abn                                       Desde 1924: Agencia Brasileira de Noticias / Since 1924: Brazilian News Agency - ABN News

artigos.gif (2597 bytes)
 
 

 

Heitor Reis - Articulista da Agência Brasileira de Notícias / Brazilian News Agency (ABN)  

Heitor Reis é articulista, engenheiro civil, palestrante, membro do Conselho Consultor da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa [ www.fenai.org.br ] e da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [ www.imprensa.org.br ]

 

Otimismo crônico

Recentemente, recebi, pela Internet um artigo atribuído à Luiz Marins, renomado consultor empresarial e antropólogo, que, entre outras invejáveis formações e realizações, também divulga seus trabalhos em programa próprio na TV, o que nos deleita freqüentemente.

Ele teria publicado este texto ufanista sobre o futuro de nosso amado e idolatrado país, com o título "A parte cheia do cálice chamado Brasil", o qual pode ser encontrado em <http://br.groups.yahoo.com/group/DitaduraCivilnoBrasil/message/5640>

Pesquisei em sua página (www.anthropos.com.br <http://www.anthropos.com.br>) e enviei correio eletrônico para seu endereço (anthropos@anthropos.com.br <mailto:anthropos@anthropos.com.br>), sem conseguir comprovar a autoria, mesmo após uma semana de espera. Minha preocupação deve-se justamente pelo fato de que a deficiência dos argumentos ali apresentados depõem contra a imagem deste profissional, ainda que esteja coerente com sua defesa otimista do futuro brasileiro. De qualquer forma, o engano divulgado na rede deve ser combatido, independente de quem seja seu autor. Não por ser otimista, mas por afrontar a verdade!

Ali ele pergunta:

"Afinal por que estão as maiores empresas americanas e européias afirmando que seu maior portifólio de investimentos para os próximos 10-15 anos será nesta região do mundo?"

Em matéria de confiar em tais afirmações, o método Juruna demonstra-nos que não se pode confiar no homem branco, anglo-saxão, africano, judeu ou árabe. E nem em índio... Especialmente quando os "lobbies" da elite financeira internacional e seus lobos vorazes conseguem transformar nossos homens públicos em dóceis ovelhas, dispostas a conceder financiamento do próprio BNDES para que estrangeiros adquiram empresas públicas aqui (sem geração de emprego), bem como a assegurar-lhes o lucro.

O relativamente desconhecido Daniel Afonso de André oferece-nos um trabalho mais confiável e detalhado:

"Por que a China foi eleita 'Parceiro Comercial Mais Favorecido' pelo governo dos EUA? Porque é o maior mercado potencial para produtos americanos no mundo: são 1,3 bilhões de habitantes, com 390 milhões de pessoas vivendo em cidades, e 52 milhões de pessoas formadas em universidades ou cursos técnicos universitários. É a economia que mais cresce no mundo:"

<http://www.ceveh.com.br/biblioteca/revistas/tb/tb-p-r-china.htm>


Para defender sua tese, Luiz Marins (ou quem quer que seja) apresenta números que, inequivocamente, demonstram o crescimento do consumo em nosso território nos últimos anos, tornando-nos o 5o. colocado mundial em poder de compra. Também procura demonstrar que nossos concorrentes ao investimento internacional seriam a China e a Índia, mas que estaríamos em melhores condições que eles, por termos maior concentração urbana, em termos percentuais:

"A China tem 76% de sua população em campesinato. A Índia 72% e o Brasil apenas 22%. Assim, o pais está pronto para consumir produtos ocidentais de alguma tecnologia que não seja bicicleta, alfanje, etc. e por extensão o Mercosul." Utilizando os dados citados:

País | % P.Urbana | Pop.Total | No. Hab. Urbanos

China 24% 1,30 bi 300 mi
Índia 28% 1,00 bi 280 mi
Brasil 78%. 0,17 bi 130 mi

Os percentuais nada significam neste caso. Mesmo que considerássemos os 220 mi de habitantes do Mercosul, os resultados continuariam destoando completamente da comparação entre os percentuais citados pelo eminente consultor. O que conta mesmo é a quantidade absoluta de consumidores urbanos, os quais realmente teriam maior e mais rápido interesse no consumo.

A posição do Brasil é absurdamente sofrível neste aspecto (menos da metade), contrastando com a tese atribuída a um dos maiores e mais caros consultores do momento, em cujo trabalho podemos encontrar um erro grosseiro de avaliação, inconcebível para um profissional deste nível. Pelo menos até o momento, não temos condições de avaliar se houve boa ou má fé neste procedimento, que, de qualquer forma, engana o leitor menos atento e domesticado pelo sistema a abster-se de sua capacidade crítica. Pode ser apenas um destes raros momentos em que o ufanismo patriótico se sobrepõe à razão.

Não custa nada lembrar que a China, sem receber tais investimentos e também sem entregar sua soberania aos sacerdotes do deus Mercado (Mamom ou Plutão), vem crescendo numa média de 8 % ao ano, há 20 anos, enquanto nossa economia continúa estagnada. Aqui vivemos o terror de uma apagão elétrico e ético; eles, constróem a maior usina do planeta e executam políticos corruptos.

