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Heitor Reis
é articulista, engenheiro civil, palestrante,
membro do Conselho Consultor
da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É
membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa
[ www.fenai.org.br ] e
da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [
www.imprensa.org.br
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A democracia do PT
Minha adolescência
transcorreu em época, na qual se desconhecia balas perdidas.
Raros eram os assaltos, seqüestros, arrastões e o narcoestado,
apenas uma ficção distante, que se tornava realidade nos filmes
de Al Capone.
Até mesmo o terrorismo de Estado, promovido
pela Ditadura Militar parece doce de côco, comparado, com a
guerra civil no centro da qual estamos hoje. Perdoem-me os
familiares de suas vítimas... Mas, naquele tempo somente teria
problema com os milicos, quem fosse ou parecesse comunista. Ou,
mais exatamente, quem tinha um conceito de democracia diferente do
deles. Não sei se serve de consolo, mas, hoje, a violência das
Forças Armadas do Pó é mais democrática que a anterior...
Por estas e outras, acredito que o mundo, a
humanidade e cada um de seus membros, de uma forma geral, está em
franco declínio ético, moral ou espiritual, apesar de louváveis
exceções, como Madre Tereza de Calcutá, já falecida e sem
substituto à sua altura. Vivemos num verdadeiro inferno, caso
comparemos a paz que reinava algumas décadas atrás com a
insegurança da população divulgada pelo Fantástico de
01/12/2002. E foi naquela época em que ouvi a seguinte piada:
Um cidadão exemplar morre e vai para o
céu. Lá chegando, logo após a fase de natural ambientação ao
paraíso espiritual, ousa, humildemente, perguntar sobre a turma
que havia perdido este privilégio, de viver ali.
São Pedro, prestimosamente, leva-o à beira
de um abismo, donde era possível contemplar, guardando uma
distância conveniente, tão mal fadado lugar.
Curioso, o mais novo cidadão do céu,
procurava o sofrimento prescrito nas Sagradas Escrituras, mas o
que via, causou-lhe angelical indignação. Afinal, ele, após
tamanho sacrifício, lutando contra suas tendências carnais, e
buscando a santidade apontada pelo Divino Mestre, havia merecido
adentrar-se naquele solo sagrado, enquanto os devassos e
depravados estão no inferno, ali, bem debaixo de seu nariz,
andando naqueles carrões, cheios de garotas lindíssimas e
tomando uísque, numa boa!
Pedro, pacientemente solicita-lhe para
observar melhor a cena, através de um binóculo, ali disponível,
justamente para este fim. Nosso amigo, então, percebe que o carro
era Simca Chambord, o uísque era Drurys, as mulheres não
possuíam mais suas caixinhas de prazeres, nem os homens, a chave
que as faziam funcionar. Um sofrimento eterno...
Certamente, cada um de nós pode traduzir
esta mesma visão para os tempos atuais, trocando a marca do carro
e da bebida, adicionando um telefone celular ou alguma empresa
deste setor. Seja como for, o objetivo de transmitir uma visão de
sofrimento, além das aparências, ficou impregnado em minha mente
até hoje. Denorex! Parece, mas não é.
Sou eleitor do PT desde criancinha, mas isto
não me impede de perceber as falhas por ele cometidas, as quais
ainda são menores que as dos demais partidos de porte similar.
Também não me impede de afirmar que a
democracia do PT é como a visão paradisíaca do inferno,
descrita inicialmente nesta piada. Mas, o que temos, realmente, é
o inferno de Mercadante... Uma visão dantesca do deus mercado. E
da "democracia" por ele promovida.
Enquanto a maioria dos magníficos
medalhões, catedráticos e membros da Direção Nacional do PT
compactuam com a mídia mercenária, com o Governo (Três Poderes)
e com os grandes capitalistas, exaltando a democracia tupiniquim,
algumas raras exceções ousam, cautelosamente, afirmar que temos
uma democracia burguesa, caolha, cega, surda e muda, dominada pelo
chamado neoliberalismo. Ou seja, trata-se de uma democracia, da
qual falta tanta coisa, que jamais mereceria tal denominação. É
algo como um carro sem motor, sem rodas, sem lataria e sem
gasolina Ninguém afirmaria que este chassi com alguns bancos é
um automóvel.
