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Heitor Reis
é articulista, engenheiro civil, palestrante,
membro do Conselho Consultor
da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É
membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa
[ www.fenai.org.br ] e
da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [
www.imprensa.org.br
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Marx e o Messias
Jesus era comunista!
Quantas vezes não ouvi alguém dizer isto? Durante muito tempo
esta afirmação ribombava em minha mente destituída de qualquer
análise crítica do mundo das idéias.
Décadas depois, fui percebendo um pouco melhor as coisas e
atrevo-me a tentar racionalizar até que ponto cheguei,
contemplando a questão da redistribuição de riqueza, mesmo
porque a obra de ambos vai muito além deste aspecto.
"Horrorizai-vos porque queremos abolir a propriedade privada.
Mas em vossa sociedade a propriedade privada está abolida para
nove décimos de seus membros. E é precisamente porque não
existe para estes nove décimos que ela existe para vós.
Acusai-nos, portanto, de querer abolir uma forma de propriedade
que só pode existir com a condição de privar de toda
propriedade a imensa maioria da sociedade. Em resumo, acusai-nos
de querer abolir vossa propriedade. De fato, é isso que
queremos."
(Manifesto do Partido Comunista - Karl Marx e Friedrich Engels)
Jesus também tratava os ricos de forma extremamente rígida,
quando não desprezível, e apontava-lhes insistentemente a porta
do inferno, no qual Marx não acreditava. Mas, ambos defendiam a
mesma tese: a riqueza deve ser dividida com os pobres. São
inúmeras citações do comunista original à este respeito, das
quais seguem um resumo:
"E, outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo
pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no reino de
Deus." (Mateus 19:24)
"Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico
para com Deus." (Lucas 2:21)
"Mas ai de vós, ricos! porque já tendes a vossa
consolação." (Lucas 6:24)
"Vendei o que tendes, e dai esmolas. Fazei para vós bolsas
que não se envelheçam; tesouro nos céus que nunca acabe, aonde
não chega ladrão e a traça não rói." (Lucas 12:33)
E, por incrível que pareça, a igreja verdadeira praticava esta
loucura, que nos afronta, por ser tão oposta à mesquinhez
ditatorial e democraticamente dominante em nossa cultura religiosa
e laica. Mas nem todos consideram o Novo Testamento como digno de
ter este
relato como histórico... Seja como for, aqueles que se dizem
cristãos tem a obrigação de levar à sério as suas Sagradas
Escrituras.
"E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum.
E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo
cada um havia de mister." (Atos 2:44, 45)
"E era um o coração e a alma da multidão dos que criam, e
ninguém dizia que coisa alguma do que possuía era sua própria,
mas todas as coisas lhes eram comuns. Não havia, pois, entre eles
necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou
casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o
depositavam aos pés dos apóstolos." (Atos 4:32, 34)
É curioso como o maior país católico do mundo está afastado
deste princípio. Idem para o maior país protestante. Os judeus,
como senhores do maior "lobby" estadunidense, estão
livres desta limitação. Mas a epidemia da incoerência e do
engano grassa por todo o planeta. A fé dos religiosos é tão
fraca que ela jamais alcança resultados nacionais nesta área. Ou
é mais forte ainda, a má-fé?!...
Devemos observar que os apóstolos daquela época não utilizavam
este dinheiro para a construção de obras suntuosas para reunião
do povo, nem para serem a casa de Deus, já que eles próprios se
consideravam como templo do Criador. Estevão foi assassinado logo
após afirmar: "O Altíssimo não habita em templos feitos
por mãos humanas." (Atos 7:48)
Também não pretendiam criar uma instituição formal, onde a
casta sacerdotal reinasse em tronos de ouro. Afinal, outros dois
fundamentos do verdadeiro cristianismo, solene e convenientemente
esquecidos, é de que todos são sacerdotes (I Pedro 2:5) e de que
o reino de Jesus não era deste mundo (João 18:36).
Merece uma profunda análise fria e racional, antes de entregar um
centavo sequer ao religioso contemporâneo, tendo em vista a
distância que as igrejas se encontram dos princípios
estabelecidos por seu fundador. Elas próprias tornaram-se meras
empresas de arrecadação materialista, para fins nababescos e
praticam a mínima caridade possível, como vitrine suficiente
para manter os negócios funcionando adequadamente. Se quiser
ajudar alguém, faça-o diretamente, sem atravessadores! Afinal,
além de dinheiro, as pessoas necessitam receber o seu calor
humano.
Da mesma forma, confiar nos líderes socialistas (e também
capitalistas) da atualidade é correr um risco proporcional ao de
quem deposita sua fé nos religiosos. Quando dinheiro e poder
estão em jogo, o melhor mesmo é fiscalizar quem os detém e
reduzir-lhes ao mínimo, o valor à ser administrado. É a única
forma de reduzir os riscos de frustração para qualquer
empreendimento coletivo ou nacional. A única garantia para o
surgimento de uma democracia: a eterna vigilância!
Assim, a mesma afirmação que Karl Marx dispensa para as
religiões, pode ser aplicada também à própria religião que
ele fundou, conforme a definição croceana (Benedetto Croce) do
termo: concepção atuante do mundo, com uma moral que lhe é
adequada. (Concepção Dialética da História, Antonio Gramsci)
"A religião é o suspiro do oprimido, a alma do mundo
desalmado, bem como o espírito das condições sem espírito. É
o ópio do povo. Abolir a religião, a felicidade ilusória do
povo, é reivindicar a sua felicidade verdadeira."
(Karl Marx, "Para uma crítica da filosofia do direito de
Hegel")
O problema supremo do ser humano é que a teoria, na prática, é
outra. Em qualquer religião, ideologia, filosofia ou futebologia.
(Matéria Editada em
04/08/02)


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