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Heitor Reis - Articulista da Agência Brasileira de Notícias / Brazilian News Agency (ABN)  

Heitor Reis é articulista, engenheiro civil, palestrante, membro do Conselho Consultor da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa [ www.fenai.org.br ] e da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [ www.imprensa.org.br ]

 

Minas é uma doença

Gandhi havia faturado o prêmio Nobel da Paz. Algum tempo depois, um jornalista pergunta porque, mesmo com tanto dinheiro que recebeu, ele ainda andava vestido como um mendigo. Ele respondeu que não se sentiria confortável doutra forma, enquanto tantos indianos ainda viviam na miséria. Existiu alguém melhor que ele em nosso século? Em todos os tempos? No Universo?

Uma amiga internauta enviou-me um texto de Rubem Alves sobre a enfermidade da qual ele padecia, chamada Minas Gerais. Lindo! Ele é maravilhoso. Eu gosto da forma como escreve. Quem não gosta? Mas eu conheço outra Minas. A que ele também deve conhecer, mas não enfocou neste momento. Como condená-lo por apreciar as flores, sem mencionar as raízes?

(Será que vou constranger a Marcia com este papo baixo astral sobre algo tão genial? Talvez ela se sinta melhor, sabendo que, mais uma vez foi a musa destes verbalizados sentimentos estertorantes...)

Afinal, "Minas são muitas", não é, Rosa? Mas Minas também é o mundo. E o mundo, Minas. A Índia é Minas. E Minas, a Índia.

(E eu sonho ser Gandhi. Ser grande... Ser Mahatma. Ou pelo menos uma boa alma.)

Existe uma à qual eu amo especialmente. A das favelas. As de Minas e as do mundo. O ouro foi-se ou se foi? Só ficou o buraco. Tantos quantos são as Minas. E as Itabiras de Drummond. Ou as Índias de Gandhiji.

Crianças nuas, banguelas, descalças, barrigudas. Catarrentas, morenas, pretas, azuis, escuras. Sentadas à margem de um pequeno riacho de esgoto, brincam candidamente nas águas pútridas como o próprio destino que as aguarda.

(Comparo mentalmente, meio constrangido, com a piscina térmica do condomínio fechado em que vivi nos "States", encravado na vastidão verde da periferia majestosa em Atlanta, Georgia. Milhares de bolas de tênis apodrecendo nos brejos ao lado das quadras e nem um brasileirozinho para catá-las e devolvê-las aos anglo-saxões, na esperança de uma gorjeta. Ninguém percebe. Estou sozinho em meu quarto, nesta madrugada, como sempre... Tomo consciência de minha dúvida quanto ao que é melhor, na solidão. Se a dor ou o prazer.)

A prostituição, a bandidagem, o tráfico, a cadeia e a morte. E, eu, impotente diante de tanta miséria, morro junto com esta infância diariamente. Não há beleza ou lirismo que me faça diluir estas cenas nos neurônios. O Rubem que me perdoe... A Marcia também... Nem quero. Se esquecê-las, deixarei de lutar para modificá-las.

(Pouco importa se esta luta for uma causa perdida, como parece ser. Valha-me meu São Galeano, que a utopia nos ajuda a caminhar.)

Aí, então, sentir-me-ei cúmplice dos responsáveis por tamanha injustiça. Isto também não quero! Quero lembrar. Sempre. E cada vez mais intensamente. Quero sorver e absorver esta miséria e a dos que a geraram. Quero sentí-la em toda sua plenitude e dor. Ser cúmplice do sofredor. Padecer da fome que lhe preenche o estômago. Ai!... Cada grama de minha obesidade dói...

Sentir a mente inativa congelando sinapses libertárias, tornando-se gradativamente escravas. Quero continuar lutando, mesmo virtualmente, contra estes moinhos de ventos, sonhando o advento de um mundo melhor. Mesmo impossível. Talvez haja vida após a morte...

Não dá para ser feliz sozinho... Nem com alguns apenas. Com muitos, talvez. Mas minha alegria inteira carece ainda do sorriso do último infeliz.

A ladainha rezada solenemente nas missas de domingo, da Igreja Matriz de Araxá, ainda retumba num dos vários canais de TV que fluem eternamente no pano de fundo de minha consciência, outrora infantil.

Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo. Tende piedade de nós...

(Matéria Editada em 27/08/02)

 

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