Theresa
Catharina Brasília DF
Teatro: a
dramatização como forma de comunicação
Theresa Catharina de Góes Campos < theca@abn.com.br>, articulista, jornalista, escritora e professora universitária
O teatro na Antigüidade
Teatro é uma forma literária e também uma comunicação ao vivo, do autor para o
público. De uma geração a outra geração. De uma época para outra época.
Comunicação de uma circunstância à mente do espectador e, às vezes, um toque especial
para o seu coração.
O teatro constitui um processo sistemático de comunicação audiovisual. Destacou-se
sobretudo na Grécia, com Sófocles, Píndaro, Ésquilo, Eurípedes. Popular, o teatro
grego caracterizou-se pelo seu conteúdo altamente intelectual. A famosa tragédia
"Electra" foi representada pela primeira vez mais ou menos em 413 antes de
Cristo, no teatro de Dionisos, com capacidade para trinta mil espectadores, sentados em
arquibancadas semicirculares escavadas na rocha das encostas da Acrópole de Atenas. O
povo grego soube amar as suas Tragédias, que legou à humanidade.
As peças de Sófocles e Eurípedes, os dramas de "Antígona", de "Édipo
Rei", exerciam grande atração sobre o público. Antígona comunicou aos
espectadores, para todo o sempre, sua mensagem de justiça; preferiu arcar com a ira e a
violência do poder terreno, a violar uma lei religiosa; não vacilou ante a defesa dos
princípios em que acreditava. Foi essa a sua mensagem universal.
No Egito, as peças teatrais encenadas ao deus Osíris simbolizam as quatro estações do
ano.
O teatro na Idade Média
Na era medieval, dois lugares exerceram destacada função na vida do povo: as igrejas e
as praças. O teatro existia nesses dois locais.No primeiro, representavam-se peças
religiosas, versando sobre temas sagrados, extraídos da Bíblia ou de lendas piedosas.
Mas o teatro viu o seu público aumentar quando saiu dos templos e passou a ser
apresentado nas praças; embora as peças tivessem sempre uma atmosfera religiosa, o tema
era um pouco mais livre; chamavam-se peças "profanas".
Uma delas tinha o nome de "sottise" - palavra francesa que significa
"tolice", "loucura". Todas os personagens fingiam ser loucos e diziam
todas as verdades que desejavam falar, sem que fossem presos ou perseguidos, pois estavam,
para todos os efeitos, "representando". Essas peças satíricas agradavam
bastante o público. Nos papéis de loucos, os atores podiam dizer o que os espectadores
não ousavam.
O teatro medieval floresceu sobretudo na França e começou com as representações
sacras, organizadas pelo clero para difundir os episódios religiosos mais interessantes.
Nesse teatro, destacamos: os dramas litúrgicos, os milagres, os mistérios, a
"sotie".
Os dramas litúrgicos representavam-se após a Missa, nos dias das grandes festividades,
tendo como tema principal as cenas do Natal, da Paixão ou da Ressurreição de Cristo. No
século XII, os Milagres substituíram os dramas litúrgicos. Nessa nova forma, os versos
dão lugar à prosa e o latim vê-se preterido pelo francês. Além disso, os autores já
não eram apenas sacerdotes, mas leigos, e as representações passaram a ser realizadas
no adro das igrejas, abandonando o interior dos templos.
Uma outra característica distingue os Milagres: enredos profanos,embora de significação
ou fundo moral.
O teatro religioso da Idade Média atingiu o seu clímax no século XV, quando apareceram
os Mistérios, apresentados nas praças. As cenas da história bíblica, assunto
principal, viam-se intercaladas com episódios cômicos - as farsas - , o que evitava a
monotonia dos espetáculos, geralmente muito longos.
