Sobre ele, sabemos que nasceu,
provavelmente, em 1400, vindo a falecer em 1461. Levou uma
existência inquieta, pouco brilhante, marcada por dívidas e
demandas. Em 1439, sofreu um processo que lhe moveram os herdeiros
de seu ex-sócio.
Expatriado em Estrasburgo e ganhando a vida
como gravador em ferro e madeira, organizou em 1436 uma empresa
para a exploração de livrinhos e folhetos devocionais, nesse
tempo manuscritos ou xilógrafos, bastante procurados nas romarias
e festas católicas. Gutenberg descobria um método de lhes
acelerar a tiragem, processo referente à estrutura e ao manejo do
prelo, e não aos caracteres. O dissídio ocasionado pelo
falecimento de um dos sócios fez o seu plano fracassar.
Continuou, porém, as suas experiências,
aproveitando os recursos da caixa da Igreja de São Tomás. Tudo
indica que, antes de deixar Estrasburgo, teve êxito na obtenção
da letra de forma, pois, no ano seguinte, compôs e imprimiu, em
letras de chumbo, o primeiro livro conhecido – “O Juízo Final”.
Através dos fragmentos de “O Juízo Final”,
do “Calendário” e na “Bíblia de 36 linhas”, vemos que
Gutenberg dedicou-se ao aperfeiçoamento dos tipos.
Em 1450, sentindo-se capaz de se devotar a
uma surpresa de maior vulto, o inventor da tipografia contraiu um
empréstimo com João Fust, a que se sucedeu um segundo, sob
penhor e promessa de lucros. Concentrou, então, os seus
esforços, na realização da Bíblia de 42 linhas, autêntica
relíquia dos primórdios da letra de forma.
Mas Gutenberg era tão imprevidente quanto
tenaz e, ao finalizar a tiragem do terceiro “folio”, estava
arruinado. As porções de metal, tinta, pergaminho e papel,
necessárias a um livro de mil e tantas páginas, que, para ser
estampado, reclamava seis prelos, terminaram com os seus recursos.
Ele planejara a Bíblia de 42 linhas, desenhara e entalhara as
suas letras, moldara e fundira. Depois, ordenando-as em linhas e
colunas, as imprimira.
Todavia, quando Gutenberg não pôde pagar
as dívidas que lhe cobravam, teve que entregar a Fust a imprensa
e os petrechos, os cadernos prontos da Bíblia, assim como os
materiais adquiridos e preparados para a sua realização.
Embora a Bíblia de 42 linhas tenha saído
das mãos de Fust, ficou conhecida como a Bíblia de Gutenberg.
Este, ainda editou, em 1460, a Bíblia de 36 linhas e o “Catholicon”,
numa oficina modestamente instalada por Humery. Em fevereiro de
1468, foi sepultado na igreja dos franciscanos.
Conhecemos o valor de Gutenberg não porque
ele o tenha proclamado. Pelo contrário, nenhum de seus impressos
trouxe seu nome como tipógrafo ou inventor dos tipos de metal. O
padre Adão Gelthus, entretanto, na lápide que fez colocar no seu
túmulo, chamou-o de inventor da arte de imprimir. Por outro lado,
o autor de uma crônica de Mogúncia, entre 1459 e 1484, registra
ter sido Gutenberg o primeiro impressor da cidade. Em outra
crônica, publicada no ano de 1483, em Pisa, lê-se que Gutenberg
descobriu a imprensa em 1440. Até mesmo a família Fust
Schoefffer proclamou a sua glória, ao declarar na dedicatória da
obra de Tito Lívio, em 1505: “a admirável arte da tipografia
foi inventada em Mogúncia pelo engenhoso Gutenberg, em 1450, e em
bem da posteridade melhorada e propagada pelos recursos e
trabalhos de Fust e Schoeffer”.
A Bíblia de 36 linhas ainda estava por
terminar e já em 1461 o aprendiz de Gutenberg, Albert Pfister,
imprimia em Bamberg as Fábulas de Bohner, a primeira obra
impressa a trazer ilustrações. Entrementes, Mentelin imprimia em
Estrasburgo a Bíblia de 4 linhas. Em 1466, Ulrich Zeller
instalava sua oficina em Colônia e, no ano imediato, os
Bechtermunze abriam outra, em Eltvil.
Bíblias, gramáticas, episódios das
Escrituras Sagradas e livros de São Tomás e São Crisóstomo,
editados na Alemanha, podiam ser vistos sobre a mesa de Gutenberg.
Ao livro impresso na infância da imprensa
chamou-se de “incunábulo”, do latim “incunabula”, que
significa: berço, começo. Caracteriza-se pela ausência de
portada, assinatura ou data. Composto geralmente “in-folio”,
as letras maiúsculas são deixadas em branco, para que sejam
iluminadas.
Utilização e controle das informações
No fim do século XV, multiplicaram-se as
empresas de impressão. Mas como a produção de livros fosse
demorada e onerosa, a rentabilidade apresentava-se incerta. Foi
então que os impressores decidiram despertar a curiosidade pelos
grande acontecimentos políticos: ameaças de invasão, as
descobertas marítimas, as guerras da Itália. Posteriormente, o
interesse dos leitores recairia nas idéias e conflitos que o
Renascimento e a Reforma Religiosa suscitaram.
O século XV assistiu, portanto, a uma
revolução nos métodos de divulgação das informações. Contra
a enorme influência que os impressores passaram a exercer,
difundindo os conhecimentos e orientando a opinião pública,
levantou-se nos séculos XVI e XVII uma cruel repressão.
Apesar de perseguidos, os antigos “menanti”,
“novellanti”, “reportisti” e “gazzettanti” (nomes que
se davam aos repórteres e redatores das folhas manuscritas) se
multiplicaram, agora unidos aos impressores, que compreenderam
logo o bom negócio que significava a divulgação dos fatos
atuais. E mesmo depois da descoberta da tipografia, continuavam a
circular as folhas manuscritas.
Em meio à perseguição movida aos
jornalistas, houve alguns soberanos que resolveram utilizar a
imprensa como veículo de informações a seu serviço, para
granjear simpatias aos atos reais. Assim, em 1597, o Imperador
Rodolfo II reuniu os editores mais capazes, objetivando a
elaboração de um mesário com notícias do Santo Império
Romano-Germânico. Luís XIII, da França, concedeu a Theophraste
Renaudot o privilégio de publicar “La Gazette”. Este
hebdomadário, além de conter informações políticas
inteiramente favoráveis ao governo real, e do texto das
ordenanças oficiais, divulgava notícias de nascimentos,
matrimônios, divertimentos dos principais personagens da corte,
festas, bem como crimes, processos, catástrofes e execuções.
Aos poucos, e apesar de tudo, a imprensa ia fazendo o seu lugar no
mundo...
Aliás, antes da difusão da tipografia, o
seu valor era reconhecido, vez que alguns monarcas se empenharam
em conhecer o seu segredo. Carlos VII, da França, enviou à
Mogúncia, em 1458, Jenson, mestre moedeiro de Tours, com a
missão de descobrir os planos de Gutenberg. Henrique VI
encarregou duas pessoas de fazer o mesmo.