Theresa
Catharina Brasília DF
Antecedentes dos manuscritos e
impressos
Theresa Catharina de Góes Campos,
articulista,
jornalista, escritora e professora universitária
Os chineses descobriram o papel e a tinta, o que
preparou outras importantes invenções. Simplificando o assunto, podemos afirmar que a
evolução do papel foi a seguinte: papiro, pergaminho, palimpsestos, lâminas de faia
(beech); o papel dos chineses, com Tsai-Lun, no ano 100 depois de Cristo; o papel moderno.
Recordemos, contudo, que diversos instrumentos de grafar auxiliaram o homem, numa rota de
evolução para a necessidade de comunicar: pedra, madeira, barro e metal.
Em pedra estavam escritos os Dez Mandamentos. Nos monumentos e marcos históricos, ainda
hoje escrevemos em pedra. A madeira foi adotada pelos chineses, egípcios e romanos. O
pergaminho e o papiro têm a mesma data: dois mil anos antes de Cristo. Por outro lado, a
pele humana também deu, infelizmente, bons pergaminhos. A palmeira do Nilo, que atinge em
geral um metro e oitenta de altura, fornecia o papiro.
Os babilônios faziam suas inscrições na argila da Mesopotâmia, tendo bibliotecas de
peças em argila e em caracteres cuneiformes. A lei das Doze Tábuas foi gravada em
bronze. A Idade Média utilizou o ouro e a prata. Para os textos de menos importância, os
romanos usaram o pano, que é um material de pouca duração. Os velhos saxões escreviam
em tábuas de faia (beech). De "beech" surgiu o vocábulo inglês
"book" e o alemão "buch".
Os primeiros livros foram escritos em folhas de papiro. Como este se partia com
facilidade, substituíram-no pelo couro devidamente preparado - o pergaminho. Por ser
matéria duradoura, era preferido pelos antigos. Os judeus escreviam os seus livros
sagrados em pergaminhos, que ainda hoje usamos para documentos importantes, como diplomas.
Os escribas descobriram o meio de aproveitar os dois lados do couro, realizando assim a
revolução de onde saiu o livro paginado. Os monges escreviam nesses pergaminhos com
penas de ganso, aplicando-se tanto quanto possível na caligrafia. Às vezes, quando
faltava material, raspavam-se as páginas e usavam-se as mesmas novamente. Eram os
palimpsestos, do nome formado de palavras gregas, significando "raspar de novo".
O uso dos palimpsestos, raspando-se o que já fora escrito no pergaminho, constituiu uma
verdadeira tragédia para a cultura humana. Muitos documentos importantes deixaram de
chegar ao nosso conhecimento porque o alto custo do pergaminho provocava a decisão de se
apagar os assuntos considerados ultrapassados, para sobre eles se escrever outra coisa.
Talvez hoje o mundo contemporâneo considerasse mais valiosos os informes relegados ao
esquecimento. Não o sabemos - a comunicação foi cortada bruscamente, substituída por
outra.
A técnica, porém, veio em auxílio da cultura - o uso dos raios X está possibilitando a
leitura dos textos anteriores escritos no pergaminho.
O papel de trapo e as primeiras fábricas
O papel fabricado com roupas velhas, cascas de árvores e fios de cânhamo, data
aproximadamente do ano 100 depois de Cristo - e foi obra dos chineses. Atribui-se o seu
descobrimento a Tsai-Lun, nome que deveria ser tão admirado e honrado quanto o de
qualquer outro benfeitor da humanidade.
O Ocidente conheceu a nova matéria por intermédio dos árabes, que, no ano de 751,
aprisionaram alguns operários chineses. Teria sido montada em Samarcanda a primeira
fábrica de papel. Seguiram-se a esta experiência no Turquestão, outras duas, fundadas,
respectivamente, em Alepo e em Bagdá. Mas o invento levou muito tempo para chegar à
Espanha, pois o mais antigo
estabelecimento fabril de papel, instalado nesse país, é o de Játiva, e remonta ao ano
de 1500 - data mais importante que muitas outras, comemorativas de batalhas ou de
coroamentos reais. Da mesma época são as fábricas de Toledo e Valência.
