|
 |
|
Heitor Reis
é articulista, engenheiro civil, palestrante,
membro do Conselho Consultor
da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É
membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa
[ www.fenai.org.br ] e
da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [
www.imprensa.org.br
] |
Conceito atual de
democracia: Uma Ilusão Sustentada pela Mídia
"Ao homem livre, cabe
libertar o escravo;
ao sábio, ensinar aos tolos;
ao feliz, auxiliar os desafortunados."
(??)
Antônio Ermínio de Morais,
ontem num programa de entrevista da Rede Bandeirantes de TV,
recebeu a seguinte pergunta do jornalista Mitre, cuja resposta
também descrevo de memória: A elite econômica nacional não
participaria espontânea e alegremente do processo do
redistribuição de renda do país, o qual o senhor considera
solução para nosso maior problema? Resposta: Ela somente
participará, se houver pressão. Estou sendo sincero. Se deixar
por conta de nossa elite, tudo continuará do jeito que está...
Isto me fez lembrar à isto
a tese de Eugênio Staub, presidente da Gradiente: O responsável
pela situação atual não é o pobre, nem o americano, nem o
militar: somos nós, a elite brasileira.
Também é oportuno trazer
à baila esta já tão citada (por mim) síntese do ilustre Dep.
Federal do PPB, Delfim Neto: O capitalista é uma animal voraz.
São pessoas acima de
qualquer suspeita, que tem a ousadia de dizer aquilo que sentem,
mesmo participando do sistema que provoca todas nossas mazelas.
Vamos filosofar um pouco sobre isto, partindo do princípio que
estas migalhas de verdade não são suficientes para nos assegurar
a idoneidade dos meios de comunicação, os quais preferem, na
maior parte do tempo, a superficialidade, como meio de esconder as
causas, a intensidade dos fatos e verdadeiras soluções para
nossos problemas.
Antes, porém, que a turma
da direita pegue no meu pé, faço questão de salientar também
que o socialista ou comunista possui similar voracidade, já que
ideologia política, econômica, religiosa ou futebolística,
jamais é capaz de alterar o caráter do ser humano, quando ele
não quer. (Vide "O Fator Humano", <http://try.at/HeitorReis>)
Se eu estivesse agora em um país socialista, certamente estivaria
escrevendo outra coisa, criticando o sistema oposto, cujas raízes
comuns estão solidamente fundamentadas em nossa própria natureza
humana.
Por que a elite brasileira
é responsável por tudo que está acontecendo de bom e de ruim
hoje no país? Porque foi ela que sempre deteve e ainda detém a
totalidade ou a maior parte do poder, financiando a companha dos
políticos que governam a Nação, como legítimos representantes
dos capitalistas, ocupando quase todos os cargos públicos
relevantes. A lógica natural é de que a riqueza vale mais que o
ser humano. Os pobres, sempre mantidos na ignorância do
dogmatismo religioso e político, são mera massa de manobra neste
mercado eleitoral, já que não podem financiar também seus
candidatos, não sendo, assim, iguais perante à lei que rege esta
atividade.
O fenômeno do PT ainda não
nos permite avaliar resultados futuros, exceto fazendo numa
extrapolação, a partir da trajetória de um comunista sociólogo
e de sua turma, a qual se travestiu de Papai Noel de banqueiros o
ano inteiro. Oito anos inteiros...
E, é natural que, a ONU,
servindo ao poder econômico internacional, retribua tais favores,
oferecendo prêmios por seu desempenho, o qual obteve resultados
negativos naquilo que realmente interessa, ou seja, na
redistribuição da riqueza nacional, conforme a indubitável
opinião do proprietário do Grupo Votorantim. O resto é conversa
mole para boi dormir...
Já pensou, a mídia
afirmando que não há democracia no país e que, quem
governa mesmo são os ricos, enquanto os pobres são apenas
material de consumo, facilmente descartável, nos empreendimentos
daqueles?
Já pensou, a mídia
divulgando os conceitos de plutocracia disponíveis nos melhores
dicionários e entrevistando aqueles que defendem ser este o
sistema vigente no país? Que surpresa não será, então, a
análise do que seja cleptocracia? E de ambos conjuntamente...
Mas o que ocorre é
justamente o contrário... Diariamente somos vítimas de uma
sobrecarga ("overdose", no idioma imperial) de
informação, assegurando estarmos em uma democracia, que as
eleições foram a celebração deste processo, etc., etc., etc.
Não tenho como comprovar se
nossos jornalistas e similares fazem isto por ingenuidade,
ignorância, incompetência, simples má-fé ou por necessidade de
sobrevivência material (uma má-fé "justificada").
Afinal, jamais aprendemos tais coisas na escola ou na
universidade. Eles também são frutos podres de um sistema
idem... Eu, nos píncaros de meus cinqüenta anos, faz pouco tempo
que tive esta intuição ("insight", na metrópole), a
qual fui racionalizando gradualmente, graças ao ócio criativo
decorrente de minha saída opcional do mercado de trabalho.
O poder econômico, que
também domina a tão proclamada liberdade de expressão, permite
somente uma direção neste processo. Os interesses vorazes da