Mesmo considerando a posição destes, mais
progressista que a daqueles, defendo a tese de que isto ainda não
é suficiente, tratando-se apenas de uma meia verdade e, portanto,
uma meia mentira, que se faz passar por uma verdade completa,
tornando-se, assim, uma mentira do mesmo tamanho, com poder maior
de convencimento, que outra, original e totalmente falsa.
Se democracia é, como definem os
dicionários e enciclopédias, o governo do povo, para o povo e
pelo povo, onde todos são iguais perante à lei, exercendo,
assim, seu direito de votar e de ser votado em eleições justas e
livres, onde não haja influência do poder econômico ou nenhum
outro fator que possa desequilibrar o valor igual do voto de cada
um, como ela pode ser adjetivada, no sentido de qualificar uma
escala gradual de menor para uma maior concretização de seus
objetivos? Ou o povo governa ou não governa!... Existe meio
termo? Ou apenas o fato de ocorrer uma eleição periódica é
suficiente para determinar a existência de democracia? Qualquer
qualidade de eleição?!
Se os miseráveis e pobres, os negros e as
mulheres, que são a maioria da população, não possuem
representantes no Legislativo federal, estadual e municipal, em
número proporcional ao de seus indivíduos, ou seja, se seus
legítimos representantes não são maioria, mas esta é aliciada
pelos ricos, não há democracia. Uma minoria dominando sobre a
maioria é ditadura da elite, enquanto a verdadeira democracia é
uma ditadura do proletariado, ou seja, o governo da maioria, que
é composta de trabalhadores, miseráveis, pobres, negros e
mulheres. Mera democracia. A única possível. Nada a ver com a
ditadura dos líderes dos trabalhadores ocorrida na ex-URSS, onde,
como hoje, a democracia era também uma grande farsa.
Como pode existir uma democracia burguesa,
apesar de documentada por alguns dicionários, já que utilizada
pela hegemônica esquerda apopléxica? Se democracia é o governo
do povo, mas quem governa é a burguesia, enganando os eleitores,
através de campanhas eleitorais financiadas pelo poder
econômico, conduzindo-os a votarem em seus algozes, há outros
termos mais específicos para denominar este estado de coisas. É
leilão ou eleição? Faça sua escolha: plutocracia, cleptocracia,
ditadura do poder econômico ou tudo isto junto.
Se não é democracia de verdade, só pode
ser alguma das muitas formas de ditadura: militar, civil,
teocrática ou racial. Ou todas elas, superpondo-se umas às
outras simultaneamente, como ocorreu em 1964, quando também
estávamos na mais das consolidadas democracias, dentro do
conceito milicoso do termo.
Um exemplo de que o PT não entende o
suficiente de democracia é o fato de haver cunhado ou incorporado
ao vocabulário do partido a expressão "Governo Democrático
e Popular". O que significa democrático? Governo do povo,
não é? Portanto, eles querem dizer que é um governo do povo, e
que, além disto, também é popular.
Ou seja, dentro da lógica petista, é
possível um governo ser do povo e não ser popular, necessitando,
então deste estupro à lógica mais elementar. Caso o conceito de
democracia petista fosse o classicamente conhecido e não uma das
muitas dissoluções do original, não haveria necessidade deste
reforço e redundância. Democracia, pura e simples!
Outro problema é que eles consideram que
estamos em uma democracia ainda em construção. Ora, se está em
construção, ainda não é democracia. Ainda não nasceu.
Trata-se de um óvulo ou embrião, e não de uma democracia
verdadeira. É incapaz de viver por algum tempo fora do ventre da
mãe.
O Lula disse hoje, 03/12/2002, no Chile, que
temos democracia política. Mas a maioria de nossos políticos é
mercadoria facilmente comercializada no mercado liberal, onde a
ética do lucro é predadora e predomina sobre a vida, sobre a
dignidade da pessoa humana, insensível aos problemas sociais que
provoca. Tudo e todos se vendem e se compram mutuamente. Basta ter
a quantia suficiente para adquirir o caráter, a alma e a mãe do
ilustre parlamentar ou candidato a este cargo, apesar das raras
exceções.