O teatro da Idade da Idade Média refletia a atmosfera medieval,de cunho religioso.Nas
igrejas ou nas praças, o povo assistia aos Mistérios, aos Milagres, às farsas,
caracterizando-se como uma dramatização de fontes bíblicas. A própria "Divina
Comédia", de Dante,foi uma obra poética com características de teatro, e marcada
também pela visão das coisas divinas.
O teatro da Idade Moderna
O teatro da Idade Moderna teve nomes gloriosos: Shakespeare,Corneille, Molière e Racine.
Shakespeare escreveu, entre outras peças: "O Rei Lear", "O Mercador de
Veneza", "Ricardo II", "Ricardo III", "Romeu e
Julieta", "Hamlet","Otelo", "Júlio César",
"Macbeth", "Antônio e Cleópatra". A tragédia de dois jovens
apaixonados, Romeu e Julieta, comunica-nos até hoje o absurdo que representa a
discórdia, o ódio entre os homens, que lutam cegamente uns contra os outros... e a
visão do amor, que vê além de todas as diferenças aparentes e busca a unidade de
coração.
A mesma força do amor, de ser capaz de unir, quando tudo parece conduzir à desunião,
está presente na peça de Corneille "Le Cid".
Enquanto Corneille pintava os homens como deveriam ser - cumpridores de seu dever,
heróicos, altruístas - Racine os descrevia bem mais humanos, com seus defeitos
peculiares. São peças famosas de Racine:"Berenice", "Fedra",
"Ifigênia". Com "O Mentiroso", Racine
contribuiu para o desenvolvimento da comédia, chegando mesmo a influenciar as obras de
Molière.
O espírito satírico de Molière registrou para a posteridade o ambiente de sua época,
com suas futilidades e seus defeitos, por meio de peças teatrais como:
"Tartufo", "Don Juan", "O Burguês Fidalgo", "As
Mulheres Sábias", "O Doente Imaginário", "As Preciosas
Ridículas","Escola de Maridos", "Escola de Esposas".
Hoje, o público ainda ri do Burguês Fidalgo que, recebendo um título, quis se
assemelhar aos membros da nobreza - e contratou professor de dança, de Filosofia,
encomendou ao alfaiate uma roupa de fidalgo, etc. Mas isso foi uma realidade - aos
burgueses ricos, em troca de dinheiro, os reis davam títulos, o que não impedia que eles
continuassem sendo o
que sempre foram: burgueses.
Na França de Molière, as mulheres se reuniam em sociedades literárias, onde se portavam
com refinada afetação. O autor criticou a superficialidade, as mulheres fúteis que
desejavam aparentar um espírito intelectualizado; daí surgiu a sua comédia "As
Mulheres Sábias".
As óperas de Wagner
Os apreciadores da música e das óperas de Wagner constituem uma prova eloqüente de que
o gênio alemão conseguiu se comunicar. Sua obra foi uma ponte entre ele e os outros
homens - incapazes de criarem música semelhante, mas capazes de entendê-la e amá-la. Os
aplausos de ontem confundem-se com os aplausos de hoje para as obras de Wagner: "O
Navio Fantasma", "Lohengrin", "Os Mestres Cantores",
"Tristão e Isolda", "Parsifal". Assim, o teatro comunica gerações.
O teatro contemporâneo
O autor norueguês, Ibsen, é considerado o mais importante dramaturgo do século XIX.
Quando começou sua carreira, a literatura da Noruega, que durante séculos estivera
ligada à dinamarquesa, iniciou sua independência com um movimento de romantismo
nacional, de que Ibsen também participou. Escreveu, entre outras peças: "Os
Espectros", "Um Inimigo do Povo".
"A Aliança da Mocidade" constitui uma sátira aos costumes eleitorais da
Noruega de então. "As Colunas da Sociedade" aborda um caso de seguros
fraudulentos, demonstrando que os burgueses ricos e poderosos podem ter um passado
criminoso. Sendo essa uma peça otimista, o culpado se arrepende no final, é perdoado, e
manifesta a sua confiança nas forças libertadoras e purificadoras do operário e da
mulher. Mais tarde, Ibsen desistiu de se bater em prol do operariado, mas continuou
seguindo uma linha feminista. Na peça "Um Inimigo do Povo", um médico sofre
perseguições porque revelou que as águas de um balneário famoso estavam poluídas.
