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Em
27/08/00:
Os
Militares e as Urnas
Feichas Martins <feichasmartins@abn.com.br>, articulista,
jornalista, cientista político, diretor da Associação da Imprensa do Distrito Federal e
professor do Curso de Direito da Faculdade Euro-Americana
BRASÍLIA (ABN) - A volta do regime militar no Brasil obteve 38% da simpatia popular
em recente pesquisa realizada por uma revista de circulação nacional, o que pode ser
associado à credibilidade das Forças Armadas, que sempre obtiveram índices elevados,
muito acima dos obtidos por outras instituições, entre as quais a própria imprensa.
As vulnerabilidades do país na área da segurança pública e a emergência de
diversos fatores de violência potencialmente disrruptiva nas cidades e no campo, afora a
contaminação parcial de órgãos institucionais que se mantinham até poucos anos
indenes à corrupção, empurram a classe média para o recurso ao regime forte, fenômeno
que já se registra em diversos países da América Latina, entre os quais nossos vizinhos
Venezuela e Peru. Em resumo, o autoritarismo popular, como vem sendo denominada essa
tendência pelos estudiosos europeus, é a mesma coisa que ditadura civil, daquela mesmo
que exerceram Peron, Vargas, Trujilo, Duvalier, etc., aqui nas Américas, em tempos não
muito distantes.
O modelo de regime autoritário, militar ou
civil, tem relação direta com a instabilidade social.
A violência tende a crescer, como constatou recentemente o Instituto
Político-Estratégico Brasileiro (IPEB), com sede em Brasília, que, debatendo o problema
das drogas, concluiu que faltam o mapeamento dos pontos críticos, campanha educacional
sistemática em torno de valores e princípios humanísticos e reformulação da
legislação brasileira com vistas a maior rigor para a prevenção e repressão à
produção, ao transporte e à distribuição de drogas.
Para o IPEB, coibir a lavagem de dinheiro e fazer a profilaxia dos setores
públicos contaminados pela corrupção, com o envolvimento da sociedade, são medidas
políticas paralelas necessárias para combater o narcotráfico, hoje, junto com o
trânsito, um dos maiores responsáveis pela violência urbana.
A destinação das Forças Armadas para combater diretamente o narcotráfico,
defendida por importante líderes políticos, nem de longe seria assimilada pelos
militares, cuja papel constitucional é outro.
Obviamente, o sistema de informação militar pode servir de apoio às ações
estratégicas e operacionais dos órgãos federais competentes, entre os quais a Polícia
Federal.
Os políticos mais perspicazes sabem que as Forças Armadas compõem a dimensão
militar do poder nacional (usando-se uma expressão esguiana), com atribuições
constitucionalmente bem definidas e doutrinariamente centradas nos seguintes Objetivos
Nacionais Permanentes: Democracia, Soberania, Paz e Justiça Social, Integridade do
Patrimônio Nacional e Integração Nacional. São objetivos definidos pela Escola
Superior de Guerra e difundidos por todo o Brasil.
No momento, no Brasil, há uma democracia mitigada desmobilizante (expressão
que reivindico como de minha autoria e que significa uma democracia com rígido controle
sobre os movimentos da classe média, as universidades, os sindicatos, a imprensa e outros
setores corporativistas), de interesse dos países globalizantes, à frente o Grupo dos
Sete, em nome do equilíbrio macro-econômico e das boas condições de reprodução do
capital aqui investido. É a política neoliberal, que coloca a economia na frente da
política.
A classe média brasileira é a principal tributária das Forças Armadas, em
especial do Exército. Ela vem suportando, desde o Governo Collor, supressões cada vez
mais significativas de itens indispensáveis à condição de vida condigna. É uma
tendência natural subirem os índices de simpatia à volta do regime militar em razão
direta dos preços dos remédios, combustíveis, alimentos, transportes, etc. e em razão
inversa do poder aquisitivo da classe média.
