|
Os Ossos de D. Pedro I
BRASÍLIA [
ABN NEWS ] -O seriado da Rede Globo de
Televisão intitulado “O Quinto dos Infernos”, cujo último
capítulo foi levado ao ar no Brasil precisamente no dia 29 de
março de 2002, nos estimulou a escrever um artigo que foi
publicado, neste espaço, em O Liberal, na edição de 8 de
abril daquele ano, no qual elogiamos o desempenho do elenco, o
guarda-roupa, os cenários, o som, a imagem... enfim, a produção
daquele verdadeiro espetáculo teatral, mostrado pela televisão.
Contudo, se o eventual leitor se recordar do referido artigo,
talvez lembre-se que, ao comentarmos o último capítulo daquele
inesquecível seriado, registramos a nossa surpresa diante da cena
que mostra Dona Amélia (então rainha de Portugal e ex-imperatriz
do Brasil), acompanhada por “Chalaça”, jogando as cinzas do
nosso D. Pedro I ao mar, uma vez que em 1972, em meio aos festejos
do sesquicentenário da Independência do Brasil, os seus restos
mortais foram trasladados para o Brasil, e, antes de serem
depositados no monumento do Ipiranga, na cidade de São Paulo,
foram levados à várias capitais brasileiras, inclusive à Belém
onde foi homenageado pela população nas ruas e velado no átrio
do Palácio Lauro Sodré, que na época era a sede do governo do
Pará, com honras de Chefe de Estado.
Ora, como escrevemos no supracitado artigo
de O Liberal, se o corpo de D. Pedro I (D. Pedro IV em
Portugal) foi cremado e suas cinzas jogadas ao mar, como mostrou a
Rede Globo de Televisão, no último capítulo do seriado “O
Quinto dos Infernos”, não poderia haver restos mortais
sepultados, em Portugal, para serem trasladados para o Brasil em
setembro de 1972. Daí perguntarmos, no referido artigo, de quem
seriam aqueles restos mortais que foram recebidos em festas no
Brasil. E, neste caso, exigimos um esclarecimento, por quem de
direito, até mesmo para que nós brasileiros não nos
sentíssemos enganados e forçados a admitir que, de fato, o
Brasil fosse o “Quinto dos Infernos”, como pensava dona
Carlota Joaquina, mãe de D. Pedro I.
Lamentavelmente, até a presente data, não
houve nenhuma manifestação por parte das autoridades
brasileiras. No entanto, “O Quinto dos Infernos” foi levado ao
ar em Portugal e os portugueses, como nós, certamente ficaram
encantados com a beleza cênica daquele seriado que, além de
retratar parte da história do Brasil e de Portugal, satirizou
belissimamente a Família Real Portuguesa.
Porém, nem todos os portugueses se
deliciaram apenas com a beleza teatral daquele seriado. Muitos se
detiveram também no aspecto histórico, dentre os quais
destacamos a professora Ana Margarida Chora, residente em
Setúbal, que, ansiosa em conhecer o contexto da série,
especialmente o seu final, decidiu pesquisar na Internet e ao
deparar com o nosso artigo, em O Liberal, nos enviou um
e-mail que, pelos dados históricos, transcrevemos a seguir,
ipsi-líteris, até porque esclarece as dúvidas por nós
levantadas no supramencionado artigo, de 08-04-2003, de O
Liberal:
“Tendo lido o vosso artigo sobre a série
“O Quinto dos Infernos” em que discute a questão do destino
dado ao corpo de D. Pedro IV, devo dizer que a TV Globo (ou o
autor da novela) fez uma grande confusão (como aliás em muitos
outros aspectos) com a História.
De facto, D. Pedro IV de Portugal morreu em
Queluz (no quarto D. Quixote) no dia 24 de setembro de 1834 e,
segundo a sua própria determinação, legou o coração à cidade
do Porto (a cidade mais importante da causa liberal) e o corpo foi
sepultado no panteão real de S. Vicente de Fora, em Lisboa, com
um longo epitáfio, tendo o funeral sido feito sem honras
principescas, também a seu pedido. Era muito comum na época
legar alguma parte que se separasse do corpo, ainda ao sabor da
anterior época barroca, tal como fizera o Marquês de Marialva,
ascendente de D. Pedro, que legou as tripas à corte!
Em 1972, realmente os restos mortais que
estavam no panteão foram oferecidos ao Brasil. Não se preocupe
que os brasileiros não foram enganados. Nós, portugueses, fomos
muito mais enganados com o corpo do nosso Camões, que Almeida
Garrett tentou, em vão, identificar...
Amanhã veremos então, aqui em Portugal, o
último episódio da série. É que eu queria ver como acabava e,
ao pesquisar na net, deparei com o artigo!
Bem haja!”.
Agora, graças a essa internauta residente
em Setúbal, Portugal, podemos ficar tranqüilos quanto aos ossos
de D. Pedro I que estão depositados no monumento do Ipiranga, em
São Paulo. Graças à Deus, o Brasil não é o “Quinto dos
Infernos” a não ser na opinião de D. Carlota Joaquina.
[Matéria editada em
04/08/2003]
|