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Heitor Reis - Articulista da Agência Brasileira de Notícias / Brazilian News Agency (ABN)  

Heitor Reis é articulista, engenheiro civil, palestrante, membro do Conselho Consultor da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa [ www.fenai.org.br ] e da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [ www.imprensa.org.br ]

 

O fator humano

Somos vitimas de nossa universal, democrática e ditatorialmente distribuída falibilidade humana.

Em função disto, nenhum sistema político, econômico, religioso ou filosófico será eficaz na prática, por mais belo e racional que seja na teoria, de promover uma sociedade mais justa e democrática. Nem mesmo uma Constituição Cidadã...

Sempre seremos capazes de jogar na mais sórdida lama, as supremas esperanças da humanidade. Isto, até que um dia alcancemos a perfeição, caso possível. Mas, antes disto, podemos nos tornar pessoas melhores do que temos sido até agora.

Pessoas melhores, produzem nações melhores. Pessoas piores, produzem nações piores. Perdoe-me a obviedade, tão menosprezada ultimamente.

Podemos ser melhores ou piores em vários aspectos, mas o principal, sem duvida, é no respeito pelo outro. Aí, então, entramos na questão da Ética ou da Moral, as quais fundamentam nossas mínimas individuais ou coletivas ações.

Tanto no Capitalismo quanto no Socialismo, o que decide o resultado não são as belas teorias que lhes inspiraram, mas os princípios éticos/morais dos líderes, sustentados por quem os colocou nesta posição. Cumpriria a estes fiscalizar aqueles que os representam...

Concordo contudo, que o Socialismo seja um sistema melhor. Mas, para sua existência, como estágio posterior ao Capitalismo, ele exigirá naturalmente uma sociedade melhor. E esta, indivíduos melhores.

O Capitalismo é a doutrina feita sob medida para o egoísmo e o individualismo. Como a maioria de nós é adepta deste padrão moral de comportamento, adaptamo-nos melhor à esta ideologia.

Um socialista egoísta tem comportamento, visão e ideologia similar a um capitalista padrão. Um capitalista altruísta, caso seja possível, jamais seria uma Madre Tereza de Calcutá, mas estaria muito distante dos mercenários que dominam a economia mundial. O problema é que a competitividade, hoje globalizada, obriga-o a reduzir custos e aumentar a receita de tal forma, que ele se vê obrigado a adotar métodos normalmente prejudiciais à sociedade.

Uma revolução armada socialista somente pode criar um efêmero e artificial momento, que se desfará naturalmente como um castelo de areia. Lei de ação e reação. Cada ideologia tem a bolha que merece...

A natureza individualista e egoísta é congênita ao homem. Este é também o motivo pelo qual o maravilhoso fenômeno de cooperativas é uma exceção em todo o planeta. O cristianismo, apesar de seus princípios elevados, uma farsa milenar!

Quando a humanidade se tornar mais altruísta e coletivista, o Socialismo desabrochará naturalmente, como uma rosa vermelha na primavera tropical. Aí, então o Messias e Marx celebrarão juntos suas congruências. (Atos 2 e 4)

Encontramos assim, a causa do sucesso (em termos de sobrevivência) do Capitalismo e a causa do fracasso do Socialismo. Somente haverá Socialismo de sucesso, quando as pessoas forem mais sociáveis, no sentido de pensar socialmente. Especialmente os líderes...

É a seleção natural das ideologias amarrada ao caráter do indivíduo que a gera.

Enquanto pensarmos egoisticamente, teremos Capitalismo. Seja ele privado ou de Estado. E, muita gente boa confunde capitalismo de Estado com socialismo... Mas sempre será uma ditadura. Isto é, a dominância de uma classe privilegiada sobre a maioria. Normalmente uma Plutocracia, a qual nada mais é que uma Cleptocracia: uma classe governante furtando direitos e bens da outra.

Contudo, Democracia é o respeito à vontade livre da maioria, cada um tendo direito a apenas um voto. Coisa tecnicamente impensável para egoístas... Eles se julgam mais capazes que os demais, com uma visão melhor, etc.

Convém lembrar que o poder, tido como causa da corrupção dos líderes, na verdade apenas demonstra o que eles são de fato. E não somos muito diferentes deles... Somos corruptos por natureza e o poder nos oferece uma excelente oportunidade para colocar em prática esta habilidade genética.

Experimente colocar um único e vistoso brinquedo próximo de algumas crianças de três anos de idade e verá manifestar a mesma natureza que atua entre os líderes e adeptos de qualquer facção política, religiosa ou futebolística.