Há mais de 10 milhões de eleitores no segmento
militar no País, suficientes para compor uma bancada de trinta deputados federais. E há
militares convictos de que as Forças Armadas precisam ampliar sua representatividade em
mandatos eletivos, no Legislativo e no Executivo, adotando assim uma postura pragmática,
já a partir dessas eleições municipais. Dá para imaginar o quanto poderão influir nas
próximas eleições presidenciais, inclusive surgindo um candidato militar,ao estilo
Eduardo Gomes...
Operação Condor
Carlos Ilytch Azambuja é
articulista
Impressionante é o estardalhaço do noticiário nacional, nas últimas semanas,
referente a uma presumida ação de Órgãos de Inteligência de países do Cone Sul, na
década de 70. O assunto ganhou corpo a partir da ação do juiz espanhol Baltasar Garzón
que, após indiciar o General Augusto Pinochet, passou a buscar documentos objetivando
demonstrar que, depois da deposição de Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, os
governos de cinco países - Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai e Uruguai - uniram-se,
sob o comando da DINA, o Serviço de Inteligência chileno, numa espécie de "Mercosul
do Terror". A parceria teria sido formalizada em 1975, sendo denominada "Operação
Condor".
Vamos aos fatos.
É sabido que quando existe uma ameaça terrorista de caráter internacional, os
órgãos de segurança dos países ameaçados se coordenam. Nesse sentido, a "France-Press"
divulgou, em 21 de novembro de 1998, o seguinte telegrama: "O presidente
francês, Jacques Chirac, e o Primeiro-Ministro Lionel Jospin, confirmaram ao chefe do
governo espanhol, José Maria Aznar, a adesão da França à luta antiterrorista na
Espanha, ao ser concluída, ontem, a reunião de cúpula França-Espanha, em La
Rochelle". Ou seja, esses dois países passaram a coordenar-se para combater a
ETA-BASCA espanhola.
Muitos militantes da ETA-BASCA têm sido presos, e alguns têm desaparecido, em
território francês, em operações conjuntas dos órgãos policiais da França e
Espanha, conforme a imprensa internacional freqüentemente noticia.
Em 1974 - menos de um ano após a deposição de Allende - foi fundada em Paris uma Junta
de Coordenação Revolucionária (JCR), integrada pelo Exército de Libertação
Nacional (ELN), da Bolívia, Exército Revolucionário do Povo (ERP), da
Argentina, Movimento de Libertação Nacional-Tupamaro (MLN-T), do Uruguai, e Movimento
de Izquierda Revolucionário (MIR), do Chile.
Em outubro de 1974, a Comissão Política do MIR, através de seu jornal "El
Rebelde en la Clandestinidad", dava conta desse fato nos seguintes termos: "No
campo internacional, nosso partido redobrará a coordenação e o trabalho conjunto com o
ERP, o MLN-T e o ELN da Bolívia, e junto com eles lutará para fortalecer e acelerar o
processo de coordenação da Esquerda Revolucionária Latino-Americana e Mundial (...)
Chamamos a todas as organizações e movimentos irmãos a redobrar a luta em seus
próprios países, a fortalecer e ampliar a Junta Coordenadora do Cone Sul (...)".
O dirigente do PC Chileno, já falecido, que foi Ministro de Allende, Orlando Millas,
diz em suas "Memórias, 1957-1991", "Ediciones
Chile-América", Santiago, 1995, pág 186 e 187, o seguinte: "Reunimo-nos
em Moscou, em 1974, os membros da Comissão Política do partido que estávamos no
exílio, ou seja, os titulares Volodia Teitelboim, Gladys Marin (atual
Secretária-Geral do Partido Comunista Chileno), eu e o suplente Manuel Cantero. Nessa
oportunidade soube do acordo que haviam chegado, em Havana, dirigentes dos respectivos
partidos (chileno e cubano), para que contingentes de militantes comunistas chilenos
fossem aceitos como alunos, na qualidade de cadetes, na Escola Militar de Cuba.
Foi recrutado para essa tarefa o melhor do melhor da nova geração no exílio. Senti
que os conduzíamos a queimar-se no Chile em batalhas impossíveis. Quem menos direito tem
de criticá-los somos nós, que assumimos a responsabilidade, estremecedora, de
sugerir-lhes, sendo adolescentes, que o caminho para ser dignos de seu povo deveria ser
percorrido empunhando armas".
