Os Tolos e o Governo
Kurt Pessek (kconsult@terra.com.br)
é articulista, jornalista, escritor e diretor da Associação da
Imprensa do Distrito Federal
Certo estava o padre Vieira ao ratificar a conhecida sentença
sobre a perfeição cuja essência se encontra nos advérbios,
jamais nos verbos. Lembrou de São Paulo a quem atribuiu o
invento de “notável advérbio”, o “tanquan non”, ou seja, “como
se não”. Na primeira carta aos coríntios, Paulo usa do argumento
para lembrar a fugacidade da vida. Lê-se: “... os que folgam,
(sejam) como se não folgassem; os que compram, (sejam) como se
não possuíssem; os que usam esse mundo, (sejam) como se dele não
usassem, porque a figura desse mundo passa”. E esse arremedo de
governo, queiram os céus, também há de passar. E já não
existisse para quem usa o artifício acima.
Com paciência e humildade hei de esperar o fim das falsidades,
patranhas e hipo-crisias cuja podridão surgirá das vísceras dele
mesmo, tal ocorreu em São Paulo com a sexóloga fantasiada de
protetora dos pobres. Nem a cinza nos olhos usada pela torpe
propaganda, salvou-a da correta defenestração.
Chico Buarque - excelente compositor, diga-se - deitou parolagem
lá nas estranjas. Melhor faria calar-se, pois as incoerências
apresentadas revelam a raleza e as antinomias do pensamento
político lá dele. Começa com o absurdo de lamentar a falta da
democra-cia em Cuba “... mas existe ao mesmo tempo um controle
para manter os valores da re-volução, que a meu ver são
notáveis”. Dúbio, sinuoso e irresoluto.
Oriundo da classe média alta, inclusive dono de apartamento em
Paris, ele critica as elites e finge identificar-se com o
lumpesinato. Fez-se na vida com a crítica aos gover-nos e agora,
pendurado na brocha, afirma: “... a eleição de Lula foi uma
vitória”. No en-tanto, acrescenta: “... hoje em dia a gente vê
pouquíssima margem de uma mudança so-cial,” apesar de achá-la
“premente” “em países pobres como o Brasil.”
O compositor exitoso atreve-se a dar pereceres sobre a turva
política e acaba por desconfiar - ele só desconfia, coitado - da
existência da “vergonha de ter um presidente como o Lula, um
operário.” Inexiste isso! ninguém se envergonha do honesto
operário mas do insuportável língua gárrula, travestido de deus
do Olimpo, a extravasar tolices por todos os lados em tom
professoral, sem o honesto desconfiômetro dos operários
as-sisados e sábios para se calararem ante temas desconhecidos.
Irrita a falta de modéstia e se revela por inteiro o tamanho
abissal da jericada do infeliz. Ao falar da “galega”, e de ser
“mais fácil chegar a general do que conquistar a faixa preta”
nos envergonha perante o mundo, sim. Mais ainda, quando se sabe
mas ninguém diz, pelo fato de exercer mera posição de boneco de
engonço nessa ópera bufa, dita democracia. Enquanto ele tenta
embrulhar a platéia, alguém detrás manipula os cordéis. Se o
campo social piora, em governo de esquerda, oportuno será
perguntar, “cui bono?” a quem interessa?
Onde falta a modéstia, sobra a presunção. Giambattista Vico em
Princípios De Uma Ciência Nova... afirma: “Os homens de idéias
curtas têm na conta de direito tudo quanto se tenha explicitado
mediante palavras”. Heráclito de Éfeso nos deu o antídoto para
suportar as intermináveis cascatas do besteirol vertido todos os
dias pelo rei da rata, ou títere de plantão: “É melhor ser
governado por tolos de que governá-los.”
(Matéria editada em 05/02/05)

Do nada, nada mesmo
Kurt Pessek
kconsult@terra.com.br
é articulista, jornalista, escritor e diretor da Associação da
Imprensa do Distrito Federal
Os temas
básicos da Revolução Francesa - liberdade, igualdade e
fraternidade - até hoje figuram no rol do ideário da filosofia
por difíceis, sutis e conflitantes entre si. A igualdade talvez
seja o mais escorregadio dos três. Há assuntos capazes de ser
generalizados mas só no campo especulativo. Todos são iguais
perante a lei. É sim, conta outra... A igualdade vai para o ralo
quando alguém tenta quantificá-la. Nesse caso, inexoravelmente,
a iniqüidade aflora e folga. As mentes apoucadas costumam
confundir justas conquistas por privilégios. Os urdidores da
discórdia, do enredo, pior fazem, confundem os méritos por
injustiça social, tal clarinou "urbi et orbi" o da torta na
cara. Má-fé ou burrice?
