|
 |
|
Heitor Reis
é articulista, engenheiro civil, palestrante,
membro do Conselho Consultor
da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É
membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa
[ www.fenai.org.br ] e
da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [
www.imprensa.org.br
] |
Crise de paradigmose no Programa do
Jô
É inegável a capacidade do
Jô Soares como humorista, comunicador, escritor, dramaturgo e
entrevistador, motivo pelo qual ocupa uma posição de primeira
linha na mídia nacional, auferindo rendimentos compatíveis com
esta condição.
Mas, como esta mídia está a serviço do
sistema ou "stablishment", nada mais natural que ele
repercuta as contradições entre a verdade e o lucro. Não dá
lucro a descrição da realidade como ela é. Muito menos
hierarquizando os valores de cada fato, em função de sua
relevância no contexto geral. O telespectador padrão quer algo
mais que isto. Ele necessita da ilusão. É do tipo "me-engana-que-eu-gosto".
Não deseja realmente profundidade e seriedade alguma na abordagem
dos fatos. A mágica é produzir o ilusionismo de que o
secundário se torne vedete, em detrimento do que é
verdadeiramente essencial. Quanto mais incoerente e
contraditório, melhor!
Não há IBOPE elevado (e nem lucro), sem a
mistura conveniente entre a diversão e a informação, mesmo que
esta fique prejudicada pelo abuso daquela. O negócio é manter o
clima e transmitir esperança para o público, independentemente
de nosso Titanic tupiniquim ou planetário estar naufragando nas
águas geladas do egoísmo humano.
Um exemplo extravagante desta crise de
paradigmose midiática ou bitolamento, para os íntimos, ocorreu
esta semana, quando o ilustre profissional entrevistou uma
sofisticada loura quarentona (cinqüentona?), a Dra. Tânia Zagury,
educadora, professora de psicologia e autora de várias obras de
sucesso ("best-sellers", para os súditos de George W.
Bush), a qual ministra palestras em todo o país. Pesquisando no
Google, encontrei 2.170 citações de seu nome.
Ambos foram contundentes ao afirmar que os
jovens e a humanidade não estão piorando, mas
trata-se de um erro comum defender-se o contrário. A ênfase,
expressões faciais e olhares indignados do Gordo foram totalmente
impositivos. Ela acrescentou ter realizado pesquisa comprovando
tal coisa, ou seja, que nossos jovens estão se tornando pessoas
de melhor qualidade que seus ancestrais. O famoso comediante usou
de todos seus atributos intelectuais para reforçar a tese
comum...
Como meu irmão tem por hábito gravar este
e outros programas, para poder assistí-los em momento oportuno,
tomei o cuidado de repetir a cena algumas vezes, para constatar e
anotar seus dizeres, preparando-me para manifestar este meu
parecer sobre o fato.
Trataram do caso do seqüestro do Pedrinho e
do assassinato de um casal pela própria filha e por seus amigos,
também jovens, explicitando que se tratam de aberrações, as
quais não podem ser utilizadas para mensurar a condição atual
dos demais, já que coisas assim sempre existiram, sendo que Nero
assassinou sua própria mãe.
Mas, nestes momentos, segundo ela, sentimos
que "o homem está perdendo sua humanidade" e procuramos
explicações. Podemos até focar a crise ética que abala nossa
sociedade, a falta de valores de hoje em dia, sermos muito
consumistas e imediatistas, preferindo nos apropriar do que
queremos ao invés de lutar para adquirirmos tais necessidades de
forma legal. Mas nada disto pode ser utilizado para justificar as
aberrações, que estão fora de qualquer explicação possível,
sentenciou a educadora.
Pelo visto, ela e o Jô consideram fatos
como estes pouco relevantes no resultado final, ou seja, no
caráter do ser humano, produzido sob tais princípios... Somente
a crise de valores éticos de nossa sociedade é mais que
suficiente para produzir os monstrinhos que queimam índios por
diletantismo, matam por um par de tênis ou levam armas para a
sala de aula, fuzilando colegas e professores, defendo eu.
Comentei com meu irmão que eu gostaria de
possuir alguma estatística que demonstrasse cabalmente a
situação, de tal forma a evitar os qualitativos e enfrentar os
quantitativos envolvidos, defendendo que somente isto poderia
fechar a questão de forma racional. O resto é conversa mole para
boi dormir!
Miraculosamente ou por algum processo além
de minha razão, a doutora informou, como se estivesse confirmando
tudo que defendeu tão peremptoriamente minutos antes: "No
Brasil, há um incremento anual no número de jovens que praticam
delitos graves, da ordem de 300 %, com base em levantamentos nas
Delegacias de Polícia." O Gordo manteve sua fleugma e
consentiu por omissão.
Era tudo que eu queria! Se cresce assim,
astronomicamente, o número de jovens na criminalidade, como eles
podem estar melhorando? Teria que estar havendo um decréscimo,
para justificar a bula papal emitida solidariamente pelo Jô e
Dra. Tânia Zagury.
Até que alguém consiga demonstrar o
contrário, permaneço acreditando que há uma enorme
contradição nesta entrevista, por parte dos dois participantes.
Ou seria possível, simultaneamente, jovens melhores entrarem cada
vez mais para a bandidagem?
Insisto: pior que os crimes horríveis que a
mídia documenta diariamente, são aqueles que ela própria
comete, sonegando a verdade e a prática da crítica neutra e
isenta de outros propósitos sobre a realidade que divulga. E,
infelizmente, nossos melhores e mais capacitados profissionais
estão assalariados por esta prática milenar e mercenária.
Este é mais um argumento de que nossos
jovens, ao permanecerem, desde o nascimento, iluminados pelo
brilho da Vênus Platinada e suas congêneres, sedentas das tetas
suculentas da viúva, seguramente estão cada vez mais
bestializados e menos humanos. Verdadeiros mentecaptos, eleitores
de cabresto eletrônico, um enorme rebanho continental de
vaquinhas-de-presépio, hipnotizadas pelos sacerdotes do deus
Mercado, Mamom ou Plutão, que se materializam diariamente em
nossos lares indefesos, pregando a mais explícita forma de
hedonismo, mesquinhez e egoísmo.
BH-MG, 24/11/2002
(Texto enviado para o Programa do Jô,
através de sua página na Internet: <http://redeglobo.globo.com/programadojo>)
(Matéria Editada em
24/11/02)


Volta
para Índice de Artigos de Heitor Reis


Volta
para a página principal


Índice/Sumário
Artigos Gerais
|