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30/01/2000- 23h32
O Fundo Monetário Internacional
Ricardo Bergamini
é
escritor, articulista e professor de economia
"O FMI é a UTI do
mercado financeiro internacional" (Ricardo Bergamini)
FLORIANÓPOLIS [
ABN
NEWS ]
-Mesmo
enquanto a guerra ainda perdurava, era visível que, por
força da destruição e das modificações que certamente
adviriam após seu término, seriam necessários esforços
deliberados e intensos para, com uma certa ordem,
afastar a ameaça de caos representada pelo
restricionismo mundial.
Partilhando tais convicções,
peritos dos Estados Unidos e do Reino Unido prepararam,
durante a guerra, planos integrados de cooperação
monetária internacional para depois do conflito. De
início, trabalhando independentemente, e depois juntos,
com representantes de outros países, redigiram os
fundamentos de um plano comum para o estabelecimento de
uma nova e original instituição, o Fundo Monetário
Internacional (FMI). Em uma conferência internacional
realizada em Bretton Woods, New Hampshire, nos Estados
Unidos em julho de 1944, os delegados elaboraram os
"Artigos do Acordo", juntamente com um outro acordo
estabelecendo o Banco Internacional para Reconstrução e
Desenvolvimento (BIRD).
A criação do FMI representa um
esforço importante de cooperação internacional. Embora
não seja, de modo algum, a primeira em seu campo, é a
mais pormenorizada tentativa de, deliberadamente,
organizar a conduta dos negócios monetários
internacionais. Antes da "Primeira Guerra Mundial",
houve cooperação internacional, mas repousavam nas
forças impessoais do mercado e não no estabelecimento de
instituições específicas, com diretores, funcionários e
poderes de ação. A cooperação entre bancos centrais na
década de 1920 era informal e relativamente fraca. O
FMI, entretanto, incorpora, de maneira surpreendente, a
tendência que se tornou preponderante nos anos recentes,
de organização deliberada e consciente para atingir
certos objetivos internacionais estabelecidos.
Propósitos
- Eliminação de controles
cambiais.
- Encontrar razoável estabilidade
das taxas cambiais.
- Combinar a estabilidade da taxa
cambial com a independência nacional no campo da
política monetária e fiscal.
Poderes
Para atingir esses difíceis
objetivos, o "Acordo" que estabeleceu o FMI substituiu
as políticas cambiais e de pagamentos nacionais livres
por um código de cooperação internacional, que os países
membros concordaram em respeitar. Este código consistia
de disposições pormenorizadas especificando os meios
disponíveis ao Fundo para atingir os objetivos fixados
sobre as transações internacionais correntes sem a
aprovação do "Fundo", e que depois de um período de
reajustamento e adaptação que findaria em 1952, os
membros que ainda mantivessem restrições cambiais
deveriam consultar os funcionários do FMI com respeito à
possibilidade de continuarem com as mesmas.
Uma exceção foi feita, entretanto,
para os movimentos indesejáveis de capital – isto é,
fugas de capital especulativas ou motivadas
politicamente. Os países membros poderiam ser instados a
introduzir controles para impedir tais movimentos
Conclusões
- Todos os países são livres para
participar do FMI. Assim sendo países que detestam
disciplina fiscal e monetária são livres para
continuarem suas orgias. Os países motivados por "FORA FMI" são livres para saírem no momento em que
desejarem.
- O socorro financeiro do FMI é,
de forma inconteste e cabal, a UTI dos países
perdulários e incompetentes na administração de suas
contas públicas, sendo a única saída para países cuja
economia esteja em "Estado de Coma" em seu
balanço de pagamentos, jamais um reconhecimento de
países merecedores de crédito, como os governantes
irresponsáveis destes países tentam vender aos ingênuos
habitantes de seus países. No caso brasileiro chegou a
ser festejado pelo governo, quando da assinatura do
acordo, sendo amplamente divulgado pelos meios de
comunicação como uma vitória do Governo FHC. Haja
cinismo e hipocrisia.
Para finalizar devo confessar que
jamais vi em minha vida pais de um acidentado
comemorando a entrada de seu filho na UTI de um
hospital.