Pontificava
São Paulo - I Coríntios 3-8: "Aquele que planta e aquele que
rega são iguais; e cada um vai receber seu próprio salário
segundo a medida de seu trabalho". O salário, para ser justo, se
obriga a desprezar a paridade. O tema da igualdade passa por
Dante e seus nove círculos de castigos, por Russeau no Contrato
Social, cuja obra magnetiza Beccaria. "Dei Delitti e Delle Pene"
exerce influência nos ativistas de Revolução Francesa, destaque
para Marat e Brissot.
Merece lida
a análise de Mona Ozouf quanto as nefastas conseqüências do
conceito de igualdade à época da famosa Revolução. A escumalha
saqueou o comércio, a brandir armas vociferava pelo "pão da
igualdade". Houve "até a destruição de campanários cuja elevação
vertical insultava a igualdade". Instigava-os os versos da
Carmanhola: "Todos na igualdade, eis a verdadeira felicidade". A
mazorca sucumbiu à espada de Napoleão. Não leram Cervantes. Há
muito, ele pendurara na boca de Sancho Pança: "... pois cada
qual é como Deus o fez, se pior não for." No Brasil, a desrazão
da igualdade passa por Rui Barbosa, por Pontes de Miranda e
poucos outros até chegar ao turvo clima atual.
Pode o
cientista, o doutor, o mestre ganhar tanto quanto o idiota, o
medíocre, o aprendiz? Se isso é incorreto para o tempo da ativa
mais forte ainda se torna quando a velhice, a doença e o
esgotamento obrigam o cidadão a se retirar. A primeira e mais
importante medida a ser tomada seria a de estancar a roubalheira
da Previdência. Não se enganem, já vi esse filme, primeiro a
aposentadoria, depois hão de nos pespegar a cartilha da falsa
paridade cubana. O aplainamento social começa com o vezo de
tratar a todos por "companheiros", quando pensam ombrear os mais
destacados achatando-os ao nível da ralé. Faz lembrar a história
do ridículo político, em Brasília, ao editar o primeiro livro lá
dele. Dedicou a escrevedura a Voltaire, Balzac e Machado de
Assis. Chamou-os "meus colegas escritores".
A "palpitocracia"
atual está repleta de rouba-honras igualitários, bem ao gosto
dos incompetentes e preguiçosos. Deles nada virá de bom, só
pensam em espoliar a classe média, jamais em crescer, elevar-se.
Bem ensinava Epícuro: "De nihilo nihilum", nada nasce do nada.
(Matéria editada em 10/02/03)

O pato é você!
Kurt Pessek
kconsult@terra.com.br
é articulista, jornalista, escritor e diretor da Associação da
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A citação de meu nome no livro A Ditadura
Envergonhada de Elio Gaspari permite-me tecer comentários. A
frase citada foi mera pilhéria sobre fatos verdadeiros. Caso
Frota pagasse para ver, levaria de cambulhada o Presidente e
todos integrantes do governo, inclusive o degas. Surpreende, no
livro de Gaspari, a forte influência das fontes mais chegadas. O
título deveria ser: A Ditadura Segundo Golbery e Geisel. Basta
correr as folhas para constatar a ótica dos dois em todos
parágrafos onde sobejam críticas grosseiras aos desafetos e
total desprezo pelo restante. Até Castelo Branco, a quem muito
deviam, foi por eles tachado de mondrongo, indeciso e inábil.
O alentado
processo de expulsão do senhor Gaspari do País chegou à minha
mesa, segundo o contínuo, vindo do SNI. Assustei-me, não era
minha função tratar de castigos e jamais recebi algo vindo do "Báratro".
