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Nicias
Ribeiro

Amazônia é Brasil
O Jornal O Liberal -
do dia 10 de janeiro passado, trouxe a baila uma notícia cuja
manchete angustiou todos os amazônidas de berço: “A Andiroba e
a Copaíba tem donos fora do Brasil“. E o detalhamento da
notícia foi mais estarrecedor ainda, uma vez que, além da
andiroba e da copaíba, o cupuaçu também tem donos lá fora, na
Ásia, na Europa e nos Estados Unidos.
Mas como é possível isso, todos se
perguntavam ao ler a notícia, até porque não são apenas as
pessoas do interior que conhecem o poder curativo da andiroba e da
copaíba. As da capital também conhecem. Aliás, qual o homem
adulto que na sua infância ou na sua juventude, ao bater o joelho
ou o tornozelo num jogo de futebol, não comprovou o poder
curativo, quase milagroso, do famoso “azeite de andiroba ? E o
óleo de copaíba, cujo poder cicatrizante é comprovado e
indiscutível ?... Mas, além da andiroba e da copaíba, dizia a
notícia de O Liberal, o cupuaçu também está patenteado
lá fora e isso, como diria o nosso velho amigo e jurista renomado
Zeno Veloso, “é um absurdo tão grande que extrapola os limites
da própria absurdez”, uma vez que todo o mundo sabe, e se não
o sabe deveria sabe-lo, que a andirobeira, a copaibeira e o
cupuaçuzeiro são árvores nativas da Amazônia. Como então os
seus frutos e derivados serem patenteados lá fora, na Ásia, na
Europa e nos Estados Unidos? Isso é mais que bio-pirataria. Na
verdade, isso é um desrespeito à Amazônia e ao Brasil. E o que
fazem os órgãos do Governo Federal, que cuidam desses assuntos,
para impedir tal absurdo? E os governos estaduais da região, o
que pensam fazer? E os municípios? Vão ficar silentes e deixar o
bonde da história passar sem nenhuma reação?...
O momento é de ação! E não temos dúvida
de que se continuarmos discutindo o sexo dos anjos, como acontece
muitas vezes, é provável que registrem ou patenteiem não só a
andiroba, a copaíba e o cupuaçu, mas também o açaí, a abacaba,
o patauá, o bacuri, o taperebá, a graviola e todas as demais
frutas nativas da Amazônia, cujos sabores são inigualáveis no
mundo. Quanto as plantas medicinais, se os organismos nacionais
não ficarem mais atentos, muito em breve estarão patenteados,
como descoberta do estrangeiro, o leite do amapá, a seiva do
jatobá, o chá do quebra-pedra, o chá do parirí, a casca da
verônica e muitas outras. Claro, devidamente manipulados em
laboratórios.
Seguramente que esse é um assunto que deve
ser levado ao Congresso Nacional e às Assembléias Legislativas e
Câmaras Municipais da Amazônia, não com aquele discurso
lamuriante de região pobre e abandonada, mas sim com um discurso
forte e altivo, exigindo que as universidades brasileiras,
especialmente as da região, passem efetivamente a pesquisar a
nossa flora e fauna com vistas à produção de remédios e outras
utilidades. Aliás, o Brasil não pode continuar sendo o País
cujos laboratórios fabriquem apenas os medicamentos pesquisados e
produzidos em suas matrizes da Europa e Estados Unidos, do mesmo
modo que é inadmissível importarmos o “azeite de oliva”,
quando temos na Amazônia o “óleo do patauá” que é superior
ao famoso azeite vindo da Europa.
Porque não produzirmos os nossos próprios
medicamentos e alimentos a partir dos animais e vegetais da
Amazônia? Quem sabe até não encontraremos, aqui, a cura do
câncer, da AIDS e de outras doenças que afligem a humanidade?...
Entendemos que a notícia de O Liberal
sobre o patenteamento da andiroba, da copaíba, e do cupuaçu por
países estrangeiros é o grande alerta para que de fato, todos
nós, sem eufemismo, nos engajemos na luta em defesa da Amazônia,
não para os outros, mas sim para o Brasil e para nós,
brasileiros.
Por isso a Amazônia não pode continuar
sendo esquecida pelo governo central ou, como querem os paulistas,
sendo tratada como se fosse o almoxarifado da Nação. Temos que
brigar, bradar, e, da mesma forma como se fez a campanha “O
petróleo é nosso”, na metade do século passado, devemos
defender a Amazônia, não para ser o “pulmão do mundo” ou
“patrimônio da humanidade” como desejam muitos. Mas sim, para
que ela continue sendo nossa, do Brasil e dos brasileiros,
desenvolvida, onde os nossos caboclos vivam com dignidade e sem a
necessidade de receberem esmolas para matar a fome de seus filhos.
É esta Amazônia que precisa ser defendida
e que não aceita ser olhada como sacrário, santa, intocável. A
Amazônia e tudo que nela existe é do Brasil e dos brasileiros.
Assim foi e assim deverá ser, para orgulho das futuras
gerações.
(Matéria editada em
03/02/03)

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