30/01/2000- 23h32

30/01/2000- 22h55
A teoria da
arrancada
Ricardo Bergamini
é escritor,
articulista e professor de economia
FLORIANÓPOLIS [
ABN
NEWS ]
-A
ciência econômica, a despeito de catadura severa, é
peculiarmente vulnerável a "modas". A começar pelo
próprio jargão econômico. Quando, após a Segunda Guerra
Mundial, eclodiu o interesse na cooperação internacional
para o desenvolvimento econômico, os países não
industrializados eram chamados "países pobres",
refletindo uma visão estática, quase fatalista, do
subdesenvolvimento. Subseqüentemente, passamos a uma era
de "pessimismo dinâmico", mudando-se a apelação para
"países retardados" (o que pelo menos implicava a
possibilidade de recuperação pelo avanço), e depois para
"países subdesenvolvidos e menos desenvolvidos". Mais
recentemente atingimos uma fase de otimismo dinâmico, em
que a expressão usada era a de "países em
desenvolvimento" e, finalmente, a atual de "países
emergentes".
Outra
irresistível moda foi a "teoria da arrancada" (take-off),
imaginosamente formulada por Walt Rostw, como uma
resposta à fraseologia obsoleta do manifesto comunista.
Ao invés da evolução do feudalismo para burguesia
mercantil, o capitalismo industrial e o socialismo,
teríamos, com aplicação muito mais genérica,
independentemente de sistema ideológico, a transmutação
da sociedade a "arrancada" para o desenvolvimento,
passando-se em seguida à sociedade industrial madura e à
civilização de alto consumo.
Os
requisitos econômicos da arrancada seriam,
principalmente, a criação de uma infra-estrutura,
principalmente no setor de transportes; em segundo
lugar, um surto na produção agrícola capaz de financiar
a industrialização; em terceiro lugar, um nível de
poupança de no mínimo 10% a 12% ao ano; em quarto lugar,
a existência de capacidade de importar, seja mediante
exportações, seja mediante o influxo de capital, para
aquisição de equipamentos e matérias-primas industriais;
em quinto lugar, a emergência de setores de vanguarda
"que deflagrem o processo de modernização". Pressupõe-se
ainda a existência de um núcleo empresarial capaz de
absorver tecnologia. Em determinadas situações, a
arrancada pode ainda ser estimulada por um nacionalismo
reativo, quando a população se solidariza em face de
ameaças externas.
A
vantagem dos estágios de crescimento de Rostow sobre a
formulação marxista é que aquele admite e incorpora
variáveis não econômicas, enquanto no modelo marxista os
interesses de classe e as ideologias são estritamente
função das técnicas de produção.
A força
que presidiu ao desenvolvimento ocidental nos últimos
duzentos anos foi o credo "individualista e utilitário".
Mas como o fizeram notar Myrdal, Robbins e o próprio
Rostw, esse credo não se concentrou exclusivamente na
promoção de motivação lucrativa e na defesa da
propriedade privada, conforme a acusação, marxista. Ao
longo do tempo, o credo individualista e utilitário
evoluiu no sentido da defesa da liberdade política e do
voto unitário; implantou o controle dos monopólios,
desenvolveu uma legislação social que moderou o
incentivo do lucro e tornou respeitável, senão
dominante, a motivação do bem-estar; e finalmente, criou
o imposto de renda progressivo, como poderoso
instrumento redistributivo e moderador da absorção da
mais valia pelo capitalista.
Há várias
objeções à "teoria da arrancada". A evidência histórica
parece inconclusiva. Os estágios são imprecisamente
definidos, os fatos são duvidosos e em vários casos as
datas assinaladas por Rostow como "limiar crítico da
arrancada" são questionáveis, indicando um processo de
crescimento mais ou menos contínuo e não uma "arrancada
dramática". Mas sem dúvida alguma, pela sua amplitude de
concepção e pela caracterização do processo de
desenvolvimento como um processo societário global,
contrastando com a estreita ênfase marxista sobre
técnica de produção, a teoria da arrancada merece lugar
de destaque no pensamento econômico moderno.
Tendo-se,
entretanto, transformado em "moda", a manipulação
incauta da teoria rostowiana apresenta alguns perigos,
entre os quais cabe ressaltar o do "tratamento
analógico" e o da "hipótese linear".
Conquanto
Rostow tenha admitido motivações não econômicas, há
subjacente à sua idéia uma espécie de "universalidade de
motivações econômicas". Ora, existem casos bizarros de
civilizações que sistematicamente degradam a motivação
econômica. A revolução cultural refletiu muito mais uma
preocupação de pureza ideológica do que de eficiência
econômica.
Também
questionável é a hipótese linear, isto é, que a
"arrancada" leve a um desenvolvimento cumulativo e
contínuo, pela admirável mecânica dos juros compostos.