Li o cartapácio por alto só por curiosidade. Nele, havia
cabeludas acusações. Pouco depois, o processo foi requisitado
pelo Gabinete Civil. Nada mais soube do imbróglio mas Golberi
passou a chamar Gaspari de amigo.
Geisel
passará à história por verdadeiro patrono da liberdade no Brasil
em oposição aos seus torquemadas antecessores, todos eivados dos
piores adjetivos. Os políticos caíram no logro da chamada
"distensão" com o papo-furado do Portela. Bolas! Geisel e
Golbery chegaram ao Poder pelo guante do general Orlando,
Ministro da Guerra de Médici. Foram partícipes da revolta de 64
desde o início. Golbery fundou o SNI e bem sabia do uso de todos
os meios disponíveis, legais ou ilegais, para alcançar a verdade
lá deles. O SNI já nasceu "monstro" mas só assim foi reconhecido
pelo fundador quando arrastado às gemônias. Naquele momento
desabafara: "Fora do Poder não há salvação." A frase diz tudo.
Geisel fechou o Congresso, impôs o "pacote de abril", usou e
abusou dos atos institucionais. Obrigou-se ao abrandamento ante
as constantes críticas ao regime urdidas no exterior, com
destaque para os EUA. Jamais por pressão interna ou vontade
íntima.
Se tinham
tanto amor pela liberdade, por que enfiaram pela goela abaixo de
todos nós o general Figueiredo, sabidamente despreparado para o
cargo? Por que Geisel repudiou com ódio a conjetura de ser
substituído por algum "hibrido", tal Passarinho? Por que não
abrir a eleições diretas, acabar com a absurda Lei Falcão e
ganhar o aplauso de todos? Por que não escolher algum político
confiável, tipo Aureliano, capaz de garantir-lhes a retaguarda?
Figueiredo consolidou a canga do malfadado SNI sobre o Exército,
a eliminar qualquer suspiro de reação.
Ao final do
governo, o continuísmo pairou sobre todos nós, com a palavra o
general Leônidas. O lema deles todos sempre foi: "Fora do Poder
não há salvação." Porém, sem as astúcias de Golbery, só lhes
restava o velho golpe. Mas o mundo gira e o "feiticeiro", após
esmagar seus opositores - Ednardo, Frota, Abreu e tantos outros
- acabou por encontrar o dia de ele mesmo ser o pato. O cediço
jogo da política é igual ao pôquer. Ensinam os mestres: "Se,
após meia hora, você não descobrir quem é o pato daquela rodada,
não tenha dúvida, o pato é você."
(Matéria editada em 02/01/03)

"Deste, cuido
agora...."
Kurt Pessek
kconsult@terra.com.br
é articulista, jornalista, escritor e diretor da Associação da
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As palavras têm
extraordinária força. Para João, "o verbo era Deus". Frase
enigmática capaz de nos fazer cachimbar sobre a tríade: Deus,
força e palavra. A sociedade evolui sobre verdadeiro emaranhado
de palavras. Delas nascemos, elas conduzem a nossa vida e por
elas muita vez acabamos sob sete palmos de terra. No antigo
cemitério de Lisboa, havia a famosa cova de Simão Antão. Para
explicar a abissal rivalidade entre portugueses e espanhóis bem
servia a lápide daquele desconhecido militar, pois se lia: "Aqui
jaz Simão Antão/ Matou muito castelão/ E do fundo do seu covão/
Desafia a quantos são." Perpetuou-se com a bravata.
Mesmo erradas, as palavras
perduram por séculos. Na entrevista concedida aos repórte-res do
jornal "A Manhã", mestre Capistrano de Abreu lançou a famosa
boutade: "Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha." Vide o
jornal do dia 9 de janeiro de 1926. Posteriormente, alguém mudou
a frase: Todo brasileiro "tem que" ter vergonha "na cara". Ora!
o conhecido Mestre dos Mestres jamais diria isso. E até hoje,
todos repetem à exaustão o erro não cometido.
As palavras são capazes de
preencher vazios de nossa vida interior com doce agrado. Em Dom
Casmurro, Machado de Assis descreve o profundo júbilo do
agregado José Dias ao receber de herança, do falecido protetor,
quatro palavras de encômio. "Copiou as palavras, encaxilhou-as e
pendu-rou-as , por cima da cama. ‘Esta é a melhor apólice’,
dizia ele..."