Anteriormente, no Congresso do Partido Socialista Chileno, ao qual pertencia Salvador
Allende, realizado na cidade de Chillán, em 1967, havia sido aprovada uma Resolução
Política que dizia: "(...) A violência revolucionária é inevitável e
legítima (...) Só destruindo o aparato burocrático e militar do Estado-burguês, pode
consolidar-se a revolução socialista" (isso é marxismo-leninismo puro).
A decisão do PS Chileno de optar pela "violência revolucionária"
estava de acordo com os protocolos adotados no ano anterior, 1966, em Havana, na "Conferência
Tricontinental", quando foi aprovada pela unanimidade das 27 delegações
presentes a sugestão de criar a "Organização Latino-Americana de Solidariedade
(OLAS)". Uma cópia do Komintern dos anos 30, um pacto político-militar
para revolucionar a América Latina. É importante assinalar que o autor dessa proposta
foi o delegado que representava o Partido Socialista Chileno: o então deputado Salvador
Allende.
Nos anos 80, a ação armada subversiva, no Chile, ganhou impulso com os sucessivos
desembarques de armas realizados desde navios cubanos, em janeiro, junho e julho de 1986:
3.200 fuzis, 114 lança-foguetes soviéticos RPG-7, 167 foguetes anti-blindagem LAW
(utilizados na denominada Operação Século XXI: atentado contra Pinochet nesse
mesmo ano de 1986, que causou a morte de 5 militares de sua escolta), granadas, munições
e outras armas (livro "Chile, Crônica de um Assédio", Santiago, 1992,
tomo I, página 98).
A prova da intervenção de Cuba e de que um contingente dessa nacionalidade
encontrava-se no Chile durante o governo Allende, inclusive integrando a segurança
pessoal do presidente - denominada GAP-Grupo de Amigos do Presidente - foi
confirmada, no final da década de 80, quando do julgamento de diversos oficiais do
Exército cubano, acusados de narcotráfico. Um desses, o coronel Patrício La Guardia,
amigo pessoal de Fidel Castro, condenado à morte e fuzilado, viu-se submetido ao seguinte
interrogatório: Pergunta: "E missões internacionalistas que cumpriu
anteriormente, além dessa de Angola? Resposta de Patrício La Guardia: "Estive
no Chile. Fui condecorado com a Medalha Internacionalista de Primeiro Grau porque estava
no Chile à frente dos companheiros de Tropas, quando do golpe de Estado, e cumpri outras
operações especiais" ("Vindicación de Cuba 1989", "Editorial
Política", Havana, Cuba, página 291).
Pergunta-se o que poderiam fazer os governos ameaçados frente a uma internacional
terrorista - a OLAS, nos anos 60, e a JCR, nos anos 70? Obviamente, o mesmo que fazem hoje
França e Espanha: coordenar suas ações antiterroristas.
Assim como à dupla Garzón-Garcés não ocorre submeter a processo os governantes
franceses e espanhóis pelas operações de combate à ETA, existiria fundamento para
acusar o atual senador Pinochet, por alguma atuação indevida de seus subordinados
durante o desenrolar da "Operação Condor", há 25 anos atrás?
É indiscutível que face a um desafio terrorista coordenado, que não era um pic-nic,
os Órgãos de Inteligência dos países ameaçados fizeram o mínimo: coordenar-se. E
deverão fazê-lo sempre.
A comunidade jurídica internacional sempre considerou profundamente injusto julgar uma
época aplicando os padrões morais de outra. Por isso, entre outras razões, é
reconhecido universalmente o instituto da prescrição, através do qual o transcurso do
tempo extingue as responsabilidades. Há, pois, um ingrediente de tremenda injustiça
querer julgar, 25 anos depois, acontecimentos que hoje parecem desprovidos de toda a carga
de incerteza, temor e ódio que existiam no Chile e em toda a América Latina nos anos 70
que, segundo Che Guevara, deveria ser transformada em um enorme Vietnã. Sempre, "antes"
as coisas são diferentes do que parecem "depois", quando o perigo já
passou. Um velho ditado diz que "depois da batalha, todos são generais".