elite tem prioridade absoluta dentro das empresas de
comunicação, fazendo, assim, com que haja um sutil, porém
perpétuo, processo de lavagem (ou sujagem, como queira) cerebral
da sociedade, no melhor estilo de Göebbels, ministro da
propaganda de Hitler: Uma mentira, repetida inúmeras vezes, pode
tornando-se verdade.
Acrescento eu: especialmente
quando o recipiente não tem condições de refletir sobre ela e
de fazer uma análise crítica, como ocorre com a quase totalidade
dos brasileiros, cuja maior preocupação é sofrer calada o
assédio moral em seus empregos ou procurar uma vaga no
narcoestado, por falta de oportunidade melhor, graças à premiada
administração do príncipe dos sociólogos.
Afinal, como as
concessionárias do direito de informar ao público poderão
criticar o sistema que lhes concede tal regalia (bem como pode
retirá-la) e ainda as financia, a preço de banana, graças ao
fundo dos trabalhadores, quando estão à beira da falência,
privilégio este, naturalmente, dividido com os bancos e
multinacionais ao adquirir estatais?
Se o legítimo representante
da elite, que em nome dela governa a Nação, distribui
concessões de TV e de rádio, apenas para quem permita manter (ou
aumentar) a distribuição de poder e de renda na condição
atual, como poderá ser mudada alguma coisa neste país, para
democratizar a riqueza nacional?
Como as empresas de
comunicação poderão dizer a verdade, a verdade essencial e
suficiente para educar o povo e promover a cidadania, a
libertação de consciências cativas, como prevê a
Constituição, se a voracidade daqueles que as possuem, visa
apenas seu próprio lucro e de seus clientes abastados, os
senhores do Estado?
Art. 1º - A República
Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos
Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em
Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I - a
soberania; II - a cidadania; III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V - o
pluralismo político.
Parágrafo único - Todo o
poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes
eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.
Como o Congresso Nacional
pode ter isenção para apreciar este processo, determinado pela
Carta Magna, se seus membros são comprados e vendidos em
pútridas negociações, onde o preço da ética é uma
concessão?
Art. 49 - É da competência
exclusiva do Congresso Nacional: XII - apreciar os atos de
concessão e renovação de concessão de emissoras de rádio e
televisão;
Será que as emissoras tem
respeitado a ética e seu papel conforme previsto?
Art. 221 - A produção e a
programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos
seguintes princípios: I - preferência a finalidades educativas,
artísticas, culturais e informativas;
II - promoção da cultura
nacional e regional e estímulo à produção independente que
objetive sua divulgação; III - regionalização da produção
cultural, artística e jornalística, conforme percentuais
estabelecidos em lei; IV - respeito aos valores éticos e sociais
da pessoa e da família.
Ou será que a ética
nacional, enraizada em nossa cultura e história, é imutável,
tornando inexorável a mentira e o engano, compatível com a
publicidade de uma democracia inexistente?
Enquanto a posse dos meios
de comunicação não estiverem distribuídos democrática e
proporcionalmente dentro das classes sociais de nosso povo, será
uma falácia afirmar-se que há democracia ou liberdade de
expressão por aqui. A menos que encaremos com naturalidade o fato
de que os representantes do povo governem, contrariando os
interesses de seus representados...
Ao que parece a sociedade
brasileira acomodou-se. Faz bem para o ego nacional acreditar que
estamos num governo do povo, para o povo, etc., mesmo isto sendo
mais uma ilusão carnavalesca que a mídia promove para dezenas de
milhões de incautos, ano após ano, meses e dias consecutivos...
Faz bem acreditar que ser
pentacampeões mundiais de futebol é o que importa, no final das
contas, como a fábrica de ilusões insiste em difundir.
É como uma amiga de minha
ex-mulher, décadas atrás dizia para seu companheiro: "Diga
que me ama, mesmo que seja mentira!..." Ela era como o
Brasil: uma extensão territorial enorme, geografia exuberante,
cheia de riquezas cobiçadas por todos, um terreno promissor de
prazeres paradisíacos, porém, com uma auto-estima muito baixa.
Sentia prazer em ser explorada por qualquer um. A um preço
irrisório... Apenas algumas palavras ao pé do ouvido.
E, o pior de tudo é que
somente teremos uma democracia de fato, quando concluirmos o
quanto ainda estamos distantes dela hoje. Enquanto isto não
acontece, esta conscientização, a mídia continuará mantendo a
massa em sua ignorância, os lucros para a classe dominante e o
desconforto para aqueles, que contrariando todas as tendências da
psicologia de massa, começam a pensar por si próprios,
carregando sozinhos a frustração e a angústia de ver o mal
dominando o bem... E os bens.
(Matéria Editada em
10/12/02)


Volta
para Índice de Artigos de Heitor Reis


Volta
para a página principal


Índice/Sumário
Artigos Gerais
|