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Gutenberg e a invenção da tipografia

Theresa Catharina de Góes Campos <theca@abn.com.br>, articulista da ABN < www.abn.com.br > , jornalista, escritora e professora universitária

Sobre ele, sabemos que nasceu, provavelmente, em 1400, vindo a falecer em 1461. Levou uma existência inquieta, pouco brilhante, marcada por dívidas e demandas. Em 1439, sofreu um processo que lhe moveram os herdeiros de seu ex-sócio.

Expatriado em Estrasburgo e ganhando a vida como gravador em ferro e madeira, organizou em 1436 uma empresa para a exploração de livrinhos e folhetos devocionais, nesse tempo manuscritos ou xilógrafos, bastante procurados nas romarias e festas católicas. Gutenberg descobria um método de lhes acelerar a tiragem, processo referente à estrutura e ao manejo do prelo, e não aos caracteres. O dissídio ocasionado pelo falecimento de um dos sócios fez o seu plano fracassar.

Continuou, porém, as suas experiências, aproveitando os recursos da caixa da Igreja de São Tomás. Tudo indica que, antes de deixar Estrasburgo, teve êxito na obtenção da letra de forma, pois, no ano seguinte, compôs e imprimiu, em letras de chumbo, o primeiro livro conhecido – “O Juízo Final”.

Através dos fragmentos de “O Juízo Final”, do “Calendário” e na “Bíblia de 36 linhas”, vemos que Gutenberg dedicou-se ao aperfeiçoamento dos tipos.

Em 1450, sentindo-se capaz de se devotar a uma surpresa de maior vulto, o inventor da tipografia contraiu um empréstimo com João Fust, a que se sucedeu um segundo, sob penhor e promessa de lucros. Concentrou, então, os seus esforços, na realização da Bíblia de 42 linhas, autêntica relíquia dos primórdios da letra de forma.

Mas Gutenberg era tão imprevidente quanto tenaz e, ao finalizar a tiragem do terceiro “folio”, estava arruinado. As porções de metal, tinta, pergaminho e papel, necessárias a um livro de mil e tantas páginas, que, para ser estampado, reclamava seis prelos, terminaram com os seus recursos. Ele planejara a Bíblia de 42 linhas, desenhara e entalhara as suas letras, moldara e fundira. Depois, ordenando-as em linhas e colunas, as imprimira.

Todavia, quando Gutenberg não pôde pagar as dívidas que lhe cobravam, teve que entregar a Fust a imprensa e os petrechos, os cadernos prontos da Bíblia, assim como os materiais adquiridos e preparados para a sua realização.

Embora a Bíblia de 42 linhas tenha saído das mãos de Fust, ficou conhecida como a Bíblia de Gutenberg. Este, ainda editou, em 1460, a Bíblia de 36 linhas e o “Catholicon”, numa oficina modestamente instalada por Humery. Em fevereiro de 1468, foi sepultado na igreja dos franciscanos.

Conhecemos o valor de Gutenberg não porque ele o tenha proclamado. Pelo contrário, nenhum de seus impressos trouxe seu nome como tipógrafo ou inventor dos tipos de metal. O padre Adão Gelthus, entretanto, na lápide que fez colocar no seu túmulo, chamou-o de inventor da arte de imprimir. Por outro lado, o autor de uma crônica de Mogúncia, entre 1459 e 1484, registra ter sido Gutenberg o primeiro impressor da cidade. Em outra crônica, publicada no ano de 1483, em Pisa, lê-se que Gutenberg descobriu a imprensa em 1440. Até mesmo a família Fust Schoefffer proclamou a sua glória, ao declarar na dedicatória da obra de Tito Lívio, em 1505: “a admirável arte da tipografia foi inventada em Mogúncia pelo engenhoso Gutenberg, em 1450, e em bem da posteridade melhorada e propagada pelos recursos e trabalhos de Fust e Schoeffer”.

A Bíblia de 36 linhas ainda estava por terminar e já em 1461 o aprendiz de Gutenberg, Albert Pfister, imprimia em Bamberg as Fábulas de Bohner, a primeira obra impressa a trazer ilustrações. Entrementes, Mentelin imprimia em Estrasburgo a Bíblia de 4 linhas. Em 1466, Ulrich Zeller instalava sua oficina em Colônia e, no ano imediato, os Bechtermunze abriam outra, em Eltvil.

Bíblias, gramáticas, episódios das Escrituras Sagradas e livros de São Tomás e São Crisóstomo, editados na Alemanha, podiam ser vistos sobre a mesa de Gutenberg.

Ao livro impresso na infância da imprensa chamou-se de “incunábulo”, do latim “incunabula”, que significa: berço, começo. Caracteriza-se pela ausência de portada, assinatura ou data. Composto geralmente “in-folio”, as letras maiúsculas são deixadas em branco, para que sejam iluminadas.

Utilização e controle das informações

No fim do século XV, multiplicaram-se as empresas de impressão. Mas como a produção de livros fosse demorada e onerosa, a rentabilidade apresentava-se incerta. Foi então que os impressores decidiram despertar a curiosidade pelos grande acontecimentos políticos: ameaças de invasão, as descobertas marítimas, as guerras da Itália. Posteriormente, o interesse dos leitores recairia nas idéias e conflitos que o Renascimento e a Reforma Religiosa suscitaram.

O século XV assistiu, portanto, a uma revolução nos métodos de divulgação das informações. Contra a enorme influência que os impressores passaram a exercer, difundindo os conhecimentos e orientando a opinião pública, levantou-se nos séculos XVI e XVII uma cruel repressão.

Apesar de perseguidos, os antigos “menanti”, “novellanti”, “reportisti” e “gazzettanti” (nomes que se davam aos repórteres e redatores das folhas manuscritas) se multiplicaram, agora unidos aos impressores, que compreenderam logo o bom negócio que significava a divulgação dos fatos atuais. E mesmo depois da descoberta da tipografia, continuavam a circular as folhas manuscritas.

Em meio à perseguição movida aos jornalistas, houve alguns soberanos que resolveram utilizar a imprensa como veículo de informações a seu serviço, para granjear simpatias aos atos reais. Assim, em 1597, o Imperador Rodolfo II reuniu os editores mais capazes, objetivando a elaboração de um mesário com notícias do Santo Império Romano-Germânico. Luís XIII, da França, concedeu a Theophraste Renaudot o privilégio de publicar “La Gazette”. Este hebdomadário, além de conter informações políticas inteiramente favoráveis ao governo real, e do texto das ordenanças oficiais, divulgava notícias de nascimentos, matrimônios, divertimentos dos principais personagens da corte, festas, bem como crimes, processos, catástrofes e execuções. Aos poucos, e apesar de tudo, a imprensa ia fazendo o seu lugar no mundo...

Aliás, antes da difusão da tipografia, o seu valor era reconhecido, vez que alguns monarcas se empenharam em conhecer o seu segredo. Carlos VII, da França, enviou à Mogúncia, em 1458, Jenson, mestre moedeiro de Tours, com a missão de descobrir os planos de Gutenberg. Henrique VI encarregou duas pessoas de fazer o mesmo.

Matéria editada em 17/05/04 às 02h23

 

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