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Heitor Reis - Articulista da Agência Brasileira de Notícias / Brazilian News Agency (ABN)  

Heitor Reis é articulista, engenheiro civil, palestrante, membro do Conselho Consultor da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa [ www.fenai.org.br ] e da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [ www.imprensa.org.br ]

 

Católico não praticante

Séculos atrás, quando a religião determinava quase tudo na vida de todos, esta era a forma típica de interação entre os membros de uma sociedade e suas práticas laborais. Praticamente não havia aspecto de nosso cotidiano onde ela não interferisse.

Defendo que a religião foi mais que um dos muitos vetores de uma cultura. Ela foi o maior deles, quando não o único e absoluto vetor. Afinal, houve época que o Papa era quem decidia se um rei assumia, permanecia ou não no trono. Também possuía o direito de vida ou morte de quem quer que fosse considerado herege. As torturas e seqüestras dos bens de seus adversários era uma constante por parte da ICAR - Igreja Católica, Apostólica e Romana, durante muito tempo, atitudes ainda não copiadas pelos protestantes, apesar de seus excessos.

Hoje, quando comparamos os católicos efetivos (excluindo os "não praticantes"), a diferença geral diminui fundamentalmente. Mas, ser católico não significa exatamente cumprir os princípios católicos ou cristãos. Socialmente você pode apresentar-se como católico, mesmo praticando todos os atos condenados por Jesus Cristo e pelo Papa (já que são diferentes) e ninguém o condenará por isto. Quanto ao evangélico, há uma cobrança social de seu procedimento, tanto interna, quanto externamente à sua igreja.

Portanto, há um problema crucial na estratégia no catolicismo que prefere a quantidade sem qualidade, enquanto no protestantismo há maior seletividade na coerência ideológica de seus membros. Somente o fato de existir um grande número de "católicos não praticantes" já demonstra a que ponto a incoerência religiosa pode chegar. Ou a pessoa é católica praticante ou não é católica. Contudo, as artimanhas da mente humana alienada (tanto individual, quanto coletiva e institucionalmente) é capaz de criar aberrações lógicas como esta.

(E, na política, estupros à razão como "democracia elitista", "democracia burguesa", etc.)

Por que não há interesse do Papa em demonstrar inequívoca e freqüentemente as regras que definem quem é ou quem não é católico (de verdade)? Esta estratégia de marketing, optando pelo tamanho do mercado em detrimento de sua qualidade, coerência e compromisso é um dos aspectos que melhor identificam o catolicismo. No protestantismo ocorre geralmente o oposto...

Esta identidade forte e precisa tem atraído 600 mil católicos para os templos evangélicos anualmente, mesmo à despeito de uma propaganda maciça da mídia contra os protestantes, nos quais encontramos realmente os problemas divulgados.

O catolicismo, como religião extra-oficial do Estado tem sido mais poupado, já que não oferece uma proposta espiritual muito radical e revolucionária (ou retrógrada, dependendo do ponto de vista) para a sociedade, com a qual se amalgamou definitivamente, havendo pouca diferença entre as duas, no que vem sido acompanhado pelas igrejas protestantes históricas (as quais se opõem aos neopentecostais, que crescem mais rapidamente).

Max Weber tem elevado conceito por seu trabalho nesta área. Basta pesquisar o nome dele na Internet e perceber como suas idéias são disseminadas, inclusive nas mais conceituadas universidades, onde seus livros são adotados como base para o estudo das ciências sociais.

A maior dificuldade no trato deste assunto surge quando tentamos distinguir o que é simples constatação histórica e do que é uma pretensão de proselitismo. Qual seria a diferença entre uma análise histórica isenta e uma propaganda?

Para mim fica claro que, mesmo no Brasil, os protestantes levam uma existência mais voltada ao trabalho, à frugalidade e parcimônia, gerando normalmente uma qualidade de vida melhor para sua família, comparado com uma outra, católica, percebendo o mesmo rendimento e com o mesmo número de membros.

Isto ocorre mesmo (e comumente) com crentes analfabetos oriundos do próprio catolicismo, apesar de contribuir agora materialmente com valores (dízimos e oferta) muito além do que entregava para sua antiga religião. Portanto, mesmo nos trópicos, a ética protestante tem proporcionado resultados palpáveis, em termos materiais superiores à ética católica.

Somente o fato de tornar-se mais disciplinado, parar de beber, de fumar, de freqüentar ambientes e grupos hedonistas, adotando uma filosofia de vida mais estóica e espartana, concentração no convívio familiar (uma só!), aquisição de uma identidade social, dedicação à leitura freqüente (enquanto a maioria permanece analfabeta funcional), interpretação e exposição de textos (durante a pregação leiga), redução do número de filhos (a camisinha é proibida pelo Papa, p. ex.), a permanência dos filhos na escola por mais tempo, etc., já permite um avanço tangível em termos sociais e econômicos. (Vide resumo da Veja 02/07/97 em
<http://try.at/HeitorReis>
- Ética Religiosa...")

Para os pobres em geral a religião é tudo; para a classe média e para os ricos é apenas mais um dos aspectos da cultura. Talvez por causa disto Jesus afirmasse a existência de uma dificuldade enorme para o rico entrar no reino dos céus.

(Matéria Editada em 21/08/02)

 

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