Na realidade, a história registra inúmeros casos de
"recaída". E esses exemplos são particularmente
freqüentes na América do Sul. A Argentina já havia
atingido ao início da Segunda Guerra Mundial um nível de
renda capaz de lhe dar velocidade autopropulsora. Fora
na América Latina o primeiro país a dispor de
eletricidade e telefones, e Buenos Aires construiu seu
"metrô" em 1913. Na década dos vinte, sua produtividade
agrícola rivalizava a dos Estados Unidos. A
instabilidade política, entretanto, resultante da cisão
do corpo político entre o "peronismo" e os partidos
tradicionais, provocou dez anos de estagnação, seguidos
de um crescimento até hoje incerto e hesitante. Em menor
escala, o Uruguai e o Chile pareciam ter transposto as
barreiras do subdesenvolvimento para depois sofrerem a
estagnação. E o Brasil na primeira parte da década dos
anos sessenta perdeu também, por desastres políticos, o
ímpeto desenvolvimentista que exibira nos anos
cinqüenta, e somente após a "Revolução de 1964" retomou
um caminho firme de crescimento, na média histórica de
6,22% ao ano no período de 1964/84. Posteriormente, após
implantação da Democracia Meia-Sola em 1985 tivemos nova
recaída, entrando em nova fase de decadência, amargando
medíocres taxas de crescimento econômico, na média de
2,66% ao ano no período entre 1985 e 2001. Indicador
responsável pelo atual estado de putrefação econômica,
financeira, política e social do Brasil.
Faz-se
assim necessária, paralelamente à "teoria da arrancada",
uma "teoria da recidiva", uma espécie de versão do
colapso das civilizações. Essa teoria tem que se
assentar nos impasses e círculos viciosos,
característicos do subdesenvolvimento. É menos uma
questão de variáveis econômicas que de contexto político
e social em que opera a sociedade.
Longe,
portanto, de ser um processo constante e retilíneo, o
desenvolvimento é uma aventura ameaçada por impasses.
30/01/2000- 22h55

30/01/2000- 22h42
Democracia
meia-sola
Ricardo Bergamini
é escritor,
articulista e professor de economia
FLORIANÓPOLIS [
ABN
NEWS ]
-
A
pessoa humana é o único valor, a felicidade das pessoas
é o único fim em si. Mas acrescentemos, que o Estado –
esta figura jurídica abstrata encarnada em instituições,
em administrações, em regulamentos - é um meio
necessário à realização das aspirações individuais. É
preciso uma autoridade para proteger a liberdade de cada
indivíduo contra possíveis usurpações injustificadas de
outro. O Estado perde toda justificação se deixa de ser
o meio de desenvolver as liberdades dos indivíduos e
pretende se impor como fim supremo. Eis o que bem viu
Rousseau, cujo "Contrato Social" pode ser considerado
como a "carta magna" de toda Democracia. O Estado não
tem outro fim senão o de promover e garantir (bem longe
de destruir) a liberdade e igualdade às quais os
indivíduos têm totalmente direito. Encontrar uma forma
de associação que defenda e proteja contra toda força
comum, a pessoa e os bens de cada associado, e pelo
qual, cada um dos membros unindo-se a todos, não obedeça
mais do que a si mesmo e fique também mais livre que
antes, tal é o problema fundamental, do qual o contrato
social oferece a solução.
Nessa
perspectiva democrática, o Estado deixa de ser apenas
uma transcendência. "O soberano, não sendo formado senão
dos particulares que compõem, não pode ter interesses
contrários aos destes". A lei não aliena a liberdade,
pois ela decorre da própria vontade dos indivíduos "A
obediência à lei que foi prescrita por nós mesmos é
liberdade".
Mas como
conceber que as vontades particulares diversas, muitas
vezes opostas, dos indivíduos, se possam exprimir em uma
lei comum? É aqui que intervém o contrato, o pacto pelo
qual cada um se compromete com todos a não reconhecer
outra autoridade além da vontade geral. A vontade geral
é aquela que faz abstração dos interesses divergentes,
das paixões de cada um, para não cuidar senão do bem
comum. Sem dúvida, "cada indivíduo pode, como homem, ter
uma vontade particular contrária ou dissidente da
vontade geral que tem como cidadão". Mas a vontade geral
não é uma força exterior a cada um de nós, pois ela não
é nada mais que a regra da razão, aceita de comum acordo
pelos membros do grupo, mas que cada um descobre em si
mesmo, quando afasta seus desejos egoístas no "silêncio
das paixões". "O impulso das paixões é a verdadeira
escravidão, e constranger um homem a obedecer à vontade
geral é submetê-lo à sua própria razão e, assim,
forçá-lo a ser livre".
