Desde os tempos imemoriais que a produção
de cereais no velho Egito depende das enchentes do rio Nilo, que
ocorrem a cada ano e que são responsáveis pela refertilização
das várzeas que situam-se em suas margens. Daí os egípcios,
aliás com grande sabedoria, cognominarem aquele rio, como “Mãe
Nilo”, uma vez que são os húmus, trazidos pelas suas águas,
que refertilizam as terras situadas em suas margens. Aliás a
Bíblia, no livro de Gênesis, conta a história de um
adolescente, chamado José, que foi vendido pelos próprios
irmãos aos egípcios como escravo e que depois foi preso e levado
ao calabouço, de onde foi chamado à decifrar um estranho sonho
do Faraó, que nenhum dos seus magos e sábios haviam conseguido
interpretar. Eis que no sonho haviam 7 vacas magras que comiam 7
vacas gordas, e também 7 espigas miúdas que devoravam 7 espigas
grandes e cheias. E José, após ouvir o relato, disse ao Faraó:
o seu sonho revela que haverá 7 anos de fartura no Egito, com uma
enorme produção de cereais, que se seguirão de 7 anos de
estiagem, fome e miséria. Decifrado o sonho e com o aceite do
Faraó, José foi nomeado Governador do Egito, investido de todo o
Poder para administrar o excedente de alimentos do tempo das “vacas
gordas”, armazenando-o para suprir as necessidades da época das
“vacas magras”.
É claro que essa história é uma lição
de administração, uma vez que nada faltará à época das “vacas
magras” se houve economia no tempo das “vacas gordas”.
Contudo, mais do que uma lição, a transcrição dessa história
na Bíblia é para chamar a atenção à importância das
enchentes dos rios, que, como no Nilo, muitas vezes é uma dádiva
dos céus, pois refertilizam as terras viabilizando grandes
colheitas. Todavia o que não foi escrito, é que do outro lado do
mundo, num continente que só seria descoberto 4 mil anos depois,
haveria um País que, na sua região mais setentrional, teria um
grande rio cujas enchentes são semelhantes às do Nilo. O País,
que o escritor sagrado não teve a visão ou a permissão para
tratar na Bíblia, é o Brasil e o rio é o Amazonas, cujas
várzeas, situadas em suas margens e ilhas, são inundadas a cada
ano e refertilizadas pelos húmus, que, aliás, são riquíssimos
em matéria orgânica. O estranho, contudo, é que no Amazonas,
diferentemente do Nilo, as várzeas não são aproveitadas
economicamente, o que aliás, nos entristece, uma vez que os
nossos caboclos, não são menos capazes que os egípcios da
época dos Faraós.
Se as várzeas do Nilo foram capazes de
produzir alimentos suficientes para alimentar o povo egípcio nos
7 anos de fartura e depois nos 7 de estiagem, conforme diz a
Bíblia, porque as várzeas do rio Amazonas, que segundo dizem,
são mais ricas que as do Nilo, não produzem os grãos de que
tanto precisamos? Aliás, é injustificável que até hoje não se
tenha encontrado uma fórmula de aproveitamento econômico dessas
várzeas, até porque isso, além de matar a fome da nossa gente,
fortaleceria a nossa balança comercial coma a exportação do
excedente da produção.
Porém, se é dito que as várzeas do rio
Amazonas são ricas, em função das enchentes que ali ocorrem de
6 em 6 meses, o que dizer das várzeas do Marajó, que, graças ao
movimento das marés, são inundadas de 6 em 6 horas e
refertilizadas pelos mesmos húmus do Amazonas?...
Como é possível haver fome e miséria, num
País que tenha tamanha área de várzeas? E isso dissemos da
Tribuna da Câmara dos Deputados, ocasião em que denunciamos à
Nação a brutal seca que assola a ilha do Marajó todos os anos e
que, juntamente com as enchentes, que ocorrem no inverno, são
responsáveis pela morte de cerca de 60 mil cabeças de gado
bovino. Tudo por causa da não abertura de canais no interior da
grande ilha, que, com isso, deixaria de haver excesso de água no
inverno e nem a falta dela no verão, em suas pastagens nativas.
Algo precisa ser feito. E isso nos lembra um
programa do Governo Federal de aproveitamento das várzeas - o
Provárzea - lançado em Belém, pelo então presidente Costa e
Silva, nos idos dos anos sessenta e que lamentavelmente ficou
apenas nos discursos e nas festas palacianas. Mas, como o Governo
Lula está tão dedicado na luta contra a fome, esperamos que
volte as suas vistas para esta vasta região de várzeas, não
apenas para contemplar as suas belezas naturais, mas sim para
torná-las efetivamente produtivas. Do contrário, além da
frustração da nossa gente, teremos que assumir a nossa
incompetência perante os antigos Senhores do Nilo - os Faraós do
Velho Egito.