Theresa Catharina de Góes Campos , articulista, jornalista, escritora e professora universitária
Um país continental, com problemas continentais
agravados por crises mundiais e uma população marcada pela má distribuição de renda e
a exclusão social, o Brasil enfrentou com galhardia mais um teste, observado e analisado
passo a passo, inclusive, por comentaristas internacionais.
Uma prova concreta de maturidade no processo democrático. Uma demonstração de
eficiência, também, apesar das ocorrências que tumultuaram e provocaram atrasos no
primeiro turno. E, mesmo no segundo turno, quando os incidentes nas zonas eleitorais foram
reduzidos, ainda assim presenciamos casos isolados de desobediências à lei, descumprida
acintosamente, até com violência explícita. No Distrito Federal, há suspeitas de
fraude.
Essas considerações, entretanto, não impedem que o Brasil se
destaque, no mundo, por sua competência na realização das eleições 2002. A
comparação com os Estados Unidos, aliás, nos é amplamente favorável. Lá, a
apuração de votos para presidente foi demorada e, pior ainda, chegou a um resultado até
hoje discutido, devido à controvérsia de que o candidato empossado não teria obtido o
maior número de votos...
Disputando pela quarta-vez a presidência da república, o operário e líder sindical
Lula viu-se escolhido, no segundo turno disputado com José Serra (candidato da
situação), por 55 milhões de brasileiros! Sua única experiência de vitória eleitoral
fora o mandato para Deputado Federal (o mais votado, em toda a nossa história
parlamentar). Sem esquecermos de registrar o alto nível de abstenções e o protesto, nas
urnas, dos votos em branco, devemos enfatizar o significado da escolha popular. Com
"suas dores e bens" (falou Carlos Drummond de Andrade, em poesia reveladora
sobre o Brasil), o povo expressou seu desejo de mudança, guiado por sentimentos de
esperança, determinado a confiar na administração de um político amadurecido por
sucessivas campanhas e derrotas.
Os eleitores acreditaram em Lula, mas rejeitaram o seu partido nas disputas pelos governos
estaduais. Somente em três estados (Mato Grosso do Sul, Acre e Piauí) o PT saiu
vencedor. Perdeu por grande margem nos principais estados do Sudeste e do Sul; no
Nordeste, os conservadores do PFL-PMDB também saíram vencedores. No Distrito Federal, o
Partido dos Trabalhadores quase chegou lá, contudo, a vitória tão sonhada não se
concretizou.O PFL e o PSDB já se manifestaram sobre a articulação que empreendem para
atuar na oposição, embora tenham o cuidado de ressaltar que visarão ao bem do país,
fazendo uma fiscalização construtiva da nova administração, após oito anos de
exercício no poder. Cientes de que o povo estabeleceu, nas urnas, um equilíbrio de
forças onde o Executivo precisará negociar cada passo com o Legislativo, os partidos
agora na oposição estabelecem estratégias como a de manter a estabilidade da moeda, sem
deixarem de cobrar as promessas dos discursos da campanha petista, que prometiam aumento
do salário-mínimo.
Como lidar com adversários, amigos, aliados e colaboradores
Os relacionamentos durante a campanha resultaram de negociações cuidadosas, entretanto,
estar no poder significará a exigência de uma convivência bem mais difícil. Lidar com
os conflitos internos do PT, gerenciar os pedidos de amigos, aliados e colaboradores -
tudo isso sem comprometer os objetivos da administração. Nesse contexto de ambições e
propostas diversificadas, os adversários poderão representar até um obstáculo mais
fácil de vencer, por terem posições manifestadas explicitamente.
Na Câmara dos Deputados, o PT conseguiu o maior número de representantes (91), enquanto
o PL arrematou 84 cadeiras; 74 é o novo número do PMDB e, para o PSDB, 71 é o seu total
de representantes.
Mas uma das estratégias dos que mudaram, da situação para oposição, seria apresentar,
requerendo urgência, os projetos da bancada do PT defendidos durante a presidência de
Fernando Henrique, visando a testar a sinceridade de seus defensores...