A vontade
geral pode, facilmente, depreender-se nos debates do
povo reunido, pois os homens têm interesses comuns. Sem
dúvida, como disse muito bem Rousseau, é a oposição dos
interesses particulares que torna "necessário" o
contrato, mas é o acordo destes mesmos interesses que o
torna "possível". E Rousseau acrescenta: "Retirai as
vontades particulares, os mais e os menos que se
destroem mutuamente, e restará como soma das diferenças
a vontade geral". Como enfrentando, a vontade geral não
poderia ser, a todo instante, a vontade universal, como
se encontrará sempre algum cidadão que não esteja de
acordo com a lei proposta, combina-se tomar como vontade
geral à da maioria. A liberdade da minoria não é,
portanto, alienada, pois podemos considerar que é por
unanimidade que os indivíduos decidiram se submeter às
vontades da maioria. Tal é, pelo menos, o postulado de
toda democracia. Aliás, o desejo de Rousseau de não opor
o Estado aos indivíduos é tão grande, que ele não admite
que o povo possa alienar sua liberdade submetendo-se,
cegamente, às decisões dos deputados eleitos livremente
por eles É sempre necessário, segundo Rousseau, que as
leis propostas pelos representantes do povo sejam
ratificadas por um "referendum" do próprio povo.
O regime
democrático, entretanto, deu lugar a diversas críticas.
O princípio da igualdade política, diz-se correntemente,
submete o governo à opinião pública, isto é, a uma massa
ingênua de pessoas que nada entendem acerca das
atividades do Estado. Nesse caso, democracia seria então
"a tirania da incompetência". De fato, é a classe social
dominante que é sempre senhora da informação, e que,
através de seus jornais, dirige a opinião pública (um
jornal representa investimentos consideráveis, a
liberdade de imprensa permanece teórica, pois é preciso
muito dinheiro para fundar um jornal e, de fato, as
esmagadoras maiorias dos grandes jornais, pertencem às
forças do dinheiro). Mas concordaremos em que confiar o
cuidado das atividades publicas a uma "elite" não é a
melhor solução Esta elite também pode representar nada
mais que uma classe social privilegiada, cujos
interesses particulares não coincidem, necessariamente,
com o bem comum. A verdadeira solução está na "educação
do povo", no incremento da instrução, da cultura que
desenvolve o espírito crítico. Por ela, e somente por
ela, os indivíduos se tornam, cada vez mais, dignos do
regime democrático.
Com isso
caberia questionar aos atuais donos do Poderes Públicos
no Brasil: até quando os senhores resistirão mantendo o
falso Poder do Estado brasileiro atual? Um estado
falido, perdulário, corrupto, o qual denomino de
"Democracia Meia-Sola", infernizando uma Nação, em sua
grande maioria digna e sofredora, apenas pelo egoísmo de
uma elite decadente e corrupta, defendendo um Estado
moribundo, sem projetos, decadente e fascista. Um
Estado, com total inversão de valores, tendo a coragem e
cinismo de levar ao Congresso Nacional um matador
confesso, com mais de vinte crimes de assassinato,
conhecido como "Chapéu de Couro", servindo de testemunha
contra um outro criminoso, o ex-deputado Hidelbrando
(vulgo sexta-feira 13). Ou ao confessarem publicamente
que contra os crimes financeiros dos especuladores,
somente um especulador como o Sr. Armínio Fraga seria
tecnicamente eficiente no combate, utilizando a seguinte
comparação: "somente o veneno da cobra seria capaz de
salvar um paciente de sua picada".
Do jeito
que a lógica corrupta vai dominando o pensamento da
maioria, não tenham dúvidas, o Ministério da Justiça,
dentro em breve, poderá ser exercido por um dos
principais traficantes de tóxicos. Dentro da mesma
lógica, em breve, corruptos da Previdência, tais como:
Jorgina de Freitas e Wilson Escócia da Veiga poderão vir
a ser Ministro da Previdência e Assistência Social, e
Sérgio Naya, Ministro da Indústria e Comércio.
Que fim
essa Democracia Meia-Sola Brasileira poderia esperar,
quando em 1997 o Sr. FHC vendendo sua alma ao diabo
comprou o Congresso para aprovar uma emenda
"inconstitucional" permitindo sua ilegítima reeleição? A
partir daí, FHC refém da sua própria vaidade, foi
obrigado a fechar os olhos à orgia de gastos praticadas
pelos governadores, gastando além dos limites,
objetivando ganharem eleições locais em 1998. Campanhas
para reeleições extravagantes, levando alguns já
endividados estados para a insolvência total. Sendo,
posteriormente, o governo federal obrigado a federalizar
uma dívida em torno de R$ 200,0 bilhões com os referidos
estados.
Para
finalizar caberia apenas uma pergunta aos meus amigos e
irmãos leitores:
- Seria
com base na lixeira da "Legislação Eleitoral" vigente,
que alguns ingênuos brasileiros acreditam sermos um país
democrático? Em caso afirmativo: Abaixo a democracia
brasileira já!!!
