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Heitor Reis
é articulista, engenheiro civil, palestrante,
membro do Conselho Consultor
da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É
membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa
[ www.fenai.org.br ] e
da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [
www.imprensa.org.br
] |
O Sim, o Não, o "Nihil"
e O'Neill
"A grandeza de um país
não depende da expressão de seu território,
mas do caráter de seu povo."
(Colber, citado em "O Caráter", de Samuel Smiles)
A grandeza de um país não depende, também, do tamanho das ancas
de suas fêmeas, do rebolado sensual de seus corpos, dos carnavais
e micaretas, nem das competições esportivas que vencer com
maestria.
A maior atestado de frustração de uma nação, de seus
governantes, de seu povo ou de uma pessoa qualquer, é não
produzir o suficiente para seu próprio sustento e depender de
agiotas para sobreviver mais um dia. Ou, ao não conter sua
voracidade e gastar mais do que ganha, acabar caindo no mesmo
buraco. E ainda, não conter também o tamanho de sua população
dentro das condições materiais existentes para uma vida digna de
todos, gerando mais seres do que é capaz de transformar em
cidadãos de verdade.
Nossa preciosa soberania é trocada, assim, de bandeja, por um
punhado de milhões de dólares, quando nos ajoelhamos aos pés do
FMI e suplicamos sua bênção, certos de que ele irá nos dizer o
"sim", nesta negociação trágica entre o pescoço e a
guilhotina.
"Sabemos agora que um governo do capital organizado é tão
perigoso como o governo do crime organizado" (Roosevelt,
1936)
Precisamos resgatar nossa auto-estima, não apenas com o futebol,
mas simplesmente atendendo ao clamor de nosso caráter e não
aceitarmos mais a sujeição por parte de uma administração que
nos trouxe à beira do abismo. Quando FHC tomou posse, pela
segunda vez, ele foi peremptório e dogmático: "Não vou
ficar apenas administrando crises!" Mas acabou sendo
administrado por elas...
É chegada a hora de dizermos "não" ao sistema
financeiro mundial, aos caprichos de capachos nacionais que o
servem e àqueles que não acreditam sermos capazes de gerar
riqueza internamente para financiar nosso próprio
desenvolvimento.
Mas o Brasil é um esboço de nação, análogo à um pai de
família que gasta o salário com futilidades, sustentando amantes
em Cayman, Suiça, etc., enquanto mata os próprios filhos de fome
para pagar suas dívidas. Ingenuamente, as crianças divertem-se
com suas brincadeiras infantis, ignorantes da realidade trágica
que as cerca.
Tancredo Neves defendeu que a dívida não deveria ser paga com o
sangue dos brasileiros. Talvez por isto tenha sido premiado com
uma infecção hospitalar, num hospital das Forças Armadas
brasileiras, que estavam sendo depostas naquele momento. Morto, o
caminho estava livre para a ditadura do poder econômico.
Melhor seria vivermos como Cuba, num auto-embargo comercial,
livres das delícias capitalistas, mas mantendo um mínimo de
dignidade nacional, pessoal e uns para com os outros. O que não
nos falta é terra para dela tirarmos nosso sustento, como fizeram
nossos antepassados décadas atrás. Afinal, somos um país
continental, comparado com uma ilha diminuta!...
É um absurdo importarmos leite, alho, cebola, algodão, arroz,
milho, trigo, coco, uva, soja, cacau e chocolate, bolacha, batata
frita, ração para animais, tomate, etc., quando temos a maior
área agricultável do planeta. Também é lamentável que nossas
exportações tenham mantido praticamente o mesmo patamar de 1994
em 2000, último dado disponíbilizado pelo Ministério da
Agricultura, em www.agricultura.gov.br
<http://www.agricultura.gov.br>.
Afinal, mesmo dentro dos EUA, há um povo chamado de "amish",
que vive maravilhosamente bem, mesmo recusando-se adotar qualquer
progresso que a tecnologia tenha gerado após 1700, como botões
artificiais para suas roupas. São agricultores e realizam
atividades artesanais simples, alimentando-se de produtos
naturais, cultivando a vida saudável no seio da família e em
torno da comunidade rural, longe da decadência cultural e ética
do império e de suas colônias.
