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Heitor Reis - Articulista da Agência Brasileira de Notícias / Brazilian News Agency (ABN)  

Heitor Reis é articulista, engenheiro civil, palestrante, membro do Conselho Consultor da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa [ www.fenai.org.br ] e da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [ www.imprensa.org.br ]

 

Dissonância intelectiva dos mestres

Lei 9.394, de 20/12/1996 - Lei Darcy Ribeiro:

Art. 32 - O ensino fundamental ... terá como objetivo a formação básica do cidadão, mediante: II - a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político ... e dos valores em que se fundamenta a sociedade.

Art. 35 - O ensino médio ... terá como finalidade: II - a preparação básica para o trabalho e a cidania ... III - o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico;

Serei eternamente grato pelo esforço de meus professores que, além de meus pais, abasteceram minha mente de uma gama enorme de conhecimentos, sobre os quais estruturei esta existência. Mas, como toda criança, eu cresci. Virei gente grande e comecei a perceber que, nenhum deles era perfeito e todos possuíam a tal dissonância intelectiva, praga esta, da qual, indubitavelmente, também sou portador.

Mesmo assim, ou por causa disto, arrisco fazer-lhes minha mais reverente crítica, ainda que, com a ênfase que me é peculiar. É-me extremamente desconfortável elevar-me sobre todos e defender esta tese. Contudo, não me resta outra alternativa, por dever de consciência e por considerar uma atraente, porém distante, relação custo/benefício.

Eles foram meros reprodutores de um sistema, o qual raros ousaram (e ousam) criticar, especialmente em função de que cabeças pensantes costumavam ser separadas do tronco pelas forças dominantes. Ou perdia-se o emprego, a promoção, etc., como ainda ocorre hoje em dia, especialmente com jornalistas. Uma minoria má prevalece sobre a maioria boa, graças à omissão desta, como defende Martin Luther King Jr.

Pensar livremente não dá lucro à curto prazo. E, às vezes, nem à longo prazo. O ser verdadeiramente pensante e crítico costuma obter reconhecimento apenas depois de morto, sendo um sério candidato à heroi, martir ou santo, ainda que seja mais comum alcançar apenas o mais sepulcral anonimato. Afinal, o sistema necessita apenas de mão-de-obra barata, dócil e facilmente descartável para suas máquinas, escritórios e redações... Um imenso rebanho de vaquinhas de presépio, "yes-men", maria-vai-com-as-outras, etc. Só doido mesmo para tentar mudar isto!

Jamais um de meus amados mestres estimulou seus alunos a reavaliar os livros que utilizávamos ou as coisas que aprendíamos. Eles próprios talvez desconhecessem esta possibilidade ou temiam enfrentar o poder estabelecido.

Tudo era ensinado dogmaticamente, como verdade absoluta, tal como na ICAR - Igreja Católica, Apostólica e Romana. Afinal, ela foi monopolizadora do ensino até bem recentemente e deixou-nos esta trágica herança. Com os baixos salários atuais dos professores (antes eram atraentes de fato), há uma queda proporcional na qualidade, a qual já não era lá grandes coisas...

O aumento absurdo das horas de trabalho em dois ou três empregos, também contribuiu para que a atividade pensante ficasse ainda mais reduzida que em "minha infância querida, que os anos não trazem mais" (Casimiro de Abreu). O rádio e a TV nas mãos da elite,
completam o trabalho de alienação mental de nossos jovens e velhos, numa operação estratégica magistral, promovida pelas oligarquias nacionais e estrangeiras.

Mas há uma área especial, onde as marionetes docentes de nossas vidas foram decisivas em contribuir para o país que colhemos hoje: na política. Ensinaram-nos que nosso sistema de governo era uma democracia e ponto final. Jamais analisaram o fato de que as eleições, na prática, não eram livres como prevê a definição do termo, mas sim, decididas normalmente pela influência do poder econômico.

Assim, os pobres (a maioria do povo), não tinham (e nem tem hoje) como participar do processo eletivo, em condições de igualdade com os ricos (todos são iguais perante à lei?), tornando-se mera massa de manobra, hipnotizada pelo poder de comunicação, comprado ao peso de ouro, e, favorecendo assim, tão somente aos legítimos representantes da elite.

Eu nunca tinha ouvido (que eu me lembre...) o termo plutocracia em minha vida, até os cincoenta anos (coisa de dois anos atrás), que é a definição correta da forma de governo prevalecente por aqui e no mundo inteiro. Mesmo nos EUA, não há eleições, mas leilões. Ganha quem tem mais dinheiro na campanha, geralmente. E, o pior: aqui há também uma cleptocracia, que nos coloca em posição de desta nesta área, provocando uma das maiores concentrações de riqueza no topo da pirâmide social do planeta, .

Até hoje, professores, mestres e doutores continuam exercitando esta deficiência com tanta maestria, que quase todos (e até eles próprios) acreditam estarmos realmente em uma democracia. Até mesmo os honráveis membros da Direção Nacional do PT, dos quais sou sincero admirador, também não tenham percebido tal coisa. Ou percebem, mas encantaram-se de tal forma com a proximidade do paraíso que tal fato tornou-se apenas um detalhe insignificante.

Junto com os demais, defendem veementemente, até mesmo em cadeia nacional de TV, que houve uma redemocratização no país. Preferem esquecer-se da deficiência política existente e enfocam apenas o sistema econômico, ao qual apelidaram docemente de neoliberalismo.

Tudo isto ocorre em nosso precário sistema de ensino, confrontando com a Lei Darcy Ribeiro, que determina a compreensão do ambiente social, do sistema político e dos valores; a preparação básica para a cidania; a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico deste jovens discentes e decadentes, que são o futuro da Nação pentacampeã mundial de futebol. E que futuro!

Além de dissonantes cognitivos e intelectivos, nossos mestres tornaram-se literalmente fora-da-lei. De mais uma lei morta e sepultada, que apodrece no enorme cemitério, onde enterramos a maioria delas.

Mais uma que não pegou... A começar pela própria Constituição, que proíbe a influência do poder econômico nas eleições, mas foi negligenciada por lei menor, que a permite, conforme defende Osny Duarte Pereira, jurista e membro do Conselho da República e professor do Instituto Superior de Estudos Brasileiros - ISEB, quando em vida.

Enquanto isto, o esporte e a TV canalizam as frustrações nacionais para uma catarse menos letal aos que as provocam e mantém vivas as chamas de um patriotismo bizarro e inconsequente...

"O homem sensato adapta-se ao mundo.
O insano tenta exatamente o contrário.
Portanto, todo o progresso depende dos loucos."
(Max Weber)

(Matéria Editada em 09/09/02)

 

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