, Alexander Graham Bell era o
professor de Fisiologia Vocal, na Escola de Oratória da
Universidade de Boston, onde conheceu a menina-moça de 15 anos
que seria o grande amor de sua vida.
Alexander e Mabel casaram-se em julho de
1877. Antes do matrimônio, Mabel já demonstrara aptidão
comercial, qualidade não encontrada no inventor. Ela insistira
junto a Bell para que colocasse o telefone na Exposição do
Centenário em Filadélfia, promovida para as comemorações do
centésimo aniversário da independência dos Estados Unidos.
Afirmara: -“Esta é a sua grande oportunidade. O país inteiro
verá e ouvirá o seu telefone.”
Se Mabel não tivesse insistido tanto, ele
ficaria a vida inteira aperfeiçoando seu invento. Ela animava-o a
defender seus interesses, a continuar suas pesquisas; divulgava os
projetos por ele concebidos, desde os incontáveis melhoramentos
no telefone e a concepção de um rudimentar pulmão de aço para
vítimas de poliomielite até as experiências ligadas ao rádio,
à aviação, e o princípio das aletas aquáticas para
embarcações de alta velocidade, que ele aperfeiçoou.
Por outro lado, Alexander Bell nunca
diminuiu a sua grande dedicação aos surdos. Foi ele quem mandou
os aflitos pais de Helen Keller, nascida cega e surda, à escola
onde Anne Sullivan ensinava. O inventor destinou aos surdos todos
os lucros de um dos seus projetos mais rendosos: o fonógrafo.
Durante três anos, ele e dois colaboradores
trabalharam para aperfeiçoar o fonógrafo de Edson.
Introduziram-lhe várias modificações, sendo a mais notável a
substituição dos discos cilíndricos, que eram incômodos e
fáceis de quebrar, pelos discos chatos.
Inspirado no exemplo da educação inicial
de sua esposa, aplicou uma outra parte de seus lucros na criação
de uma escola em que as crianças surdas e normais estudariam
juntas, o que viria a permitir que os alunos com deficiências
físicas participassem das atividades próprias da infância,
tornando-se aptos a se comunicarem.
Durante quase 50 anos, as vidas de Mabel e
Alexander Bell foram uma só existência. Bell morreu em agosto de
1922 e sua esposa em janeiro do ano seguinte. Sepultados lado a
lado, numa colina, encontramos apenas estas palavras, em seus
túmulos: “Alexander Graham Bell, inventor” e, “Mabel
Hubbard Bell, sua dedicada esposa.”