Em caso de necessidade mais urgente, um
intermediário ("lobby", para os súditos do império)
pode "convencê-los" a votar no projeto que mais convier
ao abonado cidadão ou entidade que represente sua categoria.
Quanto custa o voto de um congressista na Bolsa de Valores do
Planalto Central do Brasil? A liberação de uma verba para uma
obra na região do congressista? Quantos cargos para seus
correligionários? Uma emissora de rádio ou de TV? FHC foi
sincero ao afirmar que suas relações com o Congresso não eram
lá muito assépticas... Conforme o Aurélio, nada isenta de
germes patogênicos.
Não temos democracia econômica, nem
racial, nem sexual, nem cultural, nem informacional, nem
jurídica, nem policial, nem educacional. Não há democracia em
hipótese alguma! Não há democracia política, Senhor Presidente
Eleito, onde as outras também não existem, apesar da pregação
equivocada de V. Excia.
Se o povo governasse mesmo, ele geraria o
desemprego, a miséria e a violência da qual padece? Isto seria
uma masocracia! O governo dos masoquistas... Naturalmente, o povo,
em sua soberana sabedoria, caso tivesse um mínimo de cidadania
(da qual estamos muito longe!...), faria com que a função social
da propriedade de seus opressores pentacentenários fosse uma
realidade em pouco tempo, empreitada em que V. Excia. poderá
pagar com a própria vida, caso tenha ousadia para tanto...
Afinal, em suas próprias palavras, Presidente, quando ainda não
era tão britânico, não há democracia, onde o povo vende voto
por um prato de comida.
E, dentro desta maionese conceitual, temo,
num extremo, que venhamos a ter aqui uma "democracia"
cubana, sustentada por julgamentos sumários e execuções em
"el paredón", conforme planejamento de golpe de Estado
arquitetado numa lista de discussão da Internet, freqüentada por
um bom número de membros do Ministério Público Federal, os
quais concordam ou se omitem diante de propostas desta natureza,
ali consolidadas. Talvez estejam ofuscados pelo fato de que tal
movimento pretende entregar-lhes o poder absoluto... [<http://www.grupos.com.br/grupos/guerreirosanticorruptosbn>]
Por outro lado, temo que esta exacerbada
propaganda de que estamos, hoje, em uma democracia, acabe
impedindo que a própria DN do PT perceba que ela somente
abocanhou uma parte do poder, graças ao consentimento das elites
nacional e planetária, as quais julgaram por bem não se
esforçar o suficiente para vencer as eleições, através do
aporte financeiro necessário para tanto. Não pretendem, no
momento, ter esta batata quente em suas mãos. Mas, a qualquer
instante podem considerar que há uma relação de
custo/benefício atrativa, o suficiente para puxar o tapete do
novo Presidente ou, até mesmo, acionar o famigerado "Código
12", graças ao número razoável de intolerância
latino-americana, passional e cega, muito bem posicionada em focos
de poder na sociedade e no Estado. Te cuida, companheiro!...
A luta de classes continúa... O capitalista
é um animal voraz, nas palavras do Dep. Federal Delfim Neto.
Será necessária muita mágica, estatística e poder de
argumentação para convencê-los de que benefícios para os
pobres não significam, necessariamente, redução de seus lucros.
Caso isto seja realmente verdade.
Oremos...
Juscelino, Juscelino!... Dá porção
dobrada de teu espírito ao companheiro Lula, para que ele possa
ressuscitar em cada brasileiro o otimismo, a alegria, a paz, o
desenvolvimento, a cultura e a grandiosidade de teu sonho, ao qual
tu nos conduziste e conseguimos torná-lo realidade um dia, quatro
décadas atrás, quando foi abortado e começou o atual pesadelo.
A gente era feliz e não sabia... Louvada seja a pequena minoria
que arriscou ou deu sua vida para manter o sonho de uma maioria
covarde, que dele abdicou. Que os filhos desta geração perdida
não cometam o mesmo engano de seus pais.
Amém!
(Matéria Editada em
04/12/02)


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