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Heitor Reis
é articulista, engenheiro civil, palestrante,
membro do Conselho Consultor
da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É
membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa
[ www.fenai.org.br ] e
da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [
www.imprensa.org.br
] |
"Do patético ao
tragicômico"
"O responsável pela
situação atual
não é o pobre, nem o americano,
nem o militar: somos nós, a elite brasileira."
(Eugênio Staub, presidente da Gradiente)
A Folha de São Paulo, em seu caderno "Mais!", de
11/08/2002, informa que José Murilo de Carvalho é professor de
História da UFRJ, participou de uma mesa-redonda organizada pelo
Instituto Moreira Salles e a editora Bei, em 18/06/2002, onde
esteve presente o Ministro Pedro Malan, entre outros. Seus
comentários, apresentados na ocasião, geraram um texto (com o
mesmo título deste), o qual foi publicado naquela edição, onde
alguns autores, inclusive ele, analisavam a América Latina,
"O Continente Irrelevante".
Logo no início, ele utiliza a seguinte definição de política
democrática: "vigência de um sistema de governo baseado em
ampla representação e exercido em ambiente de liberdade".
Mais à frente, afirma: "Hoje, pelos padrões geralmente
aceitos, (o Brasil) possui uma política democrática."
Eu gostaria de discutir aqui o fato de que ele se utiliza do
"padrão geralmente aceito" e não do padrão correto de
democracia.
Observe que na definição por ele utilizada há uma negligência,
até mesmo quanto à etimologia do termo (demo = povo; cracia =
governo).
Até onde eu sei, e o dicionário confirma, democracia é: (1)
Governo do povo; soberania popular; democratismo. (2) Doutrina ou
regime político baseado nos princípios da soberania popular e da
distribuição eqüitativa de poder, ou seja, regime de governo
que se caracteriza, em essência, pela liberdade do ato eleitoral
pela divisão dos poderes e pelo controle da autoridade.
Será que "o padrão geralmente aceito" exclui o
dicionário?
E, em termos de "liberdade do ato eleitoral",
acrescento: livre, inclusive da influência do poder econômico.
Numa democracia de verdade, não poderia haver financiamento de
campanhas eleitorais apenas pelos ricos. Hoje, o exercício deste
direito é impossível aos pobres, transformando a maioria dos
representantes do povo em representantes da elite, que sempre
privatizou o Estado. Isto faz com que nem todos sejam iguais
perante à lei.
A democracia contrasta flagrantemente com a plutocracia, que
também o mesmo dicionário define como sendo a dominação da
classe capitalista, detentora dos meios de produção,
circulação e distribuição de riquezas, sobre a massa
proletária, mediante um sistema político e jurídico, que
assegura àquela classe, o controle social e econômico (Aurélio
Buarque de Holanda). (1)
Cumpre ao leitor decidir-se quanto a classe que governa este
país:
(a) O povo, como afirma o professor? Democracia.
(b) Os ricos? Plutocracia.
(c) Os corruptos e ladrões? Cleptocracia.
(d) Os ricos e corruptos? Cleptoplutocracia.
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Existem algumas questões sobre as quais devemos nos debruçar,
para dar ao tema uma amplitude negada pelo renomado professor:
A democracia social, mencionada em seu texto na Folha, como uma
possibilidade após a democracia política, ocorreria mais
naturalmente quando o governo fosse exercido por qual das classes
mencionadas acima?
A concentração da riqueza no topo da pirâmide social em nosso
país, uma das três maiores do planeta, não seria mera
conseqüência do fato de que o povo jamais governou este país?
Ou seja, de jamais termos tido uma democracia?
Ou será que o povo governaria com o objetivo de tornar-se ainda
mais pobre, conduzindo a riqueza nacional caridosamente para
Cayman, Suiça e outros paraísos fiscais, freqüentados pela
elite econômica, como tão bem afirmou o Secretário do Tesouro
estadunidense, Peter O'Neill?
Existe democracia social sem democracia política? Existe
democracia política sem democracia social?
Quando os ricos detém o controle social e econômico, eles o
fazem com o objetivo de privilegiar as classes inferiores ou para
aumentar ainda mais o seu próprio poder?
Haveria interesse de nossas oligarquias em que fosse divulgado aos
quatro ventos, pela mídia e universidades por ela manipuladas,
que não há democracia no país?
Quando um veículo, com a capacidade que a FSP tem na formação
de opinião de nosso povo (ou melhor, da elite e classe média,
já que pobre não lê a Folha), divulga idéias desta natureza,
cujos conceitos afrontam a mais básica interpretação da
verdade, podemos constatar que, além da ditadura do poder
econômico, sob a qual historicamente padecemos, também permanece
uma sutil, porém dogmática, ditadura intelectual, herdada da
ICAR - Igreja Católica, Apostólica e Romana. Censura implícita.
E, assim, cada vez mais distante ficamos de uma democracia de
verdade, já que os donos do poder midiático e seus lacaios
intelectuais são instrumentos do poder econômico (cleptocracia)
para manter iludida a parte bem intencionada da classe média e da
elite sobre o que seja a verdade. (Relembro que pobre não lê a
Folha.) Ou melhor, servem aos interesses dominantes, dizendo
apenas o que seja politicamente correto, de tal forma a manter as
coisas como estão. São idólatras dos "padrões geralmente
aceitos". O mesmo ocorre com o rádio e a TV, estes sim,
instrumentos de lavagem cerebral da massa, para eternizá-la
ignara.
Conservadorismo explícito.
Aparentemente progressista, as idéias veiculadas naquele texto,
não conseguem sequer apresentar um conceito de democracia
compatível com o mais popular dicionário que possuímos. É este
o padrão de ensino "geralmente aceito" em nossas
universidades. Nelas, ainda ensina-se que a Grécia é o berço da
democracia, apesar de que, apenas dez por cento da população
usufruía deste privilégio, quando o restante era composto por
escravos. (2)
A maravilhosa filosofia grega que cultuamos é fruto do ócio
criativo, existente apenas para aqueles que possuíam (ou possuam
hoje) número suficiente de escravos concretos para permitir-lhes
tamanhos saltos abstratos.
Nossas universidades, nossa mídia e a classe dominante estão
aliadas no sentido de impedir a consciência crítica da manada de
milhares de debilóides que formam a cada ano. Professores de
história, jornalistas, sociólogos e outros profissionais são
meros clones de um "padrão geralmente aceito" de
capacidade intelectual, mantido pelas graças daqueles que,
historicamente, se sustentam no poder. Cumpre a cada um
submeter-se ou não à ele. A maioria normalmente escolhe algo
entre o patético e o tragicômico. Mas altamente bem
remunerado...
Referências:
(1) <http://br.geocities.com/ditaduracivil>
- "Plutocracia x Democracia", de Osny Duarte Pereira,
jurista, membro do Conselho da República e professor do Instituto
Superior de Estudos Brasileiros - ISEB , quando em vida
(2) <http://try.at/HeitorReis>
- "Grécia, o berço da plutocracia"
(Matéria Editada em
14/08/02)


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