O Irlandês Bernard Shaw, com muita ironia, escreveu: "Pigmalião", "Santa
Joana", "César e Cleópatra", "O Herói e o Soldado". O público
entende com facilidade a comunicação que lhe é feita através de Pigmalião - o homem
que consegue fazer de uma mulher comum uma dama admirada por todos.
Em "O Cerejal", Tchekov comunica o ambiente com as seguintes palavras: "Um
campo. Uma velha capela, há muito abandonada, com paredes rachadas; próximo, um poço,
grandes pedras, que aparentemente foram lajes tumulares, e um velho banco. Pode-se ver uma
estrada para a propriedade de Gaev. De um lado erguem-se álamos, projetando suas sombras;
o cerejal começa aí. À distância uma fila de postes de telégrafo; e longe, muito
longe, em traços apagados no horizonte, uma grande cidade, visível apenas quando o ar é
bastante límpido. Em breve,o sol desaparecerá."
Jean Cocteau reconstituiu, no teatro contemporâneo, mitos antigos: "Orfeu",
"Antígona", "Édipo". Autor também de "Les
EnfantsTerribles" e de "A Máquina Infernal", afirmou sobre a sua peça
"Les Mariés de la Tour Eiffel": "A ação de minha peça desenrola-se
através de imagens.................... As cenas estão integradas como as palavras deum
poema."
Na Espanha, Garcia Lorca, autor de "Bodas de Sangue", conseguiu comunicar a seu
próximo, com lirismo e poesia, o sofrimento de "Yerma", a esposa que ansiava
ardentemente por um filho. E não comunicou apenas isso; transmitiu ainda, na mesma peça,
as superstições da população rural, a maledicência, os preconceitos.
Pirandello ficou célebre pela sua teatralidade desesperada.Prêmio Nobel de 1934, suas
comédias tratam dos enganos permanentes do homem. São tragicomédias que tratam dos
enganos permanentes do homem. Não se trata mais de "palco", mas da própria
vida, dizem os críticos. As personagens são pessoas vivas, que encontramos na rua, que
conhecemos, que são nossos vizinhos. Pirandello escreveu: "Seis Personagens em Busca
do Autor", "Mas não é uma Coisa Séria", "Henrique IV",
"Vestir os Nus".
Em "Vestir os Nus", uma suicida, depois que é salva da morte,deseja assumir
outra personalidade, para conseguir enfrentar o mundo.A mesma fuga da realidade
encontramos em "Henrique IV" - um louco consegue se curar, entretanto, acha mais
fácil continuar a agir e se passar como "louco", a ter que encarar de frente o
mundo em que vive.
Laura é a personagem frágil, tímida, receosa de todos, na peça "À Margem da
Vida", de Tenessee Williams. Ela e sua mãe são duas pessoas frustradas e agem com
muito pouca compreensão, no que se refere a Tom,rapaz com alma de poeta, obrigado a
ganhar a vida trabalhando numa sapataria, respectivamente seu irmão e filho. Complexada
devido a um defeito físico, Laura não foi preparada para enfrentar o mundo.O grande
sonho de sua mãe é lhe "arranjar" um bom casamento. Como vemos,as personagens
são nossos companheiros de existência, com seus problemas e preocupações. Dramaturgo
de inspiração vigorosa, Tennessee Williams deu notáveis contribuições ao teatro
contemporâneo: "Um Bonde Chamado Desejo", "Noites de Iguana",
"Gata em Teto de Zinco Quente", entre outras peças. Tennessee Williams, como
Odets, apresenta um teatro poético baseado no realismo moderno, sem exigir uma
participação mais livre e mais direta por parte do público (como ocorre com o teatro de
Obey).