Recentemente, em 3 de julho de 1998, o tiranete Fidel Castro, em discurso no
encerramento de um seminário, em Havana, sobre o tema "Globalização",
convocado pela "Associação de Economistas da América Latina",
reconheceu seu papel de promotor da guerrilha em toda a América Latina nos anos 60.
Guerrilha - esta sim - que fez uma montanha de mortos.
Malgrado, o acerto de contas com Pinochet é considerado pela esquerda como politicamente
correto, pois ele destruiu um mito do marxismo-leninismo: a derrubada do poder de um
governo comunista.
É isso que a esquerda de todos os matizes não admite, não aceita e não perdoa.
Em busca da
Verdade
Adriano Áulio Pinheiro da Silva
Atordoado com a onda crescente de sacrifícios que lhe são impingidos, o povo
brasileiro recebe como insólita agressão ao seu bom senso a insistência de
considerável parcela da mídia em tentar desmoralizar as nossas Forças Armadas. O
inconformismo, diante da manutenção do invejável índice de credibilidade conferido ao
Exército por 82% dos brasileiros, gerou perversa reação, tendo por alvo a derrocada
desses números. Assim é que acontecimentos de anos passados, envolvendo militares do
Exército, voltam a ser revividos, levando a crer tratar-se de intencional lançamento de
cortina de fumaça visando a encobrir, nos campos político e econômico, a vertiginosa
queda de aceitação do atual Governo, agravada, no campo psicossocial, pela terrível
evidência do crime organizado, pela ação nefasta da máfia, pela ocorrência
desenfreada do contrabando e do tráfico, pela corrupção deslavada, pelo absurdo da
impunidade e pela constatação da existência de verdadeiras quadrilhas dentro dos
próprios poderes da União.
Um dos mais poderosos jornais do País, movido pelo sensacionalismo, pelo revanchismo,
ou mesmo por ordem superior, houve por bem provocar a reabertura do inquérito do
Riocentro. Ao fim de intensa e sistemática campanha, vitorioso, parece ter sido premiado
com o singular privilégio de poder divulgar, em primeiríssima mão, muito antes da
confecção do respectivo Relatório, todas as conclusões do Inquérito, com pormenores e
providências dele decorrentes. Evidentemente, o jornal se escudará no direito de não
revelar a fonte do vazamento das preciosas informações. O estranho precedente, no
entanto, é de causar pasmo...
Mas, em termos práticos, torna-se plausível a pergunta: que contribuição traria
para o bem do País a reabertura do caso da bomba do Riocentro? Aqueles menos informados
dirão que se busca a verdade histórica, influenciados, por certo, pelas mentes ainda
deformadas de contumazes e ferrenhos adeptos do revanchismo. Um deles, o inditoso
presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal, afirma textualmente que
"nos motivamos pela necessidade de resgatar a verdade sobre o maior atentado
político na História recente do Brasil, que colocou em risco a vida de 10.000
pessoas". Já o procurador, responsável maior pela reabertura do Inquérito, que, no
dizer do Presidente do Senado, "foi no regime militar o maior puxa-saco dos
militares", garante, categórico e petulante que "Esse caso não vai acabar em
pizza. Comigo aqui, não." Quem te viu...
Acolhendo-se como procedente a busca da verdade histórica e a conseqüente punição
dos responsáveis, caberia, em contrapartida, outra indagação: por que não reabrir,
igualmente, o caso da bomba no Aeroporto dos Guararapes? Afinal, no Riocentro, houve
apenas uma morte e um ferido, enquanto no Recife os mortos foram quatro, além de quinze
feridos, alguns deles mutilados. Comprovou-se, no caso, um ato de terrorismo
indiscriminado, o que significa, em suma, fazer vítimas, não importando quem, mas não
visava apenas, como muitos querem fazer crer, à figura do então candidato à
Presidência da República. Quem teria sido o responsável (ou responsáveis) pelo cruento
atentado? Não estariam alguns deles exercendo, hoje, altos cargos no Governo? Um deles
já teria morrido? Por que então não elucidar de vez o caso, ainda que para se apurar,
como escreveu um jornalista néscio e inconseqüente, que "O atentado, mal contado e
provavelmente tão falso quanto o do Riocentro..."