30/01/2000- 22h42

30/01/2000- 22h32
Crise!
Caminho para o aprendizado
Ricardo Bergamini
é escritor,
articulista e professor de economia
"A
grandiosidade do capitalismo está na sua capacidade de
reconhecer erros; aprender e corrigir". (Ricardo
Bergamini)
FLORIANÓPOLIS [
ABN
NEWS ]
-
A
grande depressão da década de 30 ilustra claramente a
posição, economicamente, dominante dos Estados Unidos e,
reforça a opinião de que as condições econômicas, nesse
país, contribuem poderosamente para determinar o nível
de atividade no resto do mundo. Não há dúvidas de que as
forças que transformaram prosperidade e otimismo de 1929
no desemprego e pessimismo de 1932 tiveram sua origem
nos Estados Unidos e, os declínios de suas atividades
difundiram-se em todas as direções, até abranger a maior
parte do globo, tendo sido o sustentáculo das condições,
geralmente, prósperas na maior parte do mundo, ou seja,
o elevado nível de renda, emprego e produção dos Estados
Unidos, datando de 1922. Por trás dele e, tornando
possível este período de oito anos de prosperidade,
encontrava-se uma explosão de investimentos de
proporções recordes. O investimento, no período
analisado, atingiu alturas jamais alcançadas
anteriormente. Além deste amplo e contínuo investimento,
induzido, principalmente, pelo rápido crescimento das
indústrias relacionadas à automobilística e ao uso da
energia elétrica, o país desfrutou seu maior surto de
construções na História. O que terá provocado o fim
desta era de bons tempos? Simples, as principais
atividades com elevado grau investimento, cuja atividade
acionara a de toda a economia, saturou, esgotou. A
capacidade de a indústria automobilística produzir
carros, por volta do ano de 1929, excedia de muito sua
capacidade de vendê-los. O declínio da atividade
econômica foi rápido, principalmente após abalo de
confiança, provocado pelo colapso da Bolsa de Valores.
Com breves interrupções, investimentos, produção
industrial, emprego e a renda nacional mergulhavam,
verticalmente, em três anos desastrosos.
Com a
diminuição, das importações e empréstimos externos
norte-americanos, em um grande número de países
desencadeou-se redução na produção e no nível de
emprego. Com o reforço causado pelo funcionamento do
multiplicador, suas rendas e importações caíram
bruscamente, difundindo depressão por círculos cada vez
mais amplos.
A reação
técnica para esses países periféricos seria à introdução
imediata do controle cambial, conjugado com restrições
discriminatórias nas importações, visando à fonte da
depressão. Essas medidas externas deveriam ser
combinadas com medidas internas de despesas
governamentais crescentes para sustentar a renda e o
emprego. Porém a devoção desses países ao LAISSEZ-FAIRE
(palavra atual globalização) ainda era muito forte.
Em fins
de 1931, parecia que a deflação, mesmo sendo um método
doloroso de reajustamento, estava operando. O
padrão-ouro se mantinha intacto na Europa Ocidental e
nos Estados Unidos. A depreciação cambial não tinha se
propagado além dos nove países originais, nem foram
estendidos os controles cambiais. Havia alguns sinais
promissores no horizonte, nos primeiros meses de 1931, a
produção industrial recuperou-se, ligeiramente, na
Alemanha e Estados Unidos. As taxas de juros eram baixas
na Alemanha, o crédito era fácil nos principais centros
financeiros. Havia perspectiva de que a recuperação
poderia finalmente afirmar-se. O otimismo hesitante da
primavera do ano de 1931 foi abalado pelo
desencadeamento de um pânico financeiro internacional.
Começou não em um centro financeiro importante, mas na
pequena Áustria. Uma reavaliação de ativos do
Credit-Anstalt, o maior banco de Viena, mostrou que o
mesmo havia se depreciado a ponto de tornar um banco
insolvente. Um importante banco alemão faliu no inicio
de julho, a corrida intensificou-se e, para não ver
esgotada as reservas de ouro e moeda estrangeira o
governo criou o controle cambial. A escolha alemã do
controle cambial foi ditada pelo fato de que o público
foi induzido a acreditar que a desvalorização cambial
provocaria inflação interna.
Durante a
crise, a taxa de juros na Alemanha tinha sido elevada
somente para 4,5%. Os críticos afirmavam que se tivesse
sido estabelecida uma taxa de 8% a 10%, a corrida sobre
Londres poderia, perfeitamente, ter sido estancada. Este
argumento era insensato. De que valem rendimentos de 10%
perante a perspectiva de uma perda de 30% a 40% do
capital? Nas circunstâncias de 1931, uma taxa de juros
de 10% teria sido interpretada muito mais como um sinal
de fraqueza.
