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Heitor Reis - Articulista da Agência Brasileira de Notícias / Brazilian News Agency (ABN)  

Heitor Reis é articulista, engenheiro civil, palestrante, membro do Conselho Consultor da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa [ www.fenai.org.br ] e da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [ www.imprensa.org.br ]

 

O privilégio das elites

Fui surpreendido esta semana, quando o administrador de uma comunidade virtual alegou que devíamos manter os textos de uma renomada figura do terceiro escalão do governo entre nós, acreditando que outros não mereciam ou não estavam preparados para recebê-los.

Talvez a intenção dele (inconsciente, parece) tenha sido trazer para aquele ambiente (que já conta com alguns milhares de inscritos), quem porventura quisesse beber de água tão preciosa, mas isto não ficou explicito em nosso debate.

Eu já estou cansado das panelinhas, da mesquinhez e do egoísmo. Acredito que nosso mundo chegou até este estado deplorável para humanidade, em função de atitudes seletivas como estas, de castas e de seres que se julgam superiores aos demais ou pretendem desconsiderar a existência deles ou como se não fossem capazes de perceber o óbvio.

Se não partirmos do princípio de que somos todos parceiros uns dos outros nesta caminhada e que nossas diferenças são formas naturais da genética (ou Deus, como queira) produzir seres capazes de sobreviver em novas circunstâncias, gerando teses e antíteses
que nos fortalecerão e conduzirão à síntese holística da espécie, estaremos adiando indefinidamente a transformação deste planeta no paraíso que era antes de surgirmos por aqui. Pior até: podemos destruí-lo e à nós mesmos completamente.

Somente pensando a comunidade, a Nação ou o planeta como um todo, alcançaremos a solução global, ampla e estável. Qualquer parcialismo exigirá uma reação dialética da outra parte e o conflito, possível em vários níveis de destruição, será inevitável, como nos demonstra a história de todas as épocas.

Dentro do princípio democrático de que todos são iguais perante à lei e uns perante os outros, não vejo razão alguma para privilégios e elites sonegando a democratização da informação.

Dentro do princípio cristão (Mateus 7:12, Marcos 12:30,31) e confuciano de querer para os outros o que anseio para mim, também não. É lamentável que a tradição cristã de divisão de bens e do uso comunitário deles (Atos 2:44,45; 4:34,35), também defendida por Karl Marx, seja hoje apenas uma página esquecida na história bíblica e universal.

Mas encontro também o socorro de Antonio Gramsci para suportar esta tese:

"Criar uma nova cultura não significa apenas fazer individualmente descobertas "originais"; significa também, e, sobretudo, difundir criticamente verdades já descobertas, "socializá-las", por assim dizer; transformá-las, portanto, em base de ações vitais, em elemento de coordenação e de ordem intelectual e moral. O fato de que uma multidão de homens seja conduzida a pensar coerentemente e de maneira unitária a realidade presente é um fato "filosófico" bem mais importante e "original" do que a descoberta, por parte de um "gênio filosófico", de uma nova verdade que permaneça como patrimônio de pequenos grupos intelectuais".

[Concepção Dialética da História, página 13, Nota IV]

Felizmente, há homens como Frank R. Zindler, em "Ética Sem Deuses", que nos amparam neste momento: "Nossa felicidade é maior, quando compartilhada."

O engenheiro e frade franciscano Antônio Vicente (falecido) defendia na cerimônia de meu casamento uma constante celebração da gratuidade da vida, através da qual as pessoas se doam umas às outras.

Inspirou-me ainda mais outra visão deste tema que chegou-me esta semana: Trocando meu pão pelo seu, permanecemos ambos com um pão cada. Mas trocando idéias, eu e você podemos até dobrar nosso conhecimento. Isto indefinidamente, com quantas pessoas queiramos interagir.

Enfim, chegamos novamente à Internet, a qual tem sido uma semente ainda pequena das possibilidade de dividirmos nossos conhecimentos, já que é acessível apenas à quem tem condições materiais, cronológicas e intelectuais para navegar no ciberespaço, mas mesmo nela já encontramos manifestações de castas, especialmente no que tange à necessidade de pagamento pelo acesso aos conteúdos restritos.

Democracia! Democracia! Viverei eu o suficiente para conhecê-la?


(Matéria Editada em 28/07/02)

 

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