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Heitor Reis - Articulista da Agência Brasileira de Notícias / Brazilian News Agency (ABN)  

Heitor Reis é articulista, engenheiro civil, palestrante, membro do Conselho Consultor da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa [ www.fenai.org.br ] e da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [ www.imprensa.org.br ]

 

Puritanos e depravados

O caráter anglo-saxão (mais ao Norte, com o clima mais rigoroso) inclinou-se um tanto ao estoicismo, à disciplina, objetividade, concentração, racionalização, frieza, calculismo e planejamento, enquanto os povos europeus de idioma latino (italianos, franceses, espanhóis e portugueses, de clima mais ameno) tendiam um pouco mais ao hedonismo, à indisciplina, subjetividade, dispersão, emotividade, passionalidade, sentimentalismo e imediatismo. As colônias de ambas as culturas receberam esta herança.

As metrópoles organizaram-se e evoluíram positivamente, sustentadas por sua experiência milenar, constante interação cultural e até mesmo dominação recíproca, havendo uma certa assimilação geral das tendências mais produtivas européias, dentre as quais as desenvolvidas pelos anglo-saxões.

Nas colônias ibero-católicas ocorreu um grande desenvolvimento das tendências mais individualistas e alienantes da cultura latina (de idioma latino) européia, sob as bênçãos da religião predominante.

Assim sendo, cada cultura utilizou a doutrina cristã de forma coerente com seu caráter anterior à ela. Os princípios cristãos encontraram em um pequeno nicho da cultura inglesa (e não em toda ela) um ambiente favorável ao seu desenvolvimento mais pleno, enquanto no restante da Inglaterra católica e/ou anglicana, tudo permanecia como era antes ou evoluía mais lentamente.

Os puritanos, impossibilitados de praticar a coerência bíblica que julgavam ser a fonte de salvação espiritual em sua pátria, fogem da perseguição, indo para o Novo Mundo, onde estabeleceram uma nação fundamentada em princípios harmônicos com sua religião
particular.

Somente mais tarde vem imigrantes de outras nações e religiões, encontrando já o ambiente cultural fortemente bem estabelecido pelos puritanos, aos quais tiveram de submeter-se por longo tempo, até chegarmos ao domínio do poder econômico judeu (Velho Testamento), o
qual possui hoje o mais influente "lobby" na política nacional, atuando decisivamente na direção daquele país, e, através dele
dominando virtualmente o planeta.

Noutro extremo, o cristianismo latino-americano encontrou ambiente bem diferente, desta feita adequado à proliferação da tendência tradicionalista do catolicismo, afastando-se astronomicamente de suas bases canônicas, produzindo o mazombo:

"Apenas o 'homem cordial é concebido como negatividade pura, entidade amorfa,'dominada pelo conteúdo emotivo imediato e pela necessidade desmedida de reconhecimento alheio. (...) O racionalismo típico desta última forma de comportamento foi chamado por Weber, conseqüentemente, de "acomodação ao mundo". (...) No Brasil, a figura correspondente,
em termos de realidade histórica, é o 'mazombo'. O mazombo é o filho do português nascido no Brasil, cujas características são muito semelhantes ao perfil do homem cordial traçado por Sérgio Buarque: (a) individualismo personalista, (b) busca de prazeres imediatos,
(c) descaso por ideais comunitários e de longo prazo. Reencontramos aqui desde as incapacidades do homem cordial de Sérgio Buarque até a ausência de associativismo e iniciativa do Brasil tradicional de Schwartzman." (1)

O que Weber defende é justamente a encarnação do "espírito do capitalismo" na cultura protestante dos puritanos (e não da Inglaterra), o que não ocorreu com a mesma intensidade na antiga metrópole. Ou seja, a partir de um certo ponto, os puritanos e seus descendentes assumiram a liderança absoluta, incorporando ao capitalismo uma dimensão extremamente mais organizada, superior e eficaz.

Enquanto a Inglaterra liderava, o capitalismo não atingiu o seu apogeu, tendo isto somente ocorrido após a contribuição incomparável dos EUA, no que foi imitado imediatamente pela Inglaterra e pelo resto do Velho Mundo, ainda sem o mesmo sucesso.

Rápida e extraordinariamente, a antiga colônia livrou-se da metrópole, dominando depois quase todo o planeta. Não há fenômeno algum comparável com esta velocíssima inversão de "status" nacional em toda a história conhecida. Então, vencida a ex-URSS, agora chegou a vez da China. Não percam a próxima batalha! Os sinais de decadência do império ainda permitirão dominar o dragão, ou este devorará a águia, a qual ainda digere o urso?

Usando a mesma população que fugia de vários lugares do planeta, mesmo respeitando suas religiões, a cultura puritana foi capaz de administrar esta diversidade enorme de imigrantes de tal forma a produzir a maior potência comercial, industrial, militar e cultural
de todos os tempos, cometendo, naturalmente, equívocos históricos proporcionais ao seu poder. No Brasil, este fenômeno ocorreu apenas como uma tênue sombra do original, especialmente no que tange à distribuição de riqueza entre suas classes sociais.

Um dia este império também cairá e outro ocupará o seu lugar. Cumpre a cada um de nós contribuir para que sejamos o próximo e não venhamos a cometer os erros dos anteriores. Por que não liderar a humanidade para um convívio global harmonioso e fraterno, como teoricamente sonham todas as religiões e filosofias atéias, céticas e agnósticas? Claro que ainda estaremos muito longe de liderarmos tal proposta, enquanto, dentro de casa, nossos compatriotas trucidam-se uns aos outros por causa de um time de futebol... Possivelmente iríamos reeditar a Guerra do Paraguai em termos planetários.

________________________


(1)
A Ética Protestante e a Ideologia do Atraso Brasileiro, de Jessé Souza. Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 13, n. 38, São
Paulo, Oct. 1998. Print ISSN 0102-6909

(Matéria Editada em 23/08/02)

 

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