Querem a verdade histórica? Vamos então buscá-la, para se chegar à conclusão de
que o bárbaro atentado contra o Quartel-General do então II Exército, em São Paulo,
com a morte conseqüente de um jovem sentinela, foi obra de um destemido patriota, digno
de estátua em via pública, ou de um covarde e lunático aventureiro, merecedor da
execração do povo brasileiro. Vamos concluir, também, se o capitão desertor deve ser
considerado um herói, como muitos o desejam, ou um vil traidor da Pátria, um mero
ladrão de armas e de bancos, além de assassino frio e sanguinário. Vamos, sim, escrever
a verdadeira história, mas não pelas mãos de fariseus ávidos de vingança e mentes
prenhes de ódio, obcecados pela crucificação de generais e coronéis. Façamo-lo, sim,
mas pela cabeça desanuviada de gente amadurecida e sensata, capaz de discernir o bem do
mal, o certo do duvidoso e que não permita que a paixão se sobreponha à razão.
Parece que o fantasma de 31 de Março de 1964 anda assombrando os nossos dirigentes,
temerosos de que os "gorilas" voltem a atormentá-los. Por via das dúvidas,
extinguiram-se os quatro ministérios militares, criando-se açodadamente o Ministério da
Defesa e entregando a sua direção, como compensação, a um político civil que não
lograra a reeleição em sua terra natal. Cortaram-se assim, de uma só vez, quatro elos
diretos entre as Forças Armadas e a Presidência da República. Restava, contudo, ainda
um... E, como urgia, cassaram também a Casa Militar, nascendo então um outro órgão,
com nome pomposo, a ser ocupado por um civil. Poderiam, pelo menos, para salvar as
aparências, ter mudado também o nome da Casa Civil, pois a permanência dela parece
pressupor a existência de uma outra...
Mas o que devia, realmente, ser notícia, e não foi tratada como tal, divulgou-a o
mais importante jornal de Brasília, embora em plano bastante secundário. Diz, na
íntegra: "Resultado de enquete feita pelo jornalista Lauro Quadros, na Rádio
Gaúcha: a MAIORIA DA POPULAÇÃO DO RIO GRANDE DO SUL (o grifo é nosso) prefere a
ditadura à democracia". A notícia foi publicada assim mesmo, secamente, sem
quaisquer inferências ou comentários. Ainda assim, convenhamos, dá no que pensar...
Pode-se intuir, por exemplo, que o povo, a massa popular, os que realmente vivem nessa
"democracia" tão exaltada e em cujo nome tudo se admite e tolera, pode estar
mudo hoje, mas não é cego e tampouco surdo: vê e não esquece tudo o que acontece em
seu redor, inquietando a sua intimidade; ouve e guarda na memória tudo o que, em vão,
lhe prometeram e ainda prometem. Mas... pode chegar a hora de ele quebrar esse mutismo e
voltar a gritar um BASTA!, como em 1964.
Do jeito como se desenrolam os acontecimentos no País, se outras pesquisas,
semelhantes àquela realizada no Sul do País, fossem estendidas a outros Estados, os
resultados não causariam surpresas...
O momento, portanto, não exige apenas sacrifícios, mas muita reflexão, patriotismo,
trabalho, justiça, segurança, emprego, paz, enfim. E, bem a propósito, o experiente
jornalista Carlos Chagas, em seu excelente artigo "Despertaram o elefante",
publicado recentemente, é muito incisivo e claro, sem pretender ser adivinho...

A tortura
José Batista Pinheiro
Onde estão as ONGs, o Dr José Gregori, o cardeal Evaristo Arns e o grupo Tortura
Nunca Mais que tanto falaram em direitos humanos e que estão emudecidos ante o descalabro
da atual situação de desgraça que assola este País? Será que estão coniventes?