Os conflitos e preconceitos raciais, que tantas lutas provocam entre os homens, nos são
comunicados também pelo teatro contemporâneo. Exemplo disso são as peças
"Oração Por Uma Negra", de William Faulkner, e "A Prostituta
Respeitosa", de Jean-Paul Sartre.
O existencialismo de Sartre, difundido e refletido em suas obras, não admite uma
solução para a angústia do homem, o que se contrapõe ao pensamento de outra corrente
existencialista. De acordo com o católico Paul Claudel, o homem realmente é um ser
angustiado.Essa angústia, contudo, leva o ser humano a buscar Deus. No encontro do homem
com Deus, ocorre a realização humana e a destruição da angústia. E toda a nossa vida
é um caminhar para Deus.
Sartre escreveu ainda para o teatro: "As Moscas", "Os Mortos Sem
Sepultura". A história dessa peça gira em torno de um grupo daResistência
Francesa, aprisionado e torturado com requintes de crueldade.
Paul Claudel, inspirado pelo seu existencialismo da esperança, escreveu a belíssima
peça de teatro "O Anúncio Feito a Maria", cuja mensagem pode assim ser
traduzida, de acordo com as palavras do próprio autor: "De que vale a vida, se não
é para ser doada?
Tendo abordado o aspecto religioso, nas considerações sobre autores teatrais, não
podemos deixar de citar "Crime na Catedral", de Elliot. Entre as peças desse
dramaturgo ("Crime na Catedral", "A Rocha", "Reunião
Familiar") destaca-se de modo especial a primeira, que supõe um público cristão.
Escrita por um poeta metafísico por excelência, expõe o paradoxo do martírio: lamento
e júbilo, viver e morrer ao mesmo tempo; o mártir assumindo o papel de semente sangrenta
da Igreja.
"Crime na Catedral" é a única peça moderna onde o coro faz parte do esquema
dramático, nele desempenhando um papel em muitos aspectos semelhante ao coro de
Sófocles, ao expressar em música e imagem o sofrimento de Thomas. É o coro que lhe
revela a razão de seu martírio: a caridade, o amor. Assim, a perfeição cristalina do
coro deve-se ao fato de existir primeiramente para expressar um sofrimento, e apenas
secundariamente para representar "as muralhas de Canterbury". A causa formal de
"Crime na Catedral", de Elliot, e a chave para o enredo, para o uso do palco,
para a estruturação de personagens e para o tratamento do texto, é a idéia de ação
expressa pela fórmula:
"Sabeis e não sabeis que agir é sofrer e o sofrimento é ação".
Um jovem autor conseguiu grande êxito junto ao público de teatro - Edward Albee - com
duas peças de um ato: "A História do Zoológico" e "O Sonho
Americano"; e ainda: "Quem tem medo de Virgínia Woolf?". Suas obras batem
numa mesma tecla dominante: a incomunicabilidade humana; apesar da tremenda necessidade
que os seres humanos sentem de se comunicarem, mostram-se incapazes. E não se entendem, e
se injuriam, e se magoam mutuamente. "Quem tem medo de Virgínia Woolf" mostra o
desentendimento conjugal.
"O Sonho Americano" é um verdadeiro pesadelo. Pena que o autor acentue tantos
aspectos negativos, sem dar nem ao menos uma visão de esperança ou solução. Talvez, na
busca de se apresentar com dramaturgo realista, foi tão pessimista que perdeu o senso da
realidade. Esqueceu a ternura, a solidariedade humana. Deteve-se, fixou-se na
incompreensão. Edward Albee, o autor da incomunicabilidade, conseguiu se comunicar com as
platéias - e teve êxito, justamente porque os espectadores compreenderam o que ele
escreveu, captaram o significado de sua mensagem (ABN).
Matéria editada em
31/07/02 às 04h00



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