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Heitor Reis
é articulista, engenheiro civil, palestrante,
membro do Conselho Consultor
da CMQV - Câmara Multidisciplinar de Qualidade de Vida. É
membro afiliado da Fenai - Federação Nacional da Imprensa
[ www.fenai.org.br ] e
da ABI-DF - Associação Brasiliense de Imprensa [
www.imprensa.org.br
] |
Otimismo crônico
Recentemente, recebi, pela Internet um artigo
atribuído à Luiz Marins, renomado consultor empresarial e antropólogo, que, entre
outras invejáveis formações e realizações, também divulga seus trabalhos em programa
próprio na TV, o que nos deleita freqüentemente.
Ele teria publicado este texto ufanista sobre o
futuro de nosso amado e idolatrado país, com o título "A parte cheia do cálice
chamado Brasil", o qual pode ser encontrado em <http://br.groups.yahoo.com/group/DitaduraCivilnoBrasil/message/5640>
Pesquisei em sua página (www.anthropos.com.br <http://www.anthropos.com.br>) e enviei correio eletrônico para seu endereço (anthropos@anthropos.com.br
<mailto:anthropos@anthropos.com.br>), sem conseguir comprovar a autoria, mesmo após uma semana de
espera. Minha preocupação deve-se justamente pelo fato de que a deficiência dos
argumentos ali apresentados depõem contra a imagem deste profissional, ainda que esteja
coerente com sua defesa otimista do futuro brasileiro. De qualquer forma, o engano
divulgado na rede deve ser combatido, independente de quem seja seu autor. Não por ser
otimista, mas por afrontar a verdade!
Ali ele pergunta:
"Afinal por que estão as maiores empresas americanas e européias afirmando que seu
maior portifólio de investimentos para os próximos 10-15 anos será nesta região do
mundo?"
Em matéria de confiar em tais afirmações, o método Juruna demonstra-nos que não se
pode confiar no homem branco, anglo-saxão, africano, judeu ou árabe. E nem em índio...
Especialmente quando os "lobbies" da elite financeira internacional e seus lobos
vorazes conseguem transformar nossos homens públicos em dóceis ovelhas, dispostas a
conceder financiamento do próprio BNDES para que estrangeiros adquiram empresas públicas
aqui (sem geração de emprego), bem como a assegurar-lhes o lucro.
O relativamente desconhecido Daniel Afonso de André oferece-nos um
trabalho mais confiável e detalhado:
"Por que a China foi eleita 'Parceiro Comercial Mais
Favorecido' pelo governo dos EUA? Porque é o maior mercado potencial para produtos
americanos no mundo: são 1,3 bilhões de habitantes, com 390 milhões de pessoas vivendo
em cidades, e 52 milhões de pessoas formadas em universidades ou cursos técnicos
universitários. É a economia que mais cresce no mundo:"
<http://www.ceveh.com.br/biblioteca/revistas/tb/tb-p-r-china.htm>
Para defender sua tese, Luiz Marins (ou quem quer que
seja) apresenta números que, inequivocamente, demonstram o crescimento do consumo em
nosso território nos últimos anos, tornando-nos o 5o. colocado mundial em poder de
compra. Também procura demonstrar que nossos concorrentes ao investimento internacional
seriam a China e a Índia, mas que estaríamos em melhores condições que eles, por
termos maior concentração urbana, em termos percentuais:
"A China tem 76% de sua população em
campesinato. A Índia 72% e o Brasil apenas 22%. Assim, o pais está pronto para consumir
produtos ocidentais de alguma tecnologia que não seja bicicleta, alfanje, etc. e por
extensão o Mercosul." Utilizando os dados citados:
País | % P.Urbana | Pop.Total | No. Hab. Urbanos
China 24% 1,30 bi 300 mi
Índia 28% 1,00 bi 280 mi
Brasil 78%. 0,17 bi 130 mi
Os percentuais nada significam neste caso. Mesmo que
considerássemos os 220 mi de habitantes do Mercosul, os resultados continuariam destoando
completamente da comparação entre os percentuais citados pelo eminente consultor. O que
conta mesmo é a quantidade absoluta de consumidores urbanos, os quais realmente teriam
maior e mais rápido interesse no consumo.
A posição do Brasil é absurdamente sofrível neste aspecto (menos
da metade), contrastando com a tese atribuída a um dos maiores e mais caros consultores
do momento, em cujo trabalho podemos encontrar um erro grosseiro de avaliação,
inconcebível para um profissional deste nível. Pelo menos até o momento, não temos
condições de avaliar se houve boa ou má fé neste procedimento, que, de qualquer forma,
engana o leitor menos atento e domesticado pelo sistema a abster-se de sua capacidade
crítica. Pode ser apenas um destes raros momentos em que o ufanismo patriótico se
sobrepõe à razão.
Não custa nada lembrar que a China, sem receber tais investimentos
e também sem entregar sua soberania aos sacerdotes do deus Mercado (Mamom ou Plutão),
vem crescendo numa média de 8 % ao ano, há 20 anos, enquanto nossa economia continúa
estagnada. Aqui vivemos o terror de uma apagão elétrico e ético; eles, constróem a
maior usina do planeta e executam políticos corruptos.