Os novos governadores do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais e do Rio de Janeiro já pedem,
ao presidente eleito, a renegociação das dívidas de seus estados junto ao governo
federal. Estão se fundamentando justamente na proposta de lei do vice-presidente eleito,
José de Alencar, para reduzir de 13% para 5% o comprometimento das receitas estaduais com
o pagamento de suas dívidas. Ora, os investidores consideram inaceitável que seja
descumprida a Lei de Responsabilidade Fiscal! As reformas que o atual governo não
realizou - a tributária e a da Previdência - não devem mais ser adiadas.É preciso,
também, evitar a desestabilização financeira do setor privado, onde as empresas
enfrentam o aumento de custos provocado pela disparada do câmbio e os juros elevados.
O contexto atual do Brasil mostra a maior inflação desde 1994. Essa má notícia pode
ser amenizada pelo saldo da balança comercial que, dois dias antes do término do mês de
outubro último, registrou um recorde histórico - o maior superávit para outubro em toda
a nossa história( US$2,056 bilhões). As exportações no mês também foram as mais
elevadas, com US$5,917 bilhões no total. Se as previsões otimistas quanto a um
superávit, neste ano, de US$11 bilhões, se concretizarem, será o maior, desde 1994.
O PT deverá formar equipe de alto nível, especialmente na área econômica, para
enfrentar com sucesso esses desafios gigantes. Aloísio Mercadante (PT-SP), o senador mais
votado em toda a nossa história, poderá ter seus conhecimentos e sua atuação de
político responsável aproveitados no sentido de influenciar e/ou integrar, também, esse
grupo de quem se espera agir, com êxito, no sentido de colocar a economia do Brasil no
rumo certo do desenvolvimento sem exclusão social.
Na área das relações internacionais, espera-se que os fundamentos ideológicos do
Partido dos Trabalhadores lhe permitirão atitudes mais independentes em assuntos
relativos ao Mercosul e à Alca.
A sociedade dos excluídos
Lula enfatizou a sua missão de combater a fome dos brasileiros, meta realmente
prioritária. O Ipea divulgou que 14,6% da população é indigente. Abaixo da linha da
pobreza, vivem 24,7 milhões de brasileiros: sem casa, nem roupa, passando fome. Os pobres
seriam os que comem, mas não têm o que vestir, nem onde morar. Somando pobres e
indigentes, os números representam 33,6%, correspondendo a 57 milhões de pessoas.
A marginalização de nosso povo manifesta-se ainda, de forma pungente, nas suas
carências educacionais. A nossa sociedade tem 54 milhões de analfabetos acima de 15
anos! Afinal, dar comida contribui para a sobrevivência, embora possa oferecer muito
pouco para que os atendidos ganhem condições para realizarem seu potencial de
cidadãos.As nações consideradas desenvolvidas priorizam a educação como base para o
seu desenvolvimento. E os resultados mostram que esse é o caminho, a solução. Aliás,
já existe uma outra forma bem atual de marginalização, um novo tipo de exclusão - os
que não têm acesso a computadores e à internet. Até serviços governamentais são
oferecidos pela internet, deixando em situação de inferioridade os desprovidos dessa
tecnologia.
Para enfrentar o problema do desemprego, também se usa o instrumento da educação,
visando à qualificação profissional. O trabalho infantil contribui para o círculo
vicioso da pobreza. Crianças e adolescentes na escola terão perspectivas de um futuro
melhor, para eles e suas famílias. O povo também poderá exigir serviços de saúde de
qualidade. Assim como facilidades para a prática do esporte e de lazer. Naturalmente, sem
atendimento educacional, subsistindo nos limites da ignorância, menos cidadania o
indivíduo exerce. Nem mesmo os seus direitos ele tem condições de solicitar, reclamar,
exigir adequadamente.
Lula e os políticos eleitos recentemente receberam, democraticamente, um mandato de
esperança, um manifesto pró-mudança, apesar de todas as dificuldades que se apresentam
no horizonte do povo brasileiro. Espero que os pobres e indigentes sejam atendidos em suas
necessidades mais urgentes. E que as questões de segurança, finalmente, tenham a devida
atenção. Para a classe média e as elites acredito que não haverá melhorias sensíveis
na área econômica - muito pelo contrário, pois suportarão os encargos financeiros que
permitirão à nova administração cumprir suas promessas de campanha.
Mas se a fome e a pobreza forem vencidas, e programas de segurança e emprego
desenvolvidos com eficiência, toda a sociedade brasileira sairá beneficiada!