Existem valores maiores que os bens materiais, bugigangas,
quinquilharias e penduricalhos oferecidos pela sociedade de
consumo. Toda esta tecnologia não vale perdermos um minuto de
nossa paz.
"Conforme previsão da Organização Mundial de Saúde, uma
em quatro pessoas (25%) passa por transtornos mentais no mundo, e
nos Estados Unidos este índice chega a 48%. (...) Os mais comuns
destes distúrbios, como a depressão e o transtorno da ansiedade,
segundo a psiquiatra, vêm aumentando entre a população
brasileira. Este último, devido a fatores como a crise
econômica, a violência urbana e o aumento do desemprego."
(A Tarde, 03/08/2002)
Se o país que nos impõe o seu estilo de vida, possui a metade da
população com problemas emocionais, mesmo desfrutando de pleno
emprego e um dos maiores índices de desenvolvimento humano do
planeta, por que continuamos caminhando nesta mesma direção?
Paradoxalmente, estamos valorizando o niilismo (nihil = nada, no
latim) mais fanático atualmente. Além de empregos, carecemos
também de padrões de referência para um comportamento social
construtivo. É a gangrena do tecido social. A AIDS cultural. O
câncer comunitário.
Estamos tão alienados de nós mesmos que não nos sentimos à
vontade para retribuir calorosa e publicamente ao ilustre cidadão
do império, que nos fez o favor de apontar-nos nossas mazelas.
O Secretário do Tesouro Nacional dos EUA, Paul O'Neill foi claro
e preciso, ao afirmar suas suspeitas de que temos por prática
desviar para a Suiça, verbas obtidas para financiamento de nossas
necessidades. Por que não fomos para as ruas declarar que ele
está totalmente certo, ao fazer tais declarações e pressionar
nossos políticos para que adotem um padrão ético mais elevado?
Talvez porque queiramos ainda continuar vivendo como nossas elites
desejam que façamos, celebrando suntuosamente o carnaval, o
pentacampeonato e outros eventos similares, enquanto boa parte de
nossa população é vítima da corrupção patrocinada por elas.
A condição única para sermos uma Nação de verdade é termos
algo concreto que nos una, uma classe social defendendo o
interesse das outras, especialmente das mais necessitadas.
Enquanto isto não ocorrer, existirão vários Brasís,
destituídos de um sentimento real
de pátria que os una.
E, nada nos impedirá de, muito em breve, instigados pela rápida
argentinização, colombinizaçãoe etc. de nosso país,
transformemos os problemas existentes em uma luta de classes com
dimensões destrutivas muito mais elevadas. A cada dia que passa,
aumenta a desesperança, a frustração e a alienação de nosso
povo.
Necessitamos de um espírito de corpo tal, que seja suficiente
para restaurar, primeiro, nossa dignidade interior e, depois,
nossa saúde social. Somente assim lançar-nos-emos fora desta UTI
econômica em que nos encontramos. Mas, infelizmente, o que nos
separa está se tornando cada vez maior do que o que nos une!
O que nos mata, até o momento, ainda supera nossa vontade de
viver. Viver de verdade, em seu sentido mais amplo, com dignidade.
Contudo, a medicina política, social, econômica, financeira e
psicológica pode nos trazer surpresas, tanto auspiciosas, quanto
ainda mais dramáticas do que as que nossa pessimista miopia
permite vislumbrar.
UTI é o lugar onde a cura depende, fundamentalmente, da gana que
o paciente tem de querer superar-se a si mesmo e extrair energias
escondidas no mais íntimo de seu ser. De sua fé em si mesmo ou
em um ser superior...
Somente o futuro nos dirá se estamos prontos para superarmos
coletivamente mais esta crise, ou se apenas vamos pagar mais uma
conta individualmente...
(Matéria Editada em
04/08/02)


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