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Heitor Reis - Articulista da Agência Brasileira de Notícias / Brazilian News Agency (ABN)  

Heitor Reis é articulista, engenheiro civil, palestrante, membro do Conselho Consultor da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa [ www.fenai.org.br ] e da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [ www.imprensa.org.br ]

 

Radicalismo seletivo

Hierarquia, prioridade e seletividade. Nossa vida resume-se nisto! Decidir o que é mais importante.

Desde o primeiro momento, dentre milhares, somente um espermatozóide foi digno de dar continuidade ao processo de reprodução.

A cada instante, estamos escolhendo entre muitas possibilidades que nos são oferecidas, fato comum à todo ser vivo.

A criança separa radicalmente quem é que a amamenta das demais mulheres. E, assim, vamos, pela vida a fora, escolhendo amigos, profissões, esportes, namoradas, prazeres, etc.

Como não nascemos sabendo tudo. Fazemos eventualmente opção por uma alternativa que nos demonstrará termos usado de uma visão limitada da situação, trazendo-nos assim, conseqüências inesperadas, algumas até fatais, tanto em termos individuais, quanto
coletivos.

Colhemos inimigos, desemprego, sedentarismo, divórcios, dores, etc.

Uma decisão madura seria aquela que contemplasse humilde e friamente todas as possibilidades existentes e ainda incluísse entre elas uma para as tais surpresas que a vida nos oferece, diante de nossa distância da perfeição do Deus que nos criou, conforme a fé
religiosa. Ou, considerando a hipótese defendida por ateus, céticos e agnósticos, o Criador teria sido criado assim, para termos algo mais elevado a buscar que nossa própria incompletitude. Seja como for, os conceitos aqui em jogo são planejamento, programação,
projeção, previdência, etc., mesmo para além da morte. Ou da vida...

Os reducionistas e maniqueístas tendem a simplificar demais o processo, num nível tal, que tranca algumas portas pelas quais precisaremos passar no futuro. No outro extremo, estão os perfeccionistas e burocratas, que já querem incluir na decisão os mínimos detalhes do assunto em análise. Infelizmente, o equilíbrio é uma das mais raras qualidades entre nós...

No entanto, há aspectos nos quais devemos abandonar o equilíbrio e sermos radicais. Radicais seletivamente. Existem valores os quais devemos estar dispostos a defender até o último fôlego. Parece-me que eles são comuns à toda humanidade, mas, carecem de energia, de vontade política para evidenciá-los o suficiente para fazerem parte dominante de nossa cultura.

Devemos ser fundamentalistas no fundamental e liberais no supérfluo. O problema é que, normalmente, trocamos as bolas e nos tornamos inflexíveis no fútil e condescendentes no substancial. Esta inversão de prioridades tem destruído o espírito da maioria das organizações humanas, seja ela um estado, um partido político, uma igreja ou um time de futebol, as quais, mesmo existindo formalmente, já estão longe dos princípios pelos quais foram criadas.

Duvido que alguém tenha objeção à fazer quanto ao respeito humano, justiça, verdade, fraternidade, igualdade, liberdade, democracia, etc.

Mas por que somos radicais em tantas outras coisas e não nestas, que são as mais elementares e praticamente um consenso universal? Por que não gastamos, na prática, energia proporcional ao valor que, teoricamente, damos a estes ideais?

Por que os pais não ensinam isto aos seus filhos como algo precioso? Por que permitem à TV adotá-los e fazer a cabeça deles livremente?

Por que as escolas não retratam, dentro de cada disciplina, aspectos que reforcem estes conceitos?

Por que nossos veículos de comunicação não dedicam mais espaço e tempo ao essencial, ao básico e ao cerne de todas as nossas questões?

Creio que perdemos a vontade, o idealismo, a capacidade de indignar-nos contra tudo que afronta esta base ética que é, em última instância, nossa única tábua de salvação.

Vivemos no mais absoluto relativismo. Sem valores, sem ética, sem moral, sem caráter, sem limites e sem vergonha na cara. Vale tudo! É a democratização e a socialização das piores qualidades, antes um privilégio exclusivo da elite dominante.

Ser politicamente correto é observar e comentar com uma hipócrita e natural superioridade as piores afrontas à tudo aquilo que é o sustentáculo de uma civilização plena. É a decadência!

Se não assumirmos o controle de nossos valores e continuarmos permitindo nossas crianças serem evangelizadas (e até nós mesmos) pela mídia mercenária, predominantemente amoral, imoral e aética, podemos esperar pelo pior.

Pastel, segundo o Aurélio, é um termo usado na linguagem familiar, significando pessoa indolente. O dicionário registra também que ele é usado para cores suaves e com pouco destaque visual, o que também lembra a cor da iguaria popular. É uma pessoa devagar, quase parando, lerda, que tem pouca reação diante dos fatos. É o homem gentil, diria Sérgio Buarque de Holanda, renomado sociólogo, celebrado discretamente em nossos dias, aqui citado por Jessé de Souza:

"Apenas o 'homem cordial' é concebido como negatividade pura, entidade amorfa, dominada pelo conteúdo emotivo imediato e pela necessidade desmedida de reconhecimento alheio. (...) O racionalismo típico desta última forma de comportamento foi chamado por Weber, conseqüentemente, de 'acomodação ao mundo' (...) No Brasil, a figura correspondente,
em termos de realidade histórica, é o 'mazombo'. O mazombo é o filho do português nascido no Brasil, cujas características são muito semelhantes ao perfil do homem cordial traçado por Sérgio Buarque: (1) individualismo personalista, (2) busca de prazeres imediatos, (3) descaso por ideais comunitários e de longo prazo. (...) Reencontramos aqui desde as incapacidades do homem cordial de Sérgio Buarque até a ausência de associativismo
e iniciativa do Brasil tradicional de Schwartzman."

É isto que nos tornamos. Meros pasteis! Pasteurizados por um sistema de valores virtualmente onisciente, onipotente e onipresente, capaz de nos fazer lavagem cerebral e formar nossa opinião, determinando padrões que nos consomem como pessoas e como sociedade.

A maioria de nós não percebe que é conduzida a ser devota e fanática pelo deus Mercado, antigamente chamado de Mamon ("My Money"? Mateus 6:24) e de Plutão, ao qual a mitologia grega atribui a função de deus da riqueza, esplendorosamente conjugada com a de deus do inferno. Deve ser por isto que Jesus afirmava que o reino dos céus pertence aos pobres (Lucas 6:20), os quais não controlam a economia e finanças mundiais e locais.

Tornamo-nos demasiadamente imediatistas e não percebemos as nuvens negras que se aproximam no horizonte.

Pasteis do mundo! Uni-vos.

Se não, estamos fritos...

(Matéria Editada em 30/07/02)

 

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