Ao
abandonar o padrão-ouro, a Grã- Bretanha carregou
consigo um grande número de países que, uma vez que a
Inglaterra era seu principal mercado e Londres seu
centro de reserva, não suportariam a depreciação da
libra contra suas moedas. Depois da depreciação da libra
e da formação da área esterlina, somente cinco países
permaneceram solidamente aderentes ao padrão-ouro. Foram
os Estados Unidos, França, Suíça, Bélgica e Holanda.
A depreciação na área esterlina e em certos países de
fora desta (notadamente o Japão) reforçou esta
tendência, principalmente entre as nações que empregaram
os controles cambiais para manter inalterado o valor
nominal em ouro de suas moedas. Pois, de forma bastante
independentes dos acontecimentos monetários, dentro
destas nações, suas moedas tornaram-se então
supervalorizadas relativamente aquelas que se tinham
depreciado. Suas exportações foram deprimidas e
importações estimuladas. Os controles tinham, portanto,
que serem apertados e, procurados mercados alternativos
para suas exportações, bem como fontes de importações
por meio de acordos bilaterais de comércio.
Podemos
resumir os efeitos da crise financeira internacional
dizendo que ela provocou, principalmente, o rompimento
do sistema monetário internacional e sua substituição
por três blocos bastante distintos, um constituído de
cinco países ainda no padrão-ouro, um outro grupo muito
maior com moedas flutuantes, mas conversíveis, e um
outro grande grupo sujeito a controles cambiais. Em
segundo lugar em grande parte pelos efeitos desta
divisão, o comércio internacional começou a
desintegra-se, na medida em que as barreiras tarifárias
se multiplicavam, se concentrando, cada vez mais, em
canais bilaterais.
A
deflação nos Estados Unidos havia sido especialmente
severa. Entre 1929 e 1932, os preços de atacado caíram
32%, enquanto a renda nacional foi cortada pela metade.
Os empréstimos totais de todos os bancos, no final de
1932, tinham-se contraído em 42%.
A medida
em que a fraca posição dos bancos se tornou mais
aparente, gerou-se uma onda de entesouramento de moeda e
ouro, provocando pânico. No início de 33 o Presidente
Roosevelt declarou feriado bancário nacional em 16 de
março de 1933, impondo embargo nas exportações de ouro e
prata e flutuando o dólar.
Com o
objetivo de combater a depressão americana, Roosevelt
promulgou a "Lei de Recuperação Industrial Nacional
proibindo reduções de preços, estabelecendo limites
mínimos e, elevando salários. Em antecipação à salários
mais altos, os industriais expandiram a produção em 50%
em relação aos níveis de 29. A legislação agrícola
pagava aos fazendeiros para produzir, gerando compras
especulativas de produtos agrícolas. As medidas
complementares repousavam, muito mais, no aumento das
despesas do governo, substituindo o contraído componente
da renda e, foram muito mais bem sucedidas.
A
desvalorização do dólar americano acrescido à
depreciação da libra e moedas relacionadas intensificou
a deflação nas restantes nações adotantes do padrão-ouro
aumentando a pressão sobre o Balanço de Pagamentos
daqueles países com moedas supervalorizadas, sustentadas
por controles cambiais.
Anulando
em parte estes acontecimentos adversos, havia o estímulo
gerado pela depreciação cambial e abandono do
padrão-ouro, à expansão interna. A liberação dos países
seguidores desta política do medo de perder reservas
permitiu-lhes introduzir políticas fiscais e de créditos
mais liberais. No início de 1932, o Banco da Inglaterra
reduziu sua taxa de juros de 6% para 2%, e aumentou as
reservas dos bancos comerciais, mediante compras no
mercado aberto. A Suécia também adotou esta política de
dinheiro barato e elevou as despesas governamentais.
Nestes e em outros países da área esterlina que adotaram
medidas idênticas à produção industrial recuperou-se,
rapidamente, atingindo por volta de 1936, nível
substancialmente acima do ápice anterior de 1929. A
produção e a renda ascendentes, nestes países,
incrementaram seus comércios, especialmente nas relações
mútuas, ou bilaterais.
Serve
este breve resumo de história econômica para estudarmos
algumas decisões tomadas pelos principais países do
mundo ao enfrentarem a crise de 29 e, definitivamente,
aprendermos algumas regras econômicas para saídas de
crises. O aprendizado destes países com crises
anteriores (1929 e 1971), desenvolveram mecanismos
econômicos de defesa de contaminação, os colocando quase
que imunes às atuais crises, haja vista Estados Unidos,
com superávit fiscal por anos consecutivos, crescimento
econômico, inflação baixa e, os onze principais países
europeus implementando a moeda única denominada "EURO".