Dante Alighieri encafuou o
papa Celestino V nas profundas do inferno. A grande mácula de
Celestino foi relinqüir à tiara após cinco meses. O simples e
terrível "não" foi motivo para ódio da cristandade à época.
Celestino era monge eremita, vivia em pequena gruta do monte
Morrone, na Itália. Foi alcandorado ao cargo de papa por motivos
políticos mas ao ver o tamanho da arapuca onde o mete-ram saiu
de fininho. No século seguinte, canonizaram-no, mas o livro de
Dante já estava nas ruas. É o único santo a arder nas caldeiras
de pêro-botelho.
O "não" também acabou com a
carreira e até com a vida do general Hugo de Abreu. Ele e Geisel
jamais trabalharam juntos antes de ele ir para casa militar. "Troupier",
ex-combatente e líder dos pára-quedistas, Abreu obedecia à risca
as determinações do Presidente e nele confiava cegamente. Quando
recebeu ordens de preparar a defenestração de Frota, começou a
suspeitar de manobras pouco honestas. Tinha desavenças com Frota
mas viu com desconfiança a dispensa do Ministro do Exército.
Geisel estava mal informado, supôs.
Abreu foi falar com o
Presidente e abriu o coração: "Se o senhor está por demitir
Frota pelo fato de ele ser candidato à presidência, saiba que há
outro em plena campanha." Geisel, sibilino, respondeu-lhe:
"Deste cuido agora, do outro, cuido depois." Abreu concluiu: O
Presidente sabe de tudo e, adiante, descartará Figueiredo. Na
demissão de Frota, a imprensa consultou Abreu. Ele, louvando-se
nas palavras de Geisel, negou veemente haver qualquer candidato
escolhido e repeliu a hipótese Figuei-redo, ainda general três
estrelas. Quando percebeu ter sido mera engrenagem em jogo de
cartas marca-das, demitiu-se. O desgosto levou-o ao túmulo.
(Matéria editada em 05/12/02)

O Municipio do xepeiro
Kurt Pessek
kconsult@terra.com.br
é articulista, jornalista, escritor e diretor da Associação da
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O confrangedor silêncio
invadiu o salão do Paço na modorrenta tarde do Rio de Janeiro,
conta Humberto de Campos. Pedro II, idoso e adoentado, dormitou
perante todos no costumeiro despacho semanal. Os ministros se
entreolharam espantados sem saber como agir. Acordar o
Imperador, seriíssimo desrespeito. Abandonar a sala, pior ainda.
O general Osório, Ministro da Guerra, desatou o cinturão e
deixou cair com estrondo a espada sobre o assoalho de madeira.
Pedro II acordou assustado e, ao constatar o ocorrido, glosou: "
- Sem dúvida, senhor General, sua espada não caía assim na
guerra do Paraguai. Com orgulho estampado nos olhos, Osório
retorquiu: " - Jamais foi ao chão, Majestade, pois no Paraguai
não se dormia."
O Príncipe - piromaníaco,
segundo Delfim Neto - acendeu o pavio da bomba ao declarar
"...ou elegem o meu candidato, ou o Brasil vai virar Argentina."
Alguns afirmam tratar-se de sagaz manobra na busca do bode
expiatório, acabaram as astúcias do livro dos feitiços e
bruxedos para manter a inflação sob controle e captar bilhões no
exterior. Mas a "gastança" sem limites pôs tudo a perder, vide
Paulo Guedes no Jornal do Comércio do RJ. E ele pergunta: "Para
onde estaria indo todo esse dinheiro?" Boa pergunta. Responde o
senhor Paul O'Neil: "Para a Suíça."
O atual governo foi eleito
sob a égide do socialismo, alardeava-se pronto para amparar os
mais carentes, a defender os pobres contra a ganância (sic) dos
ricos. Ao término de oito anos, o Brasil se encontra no
septuagésimo terceiro lugar na lista de desenvolvimento humano,
abaixo de Cuba, por exemplo. Mais desalentador ainda é o rol
publicado pela ONU de concentração mundial de renda, só três
países paupérrimos da África nos ganham. Os ricos ficaram muito
mais ricos. As promessas de campanha se esfumaçaram. Pior,
aumentou em muito a nossa dependência externa, somos, hoje,
meros bonifrates na mão do mercado mundial. Apertem o cinto, foi
a ordem, e os orçamentos foram cortados à virga-férrea. Se todos
fossem atingidos, até poderíamos suportar, mas não é bem assim.
