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Matéria Editada em
24/11/2007
Por que
não se cala?
Ezequiel
Novais Neto
No último
dia 12 de novembro um fato inusitado sacudiu a imprensa
internacional. Na 17ª Cúpula Ibero-americana, o tiranete
venezuelano, Hugo Chávez, começou a lançar acusações contra o
ex-primeiro ministro espanhol José María Aznar, chamando-o,
entre outras coisas, de fascista. Da maneira polida que compete
aos líderes de países civilizados, o atual chefe de governo
espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, que, diga-se de
passagem, é adversário político de Aznar, esperou o bolivariano
terminar de lançar seus impropérios e tomou a palavra.
Repreendeu educadamente o mandatário venezuelano, lembrando-o
que o acusado em questão, ausente no encontro, fora
representante escolhido democraticamente pelo povo espanhol e
que seu governo fora legítimo e, como tal, deveria ser
respeitado. Contudo, nem todos os chefes de nações primam pela
polidez e Chávez continuava a soltar sua enxurrada palavrosa
quando aconteceu... O Rei Juan Carlos, o Chefe de Estado
Espanhol, abriu mão de sua tradicional fleuma e falou em alto e
bom tom ao presidente da Venezuela o que meio mundo queria falar
há muito tempo: “Por
qué no te callas?” (por
que não se cala?). Em seguida, abandonou o local.
O suposto
revolucionário teve de dormir com essa. Contudo, logo em seguida
começou a atacar a figura do Rei, dizendo-se mais legítimo que o
Monarca (será?) por ter sido eleito por três vezes. Há aqui uma
deturpação assustadora de lógica elementar. Ele pode criticar a
seu bel-prazer um ex-líder, cujo mandato foi democrático e nem
estava presente para se defender. Porém, quando lhe chamam a
atenção diretamente, ele corre a exigir um pedido formal de
desculpas. Há um certo desequilíbrio aqui. As colocações do
primeiro-ministro e do Rei foram no sentido de exigir o devido
respeito com o representante legítimo do povo espanhol em um
dado momento. E aqui no Brasil? Que vemos? Nosso presidente
resolve se pronunciar, dizendo que se houve um erro foi a
presença do Monarca espanhol, que ele não é um de nós (mas o
encontro não era Ibero-americano?) e que a Venezuela é um lugar
muito democrático, pois lá houve muitos plebiscitos e
discussões. Nosso presidente, que nunca sabe de nada, deveria se
lembrar de que a Democracia não se restringe ao voto, embora
este seja parte inseparável daquela. Democracia Real, para
existir, exige também a livre manifestação das diferentes
correntes de pensamento e uma efetiva independência entre os
poderes instituídos, quesitos que Venezuela não preenche de
forma nenhuma. As colocações de nosso presidente, simpáticas ao
tiranete, não apenas mostram que ele comunga os ideais de Chavez
e tem certa, digamos, submissão a ele, mas também alimentam o
temor de que um dia ele possa resolver fazer o mesmo por
aqui...
No Brasil,
já tivemos um representante com essa coragem. Refiro-me a Dom
Pedro II na Questão Christie. Em 1862, marinheiros ingleses,
bêbados e em trajes civis, provocaram tumultos na Capital do
Império. Foram então presos e, confirmada sua condição de
militares, liberados. O inábil e prepotente embaixador britânico
William D. Christie exigiu um pedido formal de desculpas e
indenização dos valores contidos em um navio que fora
supostamente naufragado por brasileiros (O Prince of Wales). No
ano seguinte, o almirante Warren promoveu o apresamento de cinco
navios mercantes brasileiros. Diante do inimigo muito mais forte
militarmente, o Governo Imperial pagou, sob protesto, o valor
exigido. Contudo, Dom Pedro II solicitou o arbitramento
internacional do Rei da Bélgica para a questão dos marinheiros
arruaceiros, exigiu uma indenização pelos navios apresados e um
pedido formal de desculpas pela invasão do litoral brasileiro.
Face à resposta negativa de Londres, cortou relações
diplomáticas com a Inglaterra em 1863. Nesse mesmo ano saiu o
parecer favorável à posição brasileira. Somente quando o Reino
Unido enviou um pedido formal de desculpas ao Imperador, em 1865
e após o início da Guerra do Paraguai, é que foram
restabelecidas as ligações de diplomacia entre as nações. O ato
de Dom Pedro II seria o equivalente a nosso presidente cortar
relações com os Estados Unidos hoje. Desde a proclamação da
república não se vê semelhante ato de altivez frente ao
estrangeiro. Parece que isso é coisa de Monarcas. Fica a lição
para nosso presidente. O mesmo Dom Pedro II permitia a liberdade
total de expressão, inclusive contra ele mesmo e a Monarquia, no
período de maior liberdade de imprensa jamais vista no Brasil
republicano. Fica o exemplo para o ditador bolivariano.
Hoje,
quando vejo a passividade de nosso (des)governo face aos abusos
de outras nações contra os interesses brasileiros, fico
desejando que tivéssemos um Juan Carlos ou um Pedro II à frente
de nosso Estado. E quando olho para o Palácio do Planalto e para
Caracas eu pergunto: por que não se calam?
Ezequiel Novais Neto
é médico
endocrinologista, presidente do Instituto Brasileiro de Estudos
Monárquicos de Minas Gerais (IBEM-MG) e Diretor Nacional da
Confederação Monárquica do Brasil
Matéria Editada em
24/11/2007

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