Os
estudos e acordos políticos, entre os países
desenvolvidos criando mecanismos de defesa de possíveis
contaminações de crises cíclicas internacionais, tanto
nos Estados Unidos, quanto nos principais países
europeus, iniciou-se no ano de 1971 ao constatarem a
falência dos mecanismos do "FMI" em resolver problemas
de desequilíbrios de Balanço de Pagamentos. Para quem
não sabe o "FMI" foi criado para funcionar como
estrutura preventiva de desequilíbrios de Balanço de
Pagamentos, entre seus países membros. Teriam grandes
quantidades de recursos (quotas DES) e poder político
para resolver, preventivamente, os problemas em nível de
Câmara de Compensação Automática, e não como tem sido
sua atuação, com uma estrutura falida, sobrevivendo às
custas da Lei de Parkinson, com atuações posteriores as
crises, apagando incêndios de países corruptos e
perdulários, através de recursos obtidos com "vaquinhas"
entre os 7G.
O sinal
dado pelo mundo capitalista desenvolvido será o de que
poucos países terão autonomia para terem suas próprias
moedas, visto serem poucos os que tratam sua moeda,
conseqüentemente, sua política monetária, fiscal e
tributária com a disciplina e austeridade necessária,
isentas das influências políticas e corporativas.
Não é
admissível, no mundo econômico moderno digital, país
como o Brasil, que para manterem uma moeda nacional
agonizante, pratiquem juros como os atuais, gerando
déficit público, recessão e desemprego, num eterno
círculo vicioso. Como brasileiro fico triste em
constatar nossa realidade, porém como profissional devo
reconhecer nossa total incapacidade em ter nossa moeda.
Haja vista todas as tentativas de planos econômicos dos
últimos quinze anos (Cruzado I, II, III, Fiscais do
Sarney, Verão I, II, III, Bresser, Maílson, Real). Todos
fracassados pelo maldito despreparo de nossos políticos
sobre o assunto.
30/01/2000- 22h32

21/05/2000-
22h11
Questões
sociais
Ricardo Bergamini
é
escritor, articulista e professor de economia
FLORIANÓPOLIS [
ABN
NEWS ]
-
A
questão social, diz o vocabulário de Lalande: "é o
problema que consiste em resolver as dificuldades
econômicas e morais que agitam a existência das classes
sociais e da miséria". Mas na realidade, é um problema
de organização econômica da sociedade, da população, da
distribuição e da propriedade.
Para os
liberais, a maioria das dificuldades econômicas e
sociais é proveniente da intervenção intempestiva do
Estado pretendendo regular preços, salários, trocas
comerciais. Valeria muito mais deixar funcionar os
mecanismos econômicos naturais. "Deixai fazer, deixai
passar!" A economia tende a se organizar por si mesma,
para o bem de todos. O otimismo liberal acredita
naturalmente em "harmonias econômicas" espontâneas.
Adam
Smith, em Riqueza das Nações (1774) examina as
flutuações dos preços. O preço natural de um objeto é o
seu preço de custo mais uma justa margem beneficiária. O
preço do mercado de um objeto depende da lei da oferta e
da procura. Se um produto é raro, a procura ultrapassa a
oferta e o preço do mercado se eleva acima do preço
"natural". Se o produto é muito abundante, acontece o
contrário: o preço do mercado cai abaixo do preço
"natural". Acontece apenas que os preços mais elevados
estimulam a oferta; os produtos caros, fabricados em
maior número, baixarão na próxima oportunidade. Os
preços muito baixos desencorajam a oferta, a produção
diminui e os preços aumentam novamente, quando a oferta
se fez mais rara. Assim o preço do mercado tende sempre
a se aproximar do preço natural. A lei da oferta e da
procura serve de regulador e a "quantidade de cada
mercadoria posta no mercado é, por si mesma,
naturalmente proporcional à oferta efetiva".
Os
salários dos operários estão submetidos a um regime
natural análogo; se eles são muitos baixos em
determinada profissão, não se encontram mais candidatos
para a mesma e é muito necessário que os salários se
elevem; se eles aumentam anormalmente, um grande número
de operários se propõe a ser engajado e essa
concorrência faz baixar o salário. O único papel do
Estado, na teoria do liberalismo econômico, é proteger a
propriedade para todos os membros da coletividade.
Não é por
motivos morais, entretanto, que Marx condena o
capitalismo liberal. Em sua grande obra (O Capital),
Marx pretende colocar-se num ponto de vista puramente
científico. Numa perspectiva dialética (inspirada na
idéia hegeliana de que as contradições são o motor da
história), essa análise quer mostrar que o capitalismo
se autodestrói, a partir de suas contradições internas.