Há quem tenha seus recursos
orçamentários intactos e ainda embolsou pingues acréscimos nos
salários. Houve até aumento de vagas no Executivo, para
apaniguados, claro. No caso dos militares, os cortes atingiram o
osso, a ponto de dispensar recrutas. O salário fica cada vez
mais achatado, o armamento falto e obsoleto e, para confeito da
obra, o rancho fechou as portas.
Nos tempos dos Afonsinhos,
diziam: Ouve-se o toque de rancho mas não o de avançar. O
aviltamento dos de farda, promovido nesse sórdido governo, chega
a pungir até comunistas ortodoxos tipo Miguel Arraes.
Conseguiram transformar o Grande Mudo em Mudo Grande e agora
tratam de torná-lo pequeno com a dispensa dos soldados. Entrou
na lista dos órgãos em extinção. Faltam vozes e argumentos por
quem de direito. Evidente, não se trata de desembainhar a espada
e travestir-se de moderno D Quixote. Mas, a lembrar de Osório,
necessário será usá-la para promover, de público, considerável
estrondo capaz despertar os do governo. Afinal, não se trata de
nugas muito menos do próprio bolso mas, sim, da Soberania
Nacional. Caso ainda existam dela laivos.
(Matéria editada em 10/08/02)

Para bom
entendedor...
Kurt Pessek
kconsult@terra.com.br
é articulista, jornalista, escritor e diretor da Associação da
Imprensa do Distrito Federal
Matias Aires, o nosso
primeiro moralista, foi autor do clássico Reflexões Sobre A
Vaidade Dos Homens. Merece lido. Já quarentão, dispôs-se casar –
tomar estado – mas havia de ser com francesa. Expediu carta para
Francisco Men-des Góis, amigo e morador em Paris,
solicitando-lhe escolher a sua futura esposa. Debuxou o perfil
da pretendida sem grandes exigência e no final acrescentou: "E
quanto a formosura, basta que não meta medo".
Após os assaltos às
delegacias, bombas contra tribunais de justiça e as diversa
acometidas contra penitenciárias, o beltrano, representante do
governo de São Paulo, esbravejou algo assim: Os bandidos querem
desmoralizar as autoridades. Parece que bebe! No meu parco
entender, já conseguiram e com êxito. Bom número de autoridades,
visado às eleições e em nome da lei, deram início à prática de
todos os tipos de sordícias para garantir o futuro. O vale-tudo
lhes compulsa a usar os re-cursos legítimos do Estado para
manter-se ou alcançar o poder.
O falecimento da figura da
antiga autoridade pública levou para o brejo o secular direito
de propriedade. O MST invade sítios e fazendas dos outros,
rouba, humilha, assola. O agredido se obriga a contratar
advogado para pedir suas posses de volta. O juiz concede ou não.
E se negar? Em suma, ninguém no Brasil tem di-reito pétreo a
qualquer propriedade. O mesmo direito arrogado pelos sem-terra
pode ser útil para os sem-teto, destarte todas moradias urbanas
correm o risco de invasão e o juiz há de decidir - sem tempo
estipulado para tanto - se o infeliz morador tem ou não direito
a ficar com suas posses. Democracia é assim?
Os norte-americanos, cansados
dos rebuços diplomáticos, decidiram falar claro e estão roucos
de repetir que no Brasil, a roubalheira corre a eito,
desen-freada. Outro dia, aqui mesmo nas bochechas das
autoridades, um deles repetiu alto e bom som a mesma frase. E
ninguém tugiu nem mugiu. Ora, as chamadas autori-dades se tornam
assim verdadeiros colossos de pés de barro, Daniel 2/34. Mas não
só a corrupção denunciada lhes eiva o prestígio. Alguns deles
deixaram torpes ras-tros de passos cometidos no passado. E fazem
escola.
