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Heitor Reis
é articulista, engenheiro civil, palestrante,
membro do Conselho Consultor
da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É
membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa
[ www.fenai.org.br ] e
da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [
www.imprensa.org.br
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A culpa é dos EUA
Os EUA são os grandes
culpados por nossa desgraça, conforme muitos acreditam. Assim, é
razoável compararmos os aspectos predominantes da
formação do caráter nacional de ambos os países e que os
trouxeram até este momento histórico. Talvez, com base na
percepção de nosso passado, possamos nos sentir mais motivados a
atuar de forma diferente, ampliando nossos acertos, consertando
nossos erros, inclusive aprendendo com ambos os alheios, visando a
construção de um futuro melhor. A religião, como sendo (ou
tendo sido) determinante para regular o procedimento da quase
totalidade das pessoas, merece um destaque especial.
Eles foram formados inicialmente por
anglo-saxões, enquanto nós, coitados, por ibéricos.
Seus colonizadores pretendiam estabelecer-se
ali e construir uma nação livre, enquanto os nossos,
infelizmente, vieram aqui apenas para explorar riquezas e voltar
para Portugal, após fazerem fortuna. Desta forma, enquanto no
Norte buscava-se o planejamento de valores permanentes, aqui
vigorava o mais absoluto imediatismo, egoísmo e mesquinhez. A
"Lei de Gerson", o jeitinho brasileiro, a gambiarra, a
improvisação, etc.
Reforçou ainda mais a necessidade de
planejamento à longo prazo no Norte, o próprio clima, que exigia
reservas materiais para o aquecimento durante o inverno, enquanto
nas imediações do Equador, o calor tropical propicia a
indolência e a despreocupação.
A religião deles era protestante, criada
justamente por questionar os valores dogmáticos e estreitos da
nossa, a ICAR - Igreja Católica, Apostólica e Romana. Clima e
religião propiciaram, ora, frugalidade e parcimônia; ora, um
comportamento perdulário e esbanjador.
(1)
O padrão de moralidade religiosa deles era
tão elevado, que receberam a denominação de
"puritanos", motivo pelo qual foram perseguidos pela
igreja tradicional na Inglaterra, levando-os, assim, a fugir para
a América.
Nós, já tivemos a má sorte de sermos
colonizados pelos depravados, conforme nos relembrou
explicitamente a novela "Quintos dos Infernos", a qual
interpretou nossos ancestrais de forma brilhantemente pitoresca.
Faltou apenas a cena de D. João VI levando para Portugal os
valores depositados no Banco do Brasil, por ele fundado, enquanto
ficávamos, literalmente "a ver navios". Afinal, a Rede
Globo estava dependente de empréstimos governamentais para
financiar sua incompetência administrativa na GloboCabo, e este
símbolo maior do caráter de nossos antepassados poderia
atrapalhar os negócios em andamento na época.
A religião deles ousava um relacionamento
direto e concentrado com o Criador, mediante obediência ao
Evangelho e a fé de que eram seus filhos. A nossa, colocava
Jeová (Deus, Javé, Iavé, etc.) tão distante, que nos tornou
compulsória a intermediação de dezenas de "Nossas
Senhoras", centenas de "santos", milhões de almas
do purgatório e miríades de anjos, os quais exigiam alguma
barganha para serem convencidos à interceder por nós junto ao
dono das bênçãos, de cuja filiação jamais estivemos convictos
o suficiente para um contato direto com ele, sem atravessadores
burocráticos.
Enquanto uma religião exigia a
alfabetização de todos, visando a salvação através da leitura
das Sagradas Escrituras, a outra, monopolizava o ensino e
disponibilizava-o apenas para a casta social mais elevada. O
acesso à elas era um privilégio dos sacerdotes, sendo proibidas
ao povo, o qual, neles devia confiar cegamente, mesmo a própria
Bíblia afirmando que "maldito é o homem que confia no
homem" (Jeremias 17:5).
A livre interpretação das escrituras pelos
fiéis e a livre iniciativa para abertura de outras igrejas
conflitava também com o dogmatismo, com punição para os
hereges, com a infalibilidade papal e com o monopólio da
salvação latinos. A liberdade religiosa foi fundamental inspirar
as atividades comerciais e industriais que ali floresceram
abundantemente.
A participação do fiel, por um lado, era
mais descentralizada, com delegação de poder ao religioso,
gerando mais autonomia e libertação, enquanto nos trópicos,
concentrava-se no clero a autoridade ostensivamente dominante,
gerando passividade e acomodação das massas.
Enquanto, nos "States" buscava-se
efetivamente uma separação Igreja-Estado, no Brasil,
institucionalizou-se a igreja oficial do Estado, aliada da
monarquia, nobres e burguesia. Mais recentemente o General
Figueiredo decretou que "Nossa Senhora Aparecida" é a
Padroeira do Brasil (2) , retribuindo o fundamental apoio dos
Padres, que manipularam as massas, levando-as às ruas clamar pelo
golpe de Estado contra um Presidente da República legitimamente
eleito. Afinal, sem as bênçãos desta "santa", não
seria permitido o sucesso da Ditadura Militar, aterrorizando por
décadas aqueles que não se submetessem ao dogmático catecismo
da caserna. Permanecem até hoje em nossas instituições, as
mazelas do entulho autoritário, tanto quanto de uma igreja
extra-oficial do Estado, abortando o nascimento de uma democracia
de fato.