Vejamos, então, como é que vão as coisas lá para os lados da Índia, num artigo que nos fornece dados aparentemente desconhecidos para o autor do texto criticado, apesar de facilmente disponível na Internet, como os demais:

"Como um dos raros grandes países da periferia do capitalismo que tem crescido de maneira razoavelmente constante e estável nos últimos 25 anos - em torno de 5% ao ano, com inflação média de apenas 8% -, ela merece ser investigada com muita atenção e consideração. Só para enfatizar que diferença isso faz, em 1977 o PIB corrente do Brasil era 45% superior ao da Índia; hoje é só 25% maior. (...) Durante toda a década de 1980, foi o grande país da periferia que menos recebeu investimento externo como porcentagem do seu PIB. No final dos anos 1990, enquanto Brasil e Argentina chegaram a mais de 5% do seu PIB, a Índia nunca chegou a 1%. E sua dívida externa continua a ser a mais baixa entre todos eles (22% do PIB em 2000; no Brasil, mais de 40%)." Esta matéria de Gilberto Dupas é muito interessante, pois compara os dois países: Jornal "O Estado de São Paulo", 24/08/2002. <http://www.estado.estadao.com.br/editorias/02/08/24/aberto001.html>

"Meia verdade é uma mentira inteira." (Provérbio iídiche)

Além disto, de todo este otimismo que ele tenta nos passar, o resultado final é
insignificante, pelo simples fato que foi negligenciado o mais importante.

Mesmo que o Brasil progrida, como tem progredido, desde sua descoberta, em seu artigo não há informação alguma quanto à mudança de mentalidade do capitalista nacional e global, os quais Luiz Marins conhece muito bem e Delfim Neto (Deputado Federal/PPB-SP), também:

"Quando você ouve um empresário dizendo que está preocupado em alimentar a concorrência e que busca o bem comum, ou é mentira ou ele é doido e a família está pensando em interditá-lo. O empresário, por definição, é um animal voraz."
Revista Veja de 15/09/93. Citação de Osny Duarte Pereira, jurista e membro do Conselho da República e professor do Instituto Superior de Estudos Brasileiros - ISEB, quando em vida. Fonte:
<http://www.diap.org.br/diap/boletim/Ano98/julho/plutocracia.htm>

Mesmo que continue ocorrendo o crescimento atual, eles vão permitir tão somente e apenas maior concentração de riqueza no topo da pirâmide social, em conseqüência da ditadura plutocrática e cleptocrática existente, o que nos coloca como "benchmark" nesta área.

Os ricos, cada vez mais ricos, e, os pobres, cada vez mais pobres. E, o pior: os pobres, sem planejamento familiar, multiplicam-se como ratos. Os ricos, donos do Estado, impedem que eles sejam beneficiados pelo art. 226 da Constituição Federal. Não há progresso que agüente!

Espero que o incomensurável currículo de Luiz Marins (sendo ou não ele o autor deste texto enganoso), seus interesses comerciais, seus preconceitos ou sua vaidade pessoal não o impeçam de levar seus abastados alunos à uma favela, para conhecerem pessoalmente a desgraça que provocam:

"O responsável pela situação atual não é o pobre, nem o americano, nem o militar: somos nós, a elite brasileira." (Eugênio Staub, presidente da Gradiente)

"Todo ano o sistema financeiro internacional mata mais pessoas do que a Segunda Guerra. Mas, pelo menos, Hitler era louco."
(Ken Livingstone, candidato independente [eleito mais tarde] à Prefeitura de Londres, favorito nas pesquisas, na Folha)
http://www.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0505200008.htm (Restrito)

Para amparar meu pessimismo, invoco como testemunha destas avaliações de nosso futuro, uma das pessoas mais competentes e respeitadas em tal mister, já que foi capaz de prever e realizar um choque de desenvolvimento no país, do qual todos carregamos uma saudade proporcional à dimensão de sua obra, bem como uma certeza intuitiva de que sua morte não foi acidental, mas uma das mais eficientes aplicações do "Código 12" por parte dos generais de plantão:

"A competência dos brasileiros fará o Brasil transformar-se, em prazo surpreendentemente curto, numa das potências do mundo. A nação inteira caminha confiante no rumo do ano 2000."

(Juscelino Kubitschek de Oliveira, revista Manchete, 23/01/71)

Nas comemorações dos cem anos de seu nascimento, ninguém lembrou-se disto. JK foi otimista 31 anos atrás, avaliando de forma equivocada nosso futuro. Talvez tenha sido um dos poucos erros que cometeu na vida. Não profetizou que seríamos hoje um dos piores países do mundo naquilo que é mais importante: sistema público de saúde, de educação, concentração de riqueza, desemprego, dívida externa e interna, reforma agrária, violência, risco de investimento e corrupção. Nosso Índice de Desenvolvimento Humano é pior que o de setenta e dois outros países, apesar de sermos uma das maiores economias do mundo e pentacampões de futebol.

Ah! Se um milhão de vidas eu tivesse, todas elas eu daria para que JK e LM estivessem certos e eu absolutamente errado.

"Ah, que saudades que eu tenho
da aurora da minha vida,
da minha infância querida,
que os anos não trazem mais."

(Casimiro de Abreu)

(Matéria Editada em 14/09/02)

 

Subir / Topo

 

Livre Uso:  Ao contrário das demais matérias produzidas pela ABN News, está autorizadas, sem ônus financeiros, a publicação dos Artigos desta editoria pelos veículos de comunicação, desde que mantenham a íntegra do texto da matéria, conservando o cabeçalho ou rodapé com as informações completas sobre o autor e da fonte (ABN News - Agência Brasileira de Notícias) com a menção obrigatória do portal (www.abn.com.br) nas edições impressas e com links nas publicações em sites.

 

Em Tempo Real:  Todas as demais editorias são atualizadas em tempo real para os veículos de comunicação cadastrados como usuários dos serviços da Agência Brasileira de Notícias.

Clique aqui para solicitar mais informações para ser cliente da Agência Brasileira de Notícias e contratar os Serviços Noticiosos 24 Horas em Tempo Real

 

Index/Home - Página Inicial