Eles, que tanto se preocuparam com tortura, não entenderam que a verdadeira tortura do
povo brasileiro começou no Governo Collor, quando a toda poderosa Ministra da Economia
confiscou os ativos de todos - pessoa física e jurídica - a título de combater a
inflação que já alcançara, no governo anterior, picos de 80% ao mês. Esse ato leviano
levou ao desespero e à morte milhares de brasileiros que se viram privados de seus bens e
de suas economias, até para comprar remédio. Enquanto isso, era montada uma quadrilha
pelo tesoureiro da campanha presidencial, acobertada pelos poderes estabelecidos, que
tomava farto dinheiro de empresários e milionários à guisa de liberarem seus recursos
retidos no Banco Central. Deu "Impeachment" do Presidente.
Tortura mesmo, na expressão da palavra, está acontecendo agora. É uma preocupação
geral, uma angústia, um desespero no âmago das pessoas, que não se sabe de onde vem,
não tem referencial e que atinge a todos sem respeitar classe social. O desemprego é,
sem dúvida, a maior de todas essas torturas, atinge o cerne das famílias desde o chefe
da casa ao recém nascido, destrói a dignidade, rouba a consciência e leva todos à
desesperança. É a tortura da fome, da violência urbana, do menor abandonado, da velhice
desamparada, dos hospitais públicos sucateados, das escolas oficiais decadentes por falta
de material, merenda escolar e salário decente para os professores. É a tortura das
rebeliões nos presídios inchados somente de prisioneiros pobres.
Os jovens desorientados sem acreditarem em nada e os mais velhos perplexos sem
encontrarem uma brecha na consciência para explicar a eles esse cataclismo!
Os torturadores estão bem à mostra, dando entrevistas, aparecendo nas manchetes dos
jornais e revistas, nas telas das TVs, saqueando o erário, sem nada temerem. Ninguém se
esconde, os nomes, as contas bancárias, os grampos telefônicos, provando o
enriquecimento ilícito e outras patifarias, as remessas de dólares para paraísos
fiscais, está tudo aí, às claras, todos se locupletando do dinheiro público, viajando
mundo afora, aumentando seus patrimônios e ninguém faz nada.
Onde estão as ONGs, o Dr José Gregori, o cardeal Evaristo Arns, o grupo Tortura Nunca
Mais que tanto falaram em direitos humanos e que estão emudecidos ante o descalabro
atual?
Será que vão atirar a primeira pedra?

Segurança e Desenvolvimento
Sergio Tasso Vásquez de Aquino
O pensamento neoliberal globalizante, que avassala e empobrece o mundo menos
desenvolvido, é perverso e pervertido, afastado de Deus e da Pátria, porque criado,
estimulado e difundido por um círculo restrito de poder, de egoísmo sem medidas e de
ambição sem limites, que deseja açambarcar toda a riqueza do mundo. Seu propósito é o
predomínio, por todos os tempos, dos ricos e dos fortes de hoje, na arena internacional e
dentro de cada país.
Desconhece o amor a Deus e ao próximo, a devoção à Pátria, a compaixão pelos
pobres, pelos fracos, pelos humildes que clamam por ajuda e por solidariedade. Seu
espírito é a usura, a acumulação de bens, de poder derivado da posse da terra, dos
mares, do espaço, e das suas riquezas, todas. E o desprezo por todos os valores éticos,
morais, espirituais que preconizam um mundo mais justo, em que cada ser humano,
"feito à imagem e semelhança de Deus", tenha o direito a desenvolver-se na
dignidade intrínseca à sua condição.
Os agentes de tão nefasta e diabólica visão do mundo chegaram ao poder no Brasil
como em outros pontos do continente e do chamado "Terceiro Mundo". Basta ver com
olhos de enxergar e sofrer com coração de sentir o lastimável estado a que vem sendo
reduzida nossa Nação. "As árvores se conhecem pelos frutos"... Tudo o que se
vem passando é programado, deliberado, intencional! E visa a dobrar nosso País,
mantê-lo contido, dependente, subserviente, incapaz de gerir as suas formidáveis
riquezas e de dar ao povo ordem com progresso, em ambiente de justiça, paz,
solidariedade, esperança, fé.