O advogado dos presos do MST,
invasores do "sacrossanto sítio" - vide Artur Virgílio, o "polímata"-
dos filhos do nosso Demonarca, urgiu pela televisão os métodos
prisionais aplicados pela Polícia Federal: "Eles são presos
políticos" afir-mou. Ora veja, emergem novos heróis e vítimas
com direito a ressarcimentos finan-ceiros do Estado. Os
assaltantes e baderneiros de outrora, motas, fernandos, serras,
aluísios e outros ainda hão de nos levar à nova guerra civil.
Os estrangeiros compraram o
legado de nossos avós na bacia das almas e aplicaram bom
dinheiro nisso. Junto com nossos credores, eles são os maiores
in-teressados nas próximas eleições. Nesse capítulo, ao povo
brasileiro sobra o papel de mero bonifrate, compra-se a preço de
banana. Os consignatários querem ser a corrente sem a qual a
âncora de nada vale. Pouco se lhes dá o lado moral ou ético do
novo príncipe, exigem a garantia do lucro certo e até aceitam
favorecer-lhe gordas comissões. Tal Matias Aires, afirmam: E
quanto a ganância, basta que não meta medo.
(Matéria editada em 07/04/02)

Não vote em branco
Kurt Pessek
kconsult@terra.com.br
é articulista, jornalista, escritor e diretor da Associação da
Imprensa do Distrito Federal
As eleições aí estão e com
elas a certeza amarga, cada vez maior, do horror da
inte-lectualidade brasileira, dos nossos homens de bem para com
o múnus público. A maioria esmaga-dora dos candidatos aos cargos
eletivos se compõe de gente despreparada até para gerenciar a
mais modesta baiúca. Sabença à ligeira, empáfia à larga,
presunção de sobra, e pior, muito pior, de antecedentes
sinistros. Com esse rol de nulidades como poderemos nos dispor a
votar consciente-mente? Torna-se quase impossível separar o
melhor, o trigo de prioste. No final, nos vemos ante duas
alternativas angustiantes. "Venha o demo à escolha"! desabafou o
desconhecido autor do livro Arte de Furtar ao ver-se em tal
apuro.
Nos pleitos eleitorais,
lembro-me sempre de Matias Aires. Em meados dos setecen-tos,
pontificava: "...e de alguma sorte, para ser um homem virtuoso
não é necessário que faça al-gum ato de virtude, basta que não
faça algum vício." Ou seja, não roubou quando poderia tê-lo
feito, pagou as dívidas quando poderia deixar de pagá-las e
assim vai... Esse era o galardão daque-la época, a probidade se
comprovava pelo fato de não ter cometido deslizes, nada além da
obriga-ção de qualquer vivente. Hoje, segundo afirmam, houve
evoluções. Quem não roubou ganha epíteto de burro. O famoso
"rouba mas faz", antes pessoal e categórico, passou a ser
plural, difuso. Roubemos todos, diz o eleito à súcia lá dele.
Quando Josafá Marinho se
afastou da política, levou consigo o título de último
in-telectual da velha e boa estirpe. O Congresso tornou-se
templo do pancismo, onde o mesquinho eu suplanta em muito os
interesses do País. Lastimoso testemunhar-se senadores a ler
tartamude-antes ralos discursos, algo antes considerado crime de
lesa-fidalguia. Impossível nos tempos de agora ouvir vozes
altíssonas e sapienciais do cabedal de Milton Campos, Gustavo
Capanema, Otávio Mangabeira, Luiz Viana Filho, Jarbas Passarinho
e tantos outros próceres da nobreza na política.
Penoso, em tempos de eleição,
consiste comprovar a pouquidade interior dos candidatos,
tritagonistas de bufas óperas, a mentir pela gorja, a prometer
mundos e fundos quando melhor estariam nos porões dos calabouços
ou na recovagem a lidar com a asnaria. Irrita-me o cansativo
bordão sempre lembrado de ser nosso direito, e ainda sagrado
dever, o exercício do voto. Uma ova! Inexiste direito quando se
é obrigado a votar e, mais ainda, após nos tirarem a opção de
anular o voto. Nos garfaram a chance de votar no cacareco, no
mosquito e símiles. Prova cabal do repúdio do povo para com os
políticos de ocasião.