Realmente, na história das comunicações, o papel ocupa um lugar de destaque. Em
Portugal, no reinado de D. Dinis, em fins do século XIII, apareceu o papel de trapo,
ocorrendo uma simultânea difusão na Alemanha. Nuremberg, cidade hanseática, por sua
situação especial - a meio caminho da Itália - tornou-se um dos maiores entrepostos
mercantis do papel na Europa Central. Essa cidade era a estação preferida pelos
imperadores e o centro dos estudos astronômicos e geográficos do final da Idade Média.
É verdade que, antes do século XIII, a Alemanha já conhecia anteriormente o papel de
trapo, importado da Itália. Esse tipo de papel, a princípio grosso, desigual, áspero e
pouco flexível, foi aperfeiçoado pelos obreiros europeus, que o fizeram mais fino e mais
maleável. Deu-se ao artigo, com esses melhoramentos, o nome de papel filigranado, ou
"papel de marcas de água", devido às marcas produzidas pelos fios de cobre
fixados nas formas utilizadas em sua fabricação.
A gravura
A gravura, iniciada na China, com a xilografia, tomou enorme impulso nos meados do século
XV, ao surgirem os primeiros livros impressos em pranchas de madeira ou de metal - os
"Livros Tabulários", como então se dizia. O que mais ressalta nesses livros
não são os textos, escritos quase sempre em latim, mas as imagens, que serviam, de modo
especial, para auxiliar no serviço religioso. A chamada "Bíblia dos Pobres" é
uma exemplo típico de livro tabulário. Com o progresso da imprensa, começariam a
aparecer as gravuras em madeira, usadas juntamente com os caracteres móveis e à sua
semelhança.
Gravadores famosos
Pfister, de Bamberg, foi o mais antigo gravador de madeira de que temos notícia. Outro
notável gravador viveu em Angsburgo: Zainer. A Bíblia gravada de Colônia, do ano de
1480, ficou famosa pelas suas estampas. E a arte da gravura atingiu um alto nível com
Dürer e Holbein.
A xilografia
A xilografia, ou seja, os impressos mediante placas ou chapas inteiriças de madeira, nas
quais se gravavam previamente as letras, era praticada pelos chineses desde o século X,
enquanto no Ocidente ela seria iniciada pelos monges. Os exemplares xilográficos mais
antigos são desenhos de santos, com explicações à margem. A xilografia assinala a
etapa imediatamente anterior à impressão tipográfica; pronta a tábua, a tiragem não
tinha quase limite. Arte de origem monástica, a xilografia aplicou-se a princípio na
estampagem de motivos sacros em panos e tapetes das igrejas. Atraída pelo comércio
profano, logo se exercitou na impressão de imagens de santos, cuja procura aumentara com
o incremento dado às peregrinações pelo Papa Bonifácio IX - os romeiros compravam - e
traziam-nas para suas casas, como lembrança e atestado de presença e como objeto de
culto. Das figuras religiosas, estenderam-se os gravadores às de baralho, seduzidos pelo
alto preço das cartas de jogar pintadas à mão.
Durante muito tempo se pensou que as figuras profanas houvessem precedido as sagradas.
Hoje, contudo, está provado o contrário. De cartas impressas não há data certa
anterior a 1470, nem data provável anterior a 1430, enquanto há imagens impressas
datadas de 1423, indiscutível, para o São Cristóvão do Mosteiro dos Cartuxos de
Buxheim, e a de 1419, aceita com reservas para a Virgem e o Menino Jesus, achada num velho
cofre em Malinev. O autor do São Cristóvão, datado de 1423, esculpiu duas linhas de
legenda em gótico.
