"Ri com a história da
Panificadora Francesa em Alto Paraíso - desta eu fui
testemunha", escreveu um antigo colega de faculdade,
reencontrado graças a uma crônica minha na Web. "Me faz
acreditar na história da corajosa de Angra", completou,
referindo-se à crônica "Empreender sem dor".
É comum indagarem se as histórias que conto são
verdadeiras. Todas são. A menos que eu as identifique como
anedota. Talvez sejam até menos interessantes do que as
vividas por outras pessoas. O segredo é saber contá-las,
para extrair do banal o extraordinário. E enxergar pepitas
na bateia do dia-a-dia, onde só parece haver cascalho.
Comunicação é o foguete propulsor do marketing. Sua
empresa sempre irá precisar de alguém que separe o ouro do
chumbo, mesmo no cadinho do mais tedioso produto. E revele
seu brilho aos olhos do cliente. Será muita ousadia eu
sugerir que este alguém possa ser eu?
Conhecer o comportamento das pessoas é essencial. E o que
decora o cenário com matizes que surpreendem, acrescentando
uma eufonia que cativa até os mais peludos ouvidos, são as
velhas e conhecidas palavras.
Ou uma calculada omissão das mesmas, gerando a ansiedade
de um vácuo de expectativa, onde o cliente esperava ouvir
algum som. Técnica cuja excelência foi descrita por quem
elogiava um vendedor de sucesso: "Ele usava frases de efeito
e as sublinhava com o silêncio".
Comunicar é também saber o que não dizer. É a arte de não
revelar os bastidores, onde acontece a ação de produzir. E
deixar vir à tona somente a emoção de seduzir. Como fazem os
parques Disney com seus coadjuvantes subterrâneos.
Será que no cinema alguém assiste a lista após o "The End"?
São nomes conhecidos apenas das costas do público. Longe dos
holofotes, amargam ter de competir com as luzes pecocemente
acesas na sala que se esvazia. Nunca aparecem no início.
Evita-se expor o que não agrega valor.
Mas evitar expor não é o mesmo que esconder. Há empresas
que escondem porque não durariam um dia se a transparência
chegasse à produção. A padaria onde eu costumava brincar na
minha infância era assim.
Nos bastidores, apenas funcionários e anônimos amigos dos
filhos do dono. Circulando entre tabuleiros de inertes
pãezinhos em crescimento, e outros de não tão inertes
verminhos em fase de engorda. Formavam a criação de bichos
da seda de meus amigos. O cliente que visse aquelas
massinhas gosmentas roendo folhas de amoreira sujas de pó de
trigo, jamais comeria seus pães companheiros.
Por mais repulsivas que fossem as lagartas vomitando fios
prateados, produziam a matéria prima do mais excepcional
tecido já criado. Tão grande foi sua influência nos negócios
da humanidade, que a mais célebre rota comercial da história
leva o seu nome.
Mas pela Rota da Seda não circulavam as lagartas, segredo
que os chineses conseguiram trancar por dois mil anos. Cada
mercador chinês só transportava e revelava o que
interessava. A sublimidade do tecido.
Porém seda vomitada por bichinhos não era o que os
clientes da padaria procuravam. Eles queriam pão. Igual ao
que agasalhava a lingüiça surrupiada do balcão nas noites
frias de solidão estomacal. Porque o único padeiro era
movido a pão, lingüiça e pinga. Muita pinga. Tanta seda lhe
dava sede.
Numa daquelas noitadas panificantes, o padeiro usou de
uma dose extra de energia etil-calabresa para sovar a massa.
Talvez visse nela o patrão. E a massa cresceu. Cresceu como
nunca. Para os clientes, o segredo estava no vigor do
padeiro ou no fermento. Para os meninos dos bastidores, o
padeiro apenas usara a técnica dos bichos de seda para
produzir fio.
O dia amanheceu como outro qualquer. Com clientes se
enfileirando no balcão para comprar pão. E leite, que vinha
em garrafas de vidro de goela larga. Tudo parecia normal,
até o dono ser surpreendido por clientes que começavam a
voltar. Para buscar mais daquele delicioso pão de lingüiça
(ABN News).