Que maldito direito de optar
é esse se voto em A e quem vai ocupar o cargo - valendo-se do
meu voto - é o B? Que condenado direito é esse se inexiste o
candidato independente e o eleitor se obriga a votar no
prato-feito? E ainda dizem não ser bom alvitre votar em branco.
Verdade será quando houver candidatos nobres e bem
intencionados, não cavalgaduras ávidas de dinheiro e fama
colhidos sem suor ou competência. Isso faz lembrar de Grande
Otelo, famoso cômico negro, dono de irradiante simpatia, certa
vez, por blague, lançou-se candidato. E divulgou o lema: "Vote
em mim, não vote em branco."
(Matéria editada em 08/06/02)

Quem paga a
"presepada"?
Kurt Pessek
kconsult@terra.com.br
é articulista, jornalista, escritor e diretor da Associação da
Imprensa do Distrito Federal
O folclore alemão nos
presenteia com a história da pobre velhinha mo-radora fora dos
muros de velha cidade medieval. Ela possuía uma vaca e do leite
fazia manteiga para vender ao padeiro da povoação, homem bem
conceituado por todos. Certo dia, os prebostes a levaram presa
ao juiz. No tribunal, o padeiro a acu-sava de, há anos, ter sido
enganado pela velha senhora pois os pacotes de manteiga de
trezentos gramas em verdade pesavam bem menos. O carrancudo juiz
ordenou a velhinha explicar o fato. Atarantada, ela afirmou nada
saber. Logo a seguir, balbu-ciou: "Faz muito tempo, perdi o
contrapeso de trezentos gramas e não tinha dinhei-ro para
comprar outro. Foi quando me lembrei dos pães do senhor padeiro,
com os quais ele pagava a manteiga, são de trezentos gramas, por
isso passei a usá-los por medida." O juiz determinou trazer os
pães da padaria e os pesou frente a todos, ne-nhum tinha
trezentos gramas. O padeiro foi, na hora, encarcerado. Bons
tempos, os da carochinha.
Hoje, no Brasil, o padeiro
seria solto e angariaria fama de vítima com direito a polpudo
ressarcimento financeiro. O juiz receberia séria reprimenda dos
seus superiores e a pobre velhinha estaria no xilindró, pela
audácia de usar os pa-drões dos mais poderosos. Vide o caso do
senhor Jader Barbalho. Quantos brasilei-ros possuem recursos
para contratar caros advogados, de improviso, no sábado pela
manhã, transportá-los para a capital de outro estado federado,
remetê-los a Brasília, tudo com aviões alugados a preço de
emergência?
O episódio do senhor Barbalho
enterra de vez o mito de justiça impar-cial. Dinheiro resolve,
sim, e muito. Além do dinheiro, o prestígio entra no jogo com
feição de coringa de considerável valor. Qual advogado do
cidadão da classe média conseguiria encontrar, em modorrento
sábado de Brasília, logo o presidente do Tribunal Regional,
disposto a abrir mão do seus vagares, para o atender? Mais
ainda, além de deliberar com rapidez surpreendente, o juiz maior
critica de público o colega da primeira instância. O juiz de
Palmas teria "decidido para agradar ao povo".
O presidente do Supremo
motejou a Polícia Federal. Considerou o ato de se algemar Jader
verdadeira "presepada". Vide o dicionário, presepada é
palha-çada, ato inconseqüente, ridículo. Vindo do Presidente do
Poder Judiciário, a crítica sabe a reprimenda. Vejamos. Se a
prisão do senhor Barbalho foi indevida, "para agradar ao povo",
se a ação da polícia foi verdadeira "presepada", quem então deve
pagar os fabulosos custos desse ato? Nós, os espectadores? Não
seria o caso de de-bitar-se à conta a quem cometeu a chamada
"farsa". "Farsa do Ministério Público" foi a pecha sugerida pelo
doutor Rosseti, advogado do senhor Barbalho.
Quem sabe o juiz de primeira
instância, antes de agir, devesse per-guntar ao juiz maior se
deve ou não fazê-lo. Ridículo, mas... A polícia também se
obrigaria a esclarecer se, para cumprir a missão, deve levar
algemas ou lanche, "nécessaire", revistas e outros para agradar
o preso. Triste mesmo é saber intocada a antiga regra da qual,
em 1668, em Lisboa e nas barbas da Corte, lembrou o Padre
Vieira: "Os pequenos, ainda quando vencem, ficam debaixo; os
grandes, ainda quando vencidos, caem de (por) cima." Os pequenos
somos nós, o povo.