Os agentes seguidores do neoliberalismo são os que vendem o patrimônio nacional;
desprezam o povo, de cujas agruras e sofrimentos, por eles exacerbados, não se condóem;
obedecem os ditames emanados dos centros mundiais de poder financeiro para manter o
"status quo", ricos e privilegiados de um lado, pobres e explorados do outro,
para sempre. Pisoteiam o direito das gentes de buscar os caminhos da auto-realização,
ignorando as lições de divina sabedoria, segundo as quais "a partilha gera
abundância e fraternidade, e o acúmulo de riquezas nas mãos de uns poucos -
indivíduos, grupos, nações - gera pobreza, injustiça, revolta".
É preciso catalisar reação valente contra o que se vem passando há quase dez anos,
com aceleração acentuada nos seis mais recentes: a entrega do Brasil, a transferência
da orientação do seu destino e do patrimônio nacional a centros forâneos de poder, as
limitações consentidas à soberania, o empobrecimento acelerado do povo, que têm sido
os frutos perversos da onda neoliberal. Mas isso é tarefa para patriotas de verdade,
aqueles dotados de coragem e de visão nacional para solução de todos os problemas, que
tenham desapego das coisas do mundo, confiança em si mesmos e nos talentos recebidos de
Deus, disposição para compartilhá-los com os concidadãos, em benefício da Terra, do
Homem e das Instituições brasileiras. Assim nos consideramos nós, um grupo de civis e
militares, fiéis ao Brasil e ao ideário de construção nacional representado pela
Doutrina da Escola Superior de Guerra, verdadeiro Projeto BRASIL, que nos apresentamos à
liça para dirigir os destinos da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra
- ADESG no próximo, histórico, crítico e decisivo biênio 2000-2001. Sob a proteção
de Deus, em defesa da Pátria ameaçada e com a inspiração do estandarte em que se vê,
escrito com letras de fogo, "Segurança e Desenvolvimento", marcos indeléveis
da luta cinqüentenária da ESG por um Brasil melhor e pilares básicos da afirmação da
nossa nacionalidade em harmonia, justiça e paz!
O materialismo induzido que vem presidindo a vida nacional é a causa maior do grande
retrocesso que vimos experimentando e da crise aguda e avassaladora em que estamos
envolvidos, de natureza essencialmente moral, em que avultam a falência das lideranças,
o egoísmo das elites com seus maus exemplos contumazes de desperdício, indiferença,
sonegação, corrupção... que se abatem sobre a Nação e se vêem logo ampliados e
multiplicados em todas as categorias sociais pelo efeito demonstração. Por causa do
materialismo, também, pela tentação clássica de dinheiro, glória, poder, tantos traem
a Pátria e entregam os irmãos brasileiros desafortunados a uma existência sem
esperança.
A despeito dos dias negros que tanto sofrimento nos trazem, temos crença no Brasil e
no seu radioso porvir. Só depende de nós, brasileiros verdadeiros, devolvê-lo ao
caminho luminoso no seu destino! Já tarda, pois, a hora de congregar os patriotas para a
grande cruzada da redenção da Nação. É a isto que nos estamos propondo: reunir, como
a um toque de clarim, por todos os rincões do Brasil onde se encontrem, os quase 70 mil
adesguianos, legítima e autêntica elite nacional, porque comprometida com a defesa da
Pátria e a conquista e manutenção dos Objetivos Nacionais. É nossa a decisão de
cerrar fileiras em torno do Brasil, de guardá-lo, defendê-lo, amá-lo de todo o
coração, sob o chamamento histórico da nossa Escola Superior de Guerra:
"Segurança e Desenvolvimento".
Que em todos os quadrantes do nosso formidável País-continente possamos ter força e
competência para despertar a Nação, de sorte que encontrem eco, nos corações, nas
mentes e nas almas de quem estremece de amor pelo Brasil, os comandos dos grandes
cabos-de-guerra que honraram as armas nacionais: "Sigam-me os que forem
brasileiros!" (Caxias), "Sustentar o fogo que a Vitória e nossa! O Brasil
espera que cada um cumpra o seu Dever!" (Barroso).




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