Curiosamente, o arbítrio foi também
estimulado ou determinado pelos bem sucedidos irmãos do Norte,
onde nossos militares eram treinados, domesticados e convertidos
ao capitalismo mercenário e selvagem, cuja regra de fé reza que
a propriedade dos ricos é mais importante que a vida dos pobres
nas neocolônias, já numa fase incompatível com os princípios
que fundaram aquela nação, tendo agora por deus o próprio
mercado. Neste momento, os interesses de ambas os religiosos
uniram-se contra uma suposta ditadura do proletariado ateu e
marxista, que seria implantada no maior país católico do
planeta.
Mais tarde, tendo em vista os excessos dos
generais contra os direitos humanos, tanto os EUA, quanto a ICAR e
OAB - Ordem dos Advogados do Brasil, que foram os sustentáculos
iniciais do autoritarismo, arrependeram-se e converteram-se aos
opositores das FA, abandonando-as sozinhas com a má fama,
seqüestras, terrorismo, torturas e assassinatos cometidos contra
aqueles que ousaram discordar do despotismo implantado em 1964.
Voltando novamente ao passado, houve lá
menor miscigenação racial, enquanto no Brasil foi elevada,
gerando uma grande leva de bastardos que não eram, nem europeus,
nem índios e nem africanos, portanto sem identidade cultural
definida, muitos dos quais foram abandonados pelo pai, que voltou
para a metrópole, sofrendo assim a "síndrome da
ilegitimidade".
Também foi diferente o processo de
independência, exigindo maior participação popular em um e,
menor, no outro. Enquanto nos EUA, foram diretamente para a
república, aqui, permanecemos na monarquia, até que os
militares, aliados à nossa burguesia, a depuseram.
Assim, os estadunidenses tornaram-se a maior
economia, detendo hegemonia no planeta; um império, com elevado
padrão de desenvolvimento humano para a maioria dos 240 milhões
de habitantes da metrópole, dentre os quais 600 mil brasileiros
que fugiram da miséria nacional, arriscando a própria vida,
algumas perdidas nesta empreitada. Formam um exército de
desertores, que, mesmo amando seu país, abandonaram-no para
tornar-se "cucarachas", latinas baratas sociais que
catam as migalhas que sobram do banquete capitalista.
Internamente, outros 600 mil católicos
anualmente fogem para as igrejas evangélicas, onde encontram
maior possibilidade de ascensão social, mesmo neste país
tropical, conforme registrou a revista Veja de 02/07/97,
fundamentando-se em teses acadêmicas. Como os evangélicos estão
conquistando o reino da Terra sem sair do Brasil.
Quanto à nós, apesar de tudo, nos tornamos
a 10a. ou 15a. economia mundial (depende da cotação do dólar,
hoje tão instável...), o que conflita violentamente com o fato
de sermos a 3a. em concentração de riqueza no topo da pirâmide
social, com 50 milhões de miseráveis, mais 70 de pobres e quase
pobres, de um total de 170 milhões de habitantes (Banco Mundial
no JB de 18/06/2000), graças à histórica voracidade de nossas
elites sociais e religiosas. Vivemos, assim, paradoxalmente, com o
pires na mão, buscando, desta feita, como nação, angariar
bilionárias migalhas que sobram do império, reprisando
indefinidamente nosso condicionamento coletivo de sobrevivermos
apenas mais um dia, mais um mês ou, pelo menos, mais um ano.
Tal formação do caráter nacional, tão
divergentes entre si, somente poderia gerar, alguns séculos
após, duas Américas, dois povos e duas culturas opostas, cujos
indivíduos teriam uma reação diante dos problemas igualmente
diversas: enquanto um protesta radical e objetivamente, o outro,
reclama emocional e evasivamente, dando-se assim por satisfeito
com isto, acomoda-se, e aguarda ingenuamente que um milagre possa
salvá-los de sua própria desgraça nacional. Afinal, uma
Padroeira é entronizada neste cargo justamente para estas
ocasiões. Não é mesmo?
Mas, enquanto o milagre brasileiro não
ocorre de fato (mesmo já tendo sido cantado em prosa e verso
pelos ditadores) e não demitimos a padroeira por negligência
administrativa, nossas esperanças concentram-se em faturarmos a
Copa do Mundo pela sexta vez, enquanto eles, pobres coitados,
tentam a primeira...
Referência:
(1) Max Weber, "O Protestantismo e o
Espírito do Capitalismo"; "Bandeirantes e
Pioneiros", Viana Moog; "O Malandro e o
Protestante", Jessé de Souza;
(2) Lei Federal 6802, de 30 de junho de
1980, declara feriado nacional o dia 12 de outubro, consagrado a
Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil.
Para mais detalhes: <http://try.at/HeitorReis>
- "A Ética Protestante e a formação da auto-estima"
(Matéria Editada em
18/08/02)


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