Palavras. São elas que
sustentam os negócios. Nas trocas, nas vendas, no diálogo
para dentro e para fora. São elas que garantem um lugar no
mercado. Ou fora dele, quando equivocadas. As empresas sobre
elas saltitam perigosamente, como em caminho de pedras em
meio à escuma dos inquietos meandros de uma economia falaz.
Palavras fazem toda a diferença. Somos dirigidos por sua
corrente. De pais, filhos, amigos ou inimigos elas nos vêm.
E são por meio delas que eles nos vêem. Mesmo no silêncio
não
param de nos inquietar. Sussurradas pela memória de uma
experiência gratificante, são renovadoras de negócios.
Gritadas pela consciência traída, são devastadoras.
Palavras são meus anzóis. Pequenos e imperceptíveis, vão
fundo e chegam longe. Consegui fisgar três minutos de seu
precioso tempo só para ler meu texto. Multiplicados pelo
número de pessoas alcançadas pela tiragem estimada dos
sites, jornais, revistas e boletins que me publicam, podem
passar de setenta mil horas. Uns oito anos para quem só
pediu três minutos de atenção.
Palavras são como o vento que areja com o frescor de uma
solução a mente de seu cliente. Ou transporta um cisco
indesejado para seu olho. Muito depende de quem as articula.
Daí o cuidado de só soprar as palavras certas na corneta de
sua publicidade. Elas podem abrir carteiras para sua
mensagem. Ou fechar ouvidos para sua marca.
São escribas e locutores os malabaristas das letras.
Manipulam fluidos cerebrais articulados em impulsos audíveis
ou códigos legíveis. Com habilidade as lançam no ar, na
quantia adequada e cadência controlada, fazendo desaparecer
a mão para deixar visível só a sensação. Que mesmeriza uma
platéia ávida por emoções.
Você contrata palestrantes que derramam palavras de
levantar o moral de seu pessoal. Ou fazem descer a guarda de
seu cliente, que precisa entender antes de comprar o que
você vende. Você investe em profissionais de consulta, para
diagnosticar as doenças de seus negócios. E dizer o que você
já desconfiava, mas não verbalizava por falta de talento. Ou
coragem.
O Roberto estava certo quando cantou que "palavras são
palavras, e a gente nem percebe o que disse sem querer, e o
que deixou pra depois". Uma comunicação mal feita pode
deixar você sem achar um jeito para explicar, e esperando
que o cliente possa aceitar. Mas a concorrência é implacável
demais. Não deixará você explicar a seu cliente que tem "um
jeito meio estúpido de ser, mas é assim que eu sei te amar."
A erupção que palavras mal colocadas provocam pode ser
devastadora para qualquer negócio. Até para a escola
secundária onde lecionei quando jovem. Para resolver o
problema da indiferença dos alunos para com os estudos,
convidamos os pais para uma palestra na presença da delegada
de ensino. Eram, em sua maioria, pequenos agricultores e
criadores de gado.
A idéia era mostrar que eles foram bem sucedidos numa
época em que estudar não era uma prioridade. Porém seus
filhos precisavam estar preparados para um mundo diferente
daquele que garantiu o sustento de seus pais. Com o
crescente êxodo rural, fatalmente teriam de enfrentar uma
concorrência acirrada na cidade. Erramos ao foi convidar o
menos diplomático dos professores para fazer a palestra.
"Ilustríssima senhora delegada de ensino", começou ele,
entregando a única porção bem sucedida de seu discurso. E
numa passada de braço que abrangia toda a platéia, qual
espada ceifando na altura dos pescoços, continuou: "Como
sabe, as pessoas nesta sala têm um nível de escolaridade
baixíssimo!". Mal teve tempo de colocar o ponto de
exclamação e já tinha pai com punhos cerrados e bocas
escancaradas. Incêndio de paixões que os bombeiros do
deixa-disso extinguiram de imediato. Só com palavras, nada
mais.