(Matéria Editada em 11/03/02)

O número do Cão
Kurt Pessek
kconsult@terra.com.br
é articulista, jornalista, escritor e diretor da Associação da
Imprensa do Distrito Federal
BRASÍLIA (ABN) - O coronel
Ubiratan Guimarães foi condenado a 632 anos de clausura pela
morte de 102 facínoras e de quebra mais cinco tentativas de
assassinato. Sem comentários, rendo-me à discrição perante os
assuntos da Justiça. Porém sobram conjeturas. E os superiores ao
Coronel, os verdadeiros mandantes? Teriam eles lembrado naquela
angustiosa hora de recomendar-lhe trocar as armas por rosas pois
haveria de negociar com gente distinta, de elevada educação
diplomática? Cá cos meus botões penso ser melhor nessas
circunstâncias remeter para o interior do covil de réprobos
enlouquecidos, armados inclusive de revólveres, os liberalões da
imprensa e as mal-amadas, as eternas defensoras dos direitos dos
"pobres" prisioneiros.
Ora, dirá alguém, finalmente
se puniu primeiro o chefe, ou seja, o verdadeiro causador. E a
plataforma de um bilhão de dólares da Petrobras quando morreram
brasileiros honestos e trabalhadores? Neres, neres de pitibiriba.
Sérgio Naya, dono de empresa e engenheiro formado, foi declarado
inocente do desabamento do prédio na Barra da Tijuca e lá também
pagou com a vida quem jamais cometeu atos imputáveis. Mas o
coronel Ubiratan não tem padrinho nem mesmo recursos financeiros
para contratar advogados a minuto. Por isso mesmo foi arrastado
às gemônias por insuportável pressão da mídia e regozijo da
calhorda.
O promotor, Norberto Joia -
sem acento - saiu-se com belíssima frase de efeito, a jóia do
Joia: "A sociedade vai escrever o último capítulo da história
que estava escrita nas paredes, sepultada nos corpos e calada
pela intimidação." Palmas! referia-se, de tabela, ao regime
militar. Lamento, senhor promotor, mas há na frase verdadeiro
paralogismo. Bem o contrário, este foi o primeiro capítulo da
história onde a intimidação da sociedade vai chegar ao ápice e
hão de multiplicar-se os sepultamentos dos justos e nem nas
paredes alguém ousará escrever patavina. Abriram-se as portas do
reino do terror A polícia, no seu todo, afundou no desvalimento.
Nenhum policial há de puxar armas para malfeitores e o povo, já
desprotegido, perderá seus escudos contra a cada vez maior onda
de violência, praga crescente a cada dia. Só nos restam os
ladairos. Valha-nos! Santo Expedito.
Já temos claros exemplos de
edulcoramento nas polícias. O tão propalado plano de segurança
nacional deu em água de barrela, mentiu, deu chabu. No Paraná,
com a anuência do Ministro da Justiça, a polícia só faltou
ajoelhar-se para os bandidos. O problema dos mortos ficou
esquecido, inclusive o falecimento do agente carcerário, vítima
dos sanhosos presidiários. E esse infeliz governo cedeu a todas,
sem exceção, exigências dos celerados rebeldes. Perante as
invasões de terras, quando se devasta o plantio, dilapida-se as
casas e mata-se o gado, as polícias limitam-se a cercar o local
e passam a oferecer mariolas e vantagens aos invasores. A ordem
já não mais é imposta em nome da lei, vergonhosamente se negocia
e até esmola-se. É o fim da picada.
A sentença condenatória do
Coronel Ubiratan resultou da multiplicação de 102 mortes vezes
seis anos, pena atribuída para cada uma. Por pouco, deixaram de
incluir nove ocorridas por chuços ou facas. Suspeitam, os
místicos, da presença das chamadas forças ocultas durante o
julgamento. E provam, o total de mortes chegou a 111 que
multiplicados por seis alcança 666, número do Cão. O verdadeiro
patrono do caos e da injustiça travestida de legalidade. Aos
ladairos, pois!
(Matéria Editada em 11/03/02)
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