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Articulistas

Editoria de Opinião & Artigos

Nicias Ribeiro

 

Nicias Ribeiro - Articulista da Agência Brasileira de Notícias / Brazilian News Agency (ABN)  

Nicias Ribeiro é articulista, professor, engenheiro eletrônico, físico, matemático, parlamentar e diretor da Federação Nacional da Imprensa (www.fenai.org.br) e da Federação das Associações de Imprensa do Brasil (www.faibra.org.br)

 

 

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O Amazonas e o Nilo

Desde os tempos imemoriais que a produção de cereais no velho Egito depende das enchentes do rio Nilo, que ocorrem a cada ano e que são responsáveis pela refertilização das várzeas que situam-se em suas margens. Daí os egípcios, aliás com grande sabedoria, cognominarem aquele rio, como “Mãe Nilo”, uma vez que são os húmus, trazidos pelas suas águas, que refertilizam as terras situadas em suas margens. Aliás a Bíblia, no livro de Gênesis, conta a história de um adolescente, chamado José, que foi vendido pelos próprios irmãos aos egípcios como escravo e que depois foi preso e levado ao calabouço, de onde foi chamado à decifrar um estranho sonho do Faraó, que nenhum dos seus magos e sábios haviam conseguido interpretar. Eis que no sonho haviam 7 vacas magras que comiam 7 vacas gordas, e também 7 espigas miúdas que devoravam 7 espigas grandes e cheias. E José, após ouvir o relato, disse ao Faraó: o seu sonho revela que haverá 7 anos de fartura no Egito, com uma enorme produção de cereais, que se seguirão de 7 anos de estiagem, fome e miséria. Decifrado o sonho e com o aceite do Faraó, José foi nomeado Governador do Egito, investido de todo o Poder para administrar o excedente de alimentos do tempo das “vacas gordas”, armazenando-o para suprir as necessidades da época das “vacas magras”.

É claro que essa história é uma lição de administração, uma vez que nada faltará à época das “vacas magras” se houve economia no tempo das “vacas gordas”. Contudo, mais do que uma lição, a transcrição dessa história na Bíblia é para chamar a atenção à importância das enchentes dos rios, que, como no Nilo, muitas vezes é uma dádiva dos céus, pois refertilizam as terras viabilizando grandes colheitas. Todavia o que não foi escrito, é que do outro lado do mundo, num continente que só seria descoberto 4 mil anos depois, haveria um País que, na sua região mais setentrional, teria um grande rio cujas enchentes são semelhantes às do Nilo. O País, que o escritor sagrado não teve a visão ou a permissão para tratar na Bíblia, é o Brasil e o rio é o Amazonas, cujas várzeas, situadas em suas margens e ilhas, são inundadas a cada ano e refertilizadas pelos húmus, que, aliás, são riquíssimos em matéria orgânica. O estranho, contudo, é que no Amazonas, diferentemente do Nilo, as várzeas não são aproveitadas economicamente, o que aliás, nos entristece, uma vez que os nossos caboclos, não são menos capazes que os egípcios da época dos Faraós.

Se as várzeas do Nilo foram capazes de produzir alimentos suficientes para alimentar o povo egípcio nos 7 anos de fartura e depois nos 7 de estiagem, conforme diz a Bíblia, porque as várzeas do rio Amazonas, que segundo dizem, são mais ricas que as do Nilo, não produzem os grãos de que tanto precisamos? Aliás, é injustificável que até hoje não se tenha encontrado uma fórmula de aproveitamento econômico dessas várzeas, até porque isso, além de matar a fome da nossa gente, fortaleceria a nossa balança comercial coma a exportação do excedente da produção.

Porém, se é dito que as várzeas do rio Amazonas são ricas, em função das enchentes que ali ocorrem de 6 em 6 meses, o que dizer das várzeas do Marajó, que, graças ao movimento das marés, são inundadas de 6 em 6 horas e refertilizadas pelos mesmos húmus do Amazonas?...

Como é possível haver fome e miséria, num País que tenha tamanha área de várzeas? E isso dissemos da Tribuna da Câmara dos Deputados, ocasião em que denunciamos à Nação a brutal seca que assola a ilha do Marajó todos os anos e que, juntamente com as enchentes, que ocorrem no inverno, são responsáveis pela morte de cerca de 60 mil cabeças de gado bovino. Tudo por causa da não abertura de canais no interior da grande ilha, que, com isso, deixaria de haver excesso de água no inverno e nem a falta dela no verão, em suas pastagens nativas.

Algo precisa ser feito. E isso nos lembra um programa do Governo Federal de aproveitamento das várzeas - o Provárzea - lançado em Belém, pelo então presidente Costa e Silva, nos idos dos anos sessenta e que lamentavelmente ficou apenas nos discursos e nas festas palacianas. Mas, como o Governo Lula está tão dedicado na luta contra a fome, esperamos que volte as suas vistas para esta vasta região de várzeas, não apenas para contemplar as suas belezas naturais, mas sim para torná-las efetivamente produtivas. Do contrário, além da frustração da nossa gente, teremos que assumir a nossa incompetência perante os antigos Senhores do Nilo - os Faraós do Velho Egito.

(Matéria editada em 07/04/03)

 

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