O interesse pelas imagens religiosas impulsionou a xilografia, vulgarizando-a.O que antes
era fruto da solidão e paciência dos que viviam nos conventos, transformou-se em
artesanato. Das estampas partiram os gravadores para os folhetos e opúsculos, e iriam
certamente aperfeiçoar
ainda mais o seu trabalho, se a tipografia não surgisse, para ultrapassar a impressão
tabulária.
Dos manuscritos aos caracteres móveis: a quiroxilografia
A transição do manuscrito ao impresso - fase quiroxilográfica - pode ser exemplificada
pelo "Exercitium Super Pater Noster", de 1425 aproximadamente. Legendas escritas
à mão vêem-se acima de seus dez quadros gravados. Nos vários Apocalipses, alguns
gravados e manuscritos, e outros apenas gravados, também se pode constatar esse período
de transição. Pelas suas inúmeras edições, a "Bíblia Pauperum" (Bíblia
dos Pobres) deve ter sido o livro de maior popularidade, com desenhos em parte atribuídos
a Van Eyck. Por outro lado, no "Ars Moriendi", a perfeição do entalhe das
letras chama a nossa atenção.
A existência tão breve da impressão tabular provou que a tipografia já estava abrindo
caminho. O mundo de Gutenberg reivindicava livros, e colocava ao alcance do inventor todos
os elementos que, reunidos e associados, resultariam nos tipos soltos de metal. Havia
papel em abundância, quinze vezes mais barato do que o pergaminho; a tinta acabava de
surgir, homogênea e indelével, das bem sucedidas experiências de Van Eyck. Adicionando
à solução das cores em oleio de linhaça e nozes, umas substâncias resinosas, Van Eyck
conseguiu impedir a deterioração, além de
transmitir às tonalidades uma perene frescura e transparência. A prensa de rosca,
adequada ao esmagamento das uvas e azeitonas, ao aperto dos livros na encadernação e ao
enxugamento do papel nas manufaturas, vinha sendo empregada pelos xilógrafos na tiragem
rotineira de estampas e opúsculos.
Dispondo dos meios necessários à tarefa de libertação e multiplicação das letras
presas à prancha, os xilógrafos tentaram uni-los, conseguindo efeitos como o da
mobilidade do desenho em relação aos textos, e o da mobilidade das letras em relação
às linhas, chegando a estampar textos inteiros com caracteres soltos de madeira. Muitos
gravadores, ourives e impressores quiseram afirmar seu merecimento como inventores da
imprensa, arrebatando de Gutenberg a glória de terem atingido primeiro o termo decisivo e
final - a fundição. Suas reivindicações não procedem.
Gutenberg não deve ser reverenciado porque inventou os elementos da tipografia, desde que
eram comuns. Seu nome merece honra e gratidão porque reuniu esses elementos, ordenando-os
de maneira útil e conseqüente.
É verdade que Janszoon Coster obteve caracteres móveis, em 1437, imprimindo com eles o
"Abecedarim", cinco anos antes do primeiro livro de Mogúncia, que foi o
primeiro de Gutenberg. Um neto de Mentelin, da Alsácia, afirmou que o avô imprimia com
tipos móveis em Estrasburgo, desde 1438. O fato é verdadeiro, com exceção da data,
pois ficou provado ser a partir de 1458. Gutenberg
preparava o seu invento, nessa época, na mesma cidade em que vivia Mentelin, o que fez
nascer a hipótese de que tivesse descoberto o segredo da tipografia. Outra suposta
prioridade beneficia o nome do polaco Waldfogel. Por volta de 1445 ele trabalhou com
letras de ferro e um "processo de escrever artificialmente", embora não tenha
ficado esclarecido se essas letras eram fundidas. Ao que parece, tratavam-se simplesmente
das letras dos encadernadores.
Matéria editada em 27/11/02
às 02h45



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