O
interesse aparente do empregador é vender sua mercadoria
o mais caro possível, pagando o menos possível de
salários a fim de aumentar o lucro (mais-valia). Mas os
operários, mal pagos, serão incapazes de comprar os
objetos que eles mesmos fabricam. O produto produzido de
suas mãos, expostos na vitrina do comerciante, lhes fica
proibido - é um aspecto da "alienação" -, inacessível.
Desse modo, muitos objetos não serão vendidos. As
encomendas do comerciante ao industrial diminuirão. O
industrial dispensará uma parte de seus operários. Não
há dúvidas de que os desempregados comprarão ainda menos
que os assalariados. É a crise.
Para se
entender o processo da concentração é preciso partir da
distinção marxista entre capital constante e variável. O
capital constante representa o valor das máquinas e das
matérias - primas. O capital variável é o dinheiro que
serve para pagar os salários, portanto, para fazer o
operário trabalhar, para produzir mercadorias, portanto,
para reproduzir dinheiro. Mas o progresso da mecanização
industrial restringe o número de empresas com capacidade
financeira sufocando o pequeno patrão e o grande
capital, pouco a pouco, absorve outras indústrias. Tal é
a concentração que não haverá mais que um pequeno número
de grandes corporações explorando o mundo.
Keynes
publica em 1936 sua "Teoria geral do emprego, do lucro e
da moeda". Ele toma consciência do fracasso da teoria
liberal, observando o fato do desemprego, que é o grande
desastre da economia britânica em sua época. Ademais, os
problemas econômicos são, para ele, inseparáveis do
problema monetário. Os homens somente trocam produtos
por intermédio da moeda. Ora, toda moeda não é
imediatamente posta em circulação. Preocupados com o
futuro, os homens economizam dinheiro e, por vezes,
acumulam o dinheiro por amor a este. Isso introduz um
fator complexo e fundamental que é preciso ter em conta
para compreender as relações econômicas. A partir daí,
Keynes justifica a intervenção do Estado em matéria
econômica. O primeiro dever do Estado é lutar contra o
desemprego e, se possível, assegurar o pleno emprego de
todos os trabalhadores. Ele pode fazê-lo agindo sobre a
taxa de lucro, e de juros, de tal maneira que a relação
entre o consumo e a poupança seja dirigida para o bem
dos interesses da coletividade.
A teoria
de Duboin afirma que o progresso tecnológico aumenta
grandemente a produção, faz crescer também o que
denominamos a produtividade, isto é, a rapidez de
produção. Onde triunfa a substituição dos homens pela
máquina. No sistema capitalista, isto só pode acarretar
o desemprego.
Por outro
lado o sistema capitalista, fundamentado no lucro, se
encontra bloqueado, desde que o aumento da produção
assegura a abundância. Com efeito, o valor mercantil de
um produto depende de sua raridade. Ele é tanto mais
caro, quanto mais raro. Mas a utilidade humana de uma
coisa não é função de seu valor econômico (por exemplo:
o ar é absolutamente indispensável à vida, e nada custa,
pois é abundante). Ora o progresso técnico é de tal
ordem que dia virá em que os produtos agrícolas e
industriais serão tão abundantes que, conservando a
mesma utilidade para os homens não terão mais valor
econômico, não serão mais vendáveis. E como o sistema
econômico atual é baseado na venda e no lucro, só poderá
lutar contra a abundância, menosprezando reais
interesses da humanidade.
Após mais de trezentos anos de estudos das atividades
econômicas da humanidade, vista sob diversos ângulos
ideológicos, refletidos por diversos pensadores, nos
encontramos vivenciando as mesmas contradições de nossos
antepassados, ou seja, não temos respostas para explicar
a contradição do crescimento constante e geométrico da
produtividade e da tecnologia, com capacidade, cada vez
maiores, de produzir mais com menores custos e menos
pessoas e, ao mesmo tempo, crescem, também, em
progressão explosiva a miséria e a fome no planeta. E
ficamos, eternamente, sem respostas para as Questões
Sociais, principalmente, em países como o Brasil com uma
concentração de renda criminosa em que apenas dez por
cento da população detêm cinqüenta por cento da riqueza
nacional.
O que
teria faltado em nossas análises econômicas de mais de
trezentos anos que explicariam nosso total fracasso como
seres humanos? Talvez porque jamais introduzimos em
nossas análises uma simples pergunta: qual o verdadeiro
sentido e objetivo da vida?
21/05/2000- 22h11


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