Vejamos, então, como é que vão as coisas lá para os lados da
Índia, num artigo que nos fornece dados aparentemente desconhecidos para o autor do texto
criticado, apesar de facilmente disponível na Internet, como os demais:
"Como um dos raros grandes países da periferia do capitalismo
que tem crescido de maneira razoavelmente constante e estável nos últimos 25 anos - em
torno de 5% ao ano, com inflação média de apenas 8% -, ela merece ser investigada com
muita atenção e consideração. Só para enfatizar que diferença isso faz, em 1977 o
PIB corrente do Brasil era 45% superior ao da Índia; hoje é só 25% maior. (...) Durante
toda a década de 1980, foi o grande país da periferia que menos recebeu investimento
externo como porcentagem do seu PIB. No final dos anos 1990, enquanto Brasil e Argentina
chegaram a mais de 5% do seu PIB, a Índia nunca chegou a 1%. E sua dívida externa
continua a ser a mais baixa entre todos eles (22% do PIB em 2000; no Brasil, mais de
40%)." Esta matéria de Gilberto Dupas é muito interessante, pois compara os dois
países: Jornal "O Estado de São Paulo", 24/08/2002. <http://www.estado.estadao.com.br/editorias/02/08/24/aberto001.html>
"Meia verdade é uma mentira
inteira." (Provérbio iídiche)
Além disto, de todo este otimismo que ele tenta nos passar, o resultado final é
insignificante, pelo simples fato que foi negligenciado o mais importante.
Mesmo que o Brasil progrida, como tem progredido, desde sua descoberta, em seu artigo não
há informação alguma quanto à mudança de mentalidade do capitalista nacional e
global, os quais Luiz Marins conhece muito bem e Delfim Neto (Deputado Federal/PPB-SP),
também:
"Quando você ouve um empresário dizendo que está preocupado em alimentar a
concorrência e que busca o bem comum, ou é mentira ou ele é doido e a família está
pensando em interditá-lo. O empresário, por definição, é um animal voraz."
Revista Veja de 15/09/93. Citação de Osny Duarte Pereira, jurista e membro do Conselho
da República e professor do Instituto Superior de Estudos Brasileiros - ISEB, quando em
vida. Fonte:
<http://www.diap.org.br/diap/boletim/Ano98/julho/plutocracia.htm>
Mesmo que continue ocorrendo o crescimento atual, eles vão permitir tão somente e apenas
maior concentração de riqueza no topo da pirâmide social, em conseqüência da ditadura
plutocrática e cleptocrática existente, o que nos coloca como "benchmark"
nesta área.
Os ricos, cada vez mais ricos, e, os pobres, cada vez mais pobres. E, o pior: os pobres,
sem planejamento familiar, multiplicam-se como ratos. Os ricos, donos do Estado, impedem
que eles sejam beneficiados pelo art. 226 da Constituição Federal. Não há progresso
que agüente!
Espero que o incomensurável currículo de Luiz Marins (sendo ou não ele o autor deste
texto enganoso), seus interesses comerciais, seus preconceitos ou sua vaidade pessoal não
o impeçam de levar seus abastados alunos à uma favela, para conhecerem pessoalmente a
desgraça que provocam:
"O responsável pela situação atual não é o pobre, nem o americano, nem o
militar: somos nós, a elite brasileira." (Eugênio Staub, presidente da Gradiente)
"Todo ano o sistema financeiro internacional mata mais pessoas do que a Segunda
Guerra. Mas, pelo menos, Hitler era louco."
(Ken Livingstone, candidato independente [eleito mais tarde] à Prefeitura de Londres,
favorito nas pesquisas, na Folha)
http://www.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0505200008.htm (Restrito)
Para amparar meu pessimismo, invoco como testemunha destas avaliações de nosso futuro,
uma das pessoas mais competentes e respeitadas em tal mister, já que foi capaz de prever
e realizar um choque de desenvolvimento no país, do qual todos carregamos uma saudade
proporcional à dimensão de sua obra, bem como uma certeza intuitiva de que sua morte
não foi acidental, mas uma das mais eficientes aplicações do "Código 12" por
parte dos generais de plantão:
"A competência dos brasileiros fará o Brasil transformar-se, em prazo
surpreendentemente curto, numa das potências do mundo. A nação inteira caminha
confiante no rumo do ano 2000."
(Juscelino Kubitschek de Oliveira, revista Manchete, 23/01/71)
Nas comemorações dos cem anos de seu nascimento, ninguém
lembrou-se disto. JK foi otimista 31 anos atrás, avaliando de forma equivocada nosso
futuro. Talvez tenha sido um dos poucos erros que cometeu na vida. Não profetizou que
seríamos hoje um dos piores países do mundo naquilo que é mais importante: sistema
público de saúde, de educação, concentração de riqueza, desemprego, dívida externa
e interna, reforma agrária, violência, risco de investimento e corrupção. Nosso
Índice de Desenvolvimento Humano é pior que o de setenta e dois outros países, apesar
de sermos uma das maiores economias do mundo e pentacampões de futebol.
Ah! Se um milhão de vidas eu tivesse, todas elas eu daria para que JK e LM estivessem
certos e eu absolutamente errado.
"Ah, que saudades que eu tenho
da aurora da minha vida,
da minha infância querida,
que os anos não trazem mais."
(Casimiro de Abreu)
(Matéria
Editada em 14/09/02)

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