Há raras e honrosas exceções, que sofreram influência de um meio (em geral familiar, suposta ou realmente espiritual ou com causa de difícil percepção), onde cultuava-se princípios elevados eticamente, com tal intensidade que superasse as causas congênitas. Estas dificilmente alcançam grande quinhão de poder. Outros, podem ter superado estas tendências, através de uma reflexão interior, independente das circunstâncias que os rodeiam.

O normal é nosso instinto natural de sobrevivência física ser dominado pelo instinto de sobrevivência do ego, de tal forma a encarnarmos os mais maquiavélicos e sanguinários déspotas.

Nesta área, nada mais pernicioso aos objetivos dos poderosos que uma pessoa legitimamente honesta, em termos amplamente sociais e planetários. Eles preferem aquelas totalmente confiáveis, desde que limitadas e submissas aos seus interesses mesquinhos. Jamais patrocinarão um político digno, no sentido mais abrangente do termo.

Como a maioria das pessoas é ignorante e inconsciente de temas desta envergadura, elas se tornam, na realidade, massa de manobra para os lideres, aos quais também se torna extremamente difícil a conscientização, num corpo a corpo, mesmo com a ajuda, cada vez menos entusiasmada da militância, como no caso petista.

Os líderes tem pressa para realizar algo, mesmo que seja atropelando os liderados. São egoístas... Na prática, os lideres tornam-se independentes de suas bases (quando as tem; em geral, são eleitores de cabresto ou funcionários remunerados) e fazem o que bem entendem, tornando-se, assim, responsáveis maiores pelo estado do, e pelo tipo de Estado em que nos encontramos.

Mas como nos tornamos melhores do que já somos?

O homem é fruto do meio. O meio é fruto do homem. O meio é o homem. Um punhado deles... Para modificar-se o meio, teremos de começar naturalmente pelo indivíduo. E, o que tenho mais facilidade de modificar sou eu mesmo. Os outros são bem mais difíceis...

É impossível modificar o meio instantaneamente através de uma varinha de condão ou simplesmente cometendo um genocídio. Há um processo natural adotado pelos fundadores das grandes correntes religiosas, políticas, científicas, filosóficas, etc.

Todas tem o propósito de permitir-nos alcançar uma consciência melhor de nossa realidade interior ou exterior, passada, presente ou futura. Umas são mais eficazes que as outras neste sentido. Tratam do que é mais substancioso ou do superficial e fútil; das causas mais profundas ou das conseqüências delas. Outras douram a pílula para melhorar seu faturamento. (E, como a maioria é inculta, para satisfazê-la, é necessário algo que alcance o seu/dela nível...)

Alguém, isoladamente, começa a influenciar outro, e estes, aos demais. Seja Jesus Cristo ou Karl Marx. Alguém, um ilustre desconhecido qualquer, disse, descobriu ou fez algo original, e os outros gostaram, começaram a imitá-lo, ou a modificar também a coisa e a difundí-la. Seja uma forma melhor de cortar cebola ou uma jogada ensaiada de futebol. Seja algo bom e produtivo, ou pernicioso e nocivo à comunidade...

Portanto, uma sociedade mais justa e democrática passa primeiro por mim, agente anônimo e primevo da revolução democrática e, conseqüentemente, socialista.

Participarei desta aquisição de consciência pelas massas (através de meu interesse legítimo pelo outro, já que é impossível ser egoísta e, simultaneamente, democrata), de tal forma que alcancem consciência de todas as nuances, quando exercerem o sagrado direito do voto e o consagrado prazer da cópula.

Um problema de cúpula e de cópula. Afinal, não há democracia ou cidadania em uma explosão demográfica. O bolo se torna miseravelmente pequeno para ser dividido, e o excedente, de marginal, passa a criminal, buscando sua própria alternativa para a distribuição da riqueza/renda nacional.

É a hora de demonstrarmos o quanto somos egoístas ou não. É extremamente difícil ser solidário e pensar socialmente, quando estamos na miséria (ou no poder). Viramos bichos, animais ou criminosos facilmente. Impera assim a lei do mais forte, do mais esperto, do mais inescrupuloso. Não há mais nada a perder. Viver ou morrer não faz diferença... Nos embriagamos facilmente com o poder. Ou nos anestesiamos na miséria.

E, quem paga a conta é justamente a classe média, em geral, detentora da mesma cidadania mesquinha da classe acima da média, que, sendo sua aliada, torna-se o instrumento, sem o qual a elite pública ou privada jamais oprimiria o proletariado. Merecidamente! Espremida como recheio de um sanduíche entre as classes extremas, sofre nas mãos das duas.

Já a burguesia, como sempre, tem condições para carros blindados, seguranças, etc., e fica quase totalmente fora do perímetro desta eterna luta de classes.

(Matéria Editada 02/08/02)

 

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