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Despir a camisa
Mario Persona
[
contato@mariopersona.com.br ] é articulista da ABN (www.abn.com.br), consultor,
escritor e palestrante. Esta crônica faz parte dos temas
apresentados em suas palestras (www.mariopersona.com.br).
O eletricista
escalou com cuidado a desconfiada escada, observado de perto -- bem
de perto -- pela veterana senhora. Era ela quem segurava a barra da
escada e via a barra da calça do eletricista escalar rumo ao pesado
lustre pendurado no teto do ilustre sobrado. De mudança, ele iria
iluminar a madame em um apartamento menor.
Um dos "causos" preferidos de meu pai, isso se passou em um ano que
não passava dos oitenta, mas que fez muita gente correr mais para
não ficar para trás. A indústria não tinha lustre, mas também estava
de mudança. Qualidade total, reengenharia, downsizing e outras
expressões desembarcavam aqui nas malas de gurus alienígenas. Gurus
que não traziam flores, colares e mantras nas mochilas, como nas
décadas precedentes.
Mais racionais, indicavam uma nova rota para o Nirvana da produção,
com promessas de lucratividade eterna para quem implementasse seus
preceitos de gestão. Em lugar de arroz integral, qualidade total. Em
lugar do shoyu e do açúcar mascavo, reengenharia e downsizing. Nada
de rapar cabeças em estilo monástico. A moda agora era cortá-las
rente, na altura da gravata ou da gola do macacão, dependendo do
status do cidadão.
No chão de fábrica, operários se acotovelavam maravilhados em redor
de um novo maquinário automático, programável, implacável. "Agora o
serviço vai ficar mais leve!" -- exclamavam. E ficou. Tão leve que
dispensou o peso morto de gente que teimava em dar sinais de vida.
Era o trator chegando à roça industrial.
No andar de cima, colarinhos engomados eram mesmerizados pelo fulgor
verde-fósforo das telas bruxuleando sistemas informatizados de
gestão. O último a sair já não precisava apagar a luz. O sistema
cuidaria disso. Máquinas movidas a vapor de megabytes atropelavam
boa parte da mão-de-obra cerebral.
Se você for militante da ala de defesa de uma sociedade estática,
saudosista e retrógrada, deve estar babando com o que leu até aqui.
Pode parar. Não pretendo fazer apologia à ineficiência da
estagnação, mas falar de mudanças. Quase sempre temidas, cruéis,
injustas, mas profiláticas. Foi mudando de estatura que eu e você
crescemos.
Poucos percebem que aquelas mudanças dramáticas ajudaram a
revolucionar o trabalho e a comunicação. Os mesmos cérebros
decepados das empresas, aliados aos filhos desocupados dos que
permaneciam empregados, criaram a produção de intangíveis que hoje é
uma nova riqueza. Foi essa situação que impulsionou a Internet e
seus derivados virtuais.
Então, os barões da indústria, sucessores dos barões do campo, viram
emergir lavouras de bits e indústrias de marcas, vendendo idéias e
gerindo percepções. Hoje a carne do sanduíche famoso vem de um boi
que a empresa nunca criou, moeu ou fritou. Terceirizou.
Meu par de tênis
foi fabricado por uma indústria que nunca fabricou, mas inovou. Como
entender isso?
O maior valor de um corpo está no órgão que gere, não no que digere,
nem no que produz. Países ricos gerenciam; países pobres produzem. É
só por isso que podemos nos gabar de nossa indústria e agricultura
dar olé no primeiro mundo em competitividade. Nem poderia ser
diferente. O peão sempre produz mais tangíveis do que o patrão. E
ganha menos.
Mas essa situação não é segura para o segundo, nem estática para o
primeiro. A Roma na fase decadente só gerenciava. A produção
acontecia terceirizada nas colônias de bárbaros, que progrediram uma
barbaridade e hoje terceirizam. Muitos impérios já passaram por
isso. Outros passarão, porque as mudanças não podem parar. Por isso
é tão importante saber despir a camisa.
Que é preciso vesti-la, estamos cansados de ouvir. Só que amanhã não
estaremos fazendo a mesma coisa, no mesmo lugar, da mesma maneira.
Será preciso despir a camisa de hoje e estar com o corpinho flexível
para caber na de amanhã, que pode não ser do seu número e cor. Você
é quem terá que se adaptar, se quiser galgar a escada que leva ao
sucesso.
Mas não se iluda. Na subida vai ser preciso estar pronto para despir
e vestir camisas sempre, para não ser apanhado pelo inesperado e
perder as calças. Foi o que aconteceu com o eletricista da história
que meu pai não se cansava de contar. Surpreendido pelo peso do
lustre que acabara de desparafusar do teto, a barriga retesou e a
calça escorregou.
Meu pai nunca contava o final da história. Deixava os ouvintes com a
imaginação suspensa como os braços do eletricista, equilibrando o
lustre que não podia soltar. Enquanto a senhora chorava de tanto rir
sem saber para onde olhar, segurando a escada que não podia largar (ABN).
Mario Persona, articulista da ABN [ www.abn.com.br ], é
palestrante e consultor de comunicação e marketing, autor de
"Crônicas de uma Internet de verão", "Receitas de grandes
negócios" e "Gestão de mudanças em tempos de oportunidades".
Esta crônica faz parte dos temas de suas palestras [www.